A Cidade do Sol

Khaled Hosseini



       Este livro  dedicado a Haris e Farah,
       que so a noor dos meus olhos,
       e s mulheres do Afeganisto.

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       MARIAM TINHA CINCO ANOS quando ouviu pela primeira vez a palavra harami.
       Foi numa quinta-feira. No poderia ter sido em outro dia, porque ela se
lembrava de estar inquieta e preocupada, e s ficava assim s quintas-feiras,
quando Jalil vinha visit-la na kolba onde morava. Para passar o tempo, at a hora
em que finalmente o veria, atravessando a grama da clareira, que lhe batia nos
joelhos, e acenando para ela, Mariam desceu da prateleira o servio de porcelana
chinesa de Nana. Esse servio de ch era a nica relquia que sua me tinha herdado
de sua av, que morreu quando Nana tinha dois anos de idade. Ela adorava cada uma
daquelas peas de porcelana azul e branca: a curva graciosa do bico do bule, os
pssaros e os crisntemos pintados a mo, o drago do aucareiro, destinado a
espantar os maus espritos.
       Foi esta ltima pea que escapuliu das mos da menina e se espatifou no cho
da kolba.
       Quando Nana viu o aucareiro, seu rosto ficou vermelho, seu lbio superior
comeou a tremer e seus olhos, tanto o vesgo quanto o bom, se detiveram em Mariam
de um jeito inexpressivo, sem sequer piscar. A me parecia to furiosa que Mariam
teve medo de que um jinn fosse se apoderar de seu corpo novamente. Mas o gnio no
veio, no desta vez. O que aconteceu foi que Nana agarrou Mariam pelos pulsos,
puxou-a para bem perto de si e disse, entre dentes:
       -- Voc  uma harami desastrada. Vejam s a minha recompensa por tudo o que
tive de agentar: uma harami desastrada, que quebra a loua de famlia.
       Na hora, Mariam no entendeu nada. No conhecia aquela palavra, harami, e
no sabia que significava "bastarda". Tampouco tinha idade suficiente para avaliar
aquela injustia, para ver que a culpa  dos que geram os harami, e no dessas
crianas cujo nico pecado foi ter nascido.
        claro que, pelo jeito como Nana disse aquela palavra, a menina deduziu que
ser harami era uma coisa ruim, repugnante, como um inseto, como aquelas baratas que
a me estava sempre maldizendo e varrendo para fora da kolba.
       Tempos depois, j mais velha, entendeu enfim. Foi o jeito como Nana
pronunciou a palavra -- quase como se a cuspisse na sua cara -- que fez com que
Mariam se sentisse atingida por ela. Ento entendeu o que a me estava querendo
dizer, que um harami era algo indesejvel, que ela, Manam, era um ser ilegtimo que
nunca teria condies de exigir o que as outras pessoas possuam, como amor,
famlia, aceitao ou mesmo um lar.
       Jalil nunca a chamava assim. Dizia que ela era a sua florzinha. Gostava de
pega-la no colo e lhe contar histrias, como daquela vez que lhe contou que Herat,
a cidade onde Mariam nasceu em 1959, foi o bero da cultura persa, onde viviam
escritores, pintores e sufis.
       -- Era impossvel esticar a perna sem dar um chute no traseiro de um poeta --
disse ele. Rindo.
       Jalil lhe contou tambm a histria da rainha Gauhar Shad, que, no sculo XV,
mandou erguer os clebres minaretes da cidade como uma ode de amor a Herat. Ele
descreveu os trigais verdejantes que a cercavam, os seus pomares, os seus vinhedos
carregados de frutos, os seus bazares abobadados e repletos de gente.
       -- Ha um p de pistache, Mariam jo -- disse-lhe um dia Jalil --, debaixo do
qual esta enterrado ningum menos que o grande poeta Jami. -- Inclinou-se para
frente e sussurrou: -- Jami viveu h cerca de quinhentos anos. E verdade. Levei voc
at l uma vez, para ver a rvore. Voc era bem pequena. No deve se lembrar.
       Ele tinha razo. Manam no se lembrava disso. E, embora tenha passado os
primeiros 15 anos de sua vida nos arredores de Herat, nunca viu essa celebre
rvore. Nunca viu os famosos minaretes de perto, nunca colheu frutos dos pomares da
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cidade ou passeou pelos seus campos de trigo. Mas sempre que Jalil contava aquelas
histrias, Mariam o ouvia, encantada. Admirava Jalil pelo tanto que conhecia do
mundo. Estremecia de orgulho por ter um pai que sabia tantas coisas.
       -- Quantas mentiras! -- exclamou Nana depois que Jalil tinha ido embora. -- Um
ricao mentiroso,  isso que ele ! Nunca levou voc para ver rvore nenhuma. E no
se deixe seduzir. O seu adorado paizinho nos traiu. Ele nos expulsou, nos botou
para fora da sua bela casa como se no valssemos nada. E fez isso feliz e
contente.
       Mariam s ficava ouvindo, sem nenhuma convico. Nunca teve coragem de dizer
a Nana que no gostava nada, nada de v-la falar assim de Jalil. Na verdade, perto
dele, no se sentia uma harami. Toda quinta-feira, por uma ou duas horas, quando
Jalil vinha v-la, todo sorrisos e cheio de presentes e carinhos, Mariam se sentia
digna das belezas e das coisas boas que a vida tinha para oferecer. E, por isso,
amava Jalil.
       Mesmo tendo que dividi-lo com outras pessoas.
       Jalil tinha trs esposas e nove filhos, nove filhos legtimos, e Mariam no
conhecia nenhum deles. Era um dos homens mais ricos de Herat. Era dono de um
cinema, que Mariam jamais tinha visto, mas que Jalil descreveu para ela depois de
muita insistncia da menina. Portanto, conhecia a fachada de azulejos azuis e
terracota, sabia que tinha um balco com lugares privativos e um teto de trelia. E
conhecia tambm as portas de duas folhas que se abriam para um saguo azulejado
onde havia psteres de filmes indianos em vitrines emolduradas. s teras-feiras,
segundo lhe disse Jalil, as crianas podiam tomar sorvete de graa na bombonire.
       Nana ouviu isso com um sorriso de desdm. Esperou ele sair da kolba para
dizer, com uma risadinha:
       -- Os filhos dos estranhos ganham sorvete. E para voc, Mariam, o que ele tem
a dar? Histrias de sorvete...
       Alm do cinema, Jalil tambm era proprietrio de terras em Karokh e em
Farah, tinha trs lojas de tapetes, uma de roupas e um Buick Road-master preto,
modelo 1956. Era um dos homens mais bem relacionados de Herat, amigo do prefeito e
do governador da provncia. Tinha uma cozinheira, um motorista e trs empregadas.
       Nana havia sido uma dessas empregadas. At a sua barriga comear a crescer.
       Quando isso aconteceu, nas palavras da prpria Nana, a sufocao coletiva da
famlia de Jalil foi to grande que parecia at que toda Herat tinha ficado sem ar.
Seus sogros e cunhados juraram que haveria derramamento de sangue. Suas esposas
exigiram que ele a pusesse para fora daquela casa, O prprio pai de Nana, um
humilde entalhador de Gul Daman, uma aldeia vizinha, a repudiou. Vendo-se cado em
desgraa, fez as malas e embarcou num nibus para o Ir. E nunca mais se ouviu
falar dele.
       -- s vezes -- disse-lhe Nana certa manh, bem cedinho, enquanto alimentava as
galinhas no quintal da kolba -- gostaria que meu pai tivesse sido homem bastante
para afiar um dos seus cinzis e tomar a atitude mais honrada. Teria sido melhor
para mim. -- Atirou mais um punhado de gros no cercado, fez uma pausa, e olhou para
a filha. -- E acho que no s para mim. Voc teria sido poupada da dor de saber que
 o que . Mas meu pai era um covarde. No tinha tido, no tinha coragem para
tanto.
       Nem Jalil, acrescentou Nana. Ele tambm no teve coragem de agir como um
homem honrado, enfrentando a famlia, as esposas, os sogros e os cunhados, e
assumindo a responsabilidade por seus atos. Tudo o que fizeram foi chegar a um
acordo, a portas fechadas, para salvar as aparncias.
       Logo no dia seguinte, Jalil mandou que ela juntasse os seus poucos pertences
l no quarto das empregadas e fosse embora.
       -- Sabe o que ele disse as suas esposas para se defender? Que fui eu quem
forcei aquela situao. A culpa era minha. Didi? Est vendo s? Isso e que e ser
mulher neste mundo.
       Nana ps no cho a tigela com a comida das galinhas e ergueu o rosto de
Manam com um dos dedos.
       -- Olhe para mim.
       A menina obedeceu, com alguma relutncia.
       -- Aprenda isso de uma vez por todas, filha: assim como uma bssola precisa
apontar para o norte, assim tambm o dedo acusador de um homem sempre encontra uma
mulher a sua frente. Sempre. Nunca se esquea disso, Mariam.
       -- PARA JALIL E SUAS ESPOSAS, eu era uma erva-de-passarinho. Uma ciganinha.
Ns duas ramos. E olhe que voc ainda nem tinha nascido.
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        -- O que  uma ciganinha? -- indagou Mariam.
        -- E uma planta -- disse Nana. -- Daquelas que a gente arranca e joga fora.
        Mariam fez cara feia por dentro. Jalil no a tratava como uma planta assim.
Nunca. Mas a menina achou que era melhor ficar calada.
        -- S que,  diferena dessas ervas daninhas, eu tinha de ser replantada,
entende, e tinha que receber gua e comida. Por sua causa. Foi isso que ele
combinou com a famlia -- disse Nana, acrescentando que tinha se recusado a ficar
morando em Herat. -- Para qu? Para v-lo passar de carro pela cidade, com suas
esposas kinchini?
        Disse ainda que tampouco quis morar na casa de seu pai, na aldeia de Gul
Daman, que ficava no alto de uma colina, a dois quilmetros ao norte de Herat.
Preferiu ir viver num lugar afastado, distante, onde os vizinhos no ficariam
olhando para a sua barriga, apontando para ela na rua, rindo, ou, o que seria ainda
pior, cercando-a de uma gentileza que no era sincera.
        -- E acredite -- acrescentou Nana --, o seu pai ficou muito aliviado por me ter
bem longe. Foi a deciso perfeita para ele.
        Foi Muhsin, o filho mais velho de Jalil com sua primeira esposa, Khadija,
quem sugeriu aquela clareira que ficava nos arredores de Gul Daman. Para se chegar
at l, era preciso pegar uma estradinha de terra que subia morro acima saindo da
estrada que ligava Herat ao vilarejo. A tal estradinha era bordejada de um capim
alto, pontilhado de flores brancas e amarelas. Ia serpenteando pela encosta da
colina at desembocar num terreno plano recoberto de choupos, faias e tufos de
arbustos silvestres. L de cima, avistavam-se as ps enferrujadas do moinho de
vento de Gul Daman,  esquerda, e,  direita, estendia-se a cidade de Herat. O
caminho ia dar pertinho de um riacho bem largo e repleto de trutas que descia das
montanhas Safid-koh ao redor de Gul Daman. Cerca de duzentos metros acima, havia um
pequeno bosque de salgueiros-chores e, bem no meio,  sombra das rvores, ficava a
clareira.
        Jalil foi at l para ver o local. Quando voltou, disse Nana, parecia um
carcereiro se vangloriando das paredes impecveis e do piso reluzente da sua
cadeia.
        -- E foi assim que o seu pai construiu essa toca de ratos para ns.
        Quando tinha 15 anos, Nana quase se casou. O pretendente era um rapaz de
Shindand. Um jovem vendedor de periquitos. Foi ela prpria quem contou essa
historia a Mariam e, embora a me parecesse menosprezar o episdio, a menina bem
sabia, pelo brilho melanclico que via em seus olhos, que ela tinha sido feliz.
Pela nica vez na vida, talvez, nos dias que antecederam esse tal casamento, Nana
tinha sido genuinamente feliz.
        Quando a me lhe contou essa histria, Mariam se sentou no seu colo e ficou
imaginando Nana sendo preparada para se vestir de noiva. Pode v-la a cavalo,
sorrindo timidamente sob o vu de seu traje verde, as palmas das mos pintadas com
hena vermelha, o repartido do cabelo enfeitado com purpurina prateada, as tranas
impregnadas de seiva de arvore. Viu tambm msicos tocando a flauta shahnai e os
tambores dohol, as crianas gritando e acompanhando o cortejo pelas ruas.
        S que, uma semana antes da data marcada, um jinn penetrou no corpo de Nana.
Ningum precisava descrever para Mariam essa parte da historia, pois a menina j
havia testemunhado a cena com os prprios olhos, inmeras vezes: Nana caindo no
cho de repente, com o corpo todo se enrijecendo, os olhos se revirando, os braos
e as pernas tremendo, como se algo a estivesse sufocando por dentro, e, nos cantos
da boca, aquela espuma branca, por vezes rosada de sangue. Depois, vinha aquele
torpor, aquele desnorteamento assustador, aqueles murmrios incoerentes.
        Quando a notcia chegou a Shindand, a famlia do vendedor de periquitos
cancelou o casamento. "Eles ficaram apavorados", como disse a prpria Nana.
        O vestido de noiva foi enfurnado em algum lugar. E, desde ento, no
apareceu mais nenhum pretendente.
        Na clareira, Jalil e dois de seus filhos, Farhad e Muhsin, construram a
pequena kolba onde Mariam viveria os primeiros 15 anos de sua vida. O casebre era
feito de tijolos rsticos e recoberto de barro com punhados de palha. L dentro,
havia dois catres, uma mesa de madeira, duas cadeiras de encosto reto, uma janela e
algumas prateleiras pregadas na parede, onde Nana guardava os potes de argila e o
seu to amado jogo de porcelana chinesa. Jalil instalou ali um fogareiro de ferro
para o inverno e fez uma cerca de toras de madeira nos fundos da cabana. Ps ainda
um tandoor no quintal, para elas assarem o po, e fez um galinheiro com uma cerca.
Comprou uns poucos carneiros e construiu um cocho para os animais. Mandou Farhad e
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Muhsin cavarem um buraco bem fundo a uns duzentos metros do crculo de salgueiros,
e construiu uma latrina no local.
       Jalil podia ter contratado operrios para a construo da kolba, observou
Nana, mas no contratou.
       -- Para ele, aquilo era uma espcie de penitncia -- disse ela.
       Pelo que Nana dizia, no dia em que Mariam nasceu no apareceu ningum para
ajudar. Foi num daqueles dias midos e nublados da primavera de 1959, no vigsimo
sexto dos quarenta anos, em sua maioria tranqilos, do reinado de Zahir Shah. Jalil
no se deu o trabalho de chamar um mdico, ou sequer uma parteira, acrescentou ela,
embora soubesse que o jinn poderia penetrar no seu corpo e provocar uma daquelas
convulses no momento do parto. Nana ficou ali sozinha, deitada no cho da kolba,
com uma faca ao seu lado e o corpo banhado em suor.
       -- Quando a dor piorava, eu mordia um travesseiro e gritava at ficar rouca.
Mesmo assim, no aparecia ningum para enxugar o meu rosto ou me dar um gole de
gua. E voc, Mariam jo, parecia no ter pressa alguma. Por quase dois dias, voc
me fez ficar ali deitada, naquele cho frio e duro. No comi nem bebi nada. S
fazia fora e rezava para voc sair.
       -- Sinto muito, Nana.
       -- Cortei o cordo que nos ligava. Foi para isso que peguei a faca.
       -- Sinto muito, Nana.
       Nesse momento, Nana sempre esboava um sorriso sofrido, e Mariam no sabia
ao certo se aquilo significava uma recriminao persistente ou um perdo relutante.
No passava pela cabea da menina como era injusto pedir desculpas pela maneira
como nasceu.
       Quando isso finalmente aconteceu, l por volta dos seus dez anos, Mariam
deixou de acreditar naquela histria do seu nascimento. Acreditava sim na verso de
Jalil que lhe disse que, mesmo estando longe, tinha conseguido mandar Nana para um
hospital em Herat, onde ela seria atendida por mdicos e teria uma cama limpa e
decente num quarto bem iluminado. Jalil abanou a cabea tristemente quando a garota
mencionou o detalhe da faca.
       Mariam passou tambm a duvidar de que tivesse feito a me sofrer por dois
dias seguidos.
       -- Pelo que me contaram o parto durou, ao todo, menos de uma hora -- disse
Jalil. -- Voc sempre foi uma boa filha, Mariam jo. Mesmo na hora de nascer foi uma
boa filha.
       -- Ele nem estava aqui! -- esbravejou Nana. -- Estava em Takht-e-safar, andando
a cavalo com seus amiguinhos queridos.
       Quando lhe disseram que era uma menina, acrescentou Nana, Jalil deu de
ombros, continuou a escovar a crina do cavalo e ficou mais duas semanas em
Takht-e-safar.
       -- Na verdade, ele sequer a pegou no colo at que voc tivesse completado um
ms. E, mesmo assim, apenas a olhou, comentou que voc tinha um rosto comprido e a
devolveu para mim.
       Mariam acabou desacreditando tambm dessa parte da histria. Jalil admitia
que estava cavalgando em Takht-e-safar, mas, quando chegou a notcia, no se
limitou a dar de ombros. Pulou no cavalo e voltou para Herat. Embalou a filha nos
braos, passou o dedo por aquelas sobrancelhas ralas, cantarolou uma cantiga de
ninar. Mariam no conseguia imaginar Jalil dizendo que ela tinha um rosto comprido,
embora fosse verdade.
       Nana disse que foi ela que escolheu o nome Mariam, porque era o de sua me.
       -- Quem escolheu fui eu -- disse Jalil --, porque, na nossa lngua, esse  o
nome de uma linda flor.
       -- A sua favorita? -- indagou a menina.
       -- Bom, uma delas -- respondeu ele, sorrindo.

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       UMA DAS LEMBRANAS MAIS REMOTAS de Mariam era o chiado das rodas de um
carrinho de mo sacolejando pelas pedras do cho. Uma vez por ms, l vinha ele,
carregado de arroz, farinha, ch, acar, leo, sabo, pasta de dentes. Dois de
seus meio-irmos o traziam; geralmente, Muhsin e Ramin, s vezes Ramin e Farhad. Na
estradinha de terra, passando por pedras e seixos, contornando buracos e arbustos,
os meninos se revezavam empurrando o carrinho ate chegarem ao riacho. Ali, paravam
e tinham que atravessar, levando os pacotes nos braos. Depois, era a vez do
carrinho que, ao chegar do outro lado, voltava a ser carregado. Tinham, ento, mais
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uns duzentos metros pela frente, desta feita empurrando o veiculo em meio ao mato
alto, denso, e por entre as moitas cerradas. Sapos pulavam a sua frente. Os dois
irmos tinham que se abanar com as mos, para afastar os mosquitos do rosto suado.
       -- Ele tem empregados -- observou Mariam. -- Podia mandar um deles...
       -- Para ele, isso e uma espcie de penitncia -- retrucou Nana.
       O barulho do carrinho levava me e filha l para fora. Mariam nunca se
esqueceria do jeito que Nana ficava no dia em que os mantimentos chegavam: aquela
mulher alta e magra, descala, apoiada no umbral da porta, com aquele olho meio
fechado, parecendo apenas uma fenda, e os braos cruzados, numa pose desafiadora e
debochada. J que ficava com a cabea descoberta, o sol batia em seu cabelo crespo,
cortado curtinho e despenteado. Usava uma bata cinza mal-ajambrada e abotoada at o
pescoo. E tinha os bolsos cheios de pedras grandes como nozes.
       Os rapazes ficavam sentados no cho, junto do riacho, esperando que me e
filha levassem os mantimentos para dentro da kolba. Sabiam que era mais prudente
manter uma distncia de uns trinta metros, embora a pontaria de Nana fosse bem
ruim, e a maioria das pedras casse longe do alvo visado. Enquanto ia levando as
coisas para casa, a mulher ficava gritando, chamando os meninos de uns nomes que
Mariam no conhecia. Amaldioava suas mes, fazia caretas terrveis para os dois.
Nenhum deles jamais revidou aqueles insultos.
       Mariam tinha pena dos garotos. "Deviam ficar com as pernas e os braos to
cansados empurrando aquela carga pesada...", pensava ela. Adoraria poder lhes
oferecer um copo de gua. Mas no dizia nada, e, se os dois acenavam na hora de ir
embora, nem respondia. Uma vez, para agradar Nana, chegou at a gritar com Muhsin,
dizendo que sua boca parecia o traseiro de um lagarto. Depois, ficou com vergonha,
culpadssima, e teve medo que ele contasse tudo para Jalil. J Nana riu tanto,
mostrando todos aqueles dentes da frente estragados, que Mariam achou que ela
poderia ter um dos seus ataques. Depois que parou de rir, olhou para a menina e
disse:
       -- Voc  uma boa filha.
       Quando o carrinho estava vazio, os meninos o apanhavam e iam embora. Mariam
ficava parada ali, esperando eles desaparecerem em meio ao mato alto e florido.
       -- Vamos entrar?
       -- Claro, Nana.
       -- Eles esto rindo de voc. Esto, sim. D para ouvir daqui.
       -- J estou indo.
       -- No acredita, no ?
       -- Pronto, Nana.
       -- Amo voc, sabe, Mariam jo?
       Toda manh, as duas acordavam com o balido dos carneiros, ao longe, e o som
estridente da flauta que os pastores de Gul Daman tocavam ao levar seus rebanhos
para pastar nas colinas. Mariam e Nana ordenhavam as cabras, davam comida s
galinhas e recolhiam os ovos. Faziam po juntas. A menina aprendeu com Nana a sovar
a massa, acender o tandoor e espalhar a massa l dentro. Com ela tambm aprendeu a
costurar e a fazer arroz com vrios acompanhamentos: shalqam cozido com nabos,
sabzi de espinafre, couve-flor com gengibre.
       Nana no escondia de ningum o quanto lhe desagradava a idia de receber
visitas -- na verdade, no gostava de gente em geral --, mas abria uma exceo para
uns poucos escolhidos. Havia Habib Khan, o arbab da aldeia, o lder da comunidade
de Gul Daman, um sujeito barbudo, com uma cabea mida e uma barriga proeminente,
que vinha v-las mais ou menos uma vez por ms, sempre acompanhado de um criado que
trazia uma galinha, uma tigela de arroz kicbiri ou um cesto com ovos tingidos para
Manam.
       Havia uma velha rechonchuda, que Nana chamava de Bibi jo, cujo falecido
mando tambm tinha sido entalhador e amigo de seu pai. Bibi 10 andava sempre
acompanhada por uma de suas noras e um ou dois de seus netos. La vinha ela ate a
clareira, mancando e resmungando, e, invariavelmente, fazia uma verdadeira
encenao, esfregando os quadris e gemendo, ao se sentar na cadeira que Nana lhe
oferecia. Bibi jo tambm trazia alguma coisa para Mariam, como uma caixinha de
balas dishlemeh ou uma cesta de marmelos. Para Nana reservava, antes de mais nada,
suas queixas sobre problemas de sade, e, depois, mexericos envolvendo gente de
Herat e Gul Daman, histrias que ela narrava em detalhe e com o maior prazer,
enquanto sua nora ficava s suas costas, s ouvindo, com ar de incredulidade.
       Mas a visita preferida de Mariam, alm de Jalil,  claro, era o mul
Faizullah, o mais velho dos akhund, os guardies do Coro na aldeia. Uma ou duas
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vezes por semana, ele vinha de Gul Daman para ensinar a Mariam as cinco preces
namaz dirias e iniciar a menina na recitao do Coro, exatamente como havia feito
quando Nana era criana. Foi o mul Faizullah quem ensinou Mariam a ler. Ficava
parado ali, atrs dela, olhando com toda pacincia por cima de seus ombros enquanto
os lbios da menina iam articulando as palavras, sem emitir som algum, fazendo
tanta fora com o dedo que a unha chegava a ficar esbranquiada, como se fosse
possvel espremer assim o sentido de cada um daqueles smbolos. Foi o mul
Faizullah quem pegou a mo de Mariam, guiando o lpis para traar o contorno de
cada alef, a curva de cada beh, os trs pontinhos de cada seh.
       Era um homem magro e encurvado, com um sorriso desdentado e uma barba branca
que lhe batia no umbigo. Em geral, vinha sozinho at a kolba; s vezes, porm,
trazia consigo o filho Hamza, um menino de cabelo avermelhado, pouco mais velho que
Mariam. Quando o mul chegava, Mariam beijava a sua mo -- era como beijar um feixe
de gravetos recoberto por uma fina camada de pele -- e ele lhe dava um beijo na
testa. S ento entravam, para comear a lio do dia. Mais tarde, sentavam-se
ambos do lado de fora da kolba, comendo pinhes, tomando ch verde e observando os
pssaros bulbuls que voavam apressados de uma rvore a outra. De vez em quando, iam
passear em direo s montanhas, margeando o riacho, andando por entre os tufos de
amieiro e pisando nas folhas de bronze cadas pelo cho. O mul Faizullah ia
desfiando as contas do rosrio tasbeh e, com aquela voz trmula, contava  menina
histrias de coisas que tinha visto na juventude, como a cobra de duas cabeas que
encontrou no Ir, na ponte dos Trinta e Trs Arcos, em Isfahan, ou a melancia que
cortou diante da Mesquita Azul, em Mazar, e cujas sementes escreviam as palavras
Allak, de um lado, e Akbar, do outro, formando a expresso Allah-u-Akbar, "Deus 
grande".
       O mul admitiu para Mariam que, por vezes, no compreendia o sentido das
palavras do Coro, mas gostava dos sons encantatrios das palavras rabes que
pareciam rolar em sua lngua. Disse ainda que elas lhe traziam conforto,
apaziguavam o seu corao.
       -- Elas vo fazer isso por voc tambm, Mariam jo -- observou ele. -- Sempre
pode evoc-las em caso de necessidade, e elas no vo lhe faltar. As palavras de
Deus nunca vo tra-la, minha menina.
       Alm de contar histrias, o mul tambm sabia ouvi-las. Quando Mariam
falava, sua ateno nunca se desviava. Ele ficava assentindo ligeiramente com a
cabea, e sorria com um ar de gratido, como se estivesse sendo digno de um
privilgio dos mais cobiados. Era fcil lhe contar coisas que nunca teria coragem
de dizer a Nana.
       Um dia, quando passeavam, Mariam lhe disse que adoraria poder ir para um
colgio.
       -- Um colgio de verdade, akhund sahib, daqueles que tm salas de aula. Como
fazem os outros filhos de meu pai.
       O mul parou.
       Uma semana antes, Bibi jo tinha contado que Saideh e Nahid, filhas de Jalil,
iam para a Escola Mehri, um colgio para meninas em Herat.
       Desde ento, comearam a passar pela cabea de Mariam imagens de salas de
aula e professores, cadernos com pginas pautadas, colunas de nmeros e canetas que
traavam linhas fortes e escuras. Podia ver a si mesma numa dessas salas, junto com
outras garotas da sua idade. Morria de vontade de pr uma rgua numa pgina em
branco e traar, ali, aquelas linhas que pareciam to importantes.
       --  isso que voc quer? -- indagou o mul Faizullah, fitando-a com aqueles
seus olhos brandos e midos, as mos cruzadas nas costas encurvadas e a sombra do
turbante se projetando sobre um canteiro cheinho de botes-de-ouro.
       -- E.
       -- E quer que eu pea permisso para sua me?
       Mariam sorriu. Alem de Jalil, achava que no havia ningum no mundo capaz de
entend-la to bem quanto o seu velho professor.
       -- Ento, o que posso fazer? Deus, em sua sabedoria, deu a cada um de nos
algumas fraquezas, e, entre as tantas que possuo, est a incapacidade de recusar
algo a voc, Mariam jo -- disse ele, dando-lhe umas palmadinhas no rosto com os
dedos deformados pela artrite.
       Mais tarde, porem, quando o mul tocou no assunto com Nana, a mulher largou
a faca que estava usando para cortar cebolas e perguntou:
       -- Para que?
       -- Se a menina quer aprender, minha cara, deixe que faa isso. Deixe que ela
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tenha instruo.
       -- Aprender? Aprender o qu, mul sahib? -- indagou Nana rispidamente. -- O que
h para ser aprendido? -- E voltou os olhos para a filha.
       Mariam ficou fitando as prprias mos.
       -- Que sentido faz dar instruo a uma garota como voc? -- prosseguiu a
mulher. -- E como lustrar uma escarradeira. E, nessas escolas, voc no vai aprender
nada que preste. S h uma coisa na vida que mulheres como voc e eu precisamos
aprender, e ningum ensina isso nas escolas. Olhe para mim.
       -- Voc no devia falar assim com ela, minha filha -- observou o mul
Faizullah.
       -- Olhe para mim -- insistiu Nana.
       Mariam obedeceu.
       -- S uma coisa: tahamul. A capacidade de suportar.
       -- Suportar o qu, Nana? -- indagou a menina.
       -- No se aflija com isso -- retrucou Nana. -- No vo faltar exemplos.
       E prosseguiu contando que as esposas de Jalil diziam que ela era feia, uma
msera filha de entalhador. Mandavam que ficasse lavando roupa do lado de fora, no
frio, at o seu rosto ficar entorpecido e os seus dedos, queimados.
       -- E isso que a vida reserva para ns, Mariam -- acrescentou. -- Para as
mulheres como ns. E suportamos. Temos de suportar. Est me entendendo? Alm do
mais, vo rir de voc na escola. Vo, sim. Vo cham-la de harami. Vo dizer coisas
horrveis a seu respeito. No vou permitir isso.
       Mariam fez que sim com a cabea.
       -- E no se fala mais nessa histria de escola. Voc  tudo o que tenho. No
quero perd-la para essa gente. Olhe para mim. No se fala mais nisso.
       -- Ora, vamos, seja sensata -- principiou o mul. -- Se a menina quer...
       -- E o senhor, akhund sahib, com o devido respeito, no tem nada que ficar
incentivando essas idias bobas. Se quer realmente o bem de Mariam, deve lhe fazer
ver que o lugar dela  aqui, nesta casa, com sua me. No h nada que possa lhe
interessar l fora. Nada alm de rejeio e sofrimento. Sei muito bem disso, akhund
sahib. E como...
       MARIAM ADORAVA QUANDO TINHA VISITA na kolba. O arbab do vilarejo com seus
presentes, Bibi jo com seus quadris doloridos e seus interminveis mexericos, e, 
claro, o mul Faizullah. No entanto, no havia ningum, mas ningum mesmo, que ela
gostasse mais de ver do que Jalil.
       A ansiedade comeava nas noites de tera-feira. Mariam dormia mal, com medo
de que algum problema nos negcios pudesse impedir Jalil de aparecer na quinta,
pois, se isso acontecesse, ela ficaria mais uma semana inteira sem v-lo. Na
quarta-feira, a menina ficava andando de um lado para o outro no quintal, atirando
a comida das galinhas para dentro do cercado sem prestar a mnima ateno ao que
fazia. Saa para passeios sem rumo, e ia apanhando ptalas de flores e espantando
os mosquitos que pousavam em seus braos. Finalmente, na quinta-feira, tudo o que
conseguia fazer era ficar sentada, recostada na parede, com os olhos pregados no
riacho, esperando. Se Jalil se atrasava um pouco, um medo terrvel ia se apossando
dela aos pouquinhos, at que sentia as pernas bambas e tinha de ir se deitar em
algum lugar.
       Finalmente, Nana gritava:
       -- Pronto, seu pai chegou. Em toda a sua glria...
       Mariam se levantava de um salto assim que o avistava pulando sobre as pedras
do riacho, todo sorrisos e acenos carinhosos. A menina sabia que Nana ficava de
olho, espreitando cada reao sua, e ter de ficar parada ali, na porta, esperando,
vendo-o se aproximar lentamente e no sair correndo ao seu encontro era algo que
exigia um esforo considervel. Conseguia porm se conter e, com toda pacincia,
ficava observando Jalil atravessar o mato alto, com o palet do terno pendurado no
ombro e a brisa balanando a gravata vermelha.
       Quando ele penetrava na clareira, atirava o palet em cima do tandoor e
abria os braos. S ento a menina se mexia, correndo enfim para ele a pegar por
baixo dos braos e jog-la para o alto. E Mariam gritava.
       L de cima, via o rosto de Jalil ao contrrio, o seu sorriso largo e meio
retorcido, o seu bico-de-viva, o furinho no queixo -- perfeito para ela pr a ponta
do mindinho ali dentro --, e aqueles dentes to brancos se destacando num mundo de
molares cariados. Ela gostava daquele bigode caprichado e gostava tambm do fato de
seu pai usar sempre o mesmo terno quando vinha visit-la, fosse qual fosse o tempo
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que estivesse fazendo -- um terno marrom-escuro, sua cor favorita, com o tringulo
branco do leno saindo do bolso do palet --, alm de abotoaduras e gravata, em
geral vermelha, cujo n ele afrouxava. Mariam tambm podia ver a si prpria,
refletida nos olhos castanhos de Jalil: o cabelo ondulado, o rosto radiante de
empolgao e o cu s suas costas.
        Nana dizia que, qualquer dia desses, Jalil ia errar e Mariam ia escorregar
por entre os seus dedos, cair no cho e quebrar um osso. Mas a menina no
acreditava que Jalil fosse deix-la cair. Tinha certeza de que sempre voltaria ao
cho, com toda segurana, pelas mos limpas e bem tratadas de seu pai.
        Sentavam-se no quintal da kolba,  sombra, e Nana lhes servia ch. Os dois
se cumprimentavam com um sorriso constrangido e um aceno de cabea. Jalil nunca
mencionou as pedras que Nana atirava, nem seus xingamentos.
        Embora resmungasse muito quando Jalil no estava por perto, Nana se mostrava
contida e delicada quando ele vinha visitar a filha. Estava sempre de cabelo
lavado, escovava os dentes e usava seu melhor hijab. Sentava-se numa cadeira
defronte dele, calada, com as mos cruzadas no colo. No o olhava diretamente e
nunca usava expresses grosseiras quando ele estava por perto. Se ria, tapava a
boca com a mo para esconder os dentes estragados.
        Perguntava como iam os negcios. Perguntava tambm por suas esposas. Quando
ela lhe disse que tinha ficado sabendo, por Bibi 70, que Nargis, a esposa mais
jovem, estava esperando o terceiro filho, Jalil sorriu polidamente e assentiu com
um gesto.
        Bom, voc deve estar feliz -- observou Nana. -- Quantos so ao todo? Dez, no
? Mashallah! So dez?
        Jalil confirmou.
        Onze, contando com Mariam,  claro! -- acrescentou Nana.
        Mais tarde, depois que ele j tinha ido embora, me e filha tiveram uma
discusso por causa desse episdio. Mariam disse que ela tinha agido de m-f.
        Quando acabavam de tomar ch com Nana, Mariam e Jalil iam pescar no riacho.
Ele lhe ensinou como lanar o anzol, como enrolar a linha para fisgar a truta.
Ensinou-lhe ainda o jeito certo de abrir uma truta para limpa-la e separar a carne
da espinha de uma s vez. Desenhava para a filha enquanto esperavam que algum peixe
mordesse a isca, e lhe mostrou como fazer um elefante com um nico trao, sem
sequer tirar a caneta do papel. Tambm lhe ensinava cantigas. Juntos cantavam:
        Bem no meio do caminho
          '
        Tinha um tanque de passarinho.
        Com muita sede,
        Dona carpa foi se chegando,
        Mas escorregou na borda do tanque
        E acabou afundando.
        Jalil trazia recortes do Ittifaq-i Islam, o jornal de Herat, e lia as
noticias para a filha. Ele era a sua ligao com o mundo l fora, a prova de que
havia muito mais coisas alm da kolba, alm de Gul Daman e at de Herat; havia um
mundo com presidentes de nomes impronunciveis, com trens, museus, futebol e
foguetes que giravam pela rbita da Terra e aterrissavam na lua. Toda quinta-feira
Jalil trazia consigo um pedacinho desse mundo para a kolba.
        Foi ele quem lhe contou, no vero de 1973, quando Mariam estava com 14 anos,
que o rei Zahir Shah, que havia governado o pas por quarenta anos, tinha sido
deposto por um golpe sem derramamento de sangue.
        -- O primo do rei, Daoud Khan, articulou o golpe enquanto Zahir Shah estava
na Itlia, para tratamento de sade. Voc se lembra de Daoud Khan, no ? J lhe
falei a seu respeito. Era o primeiro-ministro quando voc nasceu. Bom, seja como
for, o Afeganisto deixou de ser uma monarquia, Mariam. Agora,  uma repblica, e
Daoud Khan  o presidente. Dizem que os socialistas de Cabul o ajudaram a tomar o
poder. No que ele prprio seja socialista, veja bem, mas eles o ajudaram. Pelo
menos,  o que andam dizendo por a.
        Mariam lhe perguntou o que era um socialista, e Jalil comeou a lhe
explicar, mas a menina mal prestou ateno ao que ele dizia. -- Est me ouvindo?
        -- Estou.
        Jalil percebeu que ela tinha os olhos pregados no volume do bolso de seu
palet.
        -- Ah,  claro -- exclamou ele. -- Bom, aqui est. No vamos discutir por
isso...
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       Pegou uma caixinha e entregou-a a filha. De vez em quando, trazia um
presentinho para ela. Certa feita, foi uma pulseira de cornalinas, outra, um colar
com contas de lpis-lazli. Nesse dia, ao abrir a caixa, Mariam viu um cordo com
um pingente em forma de folha do qual pendiam moedinhas minsculas com luas e
estrelas gravadas.
       -- Vamos l, experimente, Mariam jo. A menina obedeceu.
       -- O que acha? -- indagou ela.
       -- Voc est parecendo uma rainha -- respondeu Jalil, todo sorridente.
       Depois que ele j tinha ido embora, Nana notou o pingente no pescoo da
filha.
       -- Isso  coisa dos nmades -- exclamou. -- J os vi fazendo isso. Eles
recolhem as moedas que as pessoas jogam fora e fazem bijuterias com elas. Quero s
ver se o seu querido paizinho vai lhe trazer alguma coisa de ouro da prxima vez.
Quero s ver...
       Quando chegava a hora de Jalil ir embora, Mariam ficava parada na porta e o
via se afastar pela clareira, infeliz com a idia daquela semana inteira que, como
algo imenso e irremedivel, a separava da prxima visita de seu pai.
Invariavelmente, prendia a respirao enquanto o via indo embora. Prendia a
respirao e, mentalmente, contava os segundos, Fazia de conta que, para cada
segundo que conseguisse ficar sem respirar, Deus lhe daria mais um dia com Jalil.
        noite, deitada na cama, ficava tentando imaginar como seria a casa dele em
Herat. Tentava imaginar como seria morar ali, estar com ele diariamente. Podia at
se ver estendendo-lhe a toalha quando ele acabasse de fazer a barba, avisando-o se
por acaso se cortasse. Faria ch para ele. Pregaria os botes das suas roupas.
Juntos, passeariam por Herat, passando pelas arcadas daquele bazar onde Jalil dizia
que era possvel encontrar qualquer coisa que se desejasse. Andariam de carro e, ao
v-los passar, as pessoas diriam: "L vai Jalil, com a filha." Ele lhe mostraria a
clebre arvore debaixo da qual o poeta est enterrado.
       Logo, logo, decidiu Mariam, contaria tudo isso a Jalil. E, quando ele a
ouvisse, quando compreendesse como ela sentia a sua falta, com certeza a levaria
consigo. Ia lev-la para Herat, para morar em sua casa, exatamente como os seus
outros filhos.

       5
       __J SEI o QUE vou QUERER -- disse Mariam.
       Era a primavera de 1974, e Mariam ia fazer 15 anos. Estavam os trs no
quintal da kolba, num canto sombreado perto dos salgueiros, sentados em cadeiras de
armar dispostas na forma de um tringulo.
       -- De presente de aniversrio -- disse a menina. -- J sei o que vou querer.
       -- J? -- indagou Jalil, com um sorriso encorajador.
       Duas semanas antes, incitado pela filha, Jalil tinha lhe falado de um filme
americano que estava passando no seu cinema. Era um tipo especial de filme, que
chamavam de desenho animado. O filme era composto por uma srie de desenhos,
milhares deles, que, quando transformados numa seqncia e projetados numa tela,
davam a iluso de que as imagens tinham movimento. Jalil lhe disse ainda que era a
histria de um velho fabricante de brinquedos que se sente muito s e deseja
desesperadamente ter um filho. Faz ento um boneco, um menino, que adquire vida por
meio de magia. Mariam lhe pediu que contasse mais, e Jalil lhe disse que o velho e
seu boneco passavam por todo tipo de aventuras, que havia um lugar chamado Ilha dos
Prazeres e que uns meninos malvados eram transformados em burros. O velho e o
boneco chegavam at a ser engolidos por uma baleia no final do filme. Mariam contou
tudo isso ao mul Faizullah.
       -- Quero que voc me leve ao seu cinema -- declarou a garota. -- Quero ver o
tal desenho animado. Quero ver o boneco que vira menino.
       Ao dizer isso, Mariam sentiu algo estranho no ar. Viu seus pais se remexerem
na cadeira. E pde perceber que tinham se entreolhado.
       No acho que seja uma boa idia -- observou Nana. Sua voz estava calma, com
aquele tom controlado e polido que ela usava quando Jalil estava por perto, mas
Mariam notou o seu olhar duro, acusador.
       Jalil voltou a se remexer na cadeira. Depois, tossiu, limpando a garganta.
       -- Sabe -- disse ele --, a qualidade do filme no  l essas coisas. O som
tambm no  muito bom. E o projetor tem apresentado alguns problemas ultimamente.
Talvez sua me tenha razo. Talvez seja melhor voc escolher outro presente, Mariam
jo.
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       -- Aneh -- disse Nana. -- Est vendo? Seu pai concorda comigo.
       Mais tarde, quando estavam perto do riacho, Mariam pediu ao pai:
       -- Me leve.
       -- Sabe do que mais? Vou mandar algum aqui para busc-la e lev-la ao
cinema. Arranjo um timo lugar e voc pode comer quantas balas quiser.
       -- No. Quero que voc me leve.
       -- Mariam jo...
       -- E quero que convide tambm os meus irmos. Quero conhec-los. Ir ao cinema
com eles. E isso que quero de presente.
       Jalil suspirou. Tinha os olhos distantes, fitando as montanhas.
       Mariam se lembrou de seu pai ter lhe contado que, na tela, o rosto de uma
pessoa parece do tamanho de uma casa; que, quando havia um acidente de carro, dava
quase para sentir na pele os destroos de metal. Imaginava-se sentada nos camarotes
privativos, tomando sorvete, junto com os irmos e com Jalil.
       --  isso que eu quero de presente -- repetiu. Jalil a fitou, com um ar
desamparado.
       -- Amanh. Ao meio-dia. A gente se encontra aqui mesmo. Est bem? Amanh? --
perguntou a menina.
       -- Venha c -- disse ele.
       Jalil se agachou, puxou a filha para si e ficou ali, abraado com ela, por
um bom tempo.
       De incio, Nana ficou andando para um lado e para o outro, em torno da
kolba, abrindo e fechando os punhos sem parar.
       -- De todas as filhas que eu podia ter tido, por que Deus foi me dar logo uma
ingrata como voc? E pensar em tudo que tive de agentar por sua causa! Como ousa
fazer isso? Como ousa me abandonar desse jeito, sua harami traidora?
       Depois, assumiu um tom de deboche.
       -- Sua burra! Acha que ele liga para voc, que vai quer-la em sua casa? Acha
que ele a considera sua filha? Que vai levar voc at l? Oua bem o que vou lhe
dizer. O corao de um homem  uma coisa muito, muito perversa, Mariam. No  como
o tero de uma me. Ele no sangra, no se estica todo para receb-la. Sou a nica
pessoa que a ama. Sou tudo o que voc tem no mundo, Mariam, e, quando eu tiver ido
embora, no ter mais nada. Nada, entendeu? Porque voc no  nada!
       Em seguida, apelou para a culpa.
       -- Vou morrer se voc for embora. O jinn vai se apoderar de mim e vou ter uma
daquelas crises. Voc vai ver s, vou engolir a lngua e morrer. No me deixe,
Mariam jo. Por favor, fique comigo. Vou morrer se voc for embora.
       Mariam continuou calada.
       -- Voc sabe que eu a amo, Mariam jo. Mariam disse que ia dar uma volta.
       Tinha medo de dizer coisas duras demais se ficasse por ali: de dizer que
sabia que essa histria de jinn era mentira, que Jalil tinha lhe explicado que
aquilo era uma doena que tinha nome e que existiam remdios que podiam faz-la
melhorar. Podia perguntar  me por que ela sempre recusou ir aos mdicos de Jalil,
embora ele insistisse muito nisso, e por que nunca tomou os remdios que ele
comprou para ela. Se conseguisse articular os pensamentos, diria a Nana que estava
cansada de ser um instrumento, de ouvir mentiras, de agentar tantas reclamaes,
de ser usada. Diria que no suportava mais ver Nana distorcer a realidade de suas
vidas e fazer dela, Mariam, mais uma de suas queixas com relao ao mundo.
       "Voc est com medo, Nana", era o que diria. "Medo de que eu possa encontrar
a felicidade que nunca teve. E no quer que eu seja feliz. No quer uma vida boa
para mim. O seu corao  que  perverso."
       Na borda da clareira, havia um mirante onde Mariam gostava de ficar. Nesse
momento, estava sentada ali, na grama quente e seca. Podia-se ver Herat, espalhada
l embaixo como um daqueles jogos de tabuleiro: o Jardim das Mulheres, ao norte da
cidade; o Char-suq Bazaar e as runas da antiga cidadela de Alexandre Magno, ao
sul. Dava para ver os minaretes ao longe, como os dedos empoeirados de gigantes, e
as ruas por onde, em sua imaginao, circulavam pessoas, charretes e mulas. Viu
andorinhas descendo rpidas ou girando l no cu. Como invejava essas aves... Elas
j tinham estado em Herat. Tinham sobrevoado as suas mesquitas, os seus mercados.
Talvez houvessem pousado nas paredes da casa de Jalil, nos degraus da entrada de
seu cinema.
       Pegou dez pedrinhas e arrumou todas elas na vertical, formando trs colunas.
Era uma brincadeira que fazia de vez em quando, se Nana no estivesse por perto.
Ps quatro pedras na primeira coluna, representando os filhos de Khadija, trs para
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os de Afsoon e trs, na terceira coluna, para os filhos de Nargis. Acrescentou,
ento, uma quarta coluna. Uma dcima primeira pedrinha, solitria.
       Na manh seguinte, Mariam ps um vestido creme que lhe batia nos joelhos,
calas de algodo e um hijab verde na cabea. Ficou um pouco aflita com o hijab,
porque, sendo verde, no combinava bem com o vestido, mas no havia outro jeito,
pois o branco tinha sido rodo pelas traas.
       Olhou as horas no seu velho relgio de corda, com algarismos pretos sobre um
mostrador verde, que o mul Faizullah lhe dera de presente. Eram nove horas. Onde
estaria Nana? Pensou em ir l fora procurar pela me, mas tinha medo de uma briga,
de ter de encarar aqueles olhares de censura. Nana a acusaria de traio.
Debocharia de suas ambies equivocadas.
       Sentou-se, ento. Tentando fazer o tempo passar, ficou desenhando elefantes,
um atrs do outro, daquele jeito que Jalil havia lhe ensinado, com um nico trao.
J estava at doda de tanto ficar sentada ali, mas no queria se deitar com medo
de amassar o vestido.
       Quando afinal os ponteiros marcaram llh30, Mariam ps as 11 pedrinhas no
bolso e saiu. No meio do caminho at o riacho, avistou Nana sentada numa cadeira, 
sombra da copa abobadada de um salgueiro-choro. No saberia dizer se a me a tinha
visto ou no.
       Chegando ao riacho, ficou esperando no local combinado. No cu, umas poucas
nuvens cinzentas que lembravam couves-flores iam passando. Jalil tinha lhe ensinado
que as nuvens adquiriam aquela cor porque eram to densas que a sua parte superior
absorvia a luz do sol e projetava a prpria sombra na parte de baixo. "O que se v,
Mariam jo,  isso", disse ele, "a escurido na barriga das nuvens".
       Algum tempo se passou.
       Mariam voltou para a kolba. Dessa vez, deu a volta pelo lado oeste da
clareira, evitando ter de passar por onde Nana estava. Olhou as horas. Era quase
uma da tarde.
       "Ele  um homem de negcios", pensou. "Deve ter acontecido alguma coisa."
       Voltou ento para o riacho e esperou por mais algum tempo. Havia uns melros
voando em crculos l no alto e mergulhando em algum lugar por ali. Ficou
observando uma lagarta que ia se arrastando num espinheiro ainda jovem.
       Esperou at as suas pernas ficarem dormentes. Dessa vez, no voltou para a
kolba. Arregaou as calas at a altura dos joelhos, atravessou o riacho e, pela
primeira vez na vida, desceu a colina rumo a Herat.
       Nana tambm estava enganada a respeito de Herat. Ningum ficava apontando
para ela na rua. Ningum ria. Mariam saiu andando pelas avenidas margeadas de
ciprestes, barulhentas e apinhadas de gente; l ia ela em meio a um fluxo denso de
pedestres, ciclistas, charretes puxadas por mulas, e ningum lhe atirou pedras.
Ningum a chamou de harami. Alis, mal a olhavam. De uma forma inesperada, e
maravilhosa, ali ela era uma pessoa comum.
       Parou por um instante junto a um lago ovalado, no meio de um grande Parque
todo recortado por caminhos calados de pedrinhas. Deslumbrada, Passou os dedos
pelos belssimos cavalos de mrmore que ficavam na beira do lago fitando a gua com
olhos opacos. Depois, voltou sua ateno para um grupo de garotos brincando com
barquinhos de papel. Havia flores toda parte, tulipas, lrios, petnias, com as
ptalas banhadas pelo sol. As pessoas andavam pelos caminhos, sentavam-se nos
bancos e tomavam ch.
       Mariam mal podia acreditar que estava em Herat. Seu corao batia,
entusiasmado. Adoraria que o mul Faizullah pudesse v-la naquele momento. Ele a
acharia to audaciosa... To corajosa... Ficou ali, inteiramente entregue  nova
vida que estava a sua espera nessa cidade, uma vida com um pai e irmos, uma vida
em que seria amada e retribuiria esse amor, sem reservas ou dias marcados, sem se
envergonhar.
       Animada, saiu andando de volta para a ampla avenida prxima ao parque.
Passou por velhos mercadores com o rosto curtido, sentados a sombra dos pltanos,
que a fitavam impassveis por detrs de pirmides de cerejas e pilhas de cachos de
uvas. Meninos descalos corriam atrs de carros e nibus, agitando sacolas de
marmelos. Mariam parou numa esquina e ficou olhando os passantes, sem conseguir
entender como podiam ser to indiferentes diante de todas aquelas maravilhas que os
cercavam.
       Algum tempo depois, tomou coragem e perguntou a um homem mais velho, que
tinha uma gari puxada a cavalo, onde morava Jalil, o dono do cinema. Era um senhor
bochechudo, usando um chapan de listras coloridas.
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       -- Voc no e de Herat, no  mesmo? -- indagou ele com um jeito amistoso. --
Todo mundo sabe onde Jalil Khan mora.
       -- Pode me dizer onde e? -- insistiu a menina.
       Ele pegou um caramelo embrulhado em papel laminado e perguntou:
       -- Esta sozinha?
       -- Estou.
       -- Suba aqui. Levo voc at l.
       -- Mas no posso lhe pagar. Estou sem dinheiro.
       O velho lhe deu o caramelo e disse que, como no pegava um passageiro ha
duas horas, j estava mesmo pensando em voltar para casa. E Jalil morava bem no seu
caminho.
       Mariam subiu na charrete. L se foram eles, em silncio, um ao lado do
outro. Durante o trajeto, Mariam viu lojas de ervas e uns cubculos abertos onde as
pessoas compravam laranjas e peras, livros, xales, e at mesmo falces. Viu
crianas jogando bolas de gude em crculos traados no cho de terra. Diante das
casas de ch, em estrados de madeira atapetados, viu homens tomando seu ch e
fumando com narguils.
       O charreteiro dobrou uma esquina e parou o veculo mais ou menos na metade
de uma rua margeada de conferas.
       -- Chegamos. Parece que voc deu sorte, dokhtar jo. O carro dele est a.
Mariam pulou do veculo. O velho lhe sorriu e foi embora.
       Mariam nunca tinha posto a mo num carro antes. Passou os dedos pela capota
do automvel de Jalil, que era preto, reluzente, com rodas brilhantes onde,
lisonjeada, viu refletida uma verso ampliada de si mesma. Os bancos eram estofados
de couro branco. Por trs do volante, dava para ver uns mostradores redondos de
vidro com ponteiros.
       Por um instante, ouviu a voz de Nana soando em seus ouvidos, debochando,
extinguindo a luz persistente das suas esperanas. Com as pernas bambas,
aproximou-se da porta da frente. Apoiou as mos no muro. Como eram altos, como eram
assustadores os muros da casa de Jalil... Tinha de inclinar a cabea bem para trs
para conseguir enxergar as pontas dos ciprestes que se erguiam do outro lado. As
rvores oscilavam ao vento e a menina imaginou que estariam acenando com a cabea,
para lhe dar as boas-vindas. Com isso, acabou se acalmando, apesar das ondas de
desnimo que a percorriam.
       Uma moa descala veio abrir o porto. Tinha uma tatuagem sob o lbio
inferior.
       -- Vim ver Jalil Khan. O meu nome  Mariam. Sou filha dele.
       Por um instante, um ar de surpresa se estampou no rosto da moa, e, depois,
um lampejo de reconhecimento. Os seus lbios esboavam, agora, um sorriso e havia
ali um qu de curiosidade, de expectativa. Espere um pouco -- disse a moa,
apressada. E fechou o porto.
       Alguns minutos se passaram at que um homem voltou a abri-lo. Era um sujeito
alto, de ombros largos, com olhos sonolentos e um rosto tranqilo. Sou o chofer de
Jalil Khan -- disse ele, com delicadeza. E o qu?
       O motorista dele. Jalil Khan no est em casa. - Mas eu vi o carro --
retrucou Mariam.
       -- O patro teve de sair para resolver um negcio urgente.
       -- E quando vai voltar?
       -- Ele no disse.
       Mariam afirmou que ficaria esperando.
       O homem fechou o porto. A menina se sentou no cho, apertando os joelhos
contra o peito. J era de tarde e ela estava ficando com fome. Comeu o caramelo que
o condutor da gari tinha lhe dado. Pouco depois, o motorista apareceu novamente.
       -- Voc tem de ir para casa agora -- disse ele. -- Em menos de uma hora vai
comear a escurecer.
       -- Estou acostumada com a escurido.
       -- Vai esfriar tambm. Por que no deixa que eu a leve para casa? Digo a ele
que esteve aqui.
       Mariam limitou-se a fita-lo.
       -- Vou lev-la ento para um hotel. L voc pode dormir com conforto. Amanha
de manha, veremos o que podemos fazer.
       -- Deixe-me entrar na casa.
       -- Recebi instrues para no fazer isso. Olhe, ningum sabe ao certo quando
ele volta. Pode levar dias.
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       Mariam cruzou os braos.
       O motorista suspirou e a fitou brandamente, mas com um ar de reprovao.
       Ao longo dos anos, Mariam teve tempo de sobra para pensar no que poderia ter
acontecido se houvesse deixado o motorista lev-la de volta para a kolba. Mas no
deixou. Passou a noite diante da casa de Jalil. Viu o cu ir escurecendo, as
sombras engolirem as casas do outro lado da rua. A garota tatuada lhe trouxe po e
um prato de arroz, mas Mariam recusou. A garota ps a comida ao seu lado. De quando
em quando, Mariam ouvia passos na rua, portas se abrindo, saudaes abafadas.
Acenderam-se luzes e janelas adquiriram um brilho esmaecido. Ces latiam. Quando
no conseguiu mais resistir  fome, comeu o arroz todo e o po tambm. Depois,
ouviu os grilos nos jardins. La no alto, nuvens passavam diante de uma lua plida.
       Pela manh, algum veio acord-la. Mariam percebeu que, durante a noite,
tinham lhe trazido um cobertor.
       Era o motorista que a sacudia pelo ombro.
       -- Agora chega. Voc j fez a sua cena. Bas.  hora de ir embora. Mariam se
sentou esfregando os olhos. Tinha as costas e o pescoo doloridos.
       -- Vou esperar por ele -- disse.
       -- Oua bem -- retrucou o homem --, Jalil Khan mandou que eu a levasse de
volta. Agora mesmo, entendeu? Foi Jalil Khan que mandou.
       Abriu a porta traseira do carro.
       -- Bia. Venha -- disse em tom delicado.
       -- Quero v-lo -- exclamou Mariam, com os olhos marejados de lgrimas.
       O motorista suspirou.
       -- Deixe que eu a leve para casa. Vamos, dokhtar jo...
       Mariam se levantou e foi se dirigindo para o carro. De repente, no ltimo
momento, mudou de rumo e saiu correndo para a entrada do jardim. Sentiu a mo do
homem tentando segur-la pelo ombro. Conseguiu, porm, se desvencilhar e passou
pelo porto aberto.
       Durante aquele punhado de segundos em que esteve no jardim de Jalil, Mariam
avistou uma estrutura de vidro reluzente, cheia de plantas, com trepadeiras subindo
por trelias de madeira, um laguinho de peixes feito de lajotas de pedra cinzenta,
rvores frutferas e arbustos de flores coloridas por todo lado. O seu olhar
passeou por tudo isso antes de vislumbrar um rosto, do outro lado do jardim, numa
das janelas do andar de cima. Foi apenas um relance, pois o rosto ficou ali por um
instante, mas foi o suficiente. O suficiente para ela ver os olhos arregalados, a
boca aberta. Depois, aquela viso desapareceu. Algum puxou um cordo s pressas.
As cortinas se fecharam.
       Foi ento que duas mos a seguraram pelas axilas erguendo-a do cho. Mariam
esperneou. As pedrinhas caram de seu bolso. Ela continuou esperneando e gritando
enquanto era levada at o carro e depositada no couro frio do banco de trs.
       Durante todo o trajeto, o motorista foi conversando com ela, num tom que
tentava ser reconfortante. Mariam, porm, no o ouvia: encolhida no banco de trs,
s fazia chorar. Eram lgrimas de tristeza, de raiva, de desiluso. Mas,
principalmente, lgrimas da mais profunda vergonha por ter sido to boba, por ter
confiado em Jalil, por ter se preocupado tanto com a roupa que deveria usar, com o
fato de seu hijab no estar combinando com o vestido, por ter ido at l, por ter
se recusado a voltar para casa e dormido na rua, como um cachorro sem dono. Tinha
vergonha tambm porque desconsiderou o jeito aflito de sua me e os seus olhos
inchados. Nana, que tentou avis-la, que tinha razo desde o comeo...
       Continuou pensando no rosto dele l na janela do andar de cima. Ele a deixou
dormir na rua. Na rua. Mariam chorava deitada no banco. No quis se sentar para que
ningum a visse. Imaginava que, hoje de manh, toda Herat j estaria sabendo a que
ponto ela tinha se rebaixado. Adoraria que o mul Faizullah estivesse ali, para
poder deitar a cabea no seu colo e deixar que ele a consolasse.
       Depois de algum tempo, o cho foi ficando mais irregular e o capo do carro,
mais empinado. Tinham chegado  estradinha que subia de Herat ate Gul Daman.
       Mariam se perguntava o que diria a Nana. Como poderia lhe pedir desculpas?
Como teria coragem de encar-la agora?
       O carro parou e o motorista veio ajud-la a saltar.
       -- Vou com voc ate l -- disse ele.
       A menina se deixou levar pela estrada e, depois, pela trilha. Havia
madressilvas pelo caminho, e asclpias tambm. As abelhas zumbiam em meio as flores
silvestres reluzentes. O motorista lhe deu a mo para ajud-la a atravessar o
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riacho. Depois, a soltou novamente. Estava dizendo que os celebres ventos dos 120
dias logo estariam chegando, soprando desde o meio da manh at o anoitecer; que os
mosquitos iam entrar naquele seu frenesi alimentar, mas, de repente, parou diante
dela, tentando tapar os seus olhos, empurrando-a para o lado de onde tinham vindo e
exclamando:
       -- Volte! No! No olhe agora. Vire-se! Volte!
       Mas foi em vo. Mariam viu assim mesmo. Uma rajada de vento afastou as
folhagens do salgueiro-choro, como se abrisse uma cortina, e a menina avistou de
relance o que estava do outro lado: a cadeira de encosto alto, cada no cho. A
corda pendendo de um ramo mais alto. E Nana pendurada na outra ponta.
       6
       NANA FOI ENTERRADA num canto do cemitrio de Gul Daman. Mariam ficou perto
de Bibi jo, junto com as mulheres, enquanto o mul Faizullah recitava preces ao
lado do tmulo e os homens baixavam aquele corpo amortalhado a sepultura.
       Depois, Jalil a levou at a kolba onde, diante dos aldees que os
acompanhavam, fez uma grande exibio de cuidado para com a filha. Recolheu alguns
dos seus pertences e guardou tudo numa valise. Sentou junto  cama onde ela estava
deitada e abanou o seu rosto. Acariciou a sua testa e, com uma expresso desolada,
lhe perguntou se ela precisava de alguma coisa, qualquer coisa -- foi assim mesmo
que ele disse, repetindo as palavras.
       -- Quero o mul Faizullah -- disse Mariam.
       -- Claro. Ele est ali fora. Vou cham-lo.
       Foi s quando o vulto esguio e encurvado do mul apareceu na porta da kolba
que Mariam chorou, pela primeira vez naquele dia.
       -- Ah, Mariam jo...
       O velho veio sentar-se ao seu lado e pegou o seu rosto com as mos.
       -- Chore, Mariam jo. Chore. No h vergonha nenhuma nisso. Mas lembre-se,
minha filha, do que diz o Coro: "Bendito seja Aquele em cujas Mos est o reino e
que tem poder sobre tudo. Que criou a morte e a vida para testar-vos e saber quem
de vs age melhor." O Coro diz a verdade, minha menina. Para cada tribulao e
cada sofrimento que Deus nos faz enfrentar, Ele tem um motivo.
       Mas Mariam no conseguia perceber consolo algum nas palavras de Deus. No
naquele dia. No naquele momento. Tudo o que podia ouvir era a voz de Nana dizendo:
"Se voc for, eu morro. Simplesmente morro." Tudo o que podia fazer era chorar,
chorar e deixar as suas lgrimas carem nas mos manchadas e encarquilhadas do mul
Faizullah.
       No trajeto at sua casa, Jalil foi sentado no banco de trs do carro, com o
brao passado nos ombros da filha.
       -- Pode ficar comigo, Mariam jo -- disse ele. -- J mandei prepararem um quarto
para voc. No andar de cima. Acho que vai gostar. A janela da para o jardim.
       Pela primeira vez, Mariam podia ouvi-lo com os ouvidos de Nana. Agora era
to fcil perceber a falta de sinceridade que sempre esteve escondida por trs
daquelas afirmaes ocas e falsas. No conseguia sequer olhar para ele.
       Quando o carro parou diante da casa, o motorista abriu a porta para os dois
e pegou a valise de Mariam. Jalil a conduziu para dentro, com as mos nos seus
ombros, passando pelo mesmo porto de grade onde, dois dias atrs, ela tinha
dormido na calada a sua espera. Dois dias atrs -- quando o que Mariam mais queria
no mundo era andar por esse jardim com Jalil, e, agora, isso tudo parecia ter
acontecido numa outra existncia. Como a sua vida podia ter dado tamanha guinada em
to pouco tempo, era o que tentava entender. Manteve os olhos no cho, acompanhando
seus prprios passos pelo caminho calado com pedras cinzentas. Sabia que havia
outras pessoas por ali, murmurando, afastando-se para deix-los passar. Sentia o
peso de olhos que a fitavam l das janelas do andar de cima.
       J dentro da casa, Mariam continuou de olhos baixos. Foi andando por um
tapete cor-de-vinho, com desenhos octogonais azuis e amarelos que se repetiam
formando um padro; com o canto do olho, viu bases de mrmore de estatuas, a parte
inferior de vasos de flores, as bordas de tapearias ricamente coloridas penduradas
nas paredes. A escada por onde subiram era larga e recoberta por um tapete do mesmo
tipo, preso na base de cada degrau. No alto da escada, Jalil a levou para o lado
esquerdo, passando por mais um longo corredor atapetado. Ento ele parou diante de
uma porta, abriu-a e deixou que ela entrasse.
       -- s vezes, suas irms Niloufar e Atieh vm brincar aqui -- disse Jalil. --
Mas, em geral, usamos esse quarto para os hspedes. Acho que vai ficar bem
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instalada.  bonito, no ?
        O quarto tinha uma cama com uma colcha verde estampada com flores, em casa
de abelha, tecida em ponto mido. As cortinas, abertas para mostrar o jardim l
embaixo, eram do mesmo tecido da colcha. Ao lado da cama, havia uma cmoda com trs
gavetas e, sobre ela, um vaso de flores. Nas paredes, dispostos em prateleiras,
havia porta-retratos com fotos de pessoas que Mariam no conhecia. Numa dessas
prateleiras, a menina viu uma coleo de bonecas de madeira, idnticas, formando
uma fila em ordem decrescente de tamanho.
        Percebendo o seu olhar, Jalil disse:
        -- So bonequinhas matrioska que comprei em Moscou. Pode brincar com elas, se
quiser. No tem problema algum.
        Mariam sentou na cama.
        -- Quer alguma coisa? -- perguntou Jalil.
        Mariam se deitou. Fechou os olhos. Pouco depois, ouviu ele encostar a porta
com todo cuidado.
        A no ser para ir ao banheiro, no corredor, Mariam ficou o tempo todo no
quarto. A garota tatuada, aquela que tinha aberto o porto para ela, lhe trouxe as
refeies numa bandeja: kebab de carneiro, sabzi-, o arroz com ervas e legumes,
sopa aush. Os pratos voltaram quase intactos. Jalil passou por l vrias vezes, ao
longo do dia. Sentava-se na cama, ao seu lado, e perguntava se estava tudo bem.
        -- Voc podia ir comer l embaixo, junto conosco -- disse ele, mas sem muita
convico, e aceitou, talvez at depressa demais, quando a filha lhe disse que
preferia comer sozinha.
        Pela janela, Mariam olhava impassvel aquilo que tanto havia imaginado e
desejado ver a vida toda: as idas e vindas do cotidiano de Jalil. Pelo porto da
frente, entravam e saam criados, invariavelmente apressados. Tinha sempre um
jardineiro podando arbustos, regando plantas na estufa. Carros de caps compridos e
reluzentes paravam diante da casa. Deles desciam homens de terno, com chapans e
gorro de astrac, Mulheres usando hijabs, crianas bem penteadas. E ao ver Jalil
apertar as mos desses estranhos, cruzar as mos no peito e acenar com a cabea
cumprimentando suas esposas, teve a certeza de que Nana tinha dito a verdade: o seu
lugar no era aqui.
        "Mas qual  o meu lugar? O que vou fazer agora?", pensou ela.
        "Sou tudo o que voc tem no mundo, Mariam, e, quando eu tiver ido embora,
no ter mais nada. Nada, entendeu? Porque voc no  nada!"
        Como o vento soprando entre os salgueiros em torno da kolba, ondas de uma
inexprimvel melancolia a percorriam.
        No segundo dia em que estava na casa de Jalil, uma garotinha entrou no
quarto.
        -- Tenho de pegar uma coisa -- disse ela.
        Mariam sentou na cama, cruzou as pernas e se cobriu com a colcha ate a
cintura.
        A menina atravessou o quarto e abriu a porta do armrio. Tirou dali uma
caixa quadrada de cor cinza.
        -- Sabe o que  isso? -- perguntou, abrindo a caixa. -- Chama-se gramofone.
Gramo. Fone. Isso toca discos. Msica, sabe?  um gramofone.
        -- Voc e Niloufar. E tem oito anos.
        A garotinha sorriu. Tinha o sorriso de Jalil e o mesmo queixo furado.
        -- Como sabe? -- indagou ela.
        Mariam deu de ombros. No disse a menina que tinha dado o nome dela a uma
pedrinha.
        -- Quer ouvir uma cano? Mariam deu de ombros novamente.
        Niloufar ligou o toca-discos. Pegou um disquinho numa espcie de estojo
debaixo da tampa da caixa. Ps o disco no lugar e baixou a agulha sobre ele. A
musica comeou.
        Como papel, vou usar uma ptala de flor,
        e escrever a mais doce das cartas,
        Voc e o sulto do meu corao,
        o sulto do meu corao.
        -- Conhece essa msica? -- perguntou Niloufar.
        -- No.
        __ de um filme iraniano. Passou no cinema do meu pai. Ei, quer ver uma
coisa?
        Antes que Mariam pudesse responder, Niloufar ps as palmas das mos e a
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testa no cho. Deu impulso com os ps, e, de repente, l estava ela, de cabea para
baixo, plantando bananeira.
        -- Voc consegue fazer isso? -- indagou ela com a voz abafada.
        -- No -- respondeu Mariam.
        Niloufar baixou as pernas e puxou a blusa de volta para o lugar.
        -- Posso lhe ensinar -- disse, tirando o cabelo da testa afogueada. -- Quanto
tempo vai ficar aqui?
        -- No sei.
        -- Minha me disse que voc no  minha irm de verdade, como diz que .
        -- Eu nunca disse isso -- mentiu Mariam.
        -- Minha me disse que sim. Mas no me importo. Quero dizer, para mim no faz
a menor diferena se voc disse isso, ou se voc  mesmo minha irm. No me
importo.
        -- Agora, estou cansada -- disse Mariam, deitando-se.
        -- Minha me disse que um jinn fez a sua me se enforcar.
        -- Pare com isso agora, por favor -- exclamou Mariam, virando para o outro
lado. -- Com a msica.
        Nesse mesmo dia, Bibi jo veio visit-la. Estava chovendo quando ela chegou.
Com uma careta, baixou o corpo volumoso para se sentar na cadeira ao lado da cama.
        -- Ah, Mariam jo, essa chuva  a morte para as minhas articulaes. A morte,
pode acreditar. Espero... Ah, venha c, querida. Venha com Bibi jo. No chore.
Isso, assim... Coitadinha. Tsk, tsk. Coitadinha.
        Naquela noite, Mariam custou muito a pegar no sono. Ficou deitada na cama,
olhando para o cu, ouvindo passos no andar de baixo, vozes abafadas pelas paredes
e a chuva castigando a janela. Quando cochilou, acordou assustada ouvindo gritos.
Eram vozes que vinham do andar trreo, rspidas, zangadas. No conseguia distinguir
o que diziam. Uma porta bateu.
        Na manh seguinte, o mul Faizullah veio visit-la. Quando viu seu amigo na
porta, com aquela barba branca e o seu afvel sorriso dentado, Mariam sentiu que as
lgrimas voltavam a lhe escorrer pelos cantos dos olhos. Sentou-se na cama e correu
ao seu encontro. Como sempre, beijou a sua mo e ele, a sua testa. Puxou uma
cadeira para o mul se sentar.
        Ele lhe mostrou o Coro que tinha trazido e o abriu dizendo:
        -- Acho que no h motivo para interrompermos nossa rotina, no  mesmo?
        -- O senhor sabe que no preciso mais de lies, mul sahib. J me ensinou
todas as suras do Coro e cada um dos seus ayats durante esses anos.
        Ele sorriu e ergueu as mos num gesto de capitulao.
        -- Ento, tenho de confessar que foi s o que me ocorreu. Mas no poderia
encontrar desculpa pior para vir v-la.
        -- O senhor no precisa de desculpas. No o senhor.
        -- Muita gentileza sua dizer isso, Mariam jo.
        Entregou-lhe o Coro. Como o mul tinha lhe ensinado, a menina o beijou trs
vezes -- tocando a prpria testa com o livro entre cada beijo -- e o devolveu ao seu
velho amigo.
        -- Como vai indo, minha filha?
        -- Continuo... -- principiou Mariam, mas teve que parar, pois sentia como se
uma pedra enorme tivesse ficado entalada em sua garganta. -- Continuo pensando no
que ela me disse antes de eu vir para c. Ela...
        -- N, n, n... -- disse o mul Faizullah pondo a mo no joelho da menina. --
A sua me, que Allah possa perdo-la, era uma mulher perturbada e infeliz, Mariam
jo. Ela fez algo terrvel consigo mesma. Consigo mesma, com voc, e tambm com
Allah. Sei que Ele a perdoar, pois e misericordioso, mas Allah ficou muito triste
com o que ela fez. Ele no aprova que se tire uma vida, seja a dos outros ou a
nossa prpria, pois Ele diz que a vida  sagrada. Veja, Mariam jo -- prosseguiu o
velho, segurando a mo da menina entre as suas. -- Veja. Conheci sua me antes de
voc nascer e posso lhe dizer que, nessa poca, quando ainda era uma garotinha, ela
j era infeliz. Acho que a semente do que veio a fazer foi plantada h muito tempo.
O que estou tentando dizer  que voc no tem culpa de nada disso. No foi culpa
sua, minha filha.
        -- Eu no devia ter deixado ela l sozinha. Devia ter...
        -- Pare com isso. Esses pensamentos no so bons, Mariam jo. Est me ouvindo,
minha filha? No so nada bons. Eles vo destru-la. No foi culpa sua. No foi
mesmo.
        Mariam assentiu com um gesto. Por mais que quisesse, porm, e queria muito,
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
no conseguia acreditar nele.
       Certa tarde, uma semana depois, bateram a porta e uma mulher alta entrou no
quarto. Tinha a pele clara, cabelos avermelhados e dedos longos.
       -- Sou Afsoon -- disse ela. -- A me de Niloufar. Por que voc no vai se
lavar, Mariam, e desce comigo?
       Mariam disse que preferia ficar no quarto.
       -- No, na fahmidi, voc no est entendendo -- retrucou a mulher. -- Voc tem
que descer. Precisamos ter uma conversa.  importante.

       7
       JALIL E SUAS ESPOSAS SE SENTARAM defronte dela, diante de uma mesa comprida
de madeira escura. Entre eles, no centro da mesa, havia um vaso de cristal com
calndulas frescas e uma jarra de gua bem gelada. A mulher de cabelo avermelhado,
que tinha se apresentado como a me de Niloufar, Afsoon, estava sentada a direita
de Jalil. As outras duas, Khadija e Nargis, estavam  sua esquerda. Cada uma das
esposas tinha uma echarpe preta bem leve que usavam, no na cabea, mas atada com
um n frouxo em torno do pescoo, como uma idia que tivesse lhes ocorrido na
ltima hora. Mariam, que no imaginava que aquelas mulheres pudessem estar de luto
por Nana, achou que uma delas tivesse talvez sugerido o detalhe, ou mesmo Jalil,
pouco antes de irem cham-la.
       Afsoon encheu um copo com gua e o botou diante de Mariam, em cima de um
paninho xadrez.
       -- Estamos apenas na primavera e j est fazendo calor -- disse ela,
abanando-se com a mo.
       -- Esta bem instalada? -- indagou Nargis, que tinha um queixo mido e cabelos
pretos cacheados. -- Queremos que tenha todo conforto. Essa... provao... deve
estar sendo muito dura para voc. E to difcil...
       As outras assentiram com um gesto. Mesmo sem encar-las, Mariam podia
perceber os ligeiros sorrisos tolerantes que elas lhe dirigiam. A menina sentia um
zumbido desagradvel na cabea. Sua garganta estava ardendo. Bebeu uns goles de
gua.
       Pela ampla janela s costas de Jalil, Mariam avistava uma fileira de
macieiras floridas. Na parede, junto a janela, havia um mvel escuro de madeira e
nele, um relgio e um porta-retratos com uma foto de Jalil acompanhado de trs
meninos que seguravam um peixe. O sol fazia as escamas do peixe reluzirem. Jalil e
os meninos estavam rindo.
       -- Bem -- principiou Afsoon --, eu, quero dizer, ns trouxemos voc at aqui
porque temos timas notcias para lhe dar.
       Mariam ergueu os olhos.
       Percebeu que as mulheres se entreolharam rapidamente, por cima da cabea de
Jalil que estava afundado na cadeira, fitando a jarra de gua sem parecer v-la
efetivamente. Foi Khadija, aparentemente a mais velha das trs, quem se voltou para
ela e Mariam teve a impresso de que essa incumbncia tambm tinha sido discutida e
acertada antes que fossem cham-la.
       -- Voc tem um pretendente -- disse Khadija. Mariam sentiu o estmago
embrulhado.
       -- Um o qu? -- exclamou com os lbios subitamente entorpecidos.
       -- Um khastegar. Um pretendente. Ele se chama Rashid -- prosseguiu Khadija. --
 amigo de um conhecido de seu pai. Rashid  pashtun, nascido em Kandahar, mas vive
atualmente em Cabul, no bairro Dehmazang, numa casa prpria de dois andares.
       -- E ele fala farsi, como ns, como voc. Portanto, no vai precisar aprender
a lngua pashto -- acrescentou Afsoon, assentindo com um gesto de cabea.
       Mariam sentia o peito apertado. A sala girava a sua volta, o cho oscilava
sob seus ps.
       -- Rashid  sapateiro -- prosseguiu Khadija. -- Mas no um desses moochi que a
gente v pela rua. Ele tem sua prpria loja e  um dos sapateiros mais requisitados
de Cabul. Faz sapatos para diplomatas, membros da famlia presidencial, esse tipo
de gente. Como pode ver, no ter dificuldade alguma em sustent-la.
       Mariam olhou para Jalil com o corao aos pulos. E verdade? Isso que ela
est dizendo  verdade? Ele, porm, no a olhou. Continuou mordendo o canto do
lbio inferior e com os olhos fixos na jarra de gua.
       -- Bom, ele  um pouco mais velho do que voc -- observou Afsoon. Mas no deve
ter mais de... quarenta. No mximo, quarenta e cinco. No  mesmo, Nargis?
       -- , sim. Mas j vi meninas de nove anos dadas em casamento a homens vinte
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anos mais velhos do que o seu pretendente, Mariam. Todas ns j vimos isso. Quantos
anos voc tem, quinze?  uma tima idade para uma garota se casar.
       As outras esposas assentiram entusiasticamente. Um detalhe no escapou a
Mariam: ningum mencionou suas meio-irms, Saideh e Nahid, ambas da mesma idade que
ela, ambas estudando na Escola Mehri, em Herat, ambas planejando entrar para a
Universidade de Cabul. Era bvio que quinze anos no era uma tima idade para elas
se casarem.
       -- O mais importante -- acrescentou Nargis --  que ele tambm sofreu uma
grande perda na vida. Sua esposa, segundo nos disseram, morreu de parto ha dez
anos. E, trs anos atrs, seu filho se afogou num lago.
       -- E muito triste, sem dvida. Rashid vem procurando uma esposa ha alguns
anos, mas no encontrou nenhuma que lhe conviesse.
       -- No quero -- disse Mariam, e olhou para Jalil. -- No quero me casar. No me
obriguem a isso. -- Odiava aquele tom choroso e suplicante que percebia na prpria
voz, mas no conseguia evit-lo.
       -- Ora, seja sensata, Mariam -- disse uma das esposas. A menina j nem
reparava mais em quem dizia o qu. Continuava fitando Jalil, esperando que ele
falasse, que dissesse que nada daquilo era verdade.
       -- Voc no pode ficar aqui para o resto da vida.
       -- No quer ter sua prpria famlia?
       -- Isso mesmo. Uma casa, filhos.
       -- A vida continua...
       --  claro que seria prefervel que se casasse com algum daqui, um tadjique,
mas Rashid e um homem saudvel e est interessado em voc. Tem um bom trabalho e
uma casa. E isso  importante, no  mesmo? Alem do mais, Cabul e uma cidade linda
e empolgante. Voc talvez no tenha outra oportunidade to boa quanto esta.
       Mariam voltou a ateno para as esposas.
       -- Vou morar com o mul Faizullah -- disse ela. -- Ele vai me receber. Sei que
vai.
       -- No acho que seja uma boa idia -- retrucou Khadija. -- Ele est velho e
to... -- Ficou procurando a palavra ideal, e Mariam teve a certeza de que o que a
mulher queria dizer era perto, perto demais. Foi ento que compreendeu o que elas
estavam pretendendo. "Voc talvez no tenha outra oportunidade to boa quanto
esta." Nem elas. O seu nascimento tinha sido uma desonra para aquelas mulheres e
ali estava a sua chance de passar uma borracha, de uma vez por todas, sobre o erro
escandaloso do marido. Mariam estava sendo mandada embora porque era a encarnao
viva da vergonha que elas sentiam.
       -- Ele est to velho e to fraco -- disse enfim Khadija. -- O que voc vai
fazer quando ele se for? Vai ser um fardo para a famlia do mul.
       Exatamente como est sendo para ns agora. Mariam quase chegou a ver essas
palavras no-ditas saindo da boca de Khadija, como o vapor da respirao num dia
frio.
       Tentou se imaginar em Cabul, uma cidade grande, estranha e movimentada que,
pelo que Jalil tinha lhe contado, ficava a uns 650 quilmetros a leste de Herat.
Seiscentos e cinqenta quilmetros. A maior distncia que conhecia eram os dois
quilmetros que separavam a kolba da casa de Jalil. Tentou se ver morando l, em
Cabul, na outra extremidade daquela distncia quase inimaginvel, vivendo na casa
de um estranho onde teria que aturar o seu humor e as exigncias que fizesse. Teria
que limpar a casa desse tal de Rashid, cozinhar para ele, lavar as suas roupas. E
haveria tambm outras tarefas -- Nana tinha lhe contado o que os maridos fazem com
suas esposas. Foi especialmente a perspectiva dessas intimidades, que ela concebia
como atos dolorosos de perversidade, que a encheu de terror e a deixou suando em
bicas.
       -- Diga a elas -- exclamou Mariam, voltando-se para Jalil. -- Diga a elas que
no vai permitir que faam isso comigo.
       -- Na verdade, seu pai j deu a resposta a Rashid -- disse Afsoon. -- Ele est
aqui, em Herat. Veio de Cabul s para isso. O nikka vai ser celebrado amanh de
manh, e, na hora do almoo, h um nibus que parte para Cabul.
       -- Diga a elas! -- gritou Mariam.
       As mulheres se calaram. Mariam sentiu que todas olhavam para Jalil.
Esperando. O silncio tomou conta da sala. Jalil continuou girando a aliana no
dedo, com um ar ferido, desamparado no rosto. L do armrio,  relgio seguia com
seu tiquetaque.
       Jalil jo? -- disse enfim uma das esposas. Ele ergueu o rosto bem devagar, deu
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com os olhos de Mariam, deteve-se por um instante, e voltou a baixar os seus. Abriu
a boca, mas tudo o que fez foi emitir um nico e doloroso gemido. Diga alguma coisa
-- insistiu Mariam.
        E ento, com uma voz sumida, alquebrada, Jalil exclamou:
        -- Que diabos, Mariam! No faa isso comigo! -- como se fosse ele a vtima
naquela situao.
        Mariam percebeu que, com isso, o clima de tenso se desfez.
        Enquanto as esposas retomavam -- com mais entusiasmo -- as suas tiradas
tranqilizadoras, Mariam continuou fitando a mesa. Seus olhos acompanharam as
linhas harmoniosas dos ps do mvel, as curvas sinuosas de suas quinas, o brilho do
seu tampo escuro e lustroso. Reparou que, sempre que exalava o ar, aquela
superfcie se enevoava e seu rosto desaparecia da mesa de seu pai.
        Afsoon a levou de volta a seu quarto, l em cima. Quando a porta se fechou,
Mariam ouviu o barulho da chave girando na fechadura.
       8
       PELA MANH, TROUXERAM UM VESTIDO verde-escuro, de mangas compridas, para
Mariam usar com calas de algodo branco. Afsoon lhe deu um hijab verde e um par de
sandlias combinando com aqueles trajes.
       A menina foi levada at a sala onde ficava aquela mesa comprida, de madeira
escura. S que, agora, bem no meio da mesa, havia uma tigela de amndoas
confeitadas, um Coro, um vu verde e um espelho. Dois homens que Mariam nunca
tinha visto antes -- testemunhas, deduziu ela -- e um mul que no conhecia j
estavam ali sentados.
       Jalil lhe indicou uma cadeira. Estava usando um terno marrom-claro e uma
gravata vermelha. Tinha lavado o cabelo. Quando afastou a cadeira para Mariam se
sentar, tentou esboar um sorriso encorajador. Desta vez, Khadija e Afsoon vieram
se sentar ao lado dela.
       O mul fez um gesto em direo ao vu e Nargis o ajeitou na cabea de Mariam
antes de se sentar. A menina ficou de olhos baixos, fitando as prprias mos.
       -- Podem mand-lo entrar agora -- disse Jalil, dirigindo-se sabe-se l a quem.
       Antes de v-lo, Mariam sentiu o seu cheiro. Cheiro de cigarro e uma colnia
forte, adocicada, bem diferente do perfume discreto que Jalil usava. Aquele odor
penetrou pelas suas narinas. Atravs do vu, com o rabo do olho, viu surgir no vo
da porta um homem alto, meio barrigudo e de ombros largos. S de ver o tamanho dele
Mariam quase engasgou e voltou a baixar os olhos, com o corao aos pulos. Percebeu
que Rashid hesitava na porta. Depois, ouviu os seus passos pesados atravessando a
sala e o pote com os confeitos de amndoa tilintou ao ritmo daqueles Passos. Com um
grunhido um tanto rouco, ele se deixou cair na cadeira ao seu lado. Respirava
ruidosamente.
       O mul lhes deu as boas-vindas. Disse que aquele no seria um nikka
tradicional.

       -- Compreendo que Rashid agha j comprou as passagens para Cabul no nibus
que sai em poucas horas. Assim, em funo do tempo, vamos dispensar algumas das
etapas tradicionais para acelerar a cerimnia.
       Depois, deu umas poucas bnos, disse algumas palavras sobre a importncia
do casamento. Perguntou a Jalil se via alguma objeo quela unio e ele se limitou
a abanar a cabea. O mul perguntou, ento, a Rashid se ele realmente queria
estabelecer um contrato de casamento com Mariam.
       -- Quero -- respondeu o noivo. E sua voz spera, rascante, lembrou a menina o
rudo das folhas secas no outono quando algum pisava nelas ao caminhar.
       -- E voc, Mariam, aceita esse homem por seu marido? Manam ficou calada. As
pessoas ao seu redor pigarrearam.
       -- Aceita, sim -- disse uma voz feminina vinda de algum ponto da mesa.
       -- Na verdade, e ela mesma que tem de responder -- observou o mul. -- E tem de
esperar que eu repita a pergunta trs vezes para responder. Afinal, foi ele quem
fez a proposta, e no o contrrio.
       Repetiu a pergunta mais duas vezes. Ao ver que Mariam no respondia,
perguntou de novo, desta feita de forma mais incisiva. Mariam podia sentir que
Jalil se remexia na cadeira, que pernas se cruzavam e se descruzavam debaixo da
mesa. Ouviram-se mais pigarros. Uma mo branca e pequenina espanou um grozinho de
poeira do tampo do mvel.
       -- Manam -- sussurrou Jalil.
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        -- Sim -- disse ela, com voz trmula.
        Passaram-lhe um espelho por baixo do vu. Nele, Mariam pde ver, primeiro, o
prprio rosto, com as sobrancelhas ralas, no arqueadas, o cabelo liso, os olhos de
um verde sombrio e to prximos um do outro que as pessoas podiam at achar que
fosse vesga. Sua pele era spera, e parecia manchada, sem vida. Achava a prpria
testa grande demais, o queixo muito mido, os lbios muito finos. A impresso geral
era de um rosto comprido, triangular, um tanto eqino. Mesmo assim, notou que, por
mais estranho que pudesse parecer, a reunio dessas partes sem qualquer beleza
especial no formava um rosto bonito, mas tambm no era um conjunto desagradvel
de se olhar.
        Ali no espelho, viu Rashid pela primeira vez: o rosto grande, quadrara
corado; o nariz adunco; as faces afogueadas que davam a impresso A uma alegria
meio sonsa; os olhos midos e injetados; os dentes irregulares com os dois da
frente meio saltados, parecendo um telheiro; o cabelo nascendo incrivelmente baixo,
a uns dois dedos das sobrancelhas fartas; e aquela muralha de cabelo crespo,
espesso e grisalho.
        Seus olhos se encontraram por um instante na superfcie do espelho, e logo
se desviaram.
        " o rosto do meu marido", pensou Mariam.
        Trocaram as finas alianas de ouro que Rashid tirou do bolso do palet. As
unhas dele eram amareladas, como o miolo de uma ma que j est apodrecendo, e
algumas tinham as bordas retorcidas, escamando. As mos de Mariam tremeram quando
tentou pr a aliana no dedo de Rashid, e ele precisou ajud-la. A sua prpria
estava um pouco apertada, mas ele no teve dificuldade alguma em faz-la passar
pela junta de seu dedo.
        -- Pronto -- disse Rashid.
        -- E uma linda aliana -- disse uma das esposas de Jalil. --  uma beleza,
Mariam.
        -- Agora, s resta assinar o contrato -- disse o mul.
        Mariam assinou seu nome -- o meem, o reh, o ya, e mais uma vez o meem --
consciente de que todos os olhos estavam pregados em sua mo. Quando voltasse a
assinar o prprio nome num documento, 27 anos depois, seria tambm na presena de
um mul.
        Agora, vocs so marido e mulher -- declarou o religioso. -- Tabreek. Meus
parabns.
        Rashid ficou esperando dentro daquele nibus todo colorido. Mariam no o via
do lugar onde estava, junto com Jalil, perto do pra-choque traseiro. S avistava a
fumaa do cigarro saindo pela janela aberta. Ao seu redor, via mos que se
cumprimentavam, gente que se despedia. Algumas pessoas beijavam o Coro e passavam
debaixo dele. Crianas descalas saltitavam em meio aos viajantes com os rostos
invisveis por detrs dos tabuleiros de chicletes e de cigarros.

       54                                                         KHALED HOSSEINI
       Jalil estava atarefado dizendo-lhe que Cabul era to linda que Babur,
imperador dos mongis, tinha pedido para ser enterrado ali. Depois, como Mariam bem
sabia, ele passaria a falar dos jardins de Cabul, das suas lojas, das suas rvores
e do seu clima, e, logo, logo ela prpria entraria no nibus e Jalil ficaria ali,
do lado de fora, acenando alegremente, ileso, poupado.
       Mariam no podia permitir que isso acontecesse.
       -- Eu o adorava -- disse ela.
       Jalil parou no meio da frase. Cruzou e descruzou os braos. Um jovem casal
indiano passou entre eles: a mulher com um beb no colo, o marido carregando uma
valise. Jalil pareceu agradecido por aquela interrupo. Os dois se desculparam e
ele lhes sorriu gentilmente.
       -- Toda quinta-feira, passava horas sentada,  sua espera. Ficava to
preocupada, com medo de que voc no aparecesse...
       -- E uma longa viagem. Voc devia comer alguma coisa -- disse ele,
acrescentando que podia ir comprar po e queijo de cabra.
       -- Pensava em voc o tempo todo. Rezava para que voc vivesse cem anos. Eu
no sabia. No sabia que voc tinha vergonha de mim.
       Jalil baixou os olhos, como uma criana grande, e ficou escavando alguma
coisa no cho, com a ponta do sapato.
       -- Voc tinha vergonha de mim -- repetiu ela.
       -- Vou visit-la -- balbuciou ele. -- Vou at Cabul para v-la. Vamos...
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       -- No -- exclamou Mariam. -- No v, no. No vou receb-lo. No v. No quero
mais saber de voc. Nunca, nunca mais.
       Ele a fitou com ar sofrido.
       -- Para nos, tudo acaba aqui. Pode dizer adeus.
       -- No v embora desse jeito -- disse ele, com um fio de voz.
       -- Voc nem mesmo teve a decncia de deixar que eu me despedisse do mul
Faizullah.
       Mariam se virou e foi se dirigindo para a porta do nibus. Ouviu os passos
dele s suas costas. Quando j estava quase entrando, ele a chamou:
       -- Mariam jo!
       Ela subiu os degraus e, embora pudesse v-lo ao seu lado com o rabo do olho,
no olhou pela janela do veculo. Foi caminhando pelo corredor at o fundo do
nibus, onde Rashid estava sentado com a mala dela entre os ps. No se moveu
quando viu as mos de Jalil na vidraa, quando os seus dedos bateram no vidro
vrias vezes. O veculo arrancou, e ela nem se virou para v-lo correndo ao seu
lado. E, quando partiram, no olhou para trs para v-lo desaparecer na nuvem de
poeira e de fumaa do cano de descarga.
       Rashid, que tinha comprado os lugares da janela e do corredor, ps aquela
mo grande sobre a dela.
       -- Pronto, menina. Pronto -- disse ele, olhando pela janela, como se alguma
coisa mais interessante houvesse chamado a sua ateno.

       9
       No INCIO DA TARDE do dia seguinte, chegaram  casa de Rashid.
       -- Estamos em Deh-Mazang -- disse ele. Pararam do lado de fora, na calada.
Ele segurava a mala com uma das mos e, com a outra, destrancava o porto de
madeira. --  o lado sudoeste da cidade. O zoolgico fica aqui perto, e a
universidade tambm.
       Manam fez que sim com a cabea. Embora conseguisse compreend-lo, j tinha
descoberto que precisava prestar muita ateno quando ele falava. No estava
habituada ao farsi tal como era falado em Cabul, e Rashid ainda tinha um certo
sotaque pashto, a lngua nativa de Kandahar. Ele, porem, no parecia ter nenhuma
dificuldade em compreender o seu farsi falado a maneira de Herat.
       Manam deu uma olhadela na rua estreita e sem calamento onde Rashid morava.
As casas, ali, eram coladas umas s outras, todas elas com parede-meia, e tinham um
pequeno terreno na frente, que as resguardava da rua. A maioria das casas tinha
tetos planos e era feita de tijolos queimados; outras, porm, eram de barro e
tinham a mesma cor empoeirada das montanhas que cercavam a cidade. De ambos os
lados da rua, margeando as caladas, havia umas valetas cheias de gua lamacenta.
Aqui e ali, Mariam viu montinhos de lixo com moscas que esvoaavam ao seu redor. A
casa de Rashid tinha dois andares e dava para ver que, algum dia, havia sido
pintada de azul.
       Quando Rashid abriu o porto, Mariam se viu num quintalzinho minsculo e
maltratado, onde uma grama amarelada resistia em canteiros estreitos.  direita,
havia um banheiro externo e,  esquerda, um poo com uma bomba manual e uma fileira
de arvorezinhas moribundas. Perto do poo, ela viu um barraco e uma bicicleta
encostada no muro.
       -- Seu pai me disse que voc gosta de pescar -- comentou ele, enquanto
atravessavam o quintal dirigindo-se a casa. Como Mariam pde perceber, no havia
nenhum quintal nos fundos. -- Ao norte daqui, h uns vales. E rios com muitos
peixes. Quem sabe no levo voc at l um dia desses...
       Ele abriu a porta da frente e se afastou para ela entrar.
       A casa de Rashid era muito menor que a de Jalil, mas, comparada  kolba onde
ela e Nana moravam, era uma verdadeira manso. No trreo, havia um corredor, uma
sala de visitas e uma cozinha onde ele lhe mostrou panelas, vasilhas, uma panela de
presso e um ishtop a querosene. Na sala, havia um sof de couro verde-pistache,
com um rasgo de um dos lados, mal e porcamente remendado. As paredes eram
inteiramente nuas. Havia uma mesa, duas cadeiras de assento de palhinha, duas
outras, dobrveis, e, num canto, um aquecedor de ferro fundido.
       Mariam ficou parada no meio da sala, olhando ao seu redor. Na kolba, era
possvel tocar o teto com as pontas dos dedos. Deitada em sua cama, ela podia dizer
que horas eram s de ver o ngulo do sol que passava pela janela. Sabia at que
ponto a porta ia se abrir, antes que as dobradias rangessem. Conhecia cada fresta
e cada rachadura nas trinta tbuas do assoalho. Agora, todas essas coisas
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familiares tinham deixado de existir. Nana tinha morrido e l estava ela, numa
cidade estranha, separada da vida que conhecia por vales, cordilheiras com cumes
nevados e desertos inteiros. Estava na casa de um estranho, com todos aqueles
aposentos diferentes e o seu cheiro de cigarro, com seus armrios desconhecidos
cheios de utenslios desconhecidos, aquelas pesadas cortinas verde-escuras e um
teto que ela bem sabia que no poderia alcanar. Aquele espao a sufocava. Mariam
sentiu pontadas de saudade, saudade de Nana, do mul Faizullah, de sua vida de
antigamente.
       E comeou a chorar.
       Ora, que choro  esse? -- indagou Rashid, meio aborrecido. Meteu a mo no
bolso da cala, abriu os dedos de Mariam e ps um leno em sua mo. Acendeu um
cigarro e se recostou a parede. Ficou olhando para ela, vendo-a levar o leno aos
olhos.
       -- Pronto?
       Mariam fez que sim com a cabea. Tem certeza? Tenho. Ento, ele a pegou pelo
brao e a levou at a janela da sala.
       -- Essa janela d para o norte -- disse ele, batendo na vidraa com a unha
retorcida de seu dedo indicador. -- Bem a nossa frente, est a montanha Asmai, est
vendo? E,  esquerda, fica a Ali Abad. A universidade fica ao p dessa montanha.
Atrs de ns, fica a montanha Shir Darwaza. No d para v-la daqui. Diariamente,
ao meio-dia, tiros de canho so disparados dali. Agora pare de chorar. Ande, estou
falando srio.
       Mariam deu umas pancadinhas nos olhos.
       -- Se ha uma coisa que no consigo agentar -- disse ele, num tom carrancudo --
e o som do choro de uma mulher. Sinto muito, mas no tenho a menor pacincia para
isso.
       -- Quero ir para casa -- disse Mariam.
       Rashid suspirou, irritado. Uma baforada de cigarro acertou em cheio o rosto
da menina.
       -- No vou considerar isso como uma ofensa -- declarou ele. -- No desta vez.
       Voltou a segura-la pelo brao e a levou at o andar de cima.
       Havia ali um corredor estreito e mal iluminado, e dois quartos. A porta do
maior estava entreaberta. Pelo que Mariam podia ver dali, como o resto da casa,
aquele aposento tinha pouqussimos mveis: uma cama num canto, com uma colcha
marrom e um travesseiro, um armrio, uma cmoda. As paredes estavam vazias, a no
ser por um pequeno espelho. Rashid fechou a porta.
       -- Este e o meu quarto.
       E disse que ela podia ficar com o quarto de hspedes.
       -- Espero que no se importe -- acrescentou ele. -- E que estou habituado a
dormir sozinho.
       Mariam no lhe disse como estava aliviada, pelo menos a esse respeito.
       O quarto que seria o seu era muito menor que o da casa de Jalil Havia uma
cama, uma velha cmoda de um marrom acinzentado e um pequeno armrio. A janela dava
para o quintal e, alm dele, para a rua. Rashid ps sua mala num canto do aposento.
       Mariam sentou-se na cama.
       -- Voc no reparou -- disse ele, parado no vo da porta, curvando-se
ligeiramente para caber ali. -- Olhe para a janela. Sabe o que so? Eu as pus a
antes de ir para Herat.
       S ento Mariam viu um cesto no parapeito, transbordando de tuberosas
brancas.
       -- Gosta? Acha bonitas?
       -- Gosto, sim.
       -- Ento, poderia me agradecer.
       -- Obrigada. Sinto muito. Tashakor...
       -- Voc est tremendo. Talvez eu a assuste. Assusto? Voc est com medo de
mim?
       Mariam no o fitava, mas podia perceber um tom ligeiramente zombeteiro
naquelas palavras, como se fosse uma provocao. Mais que depressa, fez que no com
a cabea, num gesto que, como bem percebeu, representava a sua primeira mentira na
vida de casada.
       -- No? Ento, est timo. timo para voc. Bem, esta  sua casa agora. Sei
que vai gostar daqui, voc vai ver. Eu lhe disse que temos luz eltrica? Na maior
parte dos dias e todas as noites?
       Esboou um movimento para ir embora. Diante da porta, parou, deu uma longa
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tragada no cigarro e piscou os olhos por causa da fumaa. Mariam pensou que ele
fosse dizer alguma coisa. Mas no. Ele fechou a porta, deixando-a sozinha com sua
maleta e suas flores.
        10
        Nos PRIMEIROS DOIS ou TRS DIAS, Mariam praticamente no saiu do quarto. Ao
amanhecer, era acordada para a orao pelo som do azan, ouvido ao longe, e, depois,
voltava para a cama. Ainda estava ali quando ouvia Rashid se lavando no banheiro e
quando ele vinha at o seu quarto para ver se estava tudo bem, antes de sair para o
trabalho. Da janela, podia v-lo no quintal, prendendo o almoo na garupa da
bicicleta e, em seguida, empurrando-a pelo quintal at a rua. Ela o via sair
pedalando; via a sua silhueta grandalhona, de ombros largos, desaparecer ao dobrar
a esquina.
        Mariam passava a maior parte do tempo na cama, sentindo-se infeliz e
desamparada. s vezes, descia at a cozinha, corria as mos pela bancada grossa e
manchada de gordura, pelas cortinas floridas de vinil que tinham cheiro de comida
queimada. Olhava as gavetas mal-ajambradas, as colheres e facas desemparelhadas, a
peneira e as esptulas de madeira lascadas, todos aqueles utenslios que deveriam
ser instrumentos de seu novo cotidiano, e que vinham lembr-la da desgraa que
tinha se abatido sobre sua vida, fazendo-a sentir-se desenraizada, deslocada, uma
intrusa na vida de outra pessoa.
        La na kolba, seu apetite era previsvel. Aqui, o seu estmago raramente
pedia comida. s vezes, levava um prato com sobras de arroz e uma lasca de po para
a sala de visitas, perto da janela. Dali podia ver os tetos das casas trreas da
rua. Podia ver tambm os quintais, com mulheres lavando roupas e afastando as
crianas, galinhas ciscando na terra, ps, enxadas e vacas amarradas s rvores.
        Lembrava-se com saudades de todas aquelas noites de vero em que Nana e ela
dormiam no telhado da kolba, vendo a lua brilhar sobre Gul Daman; daquelas noites
to quentes que a roupa grudava no corpo como uma folha molhada na vidraa de uma
janela. Tambm tinha saudades das tardes de inverno, quando ficava lendo com o mul
Faizullah, ouvindo o barulhinho do gelo que caa das rvores no telhado da kolba e
os corvos l fora, nos ramos cobertos de neve.
        Sozinha naquela casa, Mariam ficava andando sem parar, indo da cozinha 
sala, subindo at o seu quarto e descendo novamente. Acabava voltando para o
quarto, fazendo suas oraes ou sentando na cama, sentindo falta da me, enjoada e
com saudades de casa.
        Quando o sol comeava a baixar no oeste, a ansiedade de Mariam atingia o seu
auge. Seus dentes batiam s de pensar na noite, na hora em que Rashid finalmente
decidisse fazer o que os maridos fazem com suas esposas. Deitava ento na cama, com
os nervos em frangalhos, enquanto ele comia sozinho l embaixo.
        Rashid sempre parava diante de seu quarto e metia a cabea pela porta
entreaberta.
        -- No  possvel que j esteja dormindo. So apenas sete horas. Est
acordada? Responda. Ande, responda.
        E continuava insistindo at que, na escurido, Mariam respondia:
        -- Estou.
        Ento, ele escorregava o corpo e se sentava no cho, no vo da porta. Da
cama, Mariam podia ver a silhueta larga do corpo de Rashid, suas pernas compridas,
a fumaa envolvendo o perfil encurvado de seu nariz, a pontinha amarelada do
cigarro ficando mais brilhante ou se desvanecendo.
        Ele lhe contava como tinha sido o seu dia. Um par de mocassins feitos sob
medida para o vice-ministro do Exterior -- que, segundo Rashid, s comprava sapatos
com ele. Uma encomenda de sandlias para um diplomata polons e sua esposa. Falava
tambm das supersties das pessoas com relao a sapatos: bot-los em cima da cama
significava atrair uma morte na famlia, ou que haveria uma briga se algum
calasse primeiro o p esquerdo.
        A menos que a pessoa faa isso sem querer, numa sexta-feira -- observou ele.
-- Voc sabia que  um mau pressgio amarrar um par de sapatos e pendur-los num
prego?
        O prprio Rashid no acreditava em nada disso. Em sua opinio, as
supersties eram, em grande parte, uma preocupao feminina, e lhe contava ainda
as coisas que ouvia pelas ruas, como a histria Presidente americano Richard Nixon,
que renunciou depois de um escndalo.

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       Mariam, que nunca tinha ouvido falar de Nixon ou do escndalo que provocou a
sua renncia, no fez nenhum comentrio. Ficava esperando, ansiosa, que Rashid
acabasse de falar, apagasse o cigarro e fosse embora. S quando ouvia seus passos
pelo corredor, a porta de seu quarto se abrir e se fechar, aquela mo de ferro que
lhe apertava o estmago se afrouxava.
       At que, uma noite, ele apagou o cigarro e, em vez de lhe dar boa-noite, se
recostou no umbral da porta.
       -- Voc nunca vai desfazer isso? -- indagou ele, indicando a mala com um gesto
de cabea. Cruzou os braos. -- Imaginei que precisasse de algum tempo. Mas e um
absurdo. J se passou uma semana e... Bem, a partir de amanh de manh espero que
voc comece a se comportar como uma esposa. Fahmidi? Entendeu?
       Os dentes de Mariam comearam a bater.
       -- Preciso de uma resposta.
       -- Entendi.
       -- timo -- disse ele. -- Est pensando o qu? Que isso aqui  um hotel? Que
sou uma espcie de estalajadeiro? Bom, ... Ai, ai, ai... La illah u ilillah... O
que foi que eu disse sobre essa histria de chorar, hein, Mariam? O que foi que eu
disse?
       No dia seguinte, depois que Rashid saiu para trabalhar, Mariam desfez a mala
e ps as roupas no armrio. Tirou um balde de gua do poo e, com um pedao de
pano, lavou as janelas de seu quarto e da sala de visitas. Varreu o cho, tirou as
teias de aranha dos cantos do teto. Abriu as janelas para arejar a casa.
       Ps trs xcaras de lentilhas de molho numa tigela, achou uma faca e cortou
cenouras e umas duas batatas, deixando-as tambm de molho. Procurou por farinha,
acabou encontrando no fundo de um dos armrios, por trs de uma fileira de potes de
temperos imundos, e preparou massa de po fresca, sovando-a do jeito que Nana tinha
lhe ensinado, pressionando a massa com a palma das mos, dobrando as bordas
externas, virando-a e pressionando novamente. Depois de polvilh-la com farinha,
envolveu-a num pano mido, ps um hijab na cabea e saiu para ir at o tandoor
comunitrio.
       Rashid j tinha lhe dito onde ele ficava, descendo a rua, dobrando 
esquerda e, logo depois,  direita, mas tudo o que Mariam precisou fazer foi
acompanhar o bando de mulheres e crianas que tambm se dirigia para l. As
crianas que viu, seguindo as mes ou correndo  sua frente, usavam camisas mais
que remendadas, calas grandes demais ou apertadas e sandlias com as tiras
arrebentadas, que ficavam danando para um lado e para o outro. E l iam elas,
girando velhos pneus de bicicleta com uns pedaos de pau.
       As mes seguiam em grupos de trs ou quatro, algumas usando burqas, outras
no. Mariam podia ouvi-las conversando animadamente, s vezes rindo s gargalhadas.
De cabea baixa, a moa entreouvia trechos daquelas conversas, que, aparentemente,
giravam todas em torno de histrias de crianas doentes ou de queixas com relao a
maridos ingratos e preguiosos.
       "Como se a comida se preparasse sozinha."
       "Wallah o billah, no d para descansar nem um minuto!"
       "E ele diz, juro,  verdade, ele realmente diz..."
       Essas conversas interminveis, com aquele tom queixoso, mas estranhamente
animado, ficavam girando e girando em crculo. E assim foi, rua abaixo, dobrando a
esquina, em fila at o tandoor. Maridos que jogavam. Maridos que idolatravam as
mes e no gastavam uma rupia sequer com elas, suas esposas. Mariam ficou se
perguntando quantas mulheres tinham que agentar aquele destino desgraado, todas
elas tendo se casado com homens to terrveis... Ou ser que isso era uma espcie
de brincadeira de esposas, que ela no conhecia? Um ritual dirio, como fazer arroz
ou preparar massa de po? Ser que aquelas mulheres esperavam que ela logo se
juntasse ao grupo?
       Na fila do forno, Mariam percebeu olhares furtivos e sussurros. Suas mos
comearam a suar. Imaginou que todas sabiam que ela era uma harami, motivo de
vergonha para seu pai e a famlia dele. Todas sabiam que ela tinha trado a prpria
me e desgraado a si mesma.
       Com a ponta do hijab, secou o suor que porejava acima de seu lbio superior,
e tentou se acalmar.
       Por alguns minutos, tudo correu bem. De repente, algum bateu em seu ombro.
Mariam se virou e viu uma gorducha, de pele clara, usando um hijab como ela
prpria. A outra tinha o cabelo preto e crespo cortado curto, e um rosto
bem-humorado de formato quase perfeitamente redondo. Seus lbios eram muito mais
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carnudos que os de Mariam, e o inferior pendia um pouco, como se puxado pela
verruga escura que ficava logo abaixo da linha da boca. A mulher tinha uns grandes
olhos esverdeados que fitavam Mariam com um brilho convidativo.
       --  voc que acabou de se casar com Rashid jan, no ? -- indagou ela, com um
largo sorriso. -- A que  l de Herat. Como voc  jovem! Mariam janr no  mesmo?
Meu nome  Fariba. Moro na sua rua, cinco casas adiante da sua, do lado esquerdo.
Aquela casa que tem a porta verde. Este  meu filho Noor.
       O menino, ao seu lado, tinha um rosto tranqilo e feliz, e o cabelo crespo
como o da me. Tinha um tufo de plos pretos no lbulo da orelha esquerda e, nos
olhos, um brilho travesso e irrequieto. Ergueu a mo e disse:
       -- Salaam, khala Jan.
       -- Noor tem dez anos. Tenho tambm um outro menino, mais velho, Ahmad.
       -- De treze anos -- disse Noor.
       -- Treze para quatorze -- emendou Fariba, rindo. -- Meu marido se chama Hakim --
prosseguiu ela. --  professor aqui, em Deh-Mazang. Aparea l em casa um dia
desses, podemos tomar uma xcara...
       Mas, subitamente, como se tivessem tomado coragem, as outras mulheres
empurraram Fariba e cercaram Mariam, fazendo um crculo  sua volta com uma rapidez
espantosa.
       -- Ento, voc  a jovem esposa de Rashid...
       -- O que esta achando de Cabul?
       -- J estive em Herat. Tenho um primo que mora l.
       -- O que voc prefere ter primeiro, menino ou menina?
       -- Ah, os minaretes! Que beleza! Que cidade linda!
       -- Menino  melhor, Mariam jan. Eles do continuidade ao nome da famlia...
       -- Ora, meninos logo se casam e vo embora. As meninas ficam e cuidam de ns
quando envelhecemos.
       -- Ficamos sabendo que voc estava para chegar.
       -- Tenha gmeos. Um de cada! Assim, todo mundo fica feliz.
       Mariam recuou um pouco. Estava ficando sem flego. Seus ouvidos zumbiam, seu
pulso tinha disparado, seus olhos saltavam para um lado para outro. Recuou
novamente, mas no havia para onde fugir -- estava bem no meio da roda. Avistou
Fariba, de testa franzida, e a mulher percebeu que ela estava em apuros.
       -- Deixem a menina em paz! -- exclamou. -- Afastem-se, deixem ela em paz! Vocs
a esto assustando!
       Mariam apertou o po contra o peito e tentou passar pela multido ao seu
redor.
       -- Onde  que voc vai, hamshira?
       Ela continuou tentando at que, sabe-se l como, se viu fora daquela roda e
saiu correndo rua acima. S quando chegou a um cruzamento percebeu que estava indo
na direo errada. Virou-se, ento, e correu de volta, de cabea baixa. Caiu e
arranhou bastante o joelho, mas se levantou e recomeou a correr, passando como um
raio por aquelas mulheres.
       -- Ei, o que  que houve?
       -- Voc est sangrando, hamshira!
       Mariam virou uma esquina, e, depois, a outra. Achou a rua certa, mas, de
repente, no conseguia lembrar qual daquelas casas era a de Rashid. Correu pela
rua, para um lado e para o outro, ofegando, quase chorando, e comeou a tentar os
portes, s cegas. Alguns estavam trancados, outros se abriam revelando quintais
desconhecidos, ces que latiam e galinhas assustadas. Pensou que Rashid poderia
voltar para casa e encontr-la ainda desse jeito, procurando, com o joelho
sangrando, perdida na prpria rua em que morava. E, ento, comeou mesmo a chorar.
Continuou empurrando portes a esmo, murmurando oraes, em pnico, com o rosto
molhado de lgrimas, at que um deles se abriu e ela viu, aliviada, o banheiro
externo, o poo, o galpo de ferramentas. Bateu o porto s suas costas e passou o
ferrolho. Ficou ali, de quatro, perto do muro, com nsias de vmito. Quando
melhorou, foi se arrastando at a parede da casa e se sentou, com as pernas
esticadas  sua frente. Nunca na vida tinha se sentido to sozinha.

       Naquela noite, Rashid voltou para casa trazendo uma sacola de papel pardo.
Mariam ficou desapontada porque ele nem notou que as janelas estavam limpas, o cho
varrido, e no havia mais teias de aranhas, mas ele pareceu gostar de ver o jantar
a sua espera, numa sofrah limpinha estendida no cho da sala.
       -- Fiz daal -- disse ela.
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                        Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
        -- timo. Estou morrendo de fome.
        Mariam despejou um pouco de gua da aftawa, para ele lavar as mos. Enquanto
Rashid se secava com uma toalha, ela ps a sua frente uma tigela fumegante de daal
e um prato de arroz branco bem soltinho. Era a primeira refeio que preparava para
ele e gostaria de estar em melhores condies enquanto ficou trabalhando na
cozinha. Na verdade, ainda estava abalada pelo incidente no tandoor e passou o dia
inteiro preocupada com a consistncia e a cor do daal, temendo que ele pudesse
achar que ela tinha exagerado no gengibre ou que estivesse faltando aafro.
        Rashid enfiou a colher naquele daal dourado.
        Mariam estava meio aflita. E se ele ficasse desapontado ou zangado? E se no
gostasse e empurrasse o prato?
        -- Cuidado -- disse ela, mesmo assim. -- Est quente. Rashid soprou a comida e
levou a colher  boca.
        -- Est bom -- disse ele. -- Falta um pouco de sal, mas est bom. Na verdade,
talvez at mais que bom.
        Aliviada, Mariam ficou parada ali, vendo-o comer. Surpreendeu-se ao sentir
uma ponta de orgulho. Tinha feito um bom trabalho -- na verdade, talvez at mais que
bom -- e no contava que receber um pequeno elogio fosse mexer tanto com ela. O dia,
at ento desagradvel, melhorou um pouquinho.
        -- Amanh  sexta-feira -- disse Rashid. -- O que gostaria que eu lhe
mostrasse?
        -- Em Cabul?
        -- No, em Calcut. Mariam ficou espantada.
        --  brincadeira -- acrescentou Rashid. -- Claro que  em Cabul. Onde mais
poderia ser? -- prosseguiu ele, estendendo a mo para pegar a sacola de papel. --
Antes, porm, preciso lhe dizer uma coisa.


       Meteu a mo na sacola e tirou de l uma burqa azul-celeste. Aquela imensa
quantidade de pano se espalhou por seus joelhos quando ele ergueu  sua frente.
Enrolou, ento, a burqa e, fitando Mariam nos olhos, disse:
       -- Eu tenho clientes, homens, que trazem a esposa at minha loja. As mulheres
vm descobertas, falam comigo diretamente, olham nos meus olhos sem nenhuma
vergonha. Usam maquiagem e saias que deixam seus joelhos a mostra. s vezes, pem
at os ps descalos diante de mim para eu tirar as medidas.  isso mesmo, as
mulheres... E os maridos deixam. Ficam s olhando. No vem problema algum no fato
de um estranho tocar os ps descalos de suas esposas! Acham que esto sendo
modernos, intelectuais, por causa da educao que tiveram, suponho eu. No percebem
que esto manchando sua nang e seu namoos, a sua honra e o seu orgulho.
       Rashid abanou a cabea e prosseguiu:
       -- A maioria deles mora nos bairros ricos de Cabul. Vou lev-la at l. Voc
vai ver com seus prprios olhos. Mas por aqui, neste bairro mesmo, tambm h homens
molengas como esses. Tem um professor que mora um pouco mais adiante, aqui na rua.
Ele se chama Hakim e vejo sua esposa, Fariba, passar o tempo todo pelas ruas,
sozinha, e usando apenas um leno na cabea. Sinceramente, fico constrangido ao ver
um homem que perdeu o controle sobre a prpria esposa.
       Olhou ento para Mariam com um ar severo.
       -- Mas no sou desse tipo de homem, Mariam. L de onde venho, basta um olhar
errado, uma palavra imprpria para haver derramamento de sangue. L de onde venho,
o rosto de uma mulher s interessa ao seu marido. Quero que se lembre disso.
Entendeu?
       Mariam assentiu. Quando ele lhe entregou a sacola, ela estendeu a mo para
apanh-la.
       O prazer que tinha acabado de experimentar por ele aprovar sua comida se
evaporou. Agora, estava se sentindo absolutamente insignificante.
       A vontade desse homem lhe parecia to imponente e inabalvel quanto s
montanhas de Safid-koh que dominavam Gul Damam
       Rashid lhe entregou a sacola de papel.
       Daman.
       -- Ento, estamos entendidos -- disse ele. -- Agora, me d um pouco mais de
daal.

       11
       MARIAM NUNCA TINHA USADO uma burqa antes. Precisou da ajuda de Rashid para
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vesti-la. A parte acolchoada da cabea lhe parecia pesada e apertada, e era
estranho ver o mundo atravs de uma tela furadinha. Ficou treinando andar com
aquilo pelo quarto, mas pisava na bainha e tropeava. A perda da viso perifrica
era aflitiva; alm disso, Mariam achava meio sufocante o tecido grudando em sua
boca.
       -- Voc vai se acostumar -- disse Rashid. -- Com o tempo, aposto que vai at
gostar de us-la.
       Pegaram um nibus at um lugar que Rashid chamava de parque Shar-e-Xau, onde
crianas brincavam nos balanos ou jogavam vlei com redes esmolambadas e amarradas
aos troncos das rvores. Saram andando por ali, vendo os meninos empinando pipas,
Mariam ao lado de Rashid, tropeando de quando em quando na barra da burqa. Na hora
do almoo, Rashid a levou para comer numa pequena casa de kebabs perto de uma
mesquita que, segundo ele, se chamava Haji Yaghoub. O cho do local era pegajoso e
o ar, enfumaado. As paredes tinham um leve cheiro de carne crua e a msica, que
Rashid lhe disse ser logari, estava muito alta. Os cozinheiros eram uns garotos
magricelas que brandiam espetos numa das mos e mata-moscas na outra. Mariam, que
nunca tinha estado num restaurante, achou esquisito sentar numa sala lotada, com
tantos estranhos, e erguer a burqa para levar a comida  boca. Uma pontinha daquela
mesma ansiedade do episdio do tandoor se insinuou em seu estmago, mas a presena
de Rashid lhe dava uma espcie de tranqilidade; ento, alguns instantes depois,
ela j no se importava tanto com a msica, a fumaa e at mesmo as pessoas. E,
para sua surpresa, percebeu que a burqa tambm era tranqilizadora. Era como uma
daquelas janelas espelhadas de um dos lados. Ali dentro, era apenas uma
observadora, protegida dos olhos inquiridores dos estranhos que no podiam v-la.
No tinha mais medo de que, com um simples olhar, as pessoas pudessem descobrir os
segredos vergonhosos de seu passado.
       Pelas ruas, Rashid ia apontando diversos prdios com autoridade: aqui  a
embaixada dos Estados Unidos; ali, o Ministrio do Exterior. Mostrava os carros e
dizia seus nomes e sua origem: eram Volgas soviticos, Chevrolets americanos, Opels
alemes.
       -- Qual deles voc prefere? -- perguntou.
       Mariam hesitou, acabou apontando para um Volga, e Rashid riu. Cabul era
muito mais movimentada que o pouco que tinha visto de Herat. Havia menos rvores e
menos garis puxadas a cavalo, mas tinha muito mais carros, edifcios mais altos,
mais sinais de trnsito e mais ruas pavimentadas. E, por toda parte, Mariam podia
ouvir aquele jeito de falar caracterstico da cidade: "querido" era jan, em vez de
jo; "irm" era hamshira, em vez de hamshireh, e assim por diante.
       Rashid comprou um sorvete de um vendedor ambulante. Era a primeira vez que
Mariam tomava sorvete e nunca teria imaginado que o paladar pudesse experimentar
tantas surpresas. Devorou o copinho inteiro, saboreando a cobertura de pistache
modo e aquele macarro finssimo, feito de arroz, que havia no fundo. Ficou
encantada com a textura fascinante, com a doura aconchegante daquilo tudo.
       Foram andando at um lugar chamado Kocheh-Morgha, rua das Galinhas. Era um
bazaar estreito e movimentado, num bairro que, segundo Rashid, era um dos mais
ricos de Cabul.
       -- Por aqui moram os diplomatas estrangeiros, os ricos homens de negcios, os
membros da famlia real, esse tipo de pessoas. Nada de gente como voc e eu.
       -- No estou vendo nenhuma galinha -- observou Mariam. -- Uma coisa que voc
no vai encontrar aqui, so galinhas -- respondeu Rashid, rindo.
       De ambos os lados, a rua era repleta de lojas e barraquinhas que vendiam
gorros de pele de carneiro e chapans multicoloridos. Numa das lojas, Rashid parou
para olhar uma adaga de prata lavrada e, numa outra, um velho rifle que, garantia o
vendedor, era uma relquia da primeira guerra contra os britnicos.
       -- E eu sou Moshe Dayan... -- resmungou Rashid. Deu um sorrisinho e Mariam
teve a impresso de que aquele sorriso era s para ela. Um sorriso privado, de
casal.
       Passaram por lojas de tapetes, de artesanato, de doces, de flores, e por
lojas que vendiam ternos para homens e vestidos para mulheres. Nessas lojas, por
trs de cortinas rendadas, Mariam viu mocinhas pregando botes e engomando
colarinhos. De quando em quando, Rashid cumprimentava algum comerciante que
conhecia, s vezes em farsi, s vezes em pashto. Enquanto os homens se apertavam as
mos e se beijavam de ambos os lados do rosto, Mariam ficava a uns passos de
distancia. Rashid no a chamava, no a apresentava a ningum.
       A certa altura, pediu a ela que esperasse na porta de uma loja de bordados.
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       -- Conheo o dono -- disse ele. -- S vou entrar por um minuto, para dizer
salaam.
        Mariam ficou esperando na calada apinhada de gente. Viu os carros se
arrastando pela rua das Galinhas, ziguezagueando por entre a horda de ambulantes e
de pedestres, buzinando para crianas e burros que no saiam da frente. Viu
mercadores com ar entediado, dentro de suas minsculas tendas, fumando ou cuspindo
em escarradeiras de lato, com os rostos surgindo s vezes em meio s sombras para
vender tecidos e casacos poostin de gola de pele aos passantes.
        Mas eram principalmente as mulheres que atraam a ateno de Mariam.
        Nessa regio de Cabul, elas eram diferentes das que viviam nos bairros mais
pobres da cidade -- como aquele em que Rashid e ela moravam, onde tantas mulheres
andavam inteiramente cobertas. Aqui, todas eram -- como foi mesmo que Rashid disse?
-- "modernas". Isso mesmo, afegs modernas, casadas com afegos modernos que no se
importavam que suas esposas andassem em meio a estranhos com o rosto maquiado e a
cabea descoberta. Mariam as viu trotando desinibidas pela rua, s vezes com um
homem, s vezes sozinhas, s vezes com crianas de faces rosadas que usavam sapatos
lustrosos e relgios com pulseira de couro, que circulavam de bicicleta com guides
bem altos e os raios das rodas dourados -- bem diferentes das crianas de
Deh-Mazang, que tinham marcas de picada de mosquitos no rosto e giravam velhos
pneus de bicicleta com pauzinhos.
        Todas aquelas mulheres carregavam bolsas e usavam saias esvoaantes Mariam
viu at mesmo uma delas fumando, ao volante de um automvel. Elas tinham unhas
compridas, pintadas de rosa ou alaranjado, e os lbios vermelhos como tulipas.
Andavam de saltos altos, e depressa, como se perpetuamente atarefadas com negcios
urgentes. Usavam tambm culos escuros e, quando passavam ao seu lado, Mariam
sentia o cheiro de seu perfume. Imaginou que fossem formadas em universidades,
trabalhassem em escritrios de firmas, por trs de suas prprias escrivaninhas,
onde datilografavam, fumavam e davam telefonemas importantes para pessoas
importantes. Aquelas mulheres a deixaram fascinada. Ao v-las, tinha mais
conscincia de sua solido, de sua aparncia sem graa, de sua falta de aspiraes,
de sua ignorncia sobre tantas coisas...
        Mas l estava Rashid, batendo em seu ombro e lhe estendendo algo.
        -- Tome -- disse ele.
        Era um xale de seda cor-de-vinho, com contas nas franjas e as pontas
bordadas com fio de ouro.
        -- Gosta?
        Mariam ergueu os olhos. E Rashid fez algo tocante, piscou ligeiramente, e
desviou o olhar.
        Ela se lembrou de Jalil, daquele jeito enftico, jovial que ele tinha de lhe
empurrar aquelas jias, o seu entusiasmo irresistvel que no deixava margem a
qualquer outra reao que no fosse a gratido submissa. Nana estava certa quanto
aos presentes de Jalil. Todos eles eram frios tributos de penitncia, gestos nada
sinceros, deturpados, cujo objetivo era muito mais aplacar as suas prprias
angstias. J aquele xale era um Presente de verdade.
        --  lindo -- disse ela.
        Naquela noite, Rashid apareceu novamente em seu quarto, mas, em vez de ficar
fumando na porta, atravessou o aposento e se aproximou de onde ela estava. As molas
da cama rangeram quando ele se sentou ao seu lado.
        Depois de um instante de hesitao, a mo dele pousou em seu pescoo e
aqueles dedos grossos pressionaram os ossinhos de sua nuca. O polegar foi descendo
e, agora, deslizava pela cavidade acima dos ombros, pela carne do colo. Mariam
estremeceu. A mo dele desceu ainda mais, e mais, e suas unhas se prendiam no
tecido da blusa da menina.
        -- No posso -- murmurou ela, com voz rouca, vendo, a luz da lua, o seu
perfil, os seus ombros e o seu peito largos, os tufos de cabelo grisalho
despontando pela gola desabotoada.
        Agora, a mo de Rashid estava em seu seio direito, apertando-o por cima da
blusa, e ela podia ouvi-lo respirar, profundamente, pelo nariz.
        Ele se esgueirou sob as cobertas, ao seu lado. Mariam sentiu aquela mo
descer ate sua barriga e comear a desatar o cordo de sua cala. Suas prprias
mos se fecharam, agarrando as cobertas. Rashid deitou-se sobre o seu corpo, se
remexeu e se ajeitou, e ela soltou um gemido, com os olhos bem apertados, os dentes
cerrados.
        A dor foi repentina e impressionante. Ela arregalou os olhos, inalou por
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entre os dentes e mordeu a articulao do polegar. Passou o outro brao pelas
costas de Rashid e agarrou a camisa dele, com toda fora.
       Rashid enterrou o rosto no travesseiro e Mariam, com os olhos bem abertos,
ficou fitando o teto por sobre o seu ombro, trmula, com os lbios contrados,
sentindo o calor daquela respirao acelerada em seu pescoo. O ar recendia a fumo,
s cebolas e ao carneiro assado que tinham comido um pouco mais cedo. De vez em
quando, a orelha dele roava em seu rosto, e, pelo toque spero, dava para saber
que ele tinha se barbeado.
       Depois, Rashid saiu de cima dela, Ofegante, e ficou ali deitado, com o brao
apoiado na testa. No escuro, Mariam podia ver os ponteiros azulados do seu relgio.
Ficaram assim por alguns instantes, de barriga para cima, sem se olhar.
       -- No precisa ter vergonha, Mariam -- disse ele, de forma um tanto
indistinta. --  o que as pessoas casadas fazem.  o que o prprio Profeta fazia com
suas esposas. No h vergonha nenhuma nisso.
       Momentos mais tarde, Rashid afastou as cobertas, levantou-se e saiu do
quarto. Mariam ficou ali, com o travesseiro marcado pela presena de sua cabea,
sentindo aquela dor l embaixo, fitando as estrelas glidas o cu e uma nuvem que
encobria a lua como um vu de noiva.

       12
       NAQUELE ANO DE 1974, o Ramad caiu no outono. Pela primeira vez na vida,
Mariam viu como a chegada da lua crescente podia transformar a cidade inteira,
alterando o seu ritmo e o seu humor. Notou que um silncio sonolento tomava conta
de Cabul. O trnsito ficava mais lento, arrastado, quase parando. As lojas viviam
vazias. Os restaurantes apagavam as luzes, fechavam as portas. No se viam fumantes
pelas ruas, nem xcaras de ch fumegando no parapeito das janelas. Na hora do
iftar, quando o sol ia se pondo e o canho era disparado l da montanha Shir
Darwaza, a cidade quebrava o seu jejum e Mariam fazia o mesmo, comendo po e uma
tmara, experimentando, pela primeira vez em seus 15 anos de vida, a doura de
participar de uma vivncia comunitria.
       A exceo de uns poucos dias, Rashid no fazia jejum. E, quando fazia,
voltava para casa de mau humor. A fome o deixava lacnico, irritadio, impaciente.
Certa noite, como Mariam se atrasou um tantinho de nada com o jantar, ele comeou a
comer po com rabanetes. Mesmo depois que ela ps o arroz, o cordeiro e a qurma de
quiabo a sua frente, Rashid no tocou na comida. Sem dizer nada, continuou
mastigando o po, as mandbulas se movendo e a veia da testa inchada e furiosa.
Ficou ali, mastigando e olhando para ela, e, quando Mariam lhe disse algo, ele a
fitou sem v-la e ps outro pedao de po na boca.
       Ela ficou aliviada quando o Ramad chegou ao fim.
       Na poca em que morava l na kolba, Jalil vinha visit-las no primeiro dos
trs dias do Eid-ul-Fitr, a celebrao que se segue ao Ramad. Usando terno e
gravata, ele chegava trazendo presentes de Eid. Uma vez, foi um cachecol de l. Os
trs se sentavam para tomar ch e, ento, Jalil se desculpava dizendo que tinha de
ir embora.
       -- L vai ele celebrar o Eid com a famlia de verdade -- dizia Nana assim que
ele atravessava o riacho, acenando.
       O mul Faizullah tambm vinha v-las. Trazia para Mariam bombons e
biscoitos. Depois que ele saa, Mariam trepava num dos salgueiros com suas
guloseimas. Encarapitada num galho bem alto, comia os bombons e ia deixando cair os
papis que se espalhavam ao redor da rvore como florezinhas prateadas. Quando
acabavam os chocolates, comeava a comer os biscoitos, e, com um lpis, desenhava
carinhas nos ovos que o mul tinha lhe dado. Mas isso nem lhe dava tanto prazer.
Mariam tinha medo do Eid, essa poca solene e cheia de hospitalidade, quando as
famlias vestiam as suas melhores roupas e se visitavam umas s outras.
       A menina ficava imaginando o clima de felicidade e animao que devia
imperar em Herat, com todas aquelas pessoas alegres trocando presentes e votos de
felicidades. Nessas horas, uma profunda tristeza a envolvia, e s melhorava quando
o Eid j tinha passado.
       Este ano, pela primeira vez, Mariam viu com seus prprios olhos o Eid que
imaginava em criana.
       Foi passear pelas ruas com Rashid e nunca tinha andado em meio a tanta
animao. Sem temer o frio, famlias inteiras invadiram a cidade em seu frentico
vaivm para visitar parentes e amigos. Na rua onde moravam, Mariam viu Fariba com o
filho Noor, que estava de terno. Fariba, usando uma echarpe branca, andava ao lado
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de um homem de culos, franzino e com um ar tmido. Seu filho mais velho tambm
estava com eles estranhamente, Mariam se lembrava de Fariba ter dito, naquela
primeira vez que foi at o tandoor, que o nome dele era Ahmad. Era um garoto de
olhos fundos e sonhadores e um rosto mais srio, mais solene do que o do irmo
menor, um rosto que sugeria maturidade um tanto precoce, ao passo que o do caula
revelava uma persistente criancice. No Pescoo, Ahmad levava um pingente brilhante
com o nome de Allah.
       Apesar da burqa, Fariba deve t-la reconhecido andando ali, ao lado de
Rashid. Com um aceno, exclamou:
       -- Eid mubarak!
       Por trs da burqa, Mariam lhe fez um aceno discretssimo.
           -- Quer dizer que conhece essa mulher, a esposa do professor?
       -- Perguntou Rashid.
       Mariam disse que no.
       --  melhor mesmo manter distncia. Essa a  uma fofoqueira de marca maior.
E o marido se acha um intelectual. Mas no passa de um ratinho. Olhe s para ele.
No parece um ratinho?
       Foram para Shar-e-Nau onde as crianas brincavam usando camisas novas,
roupas bordadas e de cores vivas, e comparavam os presentes que tinham ganhado. As
mulheres carregavam bandejas com doces. Mariam viu lanterninhas festivas penduradas
nas vitrines das lojas, ouviu a msica que vinha dos alto-falantes. Estranhos lhes
diziam "Eid mubarak" quando passavam por eles.
       Naquela noite foram a Chaman e, ao lado de Rashid, Mariam viu os fogos de
artifcio iluminando o cu com clares verdes, rosa e amarelos. Teve saudades das
vezes em que ficou sentada junto com o mul Faizullah, do lado de fora da kolba,
vendo os fogos que brilhavam ao longe, no cu de Herat, e aqueles sbitos clares
refletidos nos olhos doces de seu professor, j turvos pela catarata. Acima de
tudo, porm, sentiu saudade de Nana. Adoraria que a me estivesse viva para ver
isso. Para v-la em meio a tudo isso. Para ver, enfim, que alegria e beleza no so
coisas inatingveis. Mesmo para gente como elas.
       Por ocasio do Eid, receberam visitas. Todas elas de homens, amigos de
Rashid. Quando chegava algum, Mariam subia para o seu quarto e fechava a porta.
Ficava ali enquanto, l embaixo, os homens tomavam ch, fumavam e conversavam.
Rashid tinha lhe recomendado que no descesse ate as visitas irem embora.
       Mariam no se importava com isso. Na verdade, ficava at lisonjeada. Para
Rashid, o que havia entre eles tinha algo de sagrado. A sua honra, sua namoos era
alguma coisa a ser preservada. Ela se sentia valorizada por aqueles cuidados.
Sentia-se valorizada, importante.
       No terceiro e ultimo dia do Eid, Rashid foi visitar uns amigos. Mariam, que
tinha passado a noite inteira enjoada, ferveu gua e preparou uma xcara de ch
verde polvilhado com cardamomo modo. Na sala, comeou a arrumar os vestgios das
visitas da noite anterior: xcaras viradas, farelos de sementes de abbora cados
entre as almofadas, pratos com restos de comida. "Como os homens podem ser
incrivelmente relaxados", pensava ela, impressionada, enquanto tratava de limpar
toda aquela baguna.
       No tinha a inteno de ir ao quarto de Rashid, mas, no embalo da limpeza
subiu as escadas, entrou pelo corredor e chegou  porta daquele quarto. Quando deu
por si, estava ali dentro pela primeira vez, sentada na cama, sentindo-se uma
invasora.
       Viu as cortinas verdes, pesadas, os pares de sapatos engraxados, todos
enfileirados junto  parede, a porta do armrio com a tinta cinza descascando e
deixando ver a madeira por baixo. Avistou um mao de cigarros na cmoda ao lado da
cama. Ps um cigarro na boca. Diante do pequeno espelho oval pendurado na parede,
fingiu fumar, soltando baforadas de ar e fazendo o gesto de bater a cinza. Depois,
devolveu o cigarro ao mao. Nunca teria aquela desenvoltura graciosa com que as
mulheres de Cabul fumavam. Nela, aqueles gestos pareciam grosseiros, ridculos.
       Sentindo-se culpada, abriu a gaveta de cima.
       A primeira coisa que viu foi o revlver. Era uma arma preta, com cabo de
madeira e cano curto. Mariam tomou o cuidado de verificar para que lado ela estava
virada antes de peg-la. Girou o revlver nas mos. Era muito mais pesado do que
parecia. Sentiu a maciez da madeira e o frio do metal. Ficava aflita por saber que
Rashid possua algo cuja nica funo  matar outra pessoa. Mas, com certeza, ele
tinha aquela arma por uma questo de segurana. Para a prpria segurana dela.
       Debaixo do revlver, havia vrias revistas com as pontas amassadas. Mariam
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abriu uma delas e tomou o maior susto. Chegou a abrir a boca, involuntariamente.
       Em cada pgina havia mulheres, mulheres lindas, sem camisa, sem calas, sem
meias, sem calcinha. No usavam absolutamente nada. Estavam deitadas em camas,
entre lenis revirados, e olhavam para Mariam com os olhos semicerrados. Na
maioria das fotos, as mulheres tinham as pernas abertas e dava para ver
perfeitamente o local escuro ali no meio. Em algumas, elas estavam prostradas -- que
Deus perdoe essa associao como em sudja para a orao. E olhavam para trs, com
um ar de satisfao entediada. Mariam logo tratou de botar a revista no lugar de
onde a tirara. Estava atordoada. Quem seriam aquelas mulheres? Como se deixavam
fotografar daquele jeito? Sentiu o estmago embrulhado. Ento era isso que ele
fazia nas noites em que no vinha ao seu quarto? Ser que o tinha desapontado a
este respeito? E toda aquela histria de honra e propriedade; as suas crticas s
freguesas que, afinal de contas, estavam apenas lhe mostrando os ps para ele tomar
suas medidas? "O rosto de uma mulher s interessa ao seu marido." No foi isso que
ele disse? Com certeza, as mulheres da revista tm maridos; algumas delas, pelo
menos. Ou, no mnimo, tm irmos. Sendo assim, por que Rashid insistia para que ela
se cobrisse quando no via nada de mais em ficar olhando para as partes ntimas de
esposas e irms de outros homens?
       Mariam sentou na cama, constrangida e confusa. Escondeu o rosto entre as
mos, fechou os olhos e ficou respirando, respirando, at se sentir mais calma.
       Lentamente, foi surgindo uma explicao. Afinal, Rashid era um homem, um
homem que vivia sozinho antes de sua vinda para aquela casa. Suas necessidades eram
diferentes. Para ela, todos aqueles meses de vida conjugal ainda eram um exerccio
para tolerar a dor. J o apetite dele era voraz, s vezes beirando ate a violncia.
O jeito como ele a imobilizava, como apertava com fora os seus seios, como movia
furiosamente os quadris... Rashid era um homem. E ficou anos sem uma mulher. Ser
que podia culp-lo por ser exatamente como Deus o criou?
       Mariam sabia que nunca poderia conversar com ele a esse respeito. Era
impossvel tocar naquele assunto. Mas seria imperdovel? Bastava pensar no outro
homem de sua vida. Jalil, marido de trs mulheres e pai de nove filhos, teve
relaes com Nana fora dos laos do casamento. O que era pior, a revista de Rashid
ou o que Jalil tinha feito? E que direito tinha, afinal, de julgar os outros? Logo
ela, uma alde, uma harami...
       Abriu ento a ultima gaveta da cmoda.
       Foi l que encontrou uma foto do garoto, Yunus. Era um retrato em
preto-e-branco. Ele parecia ter uns quatro ou cinco anos. Estava usando uma camisa
listrada e uma gravata borboleta. Era um menininho bem bonito, com um nariz fino,
cabelo castanho-escuro, olhos ligeiramente fundos. Parecia distrado, como se algo
tivesse chamado a sua ateno bem na hora em que a foto foi tirada.
       Debaixo deste retrato, havia um outro, tambm em preto-e-branco e
ligeiramente menos ntido. Era uma mulher, sentada, e, por trs dela, um Rashid bem
mais magro e mais jovem, de cabelo preto. A mulher era bonita. Talvez no tanto
quanto aquelas da revista, mas bonita. Decerto mais bonita que ela, Mariam. Tinha
um queixo longo e delicado e cabelo preto repartido no meio. As mas do rosto eram
proeminentes e a testa delicada. Mariam pensou no prprio rosto, com aqueles
lbios estreitos e o queixo comprido e sentiu uma pontinha de cime.
       Ficou um bom tempo olhando para aquela foto. Havia algo vagamente
perturbador na forma como Rashid parecia se agigantar com relao  esposa com as
mos pousadas nos ombros dela e um sorriso satisfeito, apenas esboado, em
contraste com aquele rosto sombrio que no sorria. E a forma como o corpo da mulher
se inclinava discretamente para frente, como se ela estivesse tentando se livrar
daquelas mos.
       Mariam botou tudo de volta no lugar.
       Mais tarde, quando lavava roupa, lamentou ter entrado assim no quarto de
Rashid. Para qu, afinal? O que descobriu de to substancial a seu respeito? Que
ele tinha um revlver, que era um homem com necessidades de homem? E no deveria
ter ficado olhando a foto dele com a mulher por tanto tempo. Seus olhos atriburam
sentido ao que era apenas uma postura aleatria apreendida num momento determinado.
       O que sentia agora, com o varal pendendo pesado a sua frente, era pena de
Rashid. Ele tambm teve uma vida difcil, uma vida marcada por perdas e tristes
reviravoltas do destino. Pensou no filho dele, Yunus, que, um dia, fez bonecos de
neve neste mesmo quintal, cujos ps percorreram esta mesma escada. O lago o roubou
de Rashid, engolindo-o como a baleia engoliu aquele profeta do Coro que tinha o
mesmo nome do menino. Mariam se entristeceu -- se entristeceu profundamente -- s de
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imaginar a dor e o desespero de Rashid, andando para l e para c na beira do lago,
implorando-lhe que devolvesse seu filho  terra firme. E, Pela primeira vez, se
sentiu ligada ao marido. Disse consigo mesma que, afinal de contas, eles seriam
timos companheiros.

       13
       No NIBUS, VOLTANDO DO MDICO, a coisa mais estranha do mundo estava
acontecendo com Mariam. Para onde quer que se virasse, via cores brilhantes: nos
montonos prdios de concreto, nas lojinhas sem porta e de telhado de zinco, na
gua lamacenta que corria pela sarjeta. Era como se um arco-ris tivesse penetrado
em seus olhos.
       Rashid ia tamborilando com a mo enluvada, cantarolando uma cano. Cada vez
que o nibus passava num buraco e dava um solavanco, a mo dele se apressava em
proteger a barriga de Mariam.
       -- O que voc acha de Zalmai? -- perguntou ele. --  um bom nome pashtun.
       -- E se for menina? -- indagou Mariam.
       -- Acho que vai ser menino. Isso mesmo. Um menino.
       Um murmrio percorreu o veculo. Alguns passageiros apontavam alguma coisa e
outros se inclinavam tentando ver.
       -- Olhe! -- exclamou Rashid, dando umas pancadinhas na vidraa. Estava
sorrindo. -- L. Esta vendo?
       Na rua, Mariam viu gente parando onde quer que estivesse. Nos sinais,
surgiam rostos das janelas dos carros, voltados para aquela maciez que caa. "O que
a primeira neve da estao tinha de to especial", pensou Mariam, "o que a tornava
to fascinante? Seria a possibilidade de ver algo ainda puro, ainda intocado?
Capturar a graa efmera de uma nova estao, um adorvel comeo, antes que tudo
aquilo fosse pisoteado e estragado?"
       -- Se for uma menina... -- disse Rashid. -- Sei que no , mas se por acaso
for, voc pode escolher o nome que quiser.
       No dia seguinte, Mariam acordou com o rudo de serra e martelo. Embrulhou-se
num xale e foi at o quintal branco de neve. A forte nevasca da noite anterior
tinha parado. Agora, eram apenas uns flocos ligeiros que rodopiavam e lhe batiam no
rosto. O ar parado cheirava a carvo em brasa. Cabul estava estranhamente
silenciosa, envolta em branco, com uma ou outra espiral de fumaa despontando aqui
e ali.
       Foi encontrar Rashid no galpo, martelando uns pregos numa tbua. Quando ele
a viu, tirou um prego do canto da boca.
       -- Era para ser surpresa. Ele vai precisar de um bero. Era para voc s ver
depois de pronto.
       Mariam adoraria que ele no depositasse assim todas as suas esperanas no
nascimento de um menino. Por mais feliz que estivesse com a gravidez, a expectativa
de Rashid acabava sendo um peso para ela. Na vspera, ele tinha voltado da rua com
um casaco de menino, todo de camura, forrado de pele de carneiro, com as mangas
bordadas com linha de seda finssima, em tons de vermelho e amarelo.
       Rashid ergueu uma tbua comprida e estreita. Comeou a serr-la ao meio e
comentou que ficava preocupado com as escadas.
       -- Vamos ter de tomar uma providncia quando ele tiver idade para subir.
       O forno tambm era um perigo. As facas e os garfos teriam de ser guardados
em algum lugar fora de seu alcance.
       -- No d para descuidar de nada. Os meninos no param -- disse ele. Ao ouvir
isso, Mariam se embrulhou ainda mais no xale, protegendo-se do frio.
       No dia seguinte, Rashid lhe disse que queria convidar uns amigos para um
jantar de comemorao. Mariam passou a manh toda lavando lentilhas e deixando o
arroz de molho. Cortou berinjelas para fazer um borani, cozinhou alho-porro e moeu
carne para o aushak. Varreu o cho, espanou as cortinas, abriu bem a casa para
arej-la embora estivesse nevando outra vez. Arrumou os colchonetes e as almofadas
junto s paredes da sala, ps potinhos com amndoas tostadas e confeitadas em cima
da mesa. No inicio da noite, antes que o primeiro dos homens chegasse, j estava em
seu quarto. Quando se deitou, as exclamaes, os risos, as vozes animadas comeavam
a se multiplicar l embaixo. No podia se impedir de ficar passando a mo pela
barriga. Ficava pensando naquele ser que estava crescendo ali dentro e a felicidade
a envolvia como uma lufada de vento entrando por uma porta escancarada. Seus olhos
se encheram de gua.
       Lembrou-se daquela viagem de nibus com Rashid; dos 650 quilmetros que
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
separavam Herat, a oeste, perto da fronteira com o Ir, e Cabul, a leste. Passaram
por cidades, grandes e pequenas, e por todo um emaranhado de aldeias que iam
surgindo, uma atrs da outra. Tinham subido montanhas e atravessado desertos
ridos, de provncia em provncia. E, agora, l estava ela, no alto daquelas
colinas secas e pedregosas, em sua casa, com seu marido, e se encaminhando para uma
realidade mais que desejada: a maternidade. Como era bom pensar nesse beb, no seu
beb, no beb deles dois... Que maravilha saber que o seu amor por ele j era muito
maior que qualquer sentimento que houvesse experimentado; saber que nunca mais
precisaria ficar brincando com pedrinhas...
        L embaixo, algum estava tocando harmnio. Depois, veio o som da tabla
acompanhando. Algum pigarreou. E, logo a seguir, estavam todos assobiando, batendo
palmas e cantando.
        Mariam acariciou a barriga. "No muito maior que uma unha", como disse o
medico.
        "Vou ser me", pensou ela.
        -- Vou ser me -- disse ela, em voz alta. E comeou a rir sozinha, repetindo
aquela frase, saboreando aquelas palavras.
        Quando pensava no beb, seu corao crescia no peito. Crescia e crescia at
que todas as tristezas, as dores, a solido e o sentimento de inferioridade que
haviam povoado a sua vida desapareciam por completo. Foi para isso que Deus a
trouxe at aqui, fazendo-a atravessar o pas de um lado a outro. Agora, sabia
disso. Lembrou de um versculo do Coro que o mul Faizullah tinha lhe ensinado: "A
Allah pertencem o leste e o oeste, e para onde quer que vos volteis l encontrareis
a face de Allah..." Ajoelhou-se no tapete de oraes e fez suas namaz. Quando
terminou, escondeu o rosto com as mos e pediu a Deus que no deixasse toda essa
felicidade lhe escapar.
        Foi Rashid quem teve a idia de ir ao hamam. Mariam nunca tinha estado numa
casa de banho turco, mas ele lhe disse que no havia nada melhor que sair dali e,
ao receber a primeira lufada de ar frio, sentir o calor brotando da prpria pele.
        No hamam das mulheres, vultos circulavam em meio ao vapor  sua volta e
Mariam avistava um quadril aqui, o contorno de um ombro ali. Os gritinhos das mais
jovens, os grunhidos das mais velhas e o barulhinho da gua ecoavam por aquelas
paredes enquanto costas eram esfregadas e cabelos ensaboados. Mariam foi se sentar
sozinha num canto, passando pedra-pomes nos calcanhares, protegida daqueles vultos
que circulavam por uma cortina de vapor.
        De repente, o sangue, e ela comeou a gritar.
        Depois, foram os passos, o rudo de ps nas pedras molhadas do cho. Rostos
que a fitavam atravs do vapor. Lnguas estalando.
        Mais tarde, naquela noite, quando j estava na cama, Fariba disse ao marido
que, quando ouviu o grito e correu at l, viu a esposa de Rashid toda encolhida
num canto, abraando os joelhos e com uma poa de sangue a seus ps.
        -- Dava para ouvir os dentes da pobre menina batendo, Hakim, de tanto que ela
tremia.
        Quando Mariam a viu, disse ainda Fariba, perguntou-lhe em tom de splica: "
normal, no ? No ? Isso no  normal?"
        Mais uma vez no nibus com Rashid. Mais uma vez, estava nevando. E nevando
forte. A neve ia cobrindo caladas, telhados, se acumulando nos galhos espetados
das rvores. Mariam viu comerciantes tirando a neve da porta das lojas. Um grupo de
meninos que corria atrs de um cachorro preto acenou animadamente para o nibus
quando este passou. Olhou ento para Rashid. Ele estava de olhos fechados. E no
cantarolava. Mariam recostou a cabea e tambm fechou os olhos. Queria tirar as
meias geladas, o suter molhado que pinicava sua pele. Queria saltar desse nibus.
        Quando chegaram em casa, ela se deitou no sof e Rashid a cobriu com uma
manta, mas havia algo de rgido naquele gesto, como se fosse apenas uma obrigao.
        -- Isso  l resposta que se d! -- exclamou ele mais uma vez. -- Um mul, sim,
diria isso. Se estou pagando uma consulta, quero uma resposta melhor do que "E a
vontade de Deus"!
        Mariam encolheu as pernas debaixo da manta e disse que precisava descansar.
        -- A vontade de Deus... -- resmungou ele. E passou o dia inteiro no quarto,
fumando.
        Mariam ficou ali deitada no sof, com as mos entre os joelhos, olhando a
neve que girava e rodopiava do outro lado da vidraa. Lembrou que Nana tinha dito,
certa vez, que cada floco de neve era o suspiro de uma mulher sofrida em algum
canto do mundo. Todos esses suspiros subiam ao cu, formavam nuvens e, ento, se
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partiam em mil pedacinhos que caiam, em silencio, sobre as pessoas aqui embaixo.
       "Para lembrar como sofrem as mulheres como ns", disse ela. "Como agentamos
caladas tudo o que nos acontece."
       14
       A DOR CONTINUAVA A SURPREENDER MARIAM. Bastava ela pensar no bero
inacabado, ali no galpo do jardim, ou no casaco de camura guardado no armrio de
Rashid. Com isso, o beb ganhava vida e ela podia ouvi-lo, podia ouvi-lo resmungar,
com fome, podia ouvir seus murmrios e seus balbucios. Sentia a criana farejando
os seus seios. Aquela dor a invadia, a dominava, revirava todo o seu ser. Mariam
estava estarrecida: como podia sentir tanta saudade de algum que jamais tinha
chegado a ver?
       Depois, vieram dias em que a tristeza no lhe parecia to insuportvel. Dias
em que a simples idia de retomar o ritmo de vida anterior no parecia to
desalentadora. Ento, ela no precisava de tanto esforo para se levantar da cama,
fazer suas oraes, lavar as coisas, preparar as refeies de Rashid.
       Mariam estava com medo de sair. De repente, tinha inveja das mulheres da
vizinhana com aquela profuso de filhos. Algumas delas, com sete ou oito, no
percebiam a sorte que tinham, como eram abenoadas por aquelas crianas terem
florescido em seu tero, sobrevivido para se remexer em seus braos, mamar em seus
seios. Filhos que no tinham se esvado com a gua ensaboada e os fluidos dos
corpos de estranhos, descendo pelo ralo de uma casa de banhos. Mariam ficava
indignada quando ouvia aquelas mulheres se queixando porque os filhos no se
comportavam ou as filhas eram preguiosas.
       Uma voz, em sua cabea, tentava consol-la com palavras bem-intencionadas,
mas inteis.
       "Voc vai ter outros filhos, Inshallah. Ainda  jovem. Com certeza ter
muitas outras oportunidades."
       Mas a dor de Mariam no era vaga e indeterminada. Estava sofrendo por aquele
beb, aquela criana em particular, que, por algum tempo, a tinha feito to feliz.
       s vezes, achava que o beb tinha sido uma bno que ela no merecia, e que
estava sendo punida pelo que tinha feito a Nana. Pois no era exatamente como se
ela mesma tivesse posto a corda no pescoo da me? Filhas ingratas no merecem ser
mes, e o castigo era justo. De quando em quando, sonhava que o jinn de Nana vinha
ao seu quarto, a noite, se arrastando, para abrir sua barriga com as garras e
roubar o seu beb. Nesses sonhos, Nana ria muito, deliciada com aquela vingana.
       Outros dias, Mariam ficava torturada pela raiva. Tudo aquilo era culpa de
Rashid com suas comemoraes prematuras. Com aquela certeza infundada de que seria
um menino. Chegando at a escolher o nome do beb... Menosprezando os desgnios de
Deus. A ida a casa de banhos tambm foi culpa dele. Alguma coisa naquele lugar, o
vapor, a gua suja, o sabo, alguma coisa ali provocou aquilo. No. No era Rashid.
A culpa era toda dela. Teve raiva de si mesma por dormir na posio errada, comer
coisas condimentadas demais, no comer bastantes frutas, tomar muito ch.
       A culpa era de Deus, por zombar dela daquele jeito. Por no lhe conceder o
que concedia a tantas outras mulheres. Por acenar para ela, de forma to sedutora,
com a coisa que a deixaria mais feliz e, depois, voltar atrs.
       Mas de nada adiantava tudo aquilo, todas essas acusaes, toda essa procura
por culpados. Ter esses pensamentos era at kofr, um verdadeiro sacrilgio. Allah
no e malvado, no  um Deus mesquinho. As palavras do mul Faizullah ressoavam em
sua cabea: "Bendito seja Aquele em Cujas mos esta o remo e Que tem poder sobre
tudo, Que criou a vida e a morte, para testar-vos e saber quem de vs age melhor."
       Dilacerada pela culpa, Mariam se ajoelhava e rezava, pedindo perdo por
esses pensamentos.
       Rashid tinha mudado desde aquele dia na casa de banhos.  noite, quando
voltava para casa, praticamente no falava. Jantava, fumava, ia para a cama. s
vezes, aparecia no meio da noite para fazer sexo. Tudo acontecia rapidamente e, nos
ltimos tempos, de forma brutal. Andava emburrado, achava defeitos na comida,
queixava-se da baguna no quintal e reclamava da mnima sujeira na casa.
Ocasionalmente, levava-a para passear s sextas-feiras, como fazia antes, mas ia
andando depressa e sempre alguns passos  sua frente, sem conversar, parecendo
ignorar Mariam que tinha quase de correr para acompanh-lo. No ria mais com tanta
facilidade durante esses passeios. No lhe comprava mais doces nem presentes, no
parava para lhe dizer os nomes dos lugares como antes. E as perguntas que ela fazia
pareciam irrit-lo.
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       Certa noite, estavam os dois sentados na sala ouvindo rdio. O inverno
estava terminando. Os ventos fortes que atiravam a neve no rosto e faziam os olhos
ficarem marejados j tinham se abrandado. Os flocos de neve comeavam a derreter
nos galhos dos grandes choupos e, em poucas semanas, seriam substitudos por
brotinhos midos de um verde plido. Com um ar ausente, Rashid acompanhava com o p
o ritmo da tabla numa cano Hamahang, com os olhos semicerrados por causa da
fumaa do cigarro.
       -- Voc est zangado comigo? -- perguntou Mariam.
       Rashid no respondeu. A cano terminou e comeou o noticirio. Uma voz
feminina anunciou que o presidente Daoud Khan tinha mandado mais um grupo de
assessores soviticos de volta a Moscou, o que, sem dvida alguma, desagradaria o
Kremlin.
       -- Estou preocupada, achando que voc est zangado comigo.
       Rashid suspirou.
       -- Est?
       Ele a fitou.
       -- Por que estaria? -- indagou.
       -- No sei, mas desde que o beb...
       -- Acha que sou esse tipo de homem, mesmo depois de tudo que fiz por voc?
       -- No, claro que no.
       -- Ento, pare de me aborrecer!
       -- Desculpe. Bebakhsh, Rashid. Me desculpe.
       Ele apagou o cigarro e acendeu outro. Aumentou o volume do rdio.
       -- Andei pensando... -- disse Mariam, erguendo a voz para se fazer ouvir a
despeito da msica.
       Rashid suspirou novamente, desta feita, mais irritado, e baixou o volume do
rdio.
       -- O que foi agora? -- perguntou, esfregando a testa com um ar desanimado.
       -- Andei pensando que talvez devssemos fazer um enterro. Para o beb, 
claro. S nos dois, algumas oraes, e pronto.
       Mariam vinha pensando nisso h algum tempo. No queria esquecer aquele beb.
No parecia correto deixar passar assim em branco essa perda.
       -- Para qu? Isso  besteira.
       -- Acho que me sentiria melhor.
       -- Pois, ento, faa isso -- retrucou ele, com rispidez. -- J enterrei um
filho. No vou enterrar outro. Agora, se no se importa, estou tentando ouvir
radio.
       Aumentou o volume novamente, recostou a cabea no sof e fechou os olhos.
       Numa manh ensolarada, nessa mesma semana, Mariam escolheu um lugar no
quintal e cavou um buraco.
       "Em nome de Allah e com Allah, e em nome do mensageiro de Allah sobre quem
recaem as bnos e a paz de Allah", disse ela bem baixinho, enquanto a p ia
escavando a terra. Ps ali dentro o casaco de camura que Rashid tinha comprado
para o beb e cobriu o buraco com a terra.
       "Tu inseres a noite no dia e inseres o dia na noite; extrais o vivo do morto
e o morto do vivo, e agracias imensuravelmente a quem Te apraz."
       Assentou a terra com o dorso da p. Agachou-se ali ao lado, e fechou os
olhos.
       "Vela por mim, Allah."
       "E d-me foras."

       15
       Abril de 1978
       No DIA 17 DE ABRIL DE 1978, ano em que Mariam fazia 19 anos, um homem
chamado Mir Akbar Khyber foi encontrado morto. Dois dias depois, houve uma grande
manifestao em Cabul. As ruas do bairro estavam cheias de gente comentando o
assunto. Pela janela, Mariam via os vizinhos circulando para l e para c,
conversando animadamente, com o radinho de pilha colado ao ouvido. Viu Fariba,
recostada no muro de sua casa, conversando com uma mulher que havia se mudado
recentemente para Deh-Mazang. Fariba sorria, e, com as mos, segurava a barriga
proeminente de grvida. A outra mulher, de cujo nome Mariam no se lembrava,
parecia mais velha e tinha o cabelo pintado de um estranho tom arroxeado. Estava
segurando um menino pela mo. Mariam sabia que ele se chamava Tariq, pois j tinha
ouvido a tal mulher cham-lo por esse nome.
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       Mariam e Rashid no se juntaram aos vizinhos. Ouviram, pelo rdio, que cerca
de dez mil pessoas tinham ido para as ruas e percorriam o distrito governamental da
capital, para cima e para baixo. Rashid lhe disse que Mir Akbar Khyber era um
comunista de destaque e que seus correligionrios culpavam o governo de Daoud Khan
por seu assassinato. Mas falou isso sem sequer olhar para ela. Alis, ele no fazia
mais isso ultimamente e Mariam at ficava na dvida se o marido estava mesmo
falando com ela.
       -- O que  um comunista? -- perguntou. Rashid ergueu as sobrancelhas, com um
grunhido.
       -- No sabe o que  um comunista? Uma coisa to simples. Qualquer um sabe o
que  isso. Voc no... Ora, no sei por que estou to espantado -- disse ele.
Depois, cruzou os ps em cima da mesa e resmungou que era algum que acreditava no
Karl Marxismo.
       -- E quem  Karl Marxismo?
       Rashid suspirou.
       No rdio, uma voz feminina estava dizendo que Taraki, lder do ramo Khalq do
PDPA, o partido comunista afego, estava nas ruas incitando os manifestantes com
discursos inflamados.
       -- O que eu queria saber : o que eles pretendem? -- indagou Mariam. -- Esses
tais de comunistas acreditam em qu?
       Rashid deu um risinho e balanou a cabea, mas Mariam julgou ter visto
hesitao no jeito como ele cruzou os braos e desviou os olhos.
       -- Voc no sabe nada, no  mesmo?  feito uma criana. O seu crebro 
vazio. No h nenhuma informao a dentro -- disse ele.
       -- Mas eu pergunto por que...
       -- Chup ko! Cale essa boca! Ela obedeceu.
       No era nada fcil agentar aquele jeito de falar, aquele tom de deboche,
aqueles insultos; aceitar que o marido passasse ao seu lado como se ela fosse
apenas o gato da casa... Depois de quatro anos de casamento, porm. Mariam
compreendia claramente tudo o que uma mulher tem de suportar quando est assustada.
E ela estava. Vivia com medo das mudanas de humor de Rashid, de seu temperamento
inconstante, de sua insistncia em transformar a conversa mais banal em discusses
ocasionalmente resolvidas com socos, tapas e pontaps, e que, s vezes, mereciam um
arremedo de desculpas, mas outras vezes, nem isso.
       Nos quatros anos que se passaram desde aquele dia na casa de banhos, houve
seis momentos em que a esperana surgiu, para, depois, ir por gua abaixo, e cada
perda, cada derrocada, cada ida ao consultrio do mdico era ainda mais arrasadora
que a anterior. A cada desapontamento, Rashid foi ficando mais distante e
ressentido. Agora, nada que ela pudesse fazer o agradava. Mariam limpava a casa,
cuidava para que nunca lhe faltassem camisas limpas, preparava os seus pratos
favoritos. Certa feita, teve a infeliz idia de comprar maquiagem e usar, para ele.
Mas, quando Rashid chegou do trabalho, e a viu daquele jeito, demonstrou tamanha
repugnncia que ela correu para o banheiro e lavou o rosto com as lgrimas de
vergonha se misturando  gua, ao sabo, ao ruge e ao rime.
       Atualmente, Mariam ficava apavorada s de ouvi-lo chegando  noite. O rudo
da chave, o rangido da porta eram sons que faziam o seu corao disparar. Da cama,
ouvia o barulho de seus passos, o deslizar abafado de seus ps descalos depois que
ele tinha tirado os sapatos. S pelos sons, ela acompanhava seus movimentos: os ps
da cadeira arrastando no cho, o gemido do assento de palhinha quando ele se
sentava, o tilintar da colher no prato, o farfalhar das pginas do jornal, o
gorgolejo da gua. E, com o corao aos pulos, ela se perguntava qual seria a
desculpa dessa noite para agredi-la. Sempre havia algo, algum detalhe
insignificante que o irritava, qualquer coisa que ela fazia e que o desagradava,
por mais que ela se submetesse aos seus desejos e s suas solicitaes. Mariam no
pde lhe devolver o seu filho. Quanto a este aspecto fundamental, ela tinha
falhado, e falhado por sete vezes. Agora, no passava de um fardo para o marido.
Podia ver isso no jeito como ele a olhava, quando se dignava faz-lo. Era um fardo
para ele.
       -- O que vai acontecer agora? -- perguntou ela.
       Rashid a olhou de esguelha. Fez um rudo indefinido, entre o suspiro e o
grunhido, tirou as pernas de cima da mesa e desligou o rdio. Subiu para o quarto.
E fechou a porta.
       No dia 27, a pergunta de Mariam foi respondida pelos sons de estampidos e de
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
estrondos bruscos e intensos. Desceu correndo, descala, at a sala de estar, e viu
Rashid diante da janela, de camiseta, todo despenteado, com as mos apoiadas na
vidraa. Mariam se aproximou da janela, e se ps ao seu lado. No cu, os avies
militares passavam a toda, dirigindo-se para o norte e para o leste. Aquele rudo
ensurdecedor feria os seus ouvidos. Ao longe, ressoavam mais estrondos e erguiam-se
sbitos rolos de fumaa.
       -- O que est acontecendo, Rashid? -- perguntou ela. -- O que  isso?
       -- S Deus sabe -- murmurou ele. Tentou ligar o rdio, mas s se ouvia o
chiado da esttica.
       -- O que vamos fazer?
       -- Esperar -- respondeu ele, impaciente.
       Mais tarde, naquele mesmo dia, enquanto Rashid continuava tentando
sintonizar o rdio, Mariam estava preparando arroz com espinafre na cozinha.
Lembrava de uma poca em que gostava de cozinhar para o marido, aguardando, na
maior expectativa, a hora das refeies. Agora, aquilo era apenas uma tarefa que a
deixava ansiosssima. Seus qurmas estavam sempre salgados demais ou insossos demais
para o gosto de Rashid. O arroz, muito gorduroso ou muito seco, o po, mole demais
ou tostado demais. Essa mania que ele tinha de achar defeito em tudo a deixava
paralisada na cozinha, inteiramente insegura.
       Quando Mariam veio lhe trazer o seu prato, estava tocando o hino nacional no
radio.
       -- Fiz sabzi -- disse ela.
       -- Deixe o prato a e fique quieta.
       Quando a musica acabou, ouviu-se uma voz masculina que se apresentou como
Abdul Qader, coronel da Fora Area. Segundo o coronel, a Quarta Diviso Blindada
havia se rebelado, tomando o aeroporto e as principais conexes com a capital. A
Rdio Cabul, a sede dos ministrios da Comunicao, do Interior e das Relaes
Exteriores tambm haviam sido capturados. Cabul estava agora nas mos do povo,
declarou ele, orgulhoso. MiGs das foras rebeldes tinham atacado o Palcio
Presidencial. O local havia sido cercado pelos tanques e ainda se travava uma
batalha feroz por l. As foras leais a Daoud j estavam praticamente derrotadas,
acrescentou Abdul Qader num tom tranqilizador.
       Dias depois, quando os comunistas comearam a executar sumariamente todos os
que tinham qualquer relao com o regime de Daoud Khan; quando comearam a circular
pela cidade boatos que mencionavam olhos arrancados e rgos genitais eletrocutados
na priso de Pol-e-Charkhi, Mariam ouviu falar do massacre ocorrido no Palcio.
Daoud Khan estava morto. Antes, porem, os rebeldes comunistas haviam matado cerca
de vinte membros de sua famlia, inclusive mulheres e crianas. Dizia-se que ele
tinha tirado a prpria vida, ou que tinha levado um tiro na cabea no auge do
confronto. Dizia-se tambm que ele tinha sido deixado para o fim e obrigado a
assistir ao massacre de sua famlia, antes de ser fuzilado.
       Rashid aumentou o volume do rdio e aproximou o ouvido.
       "Foi criado um conselho revolucionrio das Foras Armadas, e nosso watan
ser conhecido como Repblica Democrtica do Afeganisto", declarou Abdul Qader. "A
era da aristocracia, do nepotismo e da desigualdade est encerrada, meus caros
hamwatans. Pusemos fim a dcadas de tirania. O poder est agora nas mos das massas
e daqueles que amam a liberdade. Tem incio um novo tempo de glria na histria de
nosso pas. Nasceu um novo Afeganisto. Podem estar certos de que no h o que
temer, meus compatriotas afegos. O novo regime manter o mximo respeito tanto
pelos princpios islmicos quanto pelos democrticos.  hora de nos alegrarmos e de
festejar."
       Rashid desligou o rdio.
       -- Ento, isso  bom ou ruim? -- indagou Mariam.
       -- Ao que parece, ruim para os ricos -- respondeu Rashid. -- Talvez nem tanto
para ns.
       Mariam pensou logo em Jalil. Ser que os comunistas iam persegui-lo? Ser
que o prenderiam? Prenderiam os seus filhos? Tomariam seus negcios e suas
propriedades?
       -- Est quente? -- perguntou Rashid fitando o arroz.
       -- Servi direto da panela.
       Ele resmungou e pediu que ela lhe passasse o prato.
       Mais abaixo, na mesma rua, quando a noite se iluminou com sbitos clares
vermelhos e amarelos, uma Fariba exausta se ergueu apoiada nos cotovelos. Ela tinha
o cabelo encharcado de suor e gotculas bordejavam seu lbio superior. Ao seu lado,
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uma parteira idosa, Wajma, observava o marido e os filhos de Fariba que passavam o
recm-nascido de mo em mo. Estavam encantados com o cabelo claro do beb, suas
faces rosadas e franzidas, a boquinha vermelha, e os olhos de um verde-jade se
movendo por detrs das plpebras inchadas. Todos se entreolharam, sorrindo, ao
ouvir sua voz pela primeira vez, um grito que, a princpio, mais parecia o miado de
um gato e que se transformou num berro forte e saudvel. Noor disse que os olhos do
beb pareciam pedras preciosas. Ahmad, que era o mais religioso da famlia, recitou
o azan ao ouvido da irmzinha e soprou trs vezes em seu rosto.
       -- Laila, no ? -- perguntou Hakim, embalando a filha.
       -- . Laila -- disse Fariba, com um sorriso cansado. -- Beleza da Noite. 
perfeito.
       Rashid fez um bolinho de arroz com a mo. Botou aquilo na boca, mastigou,
mastigou e, depois, com uma careta, cuspiu tudo na sofrah.
       -- O que houve? -- perguntou Mariam, odiando o tom de lamento da prpria voz.
Podia sentir sua pulsao se acelerando, sua pele se contraindo.
       -- O que houve? -- repetiu ele, como um miado, imitando-a. -- O que houve e que
voc fez besteira novamente.
       -- Mas deixei ferver por mais cinco minutos que o habitual.
       -- Isso e uma mentira deslavada!
       -- Juro...
       Rashid sacudiu o resto de comida das mos e afastou o prato, derrubando
molho e arroz na sofrah. Mariam o viu se levantar como uma bala, sair da sala, sair
da casa batendo a porta.
       Ajoelhou-se no cho e tentou catar os gros de arroz para bot-los de volta
no prato, mas suas mos tremiam tanto que precisou esperar que o tremor melhorasse.
O medo lhe apertava o peito. Tentou respirar fundo algumas vezes. Viu o seu rosto
plido refletido na vidraa e desviou os olhos.
       Depois, ouviu a porta da frente se abrindo e Rashid voltando para a sala.
       -- Levante da -- disse ele. -- Levante-se e venha c.
       Ento, ele agarrou a sua mo, abriu-a e depositou ali um punhado de
pedrinhas.
       -- Ponha isso na boca.
       -- O qu?
       -- Ponha... isso... na... boca.
       -- Pare, Rashid. Eu...
       Com aquelas mos vigorosas, ele agarrou o seu rosto. Meteu dois dedos em sua
boca, obrigando-a a abri-la, e enfiou ali aquelas pedrinhas duras e frias. Mariam
tentou lutar contra aquilo, mas ele continuou a enfiar as pedrinhas em sua boca com
o lbio superior erguido num sorriso de desdm.
       -- Agora, mastigue -- disse ele.
       Com a boca cheia de pedras e terra, Mariam tentou balbuciar uma splica. As
lgrimas lhe escorriam pelo canto dos olhos.
       -- MASTIGUE! -- berrou ele, e aquele hlito de cigarro atingiu em cheio o seu
rosto.
       E ela mastigou. L no fundo de sua boca, alguma coisa estalou.
       -- timo -- disse Rashid. Suas mandbulas tremiam. -- Agora voc sabe o gosto
do arroz que faz. Agora sabe o que tem me dado nesse casamento. Comida ruim, e nada
mais.
       E foi embora deixando Mariam cuspindo pedras, sangue e pedaos de dois
molares quebrados.

       PARTE II

       16
       Cabul, Primavera de 1987

       -- Laila! -- gritou ele. -- Desse jeito vou chegar atrasado!
       -- Um minuto!
       A menina calou os sapatos e, diante do espelho, deu umas escovadelas
rpidas no cabelo louro e ondulado que lhe batia nos ombros. Mammy sempre dizia que
ela tinha herdado aquele cabelo louro -- bem como os olhos de um verde quase
turquesa, com clios espessos, as mas do rosto salientes e a curva acentuada do
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lbio inferior, que ela tambm tinha -- de sua bisav, a av de mammy. "Ela era
pari, uma criatura belssima", dizia sua me. "Todos no vale comentavam a sua
beleza. Passaram-se duas geraes de mulheres na famlia, mas, pelo jeito, voc 
que tinha de puxar a ela, Laila." O vale a que mammy se referia era o Panjshir,
regio tadjique, de lngua farsi, que ficava a cem quilmetros a nordeste de Cabul.
Tanto mammy quanto babi, que eram primos em primeiro grau, tinham nascido e se
criado l. Mudaram-se para a capital em 1960, recm-casados e cheios de esperanas,
quando babi foi admitido na Universidade de Cabul.
        Laila correu escada abaixo, torcendo para a me no sair do quarto para o
segundo round. Encontrou o pai ajoelhado junto a porta de tela.
        -- Voc viu isso, Laila?
        O rasgo estava ali h mais de uma semana. Laila se agachou ao seu lado.
        -- No -- disse ela. -- Deve ser novo.
        -- Foi o que eu disse a Fariba. -- Babi parecia abalado, encolhido, como
sempre acontecia depois que mammy soltava os cachorros em cima dele. -- Ela disse
que esto entrando abelhas por a.
        Laila se enterneceu. Babi era um homem baixinho, de ombros estreitos e mos
esbeltas e delicadas, parecendo at mos de mulher.  noite, quando entrava no
quarto dele, sempre o via de cabea baixa, com o rosto enfiado num livro e os
culos na ponta do nariz. s vezes, ele sequer percebia que ela estava ali. Quando
notava, porm, marcava a pgina que estava lendo, e dava um sorrisinho discreto,
mas carinhoso. Babi sabia de cor quase todos os ghazals de Rumi e de Hafez. Era
capaz de falar sobre a luta entre a Gr-Bretanha e a Rssia czarista por causa do
Afeganisto em detalhes. Sabia a diferena entre estalactites e estalagmites, e que
a distncia entre a Terra e o sol era igual a um e meio milho de vezes o trajeto
entre Cabul e Ghazni. Mas se Laila precisasse de algum com fora suficiente para
abrir a tampa de um pote de balas, tinha que pedir a mammy, o que parecia at uma
deslealdade. Babi no tinha o menor jeito para lidar com os utenslios mais comuns.
Se deixadas por sua conta, coisas como as dobradias de uma porta continuavam
rangendo por falta de leo; os tetos continuavam com rachaduras depois que ele os
consertava; o mofo florescia, desafiador, nos armrios da cozinha. Mammy dizia que
antes de partir com Noor para se unir zojikad contra os soviticos, em 1980, Ahmad
tinha assumido conscienciosamente essas tarefas e com muita competncia.
        -- Mas se voc precisar ler um livro com urgncia -- dizia ela --, ento Hakim
 a pessoa certa...
        Mesmo assim, Laila no podia se impedir de pensar que, um dia, antes de
Ahmad e Noor irem lutar contra os soviticos -- antes de seu pai deixar que eles
fossem --, mammy achava o mximo essa paixo do marido pelos livros, achava seus
esquecimentos e sua falta de jeito adorveis.
        -- Ento, hoje  que dia? --- perguntou ele, com um sorrisinho acanhado. -- O
quinto ou o sexto?
        -- Sei l. No estou contando... -- mentiu Laila, dando de ombros, feliz da
vida por ele ter se lembrado. Mammy nem sabia que Tariq tinha viajado.
        -- Bom, quando voc menos esperar, a lanterna dele vai estar l, piscando de
novo -- disse babi, referindo-se aos sinais noturnos que a filha e o amigo trocavam.
Era to comum brincarem com isso que a coisa tinha se tornado uma espcie de ritual
da hora de dormir, como escovar os dentes.
        -- Vou remendar isso aqui assim que tiver um tempinho -- disse babi, passando
um dedo pelo rasgo da tela. -- Mas, agora, vamos. -- E, sem se virar, gritou: -- J
estamos indo, Fariba! Vou deixar Laila no colgio. No se esquea de ir busc-la!
        J na rua, ao subir na garupa da bicicleta do pai, Laila avistou um carro
estacionado defronte da casa onde o sapateiro Rashid morava com aquela sua mulher
reclusa. Era um Mercedes, coisa bem incomum naquele bairro, um carro azul com uma
grossa faixa branca atravessando a capota, o capo e a mala. Laila viu que havia
dois homens sentados l dentro, um deles ao volante e o outro, no banco de trs.
        -- Quem so? -- indagou a menina.
        -- Isso no  problema nosso -- disse babi. -- Ande, suba logo, se no vai
chegar atrasada.
        Laila se lembrou de outra briga, quando mammy se postou diante de babi
dizendo, de um jeito afetado: "Isso  problema seu, no , primo? Considerar que
nada  problema seu. Nem mesmo os seus prprios filhos irem para a guerra. Como eu
implorei! Mas voc enfiou o nariz nesses seus malditos livros e deixou os seus
filhos irem embora como se fossem dois haramis..."
        Babi saiu pedalando rua acima e Laila ia na garupa, com os braos na cintura
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do pai. Quando passaram pelo Mercedes azul, a menina deu uma olhada no homem que
estava no banco de trs: era um sujeito magro, de cabelos brancos, usando um terno
marrom-escuro com o tringulo de um leno branco aparecendo no bolso do palet. A
nica coisa que deu para ver era que o carro tinha placa de Herat.
       Fizeram o resto do percurso em silncio, a no ser na hora das curvas,
quando babi reduzia a velocidade com cuidado, dizendo:
       -- Segure-se, Laila. Mais devagar. Mais devagar. Pronto.
       Foi difcil prestar ateno s aulas naquele dia, pois Laila s pensava em
duas coisas: a ausncia de Tariq e a briga dos pais. Assim, quando a professora a
chamou para dizer quais eram as capitais da Romnia e de Cuba, a menina foi
apanhada de surpresa.
       O nome da professora era Shanzai, mas, pelas costas, os alunos a chamavam de
Kbala Rangmaal, Tia Pintora, referindo-se a pose que ela fazia quando esbofeteava
algum aluno -- primeiro a palma e, depois, o dorso da mo, para um lado e para o
outro, como um pintor usando o pincel. Kbala Rangmaal era uma mulher jovem, de
rosto anguloso e sobrancelhas carregadas. No primeiro dia de aulas, disse  turma,
com o maior orgulho, que era filha de um pobre campons de Khost. Andava toda
empertigada com o cabelo muito preto sempre puxado para trs e preso num coque.
Quando ficava de costas, dava para ver uns pelinhos escuros em sua nuca. A
professora no usava maquiagem nem qualquer jia. No cobria a cabea e proibia as
alunas de fazerem isso. Dizia que mulheres e homens so iguais sob todos os
aspectos e que no havia motivo para as mulheres se cobrirem se os homens no
faziam a mesma coisa.
       Dizia que a Unio Sovitica era a melhor nao do mundo, juntamente com o
Afeganisto. Era um pas que tratava bem os trabalhadores e onde as pessoas eram
iguais. Na Unio Sovitica, todos eram felizes e amistosos,  diferena dos Estados
Unidos onde os crimes faziam o povo ter medo de sair de casa. E, no Afeganisto,
todos seriam felizes tambm, dizia ela, assim que os antiprogressistas, aqueles
bandidos reacionrios, houvessem sido derrotados.
       "Foi para isso que os nossos camaradas soviticos chegaram aqui em 1979.
Para colaborar com seus vizinhos. Para nos ajudar a derrotar esses animais que
querem que o nosso pas seja uma nao retrgrada e primitiva. E vocs tm que
contribuir tambm, crianas. Tm que contar qualquer coisa que saibam sobre esses
rebeldes. Este  o seu dever. Vocs devem ouvir e contar. Mesmo que sejam os seus
pais, os seus tios ou as suas tias. Porque nenhum deles ama vocs como o seu
prprio pas. Lembrem-se disso: o pas em primeiro lugar! Vou ficar orgulhosa de
vocs, e o nosso pas tambm."
       Na parede, por trs da mesa de Khala Rangmaal, havia um mapa da Unio
Sovitica, outro do Afeganisto e um retrato do ltimo presidente comunista,
Najibullah, que, segundo babi, tinha sido chefe da temida KHAD, a polcia secreta
do pas. Havia ainda outros retratos, principalmente de jovens soldados soviticos
cumprimentando camponeses, plantando mudas de macieiras, construindo casas, sempre
com um sorriso entusiasmado.
       -- Bem -- disse Khala Rangmaal --, atrapalhei os seus sonhos, Menina Inqilabi?
       Esse era o apelido de Laila, Menina Revolucionria, porque ela tinha nascido
na noite do golpe de abril de 1978 -- s que Khala Rangmaal ficava brava se algum
aluno da turma usasse a palavra "golpe". O que efetivamente aconteceu, insistia
ela, foi uma inqilab, uma revoluo, um levante das classes trabalhadoras contra a
desigualdade social. Jihad tambm era um termo proibido. Segundo a professora, no
havia sequer uma guerra no interior do pas; eram apenas escaramuas envolvendo
agitadores incitados por pessoas que ela chamava de provocadores estrangeiros. E, 
claro, ningum, mas ningum mesmo ousaria mencionar, em sua presena, os boatos
cada vez mais freqentes de que, depois de oito anos de lutas, os soviticos
estavam perdendo a guerra. Principalmente agora, quando Reagan, o presidente dos
Estados Unidos, tinha comeado a armar os mujahedins com msseis Stinger, para
derrubar helicpteros soviticos; quando muulmanos de todos os pontos do mundo
estavam se aliando  causa: egpcios, paquistaneses, at mesmo ricos sauditas que
deixavam para trs os seus milhes e vinham para o Afeganisto, bater naquele
jihad.
       -- Bucareste, Havana -- disse Laila, afinal.
       -- E estes pases so amigos ou no?
       -- So, sim, moalim sahib. So pases amigos.
       Khala Rangmaal assentiu com um leve gesto de cabea.
       Quando as aulas terminaram, mais uma vez mammy no apareceu, como combinado.
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Laila acabou voltando a p para casa, com duas de suas colegas de turma, Giti e
Hasina.
        Giti era uma menina magricela, toda compenetrada, que usava
marias-chiquinhas presas com elsticos. Estava sempre de cara amarrada e carregava
os livros apertados junto ao peito, como se fossem um escudo. Hasina tinha 12 anos.
Era, portanto, trs anos mais velha que Laila e Giti, mas tinha repetido a terceira
srie uma vez e a quarta, duas. O que lhe faltava em inteligncia ela tinha de
sobra em disposio para aprontar, e tinha uma boca que, como dizia Giti,
funcionava sem parar, feito uma maquina de costura. Foi Hasina quem inventou o
apelido de Khala Rangmaal.
        Hoje, Hasina estava lhes dando conselhos para descartar pretendentes
desinteressantes.
        -- E um mtodo infalvel. Funciona mesmo. Palavra!
        -- Que bobagem... Sou jovem demais para ter um pretendente! -- exclamou Giti.
        -- No  no.
        -- Bom, mas ningum apareceu para pedir a minha mo!
        -- Porque voc tem barba, minha cara.
        Giti levou a mo ao queixo e olhou assustada para Laila que, com um sorriso
compadecido -- Giti era a pessoa com menos senso de humor que jamais tinha conhecido
--, balanou a cabea tentando tranqiliz-la.
        -- Mas, afinal, vocs querem ou no querem saber o que fazer, meninas?
        -- Diga l -- retrucou Laila.
        -- Feijo. Umas quatro latas, no mnimo. Na noite em que o lagarto desdentado
vier pedir a sua mo. Mas o segredo  saber qual o momento certo, meninas. Vocs
tm que conter o bombardeio at a hora de servir o ch.
        -- Vou me lembrar disso -- observou Laila.
        -- Eu tambm.
        Laila poderia ter dito que no precisava desse tipo de conselho, pois babi
no tinha a inteno de abrir mo dela to cedo. Embora trabalhasse na Silo, a
gigantesca fbrica de po de Cabul, onde passava o dia inteiro mergulhado no calor
e no barulho ensurdecedor das mquinas que acionavam os imensos fornos e moam os
gros, ele era um homem com instruo universitria. Foi professor de ensino mdio
at os comunistas o demitirem, o que aconteceu pouco depois do golpe de 1978, cerca
de um ano e meio antes da invaso sovitica. Desde cedo, babi deixou bem claro que,
para ele, a coisa mais importante da vida era a educao da filha, depois de sua
segurana,  claro.
        "Sei que voc ainda  pequena, mas quero que oua bem o que vou lhe dizer e
entenda isso desde j", disse ele. "O casamento pode esperar; a educao, no. Voc
 uma menina inteligentssima.  mesmo, de verdade. Vai poder ser o que quiser,
Laila. Sei disso. E tambm sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganisto vai
precisar de voc tanto quanto dos seus homens, talvez at mais. Porque uma
sociedade no tem qualquer chance de sucesso se as suas mulheres no forem
instrudas, Laila. Nenhuma chance."
        Laila, porm, no contou a Hasina que babi tinha dito essas coisas, ou como
ela ficava feliz por ter um pai como ele, ou como se orgulhava do cuidado que ele
tinha com ela, ou como estava decidida a continuar estudando, exatamente como ele.
Nos ltimos dois anos, Laila recebeu o certificado awal numra, atribudo anualmente
ao melhor aluno de cada turma. Mas ela no disse nada disso a Hasina, cujo pai era
um motorista de txi bem genioso que, com toda certeza, em dois ou trs anos no
mximo daria a mo da filha em casamento. Num momento de excepcional seriedade,
Hasina tinha lhe contado que j estava decidido que ela se casaria com um primo em
primeiro grau, vinte anos mais velho e dono de uma loja de carros em Lahore. "Eu o
vi duas vezes", acrescentou Hasina. "E, nas duas, ele comeu de boca aberta."
        -- Feijo, meninas -- disse Hasina. -- No se esqueam. A no ser,  claro --
prosseguiu ela, com um risinho maroto e cutucando Laila com o cotovelo --, que seja
o seu lindo prncipe de uma perna s que venha bater a sua porta. Nesse caso...
        Laila empurrou o cotovelo da colega. Ficaria ofendida se qualquer outra
pessoa falasse assim a respeito de Tariq, mas sabia que Hasina no fazia isso por
maldade. Ela era debochada, e os seus deboches no poupavam ningum, muito menos a
si mesma.
        -- Voc no devia falar assim dessas pessoas! -- exclamou Giti.
        -- Que pessoas?
        -- As que ficaram feridas por causa da guerra -- respondeu Giti convicta, sem
perceber que Hasina estava brincando.
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       -- Acho que a mul Giti tem uma quedinha pelo Tariq. Bem que eu desconfiava!
Ha. ha! Mas voc no sabe que ele j  comprometido? No e mesmo. Laila?
       -- No tenho quedinha nenhuma. Por ningum.
       As duas se separaram de Laila e, ainda discutindo, viraram a esquina da rua
onde moravam.
       Laila percorreu sozinha os ltimos trs quarteires. Quando j estava na rua
em que morava, viu que o Mercedes azul ainda estava estacionado diante da casa de
Rashid e Mariam. Agora, o senhor de terno marrom estava de p, na frente do carro,
apoiado numa bengala e olhando para a casa.
       De repente, uma voz s suas costas disse:
       -- Ei, loura. Olhe para c.
       Laila se virou e deu de cara com o cano de um revlver.

       17
       O REVLVER ERA VERMELHO; a ala do gatilho era de um verde brilhante. Por
detrs da arma, o rosto sorridente de Khadim. Khadim tinha 11 anos, como Tariq. Era
um garoto magro, alto e queixudo. Seu pai era aougueiro em Deh-Mazang, e, de
quando em quando, Khadim atirava pedaos de tripas nos passantes. s vezes, quando
Tariq no estava por perto, Khadim ficava andando atrs de Laila na hora do
recreio, com uns olhares estranhos e fazendo uns barulhinhos que pareciam uns
ganidos. Certa feita, bateu no ombro dela e disse: "Voc  to bonita, Loura. Quero
casar com voc."
       Agora, l estava ele exibindo aquele revlver.
       -- No se preocupe -- disse. -- No vai aparecer nada. No no seu cabelo.
       -- No faa isso! Estou avisando.
       -- E o que voc vai fazer? -- perguntou ele. -- Mandar o seu aleijado me
enfrentar? "Oh! Tariq jan. Porque no volta para casa e me salva desse badmash?."
       Laila comeou a recuar, mas Khadim j tinha apertado o gatilho. Diversos
jatos de gua quente acertaram Laila no cabelo e na palma da mo que ela ergueu
para proteger o rosto.
       Ento os outros meninos saram de seus esconderijos, rindo, debochando.
       Laila se lembrou de um xingamento que tinha ouvido na rua. No entendia
muito bem o que queria dizer -- no conseguia imaginar a logstica da coisa --, mas
as palavras pareciam repletas de fria, e a menina resolveu us-lo:
       -- A sua me come pau!
       -- Pelo menos, ela no  pirada como a sua! -- retrucou Khadim, sem se
alterar. -- Pelo menos, o meu pai no  maricas! Alis, por que voc no cheira a
sua mo?
       Os outros meninos comearam a cantarolar:
       -- Cheire! Cheire sua mo!
       Antes mesmo de faz-lo, a menina j tinha entendido o que Khadim queria
dizer com "no vai aparecer nada". Soltou um grito estridente e os meninos
debocharam ainda mais.
       Ela virou as costas e correu para casa, aos prantos.
       Pegou gua do poo, foi para o banheiro, encheu uma tina e arrancou as
roupas. Ensaboou o cabelo, esfregando freneticamente os dedos no couro cabeludo,
chorando de nojo. Com uma tigela, enxaguou o cabelo e recomeou a ensabo-lo. Por
vrias vezes, achou que fosse vomitar. Ainda chorando e tremendo, esfregou e
esfregou a luva de banho no rosto e no pescoo at a pele ficar vermelha.
       Nada disso teria acontecido se Tariq estivesse com ela, pensou Laila
vestindo roupas limpas. Khadim no teria coragem.  claro que tambm no teria
acontecido se mammy tivesse aparecido para busc-la. s vezes, a menina se
perguntava por que a me tinha se dado o trabalho de t-la. Hoje em dia estava
convencida de que as pessoas no deviam poder ter outros filhos se j tivessem dado
todo o seu amor aos mais velhos. No era justo. Laila sentiu uma pontada de raiva.
Foi para o quarto e se atirou na cama.
       Depois que o pior j tinha passado, ela foi at o quarto da me e bateu a
porta. Quando era menor, ficava horas sentada ali fora. Batia e chamava baixinho
pela me mil vezes seguidas, como um cntico mgico capaz de quebrar um encanto:
mammy, mammy, mammy, mammy... Ela, porm, nunca abria a porta. Como no abriu
agora. Laila girou a maaneta e entrou.
       Tinha dias em que mammy estava bem. Pulava da cama com esprito brincalho e
os olhos brilhantes. Aquele lbio inferior proeminente se estirava num sorriso. Ela
tomava banho, punha roupas limpas e passava rmel.
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       Deixava Laila escovar seu cabelo, coisa que a menina adorava, e usava
brincos. As duas iam juntas fazer compras no Mandaii Bazaar. Jogavam aquele jogo de
tabuleiro que tem as cobras e as escadas, e comiam raspas tiradas de grandes blocos
de chocolate amargo, alis, uma das poucas coisas de que ambas gostavam. Para
Laila, o melhor momento desses dias legais era quando babi voltava para casa,
quando as duas erguiam os olhos do tabuleiro e sorriam para ele com os dentes
marrons. Instalava-se, ento, um clima de felicidade naquela sala e Laila percebia
um pouquinho da ternura, do romance que um dia unira seus pais, na poca em que
aquela casa era cheia de gente, barulhenta e animada.
       s vezes, nesses dias legais, mammy ia para a cozinha e convidava as
vizinhas para tomar ch com bolos e doces. Laila adorava lamber as vasilhas
enquanto a me punha a mesa, com as xcaras, os guardanapos e as travessas. Mais
tarde, Laila tambm ia se sentar a mesa da sala e tentava participar da conversa
daquelas mulheres que falavam animadamente, tomavam ch e elogiavam os doces de
mammy. Embora nunca tivesse muita coisa a dizer, Laila gostava de ficar ali
ouvindo, pois, naquelas reunies, ela experimentava um raro prazer: ouvir a me
falar do pai com carinho.
       -- Ele era um professor de primeira -- dizia ela. -- Os alunos o adoravam. E
no apenas porque ele no os espancava com a rgua, como outros professores. Eles o
respeitavam porque ele os respeitava. Era maravilhoso.
       Mammy adorava contar como ele a tinha pedido em casamento.
       -- Eu tinha 16 anos, e ele, 19. ramos vizinhos de porta, l em Panjshir. Eu
bem que tinha uma queda por ele, hamshiras. Vira e mexe, pulava o muro que separava
nossas casas e amos brincar no pomar do pai dele. Hakim ficava com medo de sermos
apanhados e de meu pai lhe dar uns tabefes. "Seu pai vai me bater", dizia ele. J
nessa poca, era todo srio, todo cuidadoso. At que, um dia, eu lhe disse: "E a,
primo, como  que vai ser? Voc vai pedir a minha mo ou vai me obrigar a fazer o
papel de khastegari? Disse assim mesmo. Vocs precisavam ver a cara que ele fez!"
       Mammy batia palmas; Laila e as outras mulheres riam.
       Quando ouvia essas histrias, Laila percebia nitidamente que tinha havido
uma poca em que a me falava sempre de seu pai nesses termos. Uma poca em que
seus pais no dormiam em quartos separados. E a menina adoraria ter vivido esse
tempo.
       O relato daquele pedido de casamento levava invariavelmente a conversa para
o assunto pretendentes. Quando o Afeganisto se livrasse dos soviticos e os
rapazes voltassem para casa, precisariam de noivas. As mulheres passavam, ento, em
revista todas as meninas da vizinhana, uma a uma, para ver quem seria, ou no, um
bom partido para Ahmad e Noor. Laila sempre se sentia excluda quando elas passavam
a falar de seus irmos, como se as mulheres estivessem comentando um timo filme
que s ela no tinha visto. Na verdade, Laila estava com dois anos quando Ahmad e
Noor saram de Cabul e foram para Panjshir, ao norte, unir-se as foras do
comandante Ahmad Shah Massoud e combater no jihad. A menina mal se lembrava deles.
O nome de Allah num pingente brilhante no pescoo de Ahmad; um tufo de plos
escuros numa das orelhas de Noor. E nada mais.
       -- Que tal Azita?
       -- A filha do tapeceiro? -- indagou mammy, dando um tapinha no prprio rosto,
fingindo-se ofendida. -- O bigode dela  maior que o de Hakim!
       -- Tem tambm Anahita. Ouvimos dizer que ela  a primeira da classe em
Zarghoona.
       -- J viram os dentes dessa garota? Parecem lpides funerrias. Ela esconde
todo um cemitrio por trs dos lbios...
       -- E as irms Wahidi?
       -- Aquelas duas ans? No, de jeito nenhum! No para os meus filhos. No para
os meus sultes. Eles merecem coisa melhor.
       Nessas horas, Laila se desligava da conversa, deixava a mente vagar e, como
sempre, lembrava de Tariq.
       Mammy tinha fechado as cortinas amareladas. No escuro, dava para sentir os
diversos cheiros que se acumulavam naquele quarto: de sono, de roupa de cama no
lavada, de suor, de meias sujas, de perfume, de restos da qurma da vspera. Laila
esperou at seus olhos se acostumarem a escurido e s ento atravessou o aposento.
Mesmo assim, tropeou nas roupas espalhadas pelo cho.
       Abriu as cortinas. Aos ps da cama, havia uma velha cadeira metlica de
armar. Laila se sentou e ficou olhando para a me, aquele volume imvel embrulhado
nos lenis.
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        As paredes do quarto eram recobertas de retratos de Ahmad e Noor. Para onde
quer que olhasse, Laila dava com dois estranhos que lhe sorriam. Ali estava Noor,
trepado num triciclo. L estava Ahmad, fazendo suas oraes, posando ao lado de um
relgio de sol que ele e babi construram quando ele tinha 12 anos. E tambm os
dois juntos, seus irmos, sentados, um de costas para o outro,  sombra da velha
pereira do quintal.
        Debaixo da cama de mammy, Laila avistou a ponta da caixa de sapatos de
Ahmad. De vez em quando, a me lhe mostrava os velhos recortes de jornais e os
panfletos de grupos insurgentes e de organizaes de resistncia instaladas no
Paquisto que seu irmo colecionava. A menina se lembrava de uma foto onde se via
um homem, com um casaco branco, entregando uma flor a um menininho sem perna. A
legenda da foto dizia: "As crianas so os alvos visados pela campanha de
instalao de minas empreendida pelos soviticos." O artigo prosseguia afirmando
que os soviticos tambm gostavam de ocultar explosivos em brinquedos bem
coloridos. Se uma criana o apanhasse, o brinquedo explodiria arrancando os seus
dedos ou at a mo inteira. O pai no podia ento participar do jihad, pois tinha
de ficar em casa cuidando do filho aleijado. Num outro artigo daquela caixa, um
jovem mujahid dizia que os soviticos tinham lanado gs na sua aldeia, um gs que
queimava a pele das pessoas e deixava-as cegas. O rapaz dizia ainda que tinha
visto, com os prprios olhos, a me e a irm correndo para o riacho, cuspindo
sangue.
        -- Mammy.
        Aquele montinho se remexeu ligeiramente, emitindo um gemido.
        -- Levante, mammy. J so trs horas.
        Outro gemido. Uma mo se ergue, como o periscpio de um submarino subindo 
superfcie, e volta a cair. Desta vez, o montinho faz um movimento mais
perceptvel. Veio, ento, o rudo dos lenis, das diversas camadas de lenis
sendo retiradas uma a uma. Bem devagarinho, por etapas, sua me foi se
materializando diante de seus olhos: primeiro, o cabelo desgrenhado; depois, o
rosto branco, fazendo uma careta; os olhos que se fecham por causa da luz; uma mo
tateando em busca da cabeceira da cama; os lenis deslizando quando ela enfim se
ergue, com um grunhido. Mammy fez um esforo enorme para abrir os olhos. Mais uma
vez, piscou por causa da luz e deixou a cabea pender sobre o peito.
        -- Como foi na escola? -- murmurou ela.
        Era assim que comeava. E l vinham as invariveis perguntas, as respostas
de sempre. Ambas fingindo. Sem nenhum entusiasmo, as duas danavam aquela velha
dana cansada.
        -- Foi timo -- disse Laila.
        -- Aprendeu alguma coisa?
        -- O de sempre.
        -- Comeu?
        -- Comi.
        -- timo.
        Mammy voltava a erguer a cabea, virando-se para a janela. Estremecia e
piscava os olhos. O lado direito de seu rosto estava vermelho e o cabelo achatado
desse mesmo lado.
        -- Estou com dor de cabea -- disse ela.
        -- Quer que eu v buscar uma aspirina?
        -- Mais tarde, talvez -- respondeu mammy, massageando as tmporas. -- Seu pai
esta em casa?
        -- So s trs horas...
        -- Ah, claro, voc j disse isso... -- observou ela, bocejando. -- Eu estava
sonhando -- prosseguiu, com a voz um pouquinho mais alta do que o rudo de sua
camisola roando nos lenis. -- Agorinha mesmo, quando voc entrou no quarto. Mas
no consigo me lembrar. Isso tambm acontece com voc?
        -- Acontece com todo mundo, mammy.
        -- Que coisa estranha...
        -- Sabe que, enquanto voc estava sonhando, um garoto jogou xixi no meu
cabelo, com uma pistola de gua?
        -- Jogou o qu? O que foi que voc disse? Desculpe...
        -- Xixi. Urina.
        -- Que... horror. Meu Deus. Sinto muito. Coitadinha. Logo de manh, vou ter
uma conversinha com ele. Ou talvez com a me dele. , acho que  melhor falar com a
me.
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       -- Eu no disse quem foi...
       -- Ah, . E quem foi?
       -- Deixe para l.
       -- Est zangada?
       -- Era para voc ter ido me buscar.
       -- Era -- resmungou sua me, e Laila ficou sem saber se aquilo tinha sido uma
pergunta ou no. Mammy comeou a puxar o prprio cabelo. Para Laila, aquele era um
dos maiores mistrios do mundo: como  que sua me no ficava inteiramente careca
puxando o cabelo daquele jeito?
       -- E o... Como  mesmo o nome dele, daquele seu amigo? Tariq? Isso mesmo. E o
Tariq?
       -- Ele viajou h uma semana.
       -- Ah! -- exclamou mammy, com um suspiro. -- Voc j se lavou?
       -- J.
       -- Ento est limpa -- disse ela, dirigindo aquele olhar cansado para a
janela. -- J est limpa e est tudo bem.
       -- Tenho que fazer meu dever -- disse Laila, se levantando.
       -- Claro. Feche as cortinas antes de sair, querida -- murmurou mammy, com um
fio de voz e voltando a se enfiar debaixo dos lenis.
       Quando foi fechar as cortinas, Laila viu um carro passar pela rua seguido de
uma nuvem de poeira. Era o Mercedes azul com placa de Herat que finalmente estava
indo embora. A menina o acompanhou com os olhos at ele desaparecer na esquina com
o vidro traseiro reluzindo ao sol.
       -- No vou esquecer... amanh -- disse mammy, -- Prometo.
       -- Voc disse isso ontem.
       -- Voc no faz idia, Laila.
       -- Idia de qu? -- indagou a menina, virando-se para olhar a me.
       -- O que  que eu no sei?
       Lentamente, a me levou a mo ao peito e bateu num ponto. --Aqui. O que
acontece aqui. -- E deixou a mo cair, acrescentando: -- Voc no faz idia...

       18
       UMA SEMANA SE PASSOU e nem sinal de Tariq. E, depois, mais outra.
       Para matar o tempo, Laila consertou a tela da porta, j que babi parecia ter
se esquecido. Tirou os livros dele da estante, limpou tudo e os arrumou de volta em
ordem alfabtica. Foi at a rua das Galinhas com Hasma, Giti e a me de Giti, Nila,
que era costureira e, s vezes, vinha costurar com mammy. Foi nessa semana que
Laila se convenceu de uma verdade: de todas as dificuldades que uma pessoa tem de
enfrentar, a mais sofrida e, sem duvida, o simples ato de esperar.
       Mais uma semana se passou.
       Laila comeou a pensar coisas terrveis.
       Ele nunca mais ia voltar. Seus pais tinham ido embora para sempre e a viagem
para Ghazni no passava de um disfarce, uma daquelas armaes dos adultos para
poup-los de despedidas dolorosas.
       Ele tinha pisado numa mina novamente. Como aconteceu em 1981, quando ele
tinha cinco anos, da ltima vez que seus pais o levaram para Ghazni. Foi pouco
depois do aniversrio de Laila. Ela estava fazendo trs anos. E, nessa ocasio, ele
teve sorte, pois s perdeu uma perna; teve sorte porque sobreviveu.
       Todas essas idias ficavam martelando em sua cabea.
       Ate que, certa noite, Laila viu uma luzinha l do outro lado da rua. Deixou
escapar um som, algo como um gritinho engasgado. Bem depressa, pegou a lanterna
debaixo da cama, mas ela no estava funcionando. Bateu com a lanterna na mo,
amaldioando as pilhas que tinham acabado. Mas que importncia tinha isso? Ele
estava de volta. A menina ficou sentada na cama, aliviadssima, fitando aquele
lindo olho amarelo que piscava sem parar.
       No dia seguinte, quando ia para a casa de Tariq, Laila viu Khadim e o seu
grupo de amigos do outro lado da rua. Khadim estava agachado, desenhando algo no
cho com um pedao de pau. Quando a viu, largou a vareta e lhe deu tchau com os
dedos. Disse algo que provocou risadas dos outros meninos. Laila baixou a cabea e
apressou o passo.
       -- O que voc fez? -- exclamou ela, quando Tariq abriu a porta. Foi s ento
que se lembrou que o tio dele era barbeiro.
       O menino passou a mo pela cabea recm-raspada e sorriu, mostrando uns
dentes brancos, ligeiramente irregulares.
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       --  Gostou?
       --  Parece que voc se alistou no exrcito.
       --  Passe a mo -- sugeriu ele, baixando a cabea.
       O   cabelo rasinho arranhou a mo de Laila de um jeito bem divertido. Tariq
no era como alguns meninos cujo cabelo escondia uma cabea meio pontuda ou com uns
calombos aqui e ali. A dele era perfeita, lisinha e arredondada.
        Quando Tariq voltou a erguer a cabea, Laila percebeu que o seu rosto estava
queimado de sol.
        -- Por que demorou tanto? -- perguntou ela.
        -- Meu tio estava doente. Vamos, entre.
        Ele foi andando  sua frente, pelo corredor, at a sala de visitas. Laila
adorava tudo naquela casa. O velho tapete esfarrapado no cho da sala, a manta de
retalhos cobrindo o sof, a baguna habitual da vida de Tariq: os cortes de tecido
da me dele, as agulhas espetadas em carretis de linha, as velhas revistas, o
estojo do acordeo l no canto, esperando para ser aberto com um rangido.
        -- Quem ? -- perguntou a me de Tariq, l da cozinha.
        --  Laila -- respondeu ele, puxando uma cadeira para ela se sentar. A sala
era clarssima com suas janelas duplas dando para o quintal. No parapeito, os potes
vazios que a me do menino usava para as conservas de berinjela e a gelia de
cenoura.
        -- Nossa aroos, voc quer dizer... A nossa nora -- declarou o pai de Tariq,
entrando na sala. Ele era carpinteiro, um homem esguio, de cabea branca, que devia
ter uns sessenta e poucos anos. Tinha os dentes da frente separados e os olhos
apertados de algum que passou a maior parte da vida ao ar livre. Abriu os braos e
Laila foi abra-lo, sentindo aquele cheiro gostoso e familiar de serragem.
Beijaram-se trs vezes no rosto.
        -- Se voc continuar dizendo isso, ela vai parar de vir aqui -- observou a me
de Tariq passando perto deles. Trazia uma bandeja com uma tigela bem grande, uma
concha e quatro tigelinhas menores. Botou a bandeja em cima da mesa. -- No ligue
para esse velhote -- disse ela, pegando o rosto da menina com ambas as mos. -- Que
bom ver voc, querida. Venha, sente-se. Trouxe de l umas frutas em calda.
        A mesa era macia, feita de uma madeira clara, sem acabamento e fora
construda pelo pai de Tariq, juntamente com as cadeiras. Estava coberta por uma
toalha de vinil verde estampada com meias-luas e estrelas de um rosa bem forte. A
maioria das paredes da sala era ocupada por fotos de Tariq, em momentos os mais
variados. Nas mais antigas, ele tinha as duas pernas.
        -- Soube que seu irmo esteve doente -- disse Laila ao pai de Tariq,
servindo-se de uma colherada de passas, pistaches e damascos em calda.
        --  verdade -- respondeu ele, acendendo um cigarro --, mas j est bem agora,
shokr e Khoda, com a graa de Deus.
        -- Foi um infarto. O segundo -- disse a me de Tariq, lanando ao marido um
olhar de desaprovao.
        Ele soprou a fumaa e piscou para Laila. Se h uma coisa que a deixava
impressionada era o fato de os pais de Tariq poderem perfeitamente passar por seus
avs. Quando ele nasceu, sua me j tinha uns quarenta e tantos anos.
        -- Como vai seu pai, minha querida? -- perguntou ela, erguendo os olhos da
tigela.
        Quando Laila a conheceu, a me de Tariq j usava essa peruca que, com o
tempo, estava ficando meio arroxeada. Hoje, ela estava mais cada sobre a testa e
dava para ver os fios grisalhos junto s orelhas. Havia dias em que a peruca
escorregava para a frente, mas, para Laila, a me de Tariq nunca parecia ridcula
usando aquilo. O que via era o rosto calmo e seguro por baixo da peruca, os olhos
vivos, o jeito agradvel e tranqilo.
        -- Vai bem -- disse Laila. -- Continua na Silo,  claro. Vai bem.
        -- E sua me?
        -- Tem os dias bons e os maus. A mesma coisa de sempre.
        -- ... -- disse a me de Tariq com um ar pensativo, depositando a colher na
tigela. -- Como deve ser difcil, como deve ser terrvel para uma me ficar longe
dos filhos.
        -- Voc fica para almoar? -- perguntou o menino.
        -- Tem que ficar -- disse a me dele. -- Estou fazendo shorwa.
        -- No quero ser mozahen.
        -- Voc nunca  abusada -- retrucou a senhora. -- S porque ficamos umas
semanas fora voc vai fazer cerimnia conosco?
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       -- Est bem. Eu fico -- disse Laila, corando e sorrindo.
       -- timo.
       Na verdade, Laila adorava comer na casa de Tariq, exatamente como detestava
comer na sua prpria. Ali, no tinha essa histria de almoar ou jantar sozinho; as
refeies eram sempre feitas em famlia. Laila gostava dos copos de plstico roxos
que eles usavam, e do quarto de limo boiando na jarra de gua. Gostava dos hbitos
que eles tinham de comear sempre por uma tigela de iogurte fresco; de espremer o
caldo de laranjas azedas em tudo, mesmo no iogurte; e de ficar implicando uns com
os outros, sem maldade.
       Durante as refeies, conversavam muito. Embora Tariq e seus pais fossem da
etnia pashtun, a famlia falava farsi quando Laila estava presente, apesar de, bem
ou mal, a menina entender sua lngua de origem, pois tinha estudado pashto na
escola. Babi lhe disse que havia alguma tenso entre aqueles dois povos -- os
tadjiques, que eram minoria, e os pashtuns, como Tariq, que constituam o maior
grupo tnico do Afeganisto. "Os tadjiques sempre se sentiram excludos", segundo
seu pai. "Os reis pasbtuns governaram o pas por quase 250 anos, Laila, e os
tadjiques por apenas nove meses, em 1929."
       "E voc", perguntou-lhe ento a menina, "voc se sente excludo, babi?"
       "Para mim", respondeu ele, limpando os culos na borda da camisa, "para mim
tudo isso  uma grande besteira, e, ainda por cima, uma besteira perigosa, toda
essa histria de ficar dizendo 'eu sou tadjique, voc  pashtun, ele  hazara, ela
 uzbeque'. Somos todos afegos, e isso e que deveria importar. Mas quando um grupo
governa os demais por tanto tempo... surgem o despeito, a rivalidade. E assim que
as coisas so. Sempre foram".
       Talvez... Mas Laila no sentia nada disso na casa de Tariq, onde nunca se
tocava em assuntos como este. O tempo que passava com aquela famlia lhe parecia
algo natural, espontneo, sem qualquer dessas complicaes de diferenas de tribo
ou de lngua, ou as queixas e os rancores pessoais que infectavam o ar de sua
prpria casa.
       -- Que tal uma partida de cartas? -- perguntou Tariq.
       -- Boa idia. Vo l para cima -- disse a me do menino abanando, com ar de
desaprovao, a fumaa do cigarro do marido. -- Vou acabar de preparar a shorwa.
       Os dois se deitaram de bruos no meio do quarto de Tariq e, alternadamente,
davam as cartas para o jogo de panjpar. Balanando os ps no ar, Tariq comeou a
lhe contar sobre a viagem. Falou das mudas de pessegueiros que ajudou o tio a
plantar. E da cobra que tinha capturado.
       Era ali que Laila e Tariq faziam os deveres de casa; era ali que construam
castelos de cartas e desenhavam retratos ridculos um do outro. Quando chovia,
ficavam junto da janela, tomando Fanta laranja quente e vendo as gotas de chuva que
escorriam pela vidraa.
       -- O que  o que ? -- perguntou Laila, embaralhando as cartas.
       -- Que gira pelo mundo mas fica num canto?
       -- Espere um pouco -- disse Tariq, erguendo e ajeitando a perna mecnica. Com
uma careta, virou-se de lado, apoiando-se no cotovelo.
       -- Pegue aquele travesseiro -- pediu o menino, e calou com ele a perna
esquerda. -- Pronto. Assim est melhor.
       Laila se lembrou da primeira vez em que ele lhe mostrou a perna amputada.
Ela tinha seis anos. Passou o dedo por aquela pele retesada e lustrosa, logo abaixo
do joelho esquerdo do amigo. Sentiu uns calombos duros e Tariq lhe disse que eram
uns espores de osso que surgiam, s vezes, depois de uma amputao. Perguntou,
ento, se doa e o menino respondeu que o local ficava dolorido no fim do dia,
quando inchava e a prtese no se encaixava direito, como um dedo num dedal. "E, s
vezes, fica irritado. Principalmente no calor. Fica vermelho e com bolhas, mas
minha me tem uns cremes que ajudam bastante. No  to ruim assim...", acrescentou
ele ainda.
       Laila comeou a chorar.
       "Por que est chorando?", perguntou ele, voltando a prender a perna
mecnica. "Foi voc quem pediu para ver, sua giryanok, sua chorona! Se soubesse que
ia ficar desse jeito, no teria lhe mostrado."
       -- O selo. -- disse ele.
       -- O qu?
       -- A adivinhao. A resposta  o selo. Que tal a gente ir ao zoolgico depois
do almoo?
       -- Ah, voc sabia, no ?
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       --   No mesmo.
       --   Voc trapaceou...
       --   E voc est com inveja.
       --   De qu?
       --   Da minha inteligncia masculina.
       --   Sua inteligncia masculina? Ah, ? Mas quem  que ganha sempre no jogo de
xadrez?
       -- Eu deixo voc ganhar -- retrucou o menino, rindo. Os dois sabiam muito bem
que no era verdade.
       -- E quem  que foi reprovado em matemtica? Para quem voc correu pedindo
ajuda com aquele dever, embora esteja um ano na minha frente?
       -- Estaria dois, se a matemtica no me criasse problemas.
       -- Acho que a geografia tambm cria...
       -- Quem lhe contou? Ah, no. Chega. Ento, vamos ao zoolgico ou no?
       -- Vamos -- respondeu Laila sorrindo.
       -- timo.
       -- Senti saudades.
       Depois de um instante de silncio, Tariq se voltou para ela meio sorrindo,
meio fazendo uma careta de nojo.
       -- Qual  o problema? O que est acontecendo com voc? -- perguntou ele.
       Quantas vezes ela, Hasina e Giti j tinham dito exatamente as mesmas
palavras uma para a outra, sem a menor hesitao, depois de passarem dois ou trs
dias sem se ver? "Senti saudades de voc, Hasina." "Ah, eu tambm", dizia a outra.
Pela careta de Tariq, Laila descobriu que os meninos so diferentes das meninas com
relao a isso. Eles no demonstram sua amizade. No sentem falta, no precisam
desse tipo de conversa. Laila ficou achando que devia ser a mesma coisa com seus
irmos. Os meninos, concluiu ela, tratam a amizade como se fosse o sol: ningum
discute a sua existncia; todos curtem a sua luz, mas ningum a encara de frente.
       -- Estava s implicando -- disse ela.
       -- E funcionou -- retrucou ele, olhando-a de um jeito meio enviesado.
       Mas, aparentemente, a cara de nojo se abrandou. E ela teve a impresso de
que, por um instante, o rosto do menino tinha ficado um pouquinho mais vermelho.
       Laila no pretendia lhe contar. Na verdade, tinha decidido que contar a ele
seria uma pssima idia. Algum poderia se machucar, pois Tariq no ia conseguir
deixar aquilo passar em branco. No entanto, quando iam andando pela rua,
dirigindo-se a parada de nibus, ela viu Khadim novamente, recostado num muro.
Estava rodeado pelos amigos, com os polegares enfiados nas alas do cs da cala.
Ao v-la, o garoto sorriu, desafiador.
       Ento, ela contou. Quando deu por si, j estava contando a histria toda.
       -- Ele fez o qu? Ela repetiu.
       -- Ele? Aquele ali? Tem certeza? -- perguntou Tariq, apontando para Khadim.
       -- Tenho.
       Tariq cerrou os dentes, murmurou alguma coisa em pashto, que Laila no
entendeu.
       -- Espere aqui -- disse ele, desta vez em farsi.
       -- Tariq... No!
       Mas o garoto j estava atravessando a rua.
       Khadim foi o primeiro a v-lo. Seu sorriso desapareceu e ele se afastou do
muro. Tirou as mos da cintura e se aprumou, assumindo um ar deliberadamente
ameaador. Os outros acompanharam seu olhar.
       Laila se arrependeu de ter contado. E se eles se unissem? Quantos eram? Dez?
Onze? Doze? E se machucassem Tariq?
         Ele parou diante de Khadim e sua turma, a uns poucos passos de distncia.
Por um momento, ficou s parado ali. Quem sabe no teria mudado de idia, pensou
Laila. E, quando ele se abaixou, ela achou que talvez fosse para fingir que
precisava amarrar o sapato e, depois, voltar para junto dela. Mas, pelo movimento
de suas mos, ela entendeu o que estava acontecendo.
       Os outros tambm entenderam quando Tariq se levantou novamente,
equilibrando-se numa perna s. Saiu pulando, ento, na direo de Khadim e o atacou
empunhando a perna mecnica bem alto, como se fosse uma espada.
       Mais que depressa, os garotos se afastaram deixando-lhe o caminho livre para
acertar Khadim.
       Depois, s se via poeira, punhos, chutes e ouviam-se gritos.
       Khadim nunca mais se meteu com Laila.
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
        Naquela noite, como quase sempre fazia, Laila ps a mesa s para duas
pessoas. Mammy tinha dito que no estava com fome. Quando queria comer, fazia
questo de levar o prato para o quarto antes que o marido chegasse. Em geral, j
estava dormindo, ou, pelo menos, deitada na cama quando Laila e o pai se sentavam
para jantar.
        Babi saiu do banheiro com o cabelo lavado e penteado para trs, aquele
cabelo que estava sempre todo salpicado de farinha quando ele voltava para casa.
        -- O que temos para o jantar, Laila?
        -- O que sobrou da sopa ausb.
        -- Parece gostoso -- disse ele, dobrando a toalha usada para enxugar o cabelo.
-- E qual o dever de hoje? Soma de fraes?
        -- Na verdade,  converso de fraes em nmeros mistos.
        -- Ah, est bem.
        Toda noite, depois do jantar, ele ajudava a filha com os deveres e passava
mais alguns por conta prpria. Fazia isso s para que a menina ficasse um pouco 
frente da turma, no porque tivesse crticas ao trabalho da escola, excetuando-se a
propaganda,  claro. Na verdade, achava que a nica coisa boa que os comunistas
tinham feito -- pelo menos, era essa a inteno --, dizia respeito a rea da
educao, por ironia, justamente a rea da qual o tinham demitido. Mais
especificamente, a educao feminina. O governo patrocinou cursos de alfabetizao
para todas as mulheres. Atualmente, quase dois teros dos estudantes da
Universidade de Cabul so do sexo feminino, dizia babi, mulheres estudando direito,
medicina, engenharia.
        "As coisas sempre foram muito difceis para as mulheres neste pas, Laila,
mas  provvel que elas tenham um pouco mais de liberdade agora, sob os comunistas,
e tenham mais direitos que nunca", disse babi em voz baixa, pois sabia que mammy
no suportava que se falasse bem dos comunistas, por menos que fosse. "Mas 
verdade", acrescentou ele. "Esta  uma boa poca para ser mulher no Afeganisto. E
voc pode tirar proveito disto, Laila.  claro que essa liberdade das mulheres foi
tambm uma das primeiras razes que levaram aquela gente a pegar em armas", disse
ele ainda, abanando a cabea, pesaroso.
        Aquela gente no eram os habitantes de Cabul, cidade que sempre tinha sido
relativamente liberal e progressista. Aqui, havia mulheres lecionando na
universidade, dirigindo escolas, ocupando postos no governo. No, babi estava se
referindo as regies tribais, particularmente nas reas dos pasbtuns, ao sul ou a
leste, perto da fronteira com o Paquisto, onde raramente se vem mulheres pelas
ruas e, quando isso acontece, elas esto usando a burqa e na companhia de algum
homem. Babi estava se referindo a essas regies onde os homens que vivem de acordo
com as antigas leis tribais se rebelaram contra os comunistas e suas medidas para
libertar as mulheres, abolir o casamento imposto, elevar para 16 anos a idade
mnima para as meninas se casarem. Segundo babi, esses indivduos consideraram um
insulto s suas tradies centenrias o governo -- e, ainda por cima, um governo
ateu -- determinar que as suas filhas deviam sair de casa, ir a escola, trabalhar
lado a lado com os homens.
        "Deus no h de permitir que isso acontea!" exclamou ele, com ironia.
Ento, suspirou e disse: "Laila, minha querida, o nico inimigo que o Afeganisto
no pode derrotar  ele mesmo."
        Babi se sentou  mesa e mergulhou um pedao de po na tigela de ausb.
        Laila decidiu lhe contar o que Tariq tinha feito com Khadim ali mesmo,
durante o jantar, antes de passarem s fraes. Mas no pde, pois bateram  porta
e, na soleira, havia um estranho trazendo notcias.
       19
       -- PRECISO FALAR COM SEUS PAIS, dokhtar jan -- disse ele, quando Laila abriu a
porta. Era um homem gorducho, com um rosto anguloso e a pele curtida de quem se
expe ao tempo. Usava um casaco cor-de-batata e um pakol de l marrom na cabea.
       -- Quem quer falar com eles?
       Nesse momento, Laila sentiu a mo do pai em seu ombro, afastando-a da porta
com toda delicadeza.
       -- Por que no vai l para cima, Laila? V.
       Enquanto se dirigia para a escada, a menina ouviu o sujeito dizer que trazia
notcias de Panjshir. Mammy tinha descido. Cobria a boca com uma das mos e seus
olhos, irrequietos, iam do marido ao homem com o pakol.
       Laila ficou espiando do alto da escada. Viu o estranho se sentar junto com
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seus pais, inclinar-se para frente e dizer umas poucas palavras. Ento, babi foi
ficando cada vez mais plido e no tirava os olhos das prprias mos, e mammy
comeou a gritar, a gritar, arrancando os cabelos.
       Na manh seguinte, dia da fatiha todo um grupo de vizinhas veio at aquela
casa para preparar o jantar do khatm, que seria servido logo depois da cerimnia
fnebre. Mammy passou a manh inteira sentada no sof, virando e revirando um leno
nas mos, com o rosto inchado. Ao seu lado, duas mulheres meio chorosas se
alternavam na tarefa de dar uns tapinhas nas suas mos, como se ela fosse a boneca
mais rara e mais frgil do mundo. Mas mammy sequer parecia dar pela presena delas.
       Laila se ajoelhou diante da me, pegou suas mos e murmurou:
       -- Mammy.
       -- Pode deixar que cuidamos dela, Laila jan -- disse uma das mulheres, com
ares de importncia. A menina j tinha ido a enterros antes, e visto mulheres como
essas, que apreciam tudo o que diz respeito  morte, as consoladoras oficiais que
no permitem que ningum se intrometa nas tarefas de que se incumbem por conta
prpria.
       -- Est tudo sob controle. Pode ir, menina. V fazer alguma coisa. Deixe sua
me em paz.
       Enxotada desse jeito, Laila se sentiu uma intil. Ia de um aposento ao
outro, ficou um tempinho circulando pela cozinha. De repente, uma Hasina
estranhamente contida chegou junto com a me. Giti e a me tambm vieram. Quando a
menina viu Laila, correu para ela de braos abertos e lhe deu um abrao
incrivelmente forte e demorado. Ao se afastar, tinha lgrimas nos olhos.
       -- Sinto muito, Laila -- disse Giti. E Laila agradeceu.
       As trs meninas foram se sentar no quintal at que uma das mulheres veio
cham-las para lavar os copos e pr a mesa.
       Babi tambm estava andando ali fora, de um lado para o outro, aparentemente
procurando alguma coisa que pudesse fazer.
       -- Mantenham ele longe de mim -- disse mammy, e foi a nica coisa que
pronunciou a manh toda.
       Babi acabou se sentando sozinho numa cadeira de armar, no corredor, com um
ar abatido e desolado. Mas uma das mulheres reclamou, dizendo que ele estava na
passagem. Ento, ele pediu desculpas e se enfurnou no escritrio.
       Naquela tarde, os homens foram para Karteh-Seh, num salo que babi tinha
alugado para a fatiha. As mulheres vieram para a casa. Laila se sentou ao lado da
me, perto da porta da sala, no local geralmente destinado a famlia do morto. Quem
chegava tirava os sapatos antes de entrar, cumprimentava as conhecidas com um
simples gesto de cabea e ia se sentar nas cadeiras dispostas junto a parede. Laila
viu Wajma, a parteira j idosa que tinha feito o seu parto. Viu tambm a me de
Tariq, usando uma echarpe preta por cima da peruca. Ela cumprimentou a menina com a
cabea e esboou um sorrisinho triste.
       No toca-fitas, uma voz de homem anasalada cantava versculos do Coro.
Enquanto isso, as mulheres suspiravam, se remexiam, fungavam. Ouviam-se tosses
abafadas, murmrios e, de quando em quando, algum deixava escapar um soluo
sofrido e teatral.
       A mulher de Rashid, Mariam, tambm veio. Estava usando um hijab preto e
algumas mechas de cabelo lhe caam sobre a testa. Ela se sentou bem defronte de
Laila.
       Ao lado da menina, a me no parava de balanar o corpo para frente e para
trs. Laila pegou sua mo e a aconchegou no colo, entre as suas, mas mammy nem
pareceu notar.
       -- Quer um pouco de gua, mammy? -- perguntou Laila baixinho. -- Est com sede?
       A me, porm, no respondeu. No teve qualquer reao, a no ser balanar o
corpo para frente e para trs, e manter os olhos fixos no tapete, com um ar
distante e ausente.
       De quando em quando, ao ver os olhares tristonhos das pessoas naquela sala,
Laila percebia a intensidade do desastre que se abateu sobre sua famlia. As
possibilidades negadas. As esperanas frustradas.
       Mas o sentimento no durava muito. O difcil era sentir, sentir de verdade,
a perda de mammy. No era fcil tentar experimentar a tristeza, sofrer pela morte
de gente que ela nunca tinha considerado viva. Para Laila, Ahmad e Noor sempre
foram uma espcie de lenda. Como os personagens de uma fbula. Como os reis dos
livros de histria.
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       Tariq, sim, era real, feito de carne e osso. Tariq que tinha lhe ensinado a
xingar em pashto, que gostava de folhas de cravo salgadas, que franzia a testa e
fazia um rudo bem baixinho quando mastigava, que tinha um sinal de nascena logo
abaixo da clavcula, uma manchinha rosa-clara que parecia um bandolim de cabea
para baixo.
       Ficou sentada ali, ao lado da me, respeitando zelosamente o luto por Ahmad
e Noor, mas, l no fundo de seu corao, sabia que o seu verdadeiro irmo estava
vivo e bem.

       20
       Foi ENTO QUE COMEARAM OS problemas que afligiriam mammy pelo resto de sua
vida. Dores no peito e dores de cabea, dores nas articulaes e suores noturnos,
dores terrveis no ouvido, caroos que ningum mais conseguia sentir. Babi a levou
ao mdico. Fizeram exames de sangue e de urina, tiraram radiografias de todo o seu
corpo, mas no encontraram qualquer distrbio fsico.
       Ela passava a maior parte do tempo de cama. S usava preto. Ficava puxando
fios do cabelo e mordendo aquela protuberncia do lbio inferior. Quando ela estava
acordada, Laila a via cambaleando pela casa. Acabava sempre indo ao quarto da
filha. Era como se, mais cedo ou mais tarde, fosse acabar encontrando os filhos se
continuasse indo quele quarto onde eles tinham dormido, peidado, feito guerra de
travesseiros. Tudo o que encontrava, porem, era a ausncia deles. E Laila. O que
dava absolutamente na mesma. Pelo menos, era o que a menina acreditava.
       A nica coisa que mammy no deixava de fazer eram as cinco namaz dirias.
Terminava cada uma dessas oraes com a cabea bem baixa, as mos diante do rosto,
com as palmas viradas para cima, murmurando uma prece para que Deus desse a vitria
aos mujahedins. Cada vez mais, era Laila quem tinha de fazer as tarefas domsticas.
Se no cuidasse disso, era capaz de encontrar roupas, sapatos, sacos de arroz
abertos, latas de feijo e pratos sujos espalhados por todo canto. Era ela que
lavava as roupas da me e trocava os seus lenis. Lutava para tir-la da cama para
tomar banho e fazer as refeies. Passava as camisas do pai e dobrava as suas
calas. Agora, era ela quem cozinhava praticamente todos os dias.
       s vezes, quando terminava suas tarefas, Laila se enfiava na cama ao lado de
mammy. Abraava-a, enlaava os dedos nos dela, escondia o rosto em seu cabelo. A
me se remexia, murmurando alguma coisa e, inevitavelmente, comeava a contar
alguma histria sobre os meninos.
       Certo dia, quando estavam deitadas desse jeito, mammy disse:
       -- Ahmad ia ser um lder. Ele tinha o carisma necessrio para isso. Gente que
tinha o triplo da sua idade ouvia e acatava o que ele dizia. Era impressionante. E
Noor, ah, o meu Noor... Passava o tempo todo desenhando prdios e pontes. Ia ser
arquiteto, sabe? Ia transformar Cabul com seus projetos. E, agora, os meus
filhinhos so shahid, Laila, os dois so mrtires.
       A menina ficava deitada naquela cama, s ouvindo, mas querendo que a me
percebesse que ela no tinha se tornado um shahid, que estava viva, ali mesmo, ao
seu lado, e que tinha esperanas e um futuro. Mas Laila sabia que o seu futuro no
podia competir com o passado dos irmos. A sombra de ambos encobriu a sua prpria
vida. E tambm apagaria a sua morte. Mammy era, agora, a curadora do museu da vida
deles e ela, uma simples visitante. Um receptculo para aqueles mitos. O pergaminho
em que a me pretendia escrever as suas lendas.
       -- O mensageiro que veio nos dar a notcia disse que, quando trouxeram os
meninos de volta ao acampamento, Ahmad Shah Massoud em pessoa presidiu ao funeral e
rezou por eles ao lado da sepultura. Est vendo como os seus irmos eram rapazes
corajosos, Laila? O prprio comandante Massoud, o Leo de Panjshir, que Deus o
abenoe, conduziu a cerimnia fnebre...
       Mammy se virou de barriga para cima. Laila se ajeitou na cama e deitou a
cabea no peito da me.
       -- Tem dias -- prosseguiu ela, com voz rouca -- em que ouo o tiquetaque do
relgio l no corredor. Ento, penso em todos os minutos, todas as horas, os dias,
as semanas, os meses, os anos que passei esperando. Todo esse tempo sem eles. E no
consigo respirar, Laila;  como se algum estivesse pisando no meu corao. Fico
to enfraquecida, to enfraquecida que tudo o que quero  cair por a, em algum
lugar.
       -- Se ao menos eu pudesse fazer alguma coisa... -- disse Laila. Estava sendo
sincera, mas a frase soou vaga, superficial, como a tentativa de consolo meramente
formal de um estranho qualquer.
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       -- Voc  uma boa filha -- disse mammy, depois de um suspiro profundo. -- E no
tenho sido uma boa me para voc.
       -- No diga isso.
       -- Mas  verdade. Sei disso, e lamento muito, minha querida.
       -- Mammy?
       -- H?
       Laila se sentou na cama, olhando para a me deitada. Seu cabelo estava agora
bastante grisalho e a menina ficou impressionada ao ver como ela, que sempre tinha
sido gorducha, havia emagrecido. Seu rosto estava encovado e plido. A blusa que
usava lhe caa pelos ombros, com uma folga considervel entre a gola e o pescoo.
Mais de uma vez, viu a aliana escorregar do dedo da me.
       -- Tenho pensado em lhe perguntar uma coisa.
       -- O qu?
       -- Voc... -- principiou Laila.
       Tinha conversado a respeito com Hasina. Por sugesto da amiga, as duas
tinham despejado o contedo do frasco de aspirinas no ralo, escondido as facas da
cozinha e os espetos pontiagudos de kebab sob o tapete que ficava debaixo do sof.
Hasina encontrou uma corda no quintal. Certa feita, quando babi estava procurando
suas lminas de barbear, a menina lhe falou de seus temores. Ele se deixou cair no
sof, com as mos entre os joelhos. Laila esperava que o pai a tranqilizasse, de
uma forma ou de outra, mas tudo o que ele fez foi fit-la com os olhos vagos, meio
desorientado.
       -- Voc no... Mammy, tenho medo de que...
       -- Pensei nisso, na noite em que recebi a notcia -- disse-lhe a me. -- No
vou mentir para voc. E continuo pensando nisso. Mas, no, no se preocupe. Laila.
Quero ver o sonho dos meus filhos se tornar realidade. Quero ver o dia em que os
soviticos vo voltar para casa derrotados, o dia em que os mujahedins vo entrar
em Cabul, vitoriosos. Quero estar aqui quando isso acontecer, quando o Afeganisto
voltar a ser livre, pois, assim, os meninos vo ver isso tambm. Vo ver essas
cenas atravs dos meus olhos.
       Logo depois, mammy pegou no sono, deixando Laila dominada por emoes
conflitantes: por um lado, o alvio de saber que a me pretendia continuar viva;
por outro, a dor de saber que no era por sua causa. Nunca deixaria a sua marca no
corao de mammy, como seus irmos tinham deixado, porque aquele corao era uma
espcie de praia desbotada onde as pegadas da menina seriam sempre apagadas pelas
ondas da tristeza que se erguiam e quebravam, se erguiam e quebravam.

       21
       O MOTORISTA ENCOSTOU o TXI para deixar passar mais um comboio de jipes e
blindados soviticos. Tariq se inclinou no banco da frente, debruando-se sobre o
motorista, e gritou:
       -- Pajalusta! Pajalusta!
       Um dos jipes buzinou e Tariq respondeu com um assobio, sorrindo e acenando,
todo animado.
       -- Lindas armas! -- gritou o menino. -- Que jipe fantstico! Que exrcito
fantstico! Pena que estejam perdendo para um punhado de camponeses armados de
estilingues!
       O comboio passou. O motorista retomou seu caminho.
       -- Falta muito? -- perguntou Laila.
       -- Uma hora, no mximo -- respondeu o taxista. -- A no ser que a gente
encontre mais comboios ou postos de controle.
       Laila, babi e Tariq estavam indo passar o dia fora. Hasina implorou ao pai
que a deixasse ir tambm, mas ele no deixou. Aquele passeio tinha sido idia de
babi. Embora o seu salrio no permitisse aquele tipo de extravagncia, contratou o
txi por um dia inteiro. O destino da viagem era segredo; tudo o que ele disse a
filha foi que, com isso, estaria contribuindo para sua educao.
       Estavam viajando desde as cinco horas da manh. Pela janela, a paisagem
variava, indo dos picos cobertos de neve aos desertos, aos cnions e s formaes
rochosas crestadas pelo sol. Durante o trajeto, viram casas de barro com telhado de
sap e campos pontilhados de feixes de trigo. Aqui e ali, naqueles campos
poeirentos, Laila podia ver as tendas pretas dos nmades kuchi. E, vira e mexe,
carcaas queimadas de tanques soviticos e helicpteros destroados. "Este", pensou
a menina, " o Afeganisto de Ahmad e Noor". Afinal, era aqui, no interior, que a
guerra estava sendo travada. No em Cabul. A capital vivia praticamente em paz. Se
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no fossem os tiroteios ocasionais, se no fossem os soldados soviticos fumando
pelas caladas e os jipes que passavam constantemente pelas ruas, a guerra no
passaria de um boato.
        A manh j ia adiantada quando entraram no vale, depois de passar por mais
dois postos de controle. Babi fez Laila se inclinar no banco para ver, ao longe,
uma srie de muralhas de um vermelho queimado pelo sol que pareciam muito antigas.
        -- Esta  Shahr-e-Zohak, como  chamada, a cidade vermelha. No passado, era
uma fortaleza. Foi construda h cerca de novecentos anos para defender o vale
contra os invasores. O neto de Gngis Khan a atacou no sculo XIII, mas foi morto.
Foi o prprio Gngis Khan quem a destruiu.
        -- Esta, meus amiguinhos,  a histria do nosso pas, um invasor atrs do
outro... -- disse o motorista, batendo a cinza do cigarro pela janela. -- Macednios,
sassnidas, rabes, mongis e, agora, os soviticos. Mas somos como essas muralhas:
surradas e nada bonitas de se ver, mas agentando firme. No e verdade, badar?
        -- Sem duvida -- respondeu babi.
        Meia hora mais tarde, o motorista parou o carro.
        -- Venham -- disse babi. -- Saiam do carro e dem uma olhada nisso. Os meninos
obedeceram e ele prosseguiu, apontando: -- A esto eles. Vejam.
        Tariq chegou a perder o flego. Laila tambm. E teve a certeza de que, mesmo
que vivesse cem anos, jamais veria algo to grandioso.
        Os dois Budas eram imensos, muito maiores do que ela achava que fossem pelas
fotos que tinha visto. "Esculpidos no penhasco rochoso, fitavam as pessoas l
embaixo, exatamente como faziam h quase duzentos anos", pensou Laila, "quando as
caravanas cruzavam aquele vale seguindo a Rota da Seda". De ambos os lados das
esttuas, por toda a extenso do gigantesco nicho, o rochedo tinha sido escavado
formando uma infinidade de cavernas.
        -- Eu me sinto to pequeno... -- disse Tariq.
        -- Querem subir? -- perguntou babi.
        -- Subir nas esttuas? -- indagou Laila. -- Podemos?
        -- Venham -- disse seu pai, sorrindo e estendendo a mo.
        A subida foi difcil para Tariq, que precisou se segurar tanto em Laila
quanto no pai dela para galgar aquela escadinha estreita, sinuosa e escura. Por
todo o caminho, viram cavernas sombrias e tneis que formavam um emaranhado dentro
do penhasco.
        -- Andem com cuidado -- disse babi, e sua voz ecoou bem alto. -- O solo, aqui,
 traioeiro.
        Em certos pontos, a escada se abria em vos sobre o nicho dos Budas.
        -- No olhem para baixo, crianas -- recomendou babi. -- Olhem sempre para
frente.
        Enquanto subiam, ele lhes contou que Bamiyan havia sido, outrora, um reduto
florescente do budismo, at cair sob o domnio islmico no sculo IX. Os penhascos
de rocha calcria eram a morada de monges budistas que escavavam essas cavernas
para us-las como moradia e como abrigo para os peregrinos cansados. Esses monges,
acrescentou babi, pintaram lindos afrescos pelas paredes e pelos tetos das
cavernas.
        -- A certa altura -- disse ele --, chegou a haver cinco mil monges vivendo aqui
como eremitas.
        Tariq estava inteiramente sem flego quando chegaram ao topo. Babi tambm
estava Ofegante, mas seus olhos brilhavam entusiasmados.
        -- Estamos no alto da cabea da esttua -- disse ele, enxugando a testa com o
leno. -- Logo ali, tem um nicho de onde podemos olhar l para fora.
        Com todo cuidado, foram at a abertura rochosa e, um ao lado do outro, com
babi no meio, puderam avistar o vale l embaixo.
        -- Vejam! -- exclamou Laila. E seu pai sorriu.
        O vale de Bamiyan era recoberto de plantaes florescentes. Babi disse que
era trigo verde, do plantio de inverno, alfafa e tambm batatas. Os campos eram
cercados de choupos e recortados por riachos e canais de irrigao em cujas margens
minsculas figuras femininas estavam agachadas lavando roupa. Apontou para os
arrozais e as plantaes de cevada que recobriam as encostas. Era outono e, nos
telhados de adobe, Laila podia ver gente usando tnicas coloridas, espalhando os
gros colhidos para secar ao sol. A rua que atravessava o povoado tambm era
margeada de choupos. Em ambas as caladas, havia lojinhas, casas de ch e barbeiros
de rua. Para alm da aldeia, para alm do rio e dos riachos, Laila viu colinas
escuras e desprovidas de vegetao, e, alm delas, alm de tudo o mais no
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
Afeganisto, a cordilheira do Hindu Kush com seus cumes cobertos de neve.
       La no alto, o cu era de um azul imaculado.
       -- E tudo to quieto aqui -- disse Laila, quase murmurando. Podia ver
carneiros e cavalos minsculos, mas no podia ouvir os rudos que faziam.
       --  nisso que sempre penso quando lembro daqui -- disse babi. -- O silncio. A
paz deste lugar. Queria que vocs tivessem essa experincia. Mas tambm queria que
vissem a herana do nosso pas, crianas, que aprendessem um pouco sobre o seu
passado to rico. Esto vendo, tem algumas coisas que posso lhes ensinar. Tem
coisas que se podem aprender nos livros, mas tem outras que s mesmo vendo e
sentindo.
       -- Olhem! -- exclamou Tariq.
       Era um falco que voava em crculos sobre o povoado.
       -- Voc j trouxe mammy at aqui? -- perguntou Laila.
       -- Ah, muitas vezes. Antes de os meninos nascerem. E depois tambm. Naquela
poca, a sua me gostava de aventuras e... tinha tanta vida. Ela era simplesmente a
pessoa mais cheia de vida e mais feliz que j vi -- prosseguiu ele, sorrindo com as
recordaes. -- E o riso dela? Juro que foi por isso que me casei com sua me,
Laila, por causa daquele riso. Era algo absolutamente dominador. Ningum tinha a
menor chance diante dele.
       Laila se sentiu tomada por uma onda de afeto. Daquele dia em diante, era
assim que se lembraria do pai: mergulhado nas recordaes, com os cotovelos
apoiados na pedra, o queixo nas mos, o cabelo esvoaando ao vento, os olhos
apertados por causa do sol.
       -- Vou dar uma olhada numa dessas cavernas -- disse Tariq.
       -- Tome cuidado -- recomendou babi.
       -- Pode deixar, kaka jan -- disse a voz de Tariq ecoando pela rocha.
       Laila ficou olhando um grupinho de trs homens bem l embaixo, conversando
perto de uma vaca presa a uma cerca. As rvores, ao seu redor, tinham comeado a
ficar amarelas, alaranjadas e at vermelho vivo.
       -- Tambm sinto saudade dos meninos, sabe? -- disse babi e seus olhos ficaram
marejados, seu queixo tremeu ligeiramente. -- Posso no... A sua me  assim: com
ela, tanto a alegria quanto a tristeza so exageradas. E ela no sabe esconder o
que sente. Nunca soube. Acho que sou diferente. Tenho tendncia a... Mas a morte
dos meninos tambm me deixou arrasado. Sinto muita falta deles. No h um dia que
no...  muito difcil, Laila. Muito mesmo. -- Ele apertou o canto interno dos olhos
com o polegar e o indicador. Quando tentou falar, sua voz falhou. Apertou bem os
lbios e esperou. Depois, respirou fundo e fitou a filha.
       -- Mas estou feliz porque tenho voc. Todo dia, agradeo a Deus por isso.
Todo santo dia. s vezes, quando sua me est num daqueles momentos terrveis, fico
pensando que voc  tudo o que eu tenho, Laila.
       A menina se aproximou do pai e encostou a cabea no seu peito. Ele pareceu
meio assustado:  diferena de sua me, babi raramente expressava o seu afeto
fisicamente. Deu um beijinho na cabea da filha e a abraou um tanto desajeitado. E
os dois ficaram parados assim por uns instantes, olhando o vale de Bamiyan a seus
ps.
       -- Adoro essa terra, mas tem dias em que me d vontade de ir embora
       -- disse ele.
       -- Para onde?
       -- Para qualquer lugar em que seja fcil esquecer. Acho que, primeiro, para o
Paquisto. Passar um ano l, talvez dois, esperando que nossos papis fiquem
prontos.
       -- E depois?
       -- Depois... bom, o mundo  muito grande, Laila. Quem sabe a Amrica? Algum
lugar perto do mar. Como a Califrnia.
       Babi disse que o povo dos Estados Unidos era generoso. Que seriam ajudados,
recebendo dinheiro e comida por algum tempo, at conseguirem sobreviver por conta
prpria.
       -- Posso arranjar trabalho e, em poucos anos, quando tiver economizado o
bastante, abriramos um pequeno restaurante afego. Nada muito luxuoso; s um
lugarzinho modesto, com poucas mesas e alguns tapetes. Talvez, uns quadros de Cabul
pelas paredes. Vamos oferecer quela gente o sabor da comida afeg. Com sua me na
cozinha, vai ter fila na porta...
       "E voc continuaria a estudar,  claro. Sabe o que penso a este respeito. A
nossa prioridade mxima seria que voc tivesse uma boa educao, e fosse para a
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faculdade. Mas, nas horas vagas, se quisesse, poderia nos ajudar, anotando os
pedidos, enchendo as jarras de gua, fazendo coisas assim."
        Babi disse que o restaurante poderia acolher festas de aniversrio, de
noivado, de Ano-Novo; que acabaria se transformando num local de encontro para
outros afegos que, como eles, tivessem fugido da guerra. E a noite, depois que os
clientes fossem embora e que tivessem terminado de limpar tudo, os trs ficariam
sentados ali, tomando ch, cansados, mas agradecidos pela sorte que tinham.
        Quando terminou de falar, ficou quieto. Os dois ficaram. Sabiam muito bem
que mammy no iria a lugar algum. Deixar o Afeganisto j era alguma coisa
impensvel para ela enquanto Ahmad e Noor ainda estavam vivos. Agora, que eles
tinham se tornado shahid, fazer as malas e ir embora era ainda pior: era uma
verdadeira afronta, uma traio, a prpria negao do sacrifcio feito pelos
filhos.
        "Como pode ter pensado nisso?", perguntaria ela, e Laila podia ouvi-la
mentalmente. "A morte dos dois no significa nada para voc, primo? Pois o nico
consolo que tenho e saber que piso nesse cho impregnado pelo sangue deles. No.
Nunca."
        E a menina sabia que o pai nunca iria embora sem ela, apesar de mammy no
ser mais uma esposa para ele, como tambm no era uma me para a prpria filha.
Pela mulher, babi tiraria esse sonho da cabea, exatamente como tirava a farinha do
casaco quando voltava para casa depois do trabalho. Portanto, ficariam ali. At a
guerra terminar. E continuariam ali para enfrentar o que quer que viesse depois
dela.
        Laila lembrou que, certa vez, ouviu sua me dizer a seu pai que tinha se
casado com um homem sem convices. Mammy no entendia. Ela no entendia que, se
olhasse no espelho, veria a mais firme das convices da vida dele bem ali, a sua
frente.
        Mais tarde, depois de comerem ovos cozidos e batata com po, Tariq se deitou
sob uma rvore, s margens de um riachinho gorgolejante. Dormiu com o casaco
dobrado como se fosse um travesseiro e as mos cruzadas no peito. O motorista foi
at o povoado comprar amndoas. Babi se sentou ao p de uma accia de tronco bem
grosso para ler. Era um livro que Laila conhecia, pois seu pai o tinha lido para
ela. Contava a histria de um velho pescador chamado Santiago, que fisgou um peixe
enorme. Mas quando o pescador consegue chegar a praia, so e salvo, no resta nada
do seu precioso peixe: os tubares o tinham devorado.
        Laila se sentou  beira do riacho, com os ps mergulhados na gua fria. No
ar, os mosquitos zumbiam e as sementes de algodo danavam. Uma liblula voava ali
pertinho. A menina ficou olhando aquelas asas que reluziam ao sol enquanto o inseto
ia passando de uma folhinha a outra: eram reflexos roxos, verdes, alaranjados. Na
outra margem, uns meninos hazaras recolhiam bosta de boi no cho e punham tudo nos
sacos de aniagem que levavam s costas. Em algum lugar, um burro zurrou. Um gerador
comeou a funcionar.
        Pensou ento no sonho do pai: viver em "algum lugar perto do mar".
        Mas tinha uma coisa que ela no disse ao pai l em cima, na cabea da
esttua: no lhe disse que ficava feliz por eles no irem embora. Sentiria falta de
Giti, com aquele seu jeito srio e compenetrado, e de Hasina tambm, com aquele
seu riso maldoso, sempre fazendo palhaadas. Acima de tudo, porm, ela se lembrava
muito bem de como foram difceis aquelas quatro semanas sem Tariq, quando ele foi
para Ghazni. Lembrava muito bem como o tempo custou a passar sem ele por ali; como
ficava perambulado  toa, sentindo-se acuada, desnorteada. Como poderia agentar a
ausncia dele para sempre?
        Talvez fosse loucura querer estar assim junto de algum num pas onde as
armas tinham matado seus prprios irmos. Mas bastava lembrar de Tariq enfrentando
Khadim com a perna mecnica para saber que no havia no mundo atitude mais
sensata...
        Seis meses depois, em abril de 1988, babi voltou para casa com grandes
notcias.
        -- Eles assinaram um acordo! -- exclamou. -- Em Genebra. Agora,  oficial!
Esto indo embora. Dentro de nove meses, no haver mais nenhum sovitico no
Afeganisto!
        Mammy, que estava sentada na cama, deu de ombros.
        -- Mas o regime comunista permanece -- disse ela. -- O presidente Najibullah e
um joguete dos soviticos. E vai continuar bem aqui. No, a guerra no acabou. Isto
no e o fim.
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       -- Najibullah no vai continuar no poder -- retrucou babi.
       -- Eles esto indo embora, mammy! Esto indo embora mesmo! -- exclamou Laila.
       -- Podem comemorar, se quiserem. Mas no vou descansar enquanto no vir o
desfile dos mujahedins entrando, vitoriosos, aqui em Cabul.
       Dizendo isto, voltou a se deitar e puxou as cobertas.

        22
        Janeiro de 1989
        NUM DIA FRIO E NUBLADO do ms de janeiro de 1989, quando faltavam trs meses
para ela fazer 11 anos, Laila foi, com os pais e a amiga Hasina, ver um dos ltimos
comboios soviticos que deixava a cidade. Tinha gente de um lado e de outro da
avenida que levava ao Clube Militar, perto de Wazir Akbar Khan. Ficaram parados
ali, na neve lamacenta que cobria o cho, vendo a fila de tanques, caminhes
blindados e jipes enquanto a neve que caa esvoaava diante dos faris desses
veculos. As pessoas gritavam e vaiavam. Soldados afegos tratavam de manter aquela
gente toda nas caladas. De vez em quando, precisavam disparar tiros de
advertncia.
        Mammy segurava uma foto de Ahmad e de Noor bem acima da cabea. Era aquela
em que os dois estavam sentados debaixo da pereira do quintal. Havia outras que,
como ela, exibiam fotos de seus maridos, filhos ou irmos, todos shahids.
        Algum bateu no ombro de Laila e de Hasina. Era Tariq.
        -- Onde arranjou isso? -- exclamou Hasina.
        -- Achei que devia vir vestido a carter para a ocasio -- respondeu o menino
que estava usando um imenso gorro de pele russo, daqueles que tm protetores de
ouvido. -- Que tal estou?
        -- Ridculo -- disse Laila, rindo.
        -- Era exatamente o que eu pretendia -- retrucou ele.
        -- Seus pais vieram at aqui com voc vestido desse jeito?
        -- No. Na verdade, eles ficaram em casa.
        No outono, aquele seu tio de Ghazni tinha morrido de um ataque cardaco e,
poucas semanas mais tarde, o pai de Tariq teve um infarto, o que o deixou frgil e
abatido. Desde ento, andava muito ansioso e deprimido. Laila estava feliz por ver
Tariq assim, como ele sempre foi. Durante um bom tempo, depois que o pai ficou
doente, Laila via o amigo se arrastando por a, com o rosto srio e contrado.
        Os trs resolveram dar uma volta enquanto os pais de Laila continuavam a ver
o comboio sovitico. Num ambulante, Tariq comprou um prato de feijo cozido
recoberto com um espesso chutney de coentro para cada um deles. Sentaram-se para
comer sob o toldo de uma loja de tapetes que estava fechada e, depois, Hasina foi
encontrar sua famlia.
        No nibus, de volta para casa, Tariq e Laila sentaram atrs dos pais dela.
Mammy estava na janela, olhando para fora, com a foto agarrada junto ao peito. Ao
seu lado, babi ouvia impassvel um sujeito indignado que dizia que os soviticos
podiam estar indo embora, mas mandariam armas para Najibullah em Cabul.
        -- Ele no passa de um joguete. Pode apostar que os soviticos vo continuar
comandando atravs dele.
        Algum do outro lado concordou.
        Mammy ia murmurando umas oraes interminveis e s parava quando ficava sem
flego, pronunciando as ltimas palavras com uma vozinha estridente e bem aguda.
        Mais tarde, naquele mesmo dia, Laila e Tariq foram ao cinema Park e tiveram
de agentar um filme sovitico dublado em farsi, o que acabou sendo cmico, embora
no fosse essa a inteno. A histria se passava num navio mercante. O imediato
estava apaixonado pela filha do capito, que se chamava Alyona. De repente, h uma
violenta tempestade, com raios e trovoadas, e o mar agitado aoita o navio. Um dos
marinheiros, desesperado, grita alguma coisa e ouve-se a voz de um afego
absurdamente calmo dizendo: "Prezado senhor, pode ter a gentileza de me passar essa
corda?"
        Diante disso, Tariq caiu na gargalhada e no demorou muito para os dois
terem um acesso de riso incontrolvel. Quando um deles se cansava, o outro fazia
aquela espcie de grunhido de quem est tentando prender o riso, e pronto: comeava
tudo outra vez. Um homem, sentado duas fileiras adiante, virou para trs pedindo
silncio.
        Mais para o fim do filme, tinha uma cena de casamento. O capito cedeu e
permitiu que Alyona se casasse com o imediato do navio. Os recm-casados sorriam,
um para o outro, e todos tomavam vodca.
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        -- Nunca vou me casar -- sussurrou Tariq.
        -- Nem eu -- disse Laila, mas no sem um momento de hesitao que a deixou
nervosa. Ficou com medo que a sua voz trasse o desapontamento que sentiu ao ouvir
aquela frase. Com o corao aos pulos, a menina acrescentou e, desta feita, com
mais convico: -- Nunca.
        -- Casamento  besteira.
        -- Uma confuso danada.
        -- E todo o dinheiro que se gasta.
        -- Para qu?
        -- Comprando roupas que nunca mais vamos usar de novo.
        -- H, h!
        -- Se por acaso eu me casar -- acrescentou Tariq -- vo ter que arranjar espao
para trs pessoas no altar: eu, a noiva e o sujeito que vai ficar segurando o
revlver apontado para a minha cabea.
        O homem da frente se virou novamente, de cara feia.
        Na tela, Alyona e o marido se beijaram na boca.
        Ao ver esse beijo, Laila achou que ele ia perceber tudo o que estava
acontecendo. Podia sentir nitidamente o corao batendo, podia ouvir o sangue
pulsando, via o vulto de Tariq a seu lado, se enrijecendo, se calando. E o beijo
prosseguia. De repente, a menina teve a sensao de que precisava ficar imvel, no
fazer qualquer rudo. Sentia que Tariq a fitava -- um olho no beijo, o outro, nela
--, exatamente como ela o fitava. Ser que ele estava ouvindo o barulhinho do ar
entrando e saindo por suas narinas, a espera de uma mnima falha, uma
irregularidade reveladora, que trasse seus pensamentos?
        E como seria beij-lo, como seria sentir aquela penugem acima dos lbios
dele roando sua prpria boca?
        Ento, Tariq se remexeu na cadeira, parecendo desconfortvel, e disse, com
uma voz um tanto forada:
        -- Sabe que, se a gente tira meleca na Sibria, ela vira um bloquinho de gelo
antes mesmo de cair no cho?
        Ambos riram, mas, desta vez, foi um riso breve, nervoso. E, quando o filme
terminou e eles saram do cinema, Laila ficou aliviada ao ver que j estava
escurecendo e que no precisaria enfrentar os olhos de Tariq em plena luz do dia.

        23
        Abril de 1992
        TRS ANOS SE PASSARAM.
        Durante esse perodo, o pai de Tariq teve uma srie de AVCs que o deixaram
sem os movimentos da mo esquerda e com uma ligeira dificuldade de articulao.
Quando estava nervoso, o que no era nada raro, os problemas da fala pioravam.
        Mais uma vez, Tariq cresceu e a perna mecnica ficou pequena. Ele conseguiu,
ento, uma nova, graas a Cruz Vermelha, mas teve de esperar seis meses para
receb-la.
        Como Hasina temia, sua famlia a levou at Lahore para cas-la com o tal
primo que era dono de uma concessionria. Na manh em que foi embora, Laila e Giti
foram a sua casa para se despedir. Hasina lhes disse que o primo com quem ia se
casar j tinha dado entrada nos papis para ir viver na Alemanha, onde moravam os
seus irmos. Achava que, ainda esse ano, deveriam se mudar para Frankfurt. As trs
choraram, abraadas. Giti estava inconsolvel. A ultima vez que Laila viu Hasina
foi quando a famlia a estava ajudando a entrar no banco de trs de um txi j
lotado.
        A Unio Sovitica estava se desfazendo com uma rapidez espantosa.
Praticamente a cada semana, babi voltava do trabalho contando que uma das
republicas tinha declarado sua independncia. Litunia. Estnia. Ucrnia. Desceram
a bandeira sovitica do mastro do Kremlin: a republica da Rssia acabava de nascer.
        Em Cabul, Najibullah mudava de ttica e tentava passar a imagem de um
muulmano fervoroso.
        --  muito pouco, e est vindo tarde demais -- comentou babi. -- No d para
ser o chefe da KHAD num dia e, no dia seguinte, estar rezando numa mesquita junto
com as pessoas cujos parentes voc mandou torturar e matar.
        Ao sentir que o cerco se fechava em torno de Cabul, Najibullah tentou fazer
um acordo com os mujahedins, mas estes se recusaram.
        Deitada na cama, mammy disse:
        -- Ainda bem!
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       Ela continuava fazendo suas viglias pelos mujahedins e aguardando o desfile
da vitria, esperando pelo momento em que os inimigos de seus filhos seriam enfim
derrotados.
       E acabou acontecendo. Em abril de 1992, quando Laila fez 14 anos.
       Najibullah finalmente se rendeu e se refugiou no prdio da ONU, perto do
palcio Darulaman, ao sul da capital.
       O jihad tinha terminado. Os vrios governos comunistas que se sucediam no
poder desde que Laila nasceu tinham sido derrotados. Os heris de mammy, os
companheiros de batalha de Ahmad e de Noor, tinham vencido. E agora, depois de mais
de uma dcada sacrificando tudo, deixando a prpria famlia para ir viver nas
montanhas e lutar pela soberania do Afeganisto, os mujahedins estavam vindo para
Cabul, em carne, sangue e ossos massacrados pela guerra.
       Mammy conhecia a todos pelo nome.
       Um deles era Dostum, o espalhafatoso comandante uzbeque, lder da faco
Junbish-i-Milli, que tinha a reputao de vira-casaca. Havia tambm Gulbudin
Hekmatyar, o carrancudo e veemente lder da faco Hezb-e-Islami, um pashtun que
fez faculdade de engenharia e que, certa feita, matou um estudante maosta. Havia
ainda Rabbani, o lder tadjique da faco Jamiat-e-Islami, que era professor de lei
islmica na Universidade de Cabul na poca da monarquia. Havia Sayyaf, um pashtun
de Paghman, ligado aos rabes, muulmano ferrenho e lder da faco
Ittehad-i-Islami. E tambm Abdul Ali Mazari, o lder da faco Hizb-e-Wahdat,
conhecido como baba Mazari por seus co-irmos hazaras e muito ligado aos grupos
xiitas do Ir.
       E,  claro, o heri de mammy, o aliado de Rabbani, o taciturno e carismtico
comandante tadjique Ahmad Shah Massoud, o Leo de Panjshir. A me de Laila tinha
pendurado uma foto dele em seu quarto: o rosto belo e pensativo de Massoud, com uma
sobrancelha arqueada e a sua marca-registrada, o pakol meio de lado na cabea.
Aquele rosto que se tornou onipresente em Cabul. Aqueles olhos profundos que
fitavam a todos l dos cartazes, dos muros, das vitrines das lojas, de bandeirinhas
que tremulavam nas antenas dos txis.
       Chegou o dia com que sua me tanto sonhou, o dia que deu sentido a todos
aqueles anos de espera.
       Enfim, podia parar com as viglias, e seus filhos podiam descansar em paz.
       No dia seguinte a rendio de Najibullah, mammy se levantou da cama: era
outra mulher. Pela primeira vez naqueles cinco anos, desde que Ahmad e Noor tinham
se tornado shahids, ela no se vestiu de preto. Ps um vestido de linho
azul-cobalto com bolinhas brancas e lavou as janelas, varreu o cho, arejou a casa
toda, tomou um banho bem demorado. At a sua voz estava estridente, de tanta
felicidade.
       -- Temos que fazer uma festa -- declarou, e mandou Laila ir convidar os
vizinhos. -- Diga a eles que vamos fazer um grande almoo amanh!
       Parou na cozinha, olhando ao seu redor, com as mos nas cadeiras e disse,
num tom de repreenso meio brincalhona:
       -- O que voc fez com a minha cozinha, Laila? Wooy! No tem nada no lugar
certo.
       Comeou a trocar os lugares das tigelas e das panelas, com um ar teatral,
como se estivesse tomando posse daqueles objetos novamente, recuperando o seu
territrio, agora que estava de volta. Laila no ficou por perto. Era melhor assim.
A me podia ser descontrolada, tanto em seus ataques de euforia quanto em seus
acessos de raiva. Com uma disposio inquietante, ela comeou a cozinhar para fazer
uma sopa aush com feijo e aneto, preparar kofta e mantu, regado a iogurte fresco e
salpicado com menta.
       -- Voc esta depilando as sobrancelhas! -- observou ela, abrindo um grande
saco de arroz em cima da bancada da cozinha.
       -- S um pouquinho.
       Mammy despejou o arroz numa vasilha preta cheia de gua, arregaou as mangas
e comeou a remex-lo.
       -- Como vai Tariq?
       -- O pai dele esteve doente -- disse Laila.
       -- Que idade ele tem?
       -- No sei. Acho que uns sessenta.
       -- No, quantos anos tem Tariq?
       -- Ah! Dezesseis.
       -- Ele  um bom menino, no acha? Laila deu de ombros.
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       -- Na verdade, no  mais um menino, no  mesmo? Dezesseis anos... J 
quase um homem, no acha?
       -- Aonde voc quer chegar, mammy?
       -- A lugar nenhum -- respondeu ela, com um sorriso inocente. -- A lugar nenhum.
S que voc... Ah, nada.  melhor eu ficar calada.
       -- At parece... -- retrucou a menina, irritada com essas insinuaes
espirituosas e cheias de rodeios.
       -- Bom... -- disse a me, cruzando as mos na borda da vasilha. Laila notou
uma certa afetao no jeito como ela disse "bom", e, depois, cruzou as mos, quase
como se fossem gestos ensaiados. Ficou com medo do que estava por vir. -- Quando
vocs eram pequenos e ficavam correndo por a afora era uma coisa -- prosseguiu
mammy. -- No tinha mal algum nisso. Era uma gracinha. Mas, agora... Agora, estou
vendo que voc j est usando suti, Laila.
       A menina no esperava por aquilo.
       -- Alis, voc podia ter me falado do suti... Eu no estava nem sabendo.
Fico desapontada por no ter me contado nada. -- E, percebendo a vantagem que
levava, prosseguiu: -- Mas, no estamos falando de mim ou do suti. Estamos falando
de voc e Tariq. Ele  um rapaz e, por isso, no liga a mnima para a prpria
reputao. Mas voc... A reputao de uma menina, principalmente de uma menina
bonita como voc, Laila,  uma coisa delicada.  como segurar um main. Basta
soltar um pouco as mos e pronto: ele sai voando.
       -- E aquela histria de voc pular muro e ficar quase se arrastando no
quintal com babi -- perguntou Laila, toda feliz por ter tido presena de esprito.
       -- Ns ramos primos. E nos casamos. Por acaso esse rapaz pediu a sua mo?
       -- Ele  um amigo, me. Um rafiq. No tem nada a ver com casamento -- disse
Laila, meio na defensiva, num tom no muito convincente, e ainda fez a besteira de
acrescentar: -- Tariq  como um irmo para mim.
       Antes mesmo que o rosto de sua me se anuviasse e seus traos se
contrassem, a menina j sabia que tinha cometido um erro.
       -- Mas no  mesmo -- retrucou mammy, categrica. -- No compare esse rapazinho
perneta, filho de um carpinteiro, aos seus irmos. No existe ningum como eles.
       -- Mas eu no disse que... No era isso que eu estava querendo dizer.
       Mammy suspirou pelo nariz e cerrou os dentes.
       -- Bom. Seja como for... -- prosseguiu ela, mas j sem aquele tom leve, com
uma pontinha de alegria, de alguns minutos atrs. -- O que estou tentando lhe dizer
e que, se no tomar cuidado, as pessoas vo comear a falar.
       Laila chegou a abrir a boca para dizer alguma coisa. No que achasse que a
me no tinha razo. Sabia muito bem que aqueles dias de inocncia, quando podia
ficar tranqilamente brincando com Tariq pelas ruas, tinham terminado. J h algum
tempo, vinha percebendo algo diferente no ar sempre que os dois saiam juntos em
pblico. Podia sentir que as pessoas olhavam para eles, reparavam neles,
cochichavam a seu respeito, e no notava nada disso antes. E talvez continuasse a
no notar, mesmo agora, se no fosse por um detalhe fundamental: tinha se
apaixonado por Tariq. Estava loucamente apaixonada, e sem qualquer esperana.
Quando ele estava por perto, Laila no conseguia se impedir de ter os pensamentos
mais escandalosos, imaginando aquele corpo esguio, nu, abraado ao seu. Deitada na
cama,  noite, pensava nele beijando a sua barriga, imaginava a doura dos seus
lbios, o toque das suas mos no seu pescoo, no seu peito, na suas costas e at
descendo mais pelo seu corpo. Quando pensava nele desse jeito, ficava culpadssima,
mas tambm sentia alguma coisa diferente, uma sensao de quentura que vinha
subindo desde a sua barriga at parecer que o seu rosto estava vermelho.
       No. Mammy tinha razo. Na verdade, mais do que poderia supor. Laila
desconfiava que alguns vizinhos, quem sabe at a grande maioria deles, j estavam
fofocando a respeito deles dois. Tinha percebido uns sorrisinhos furtivos, sabia
que a vizinhana andava dizendo que eles eram um casal. Outro dia mesmo, quando
estavam subindo a rua juntos, cruzaram com Rashid, o sapateiro, e sua mulher Mariam
a reboque, sempre escondida atrs da burqa. Quando os dois passaram perto deles,
Rashid disse, em tom de brincadeira: "Ora, se no so Laili e Majnoon",
referindo-se ao par romntico do to popular poema de Nezami -- uma verso farsi de
Romeu e Julieta, do sculo XII, segundo babi, que fazia questo de frisar que
Nezami escreveu a sua histria sobre os amantes desafortunados quatro sculos antes
de Shakespeare.
       Mammy tinha toda razo.
       O que a deixava irritada era que a me no merecia ter esse direito. As
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
coisas seriam bem diferentes se fosse babi quem tocasse neste assunto. Mas mammy?
Depois de todos aqueles anos que passou ausente, encerrada no prprio quarto, sem
querer saber aonde Laila ia, com quem andava, o que pensava... No era justo.
Sentia-se igualzinha quelas panelas e vasilhas, algo que a me podia deixar de
lado, esquecer e, um belo dia, reivindicar  vontade, quando lhe desse na telha.
       Mas aquele dia era especial, era um momento importante, e para todos eles.
Seria maldade estragar tudo por causa disso. Em considerao a ocasio, Laila achou
melhor deixar para l.
       -- Pode deixar, me. J entendi -- disse ela.
       -- timo! -- retrucou sua me. -- Ento, est tudo resolvido. Mas onde est
Hakim? Onde ser que se meteu o meu querido maridinho?
       O dia estava lindssimo, sem uma nuvem no cu, perfeito para uma festa. Os
homens ficaram no quintal, sentados naquelas precrias cadeiras de armar. Tomavam
ch, fumavam e, em voz alta, falavam animadamente sobre os planos dos mujahedins.
Laila conhecia as suas linhas gerais, como babi tinha lhe explicado: o pas se
chamava, agora, Estado Islmico do Afeganisto. Um Conselho Islmico, fundado em
Peshawar por diversas faces mujahedins, assumiu o controle do pas por dois
meses, sob a liderana de Sibghatullah Mojadidi. Em seguida, veio o perodo do
governo de Rabbani, que duraria quatro meses. Durante esses seis meses, teria lugar
uma loya jirga, a grande assemblia tradicional da qual participam os lderes dos
diversos grupos e os ancios, e que constituiria um governo interino para assumir o
poder por dois anos, at a convocao de eleies democrticas.
       Um dos homens estava abanando uns espetos de carneiro que chiavam numa
grelha improvisada. Babi e o pai de Tariq jogavam xadrez a sombra da velha pereira,
to concentrados que tinham a testa enrugada. Tariq tambm estava ali fora, s
vezes observando a partida de xadrez, s vezes ouvindo a conversa da mesa ao lado
sobre poltica.
       As mulheres estavam reunidas na sala, no corredor, na cozinha. Conversavam,
com bebs no colo, esquivando-se habilmente, com rpidos movimentos dos quadris,
das crianas que corriam pela casa. De um toca-fitas, vinha o som de um ghazal
executado por Ustad Sarahang.
       Laila estava na cozinha, preparando jarras de dogh junto com Giti. Sua amiga
no era mais aquela menina tmida e sria de antes. H vrios meses, aquele rosto
contrado j tinha deixado de existir. Ultimamente, vinha rindo abertamente, com
mais freqncia, e -- como Laila pde notar com surpresa -- com um arzinho de quem
flertava. No usava mais aquele rabo-de-cavalo sem graa: tinha deixado o cabelo
crescer e feito umas luzes avermelhadas. Laila acabou descobrindo que o motivo de
tanta transformao era um garoto de 18 anos que tinha se interessado por ela. Ele
se chamava Sabir e era o goleiro do time de futebol do irmo mais velho de Giti.
       -- Ah, ele tem o sorriso mais lindo do mundo, e aquele cabelo preto bem
grosso! -- disse a menina. E claro que ningum sabia do que estava acontecendo. Giti
tinha se encontrado com ele duas vezes, dois encontros de apenas 15 minutos, numa
pequena casa de ch em Taimani, do outro lado da cidade. -- Ele vai pedir a minha
mo, Laila! Talvez j no prximo vero. Voc acredita? Juro que no consigo parar
de pensar nele.
       -- E a escola? -- perguntou Laila. Giti abanou a cabea e lhe deu um olhar que
parecia dizer: Ora, voc sabe to bem quanto eu...
       "Quando tivermos vinte anos", dizia Hasina, "Giti e eu j vamos ter parido
uns quatro ou cinco filhos cada. Mas voc, Laila, voc ainda vai nos deixar
orgulhosssimas. Voc vai ser algum. Sei que, algum dia, vou pegar um jornal e ver
a sua foto na primeira pgina."
       E, agora, Giti estava parada ali, ao seu lado, cortando pepinos, com um ar
distante e sonhador estampado no rosto.
       Mammy tambm estava por perto, com um vestido de vero brilhante,
descascando ovos cozidos junto com Wajma, a parteira, e a me de Tariq.
       -- Vou dar uma foto de Ahmad e Noor ao general Massoud -- disse ela. E Wajma
assentiu, tentando parecer interessada e sincera. -- Ele presidiu pessoalmente ao
enterro dos dois -- prosseguiu mammy, quebrando mais um ovo. -- Rezou uma prece
diante da sepultura. Vai ser uma forma de agradecer por essa atitude to decente.
Ouvi dizer que ele  um homem srio, ponderado. Acho que vai gostar de receber esse
presente.
       A sua volta, havia um constante entra-e-sai de mulheres levando tigelas de
qurma, bandejas de mastawa, vrios pes e arrumando tudo isso em cima da sofrah
estendida no cho da sala.
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       De vez em quando, Tariq aparecia por ali. Beliscava isso, experimentava
aquilo...
       -- Homem no entra -- dizia Giti.
       -- Fora, fora! -- exclamava Wajma.
       E Tariq sorria, vendo as mulheres o enxotarem daquele jeito bem-humorado.
Parecia gostar de no ser bem-vindo nesse lugar, de invadir aquela atmosfera
feminina com a sua irreverncia masculina.
       Laila se esforava ao mximo para ignor-lo, para no dar quelas mulheres
mais um motivo que fosse para os mexericos que j andavam fazendo. Mantinha, ento,
os olhos baixos e no dizia nada, mas ficava lembrando de um sonho que tinha tido
algumas noites atrs: o rosto dele e o dela, juntos, num espelho, sob um vu verde
e macio. E os gros de arroz que caam do cabelo dele fazendo tic-tic ao baterem na
superfcie do espelho.
       Tariq estendeu a mo para provar um pedacinho de vitela ensopada com
batatas.
       -- Ho bacha! -- exclamou Giti, dando-lhe um tapinha na mo.
       Mesmo assim, Tariq conseguiu apanhar um pouco e riu. Atualmente, era uns
bons trinta centmetros mais alto que Laila. J se barbeava. Seu rosto tinha ficado
mais fino, mais anguloso, e os seus ombros, bem mais largos. Gostava de usar calas
folgadas, mocassins pretos lustrosos e camisas de mangas curtas que exibiam os seus
braos agora musculosos -- graas a uns velhos halteres meio enferrujados com que
ele se exercitava diariamente no quintal de casa. De uns tempos para c, seu rosto
exibia uma expresso entre belicosa e brincalhona. Deu para inclinar ligeiramente a
cabea quando falava e arquear uma sobrancelha quando ria. Deixou o cabelo crescer
e, vira e mexe, ficava ajeitando os cachos que lhe caiam na testa, at sem
necessidade. Aquele sorrisinho cnico tambm era novidade.
       Na ultima vez que Tariq foi enxotado da cozinha, a me dele viu que Laila o
fitava disfaradamente. O corao da menina pulou de susto e ela desviou os olhos,
encabulada. Mais que depressa, tratou de se ocupar jogando o pepino cortado na
jarra com iogurte diludo e salgado. Mas podia sentir o olhar da me de Tariq, e
at mesmo o seu ligeiro sorriso de quem sabe e aprova o que est acontecendo.
       Os homens encheram seus pratos e copos e voltaram para o quintal. Depois que
eles tinham se servido, as mulheres e as crianas se sentaram no cho, ao redor da
sofrah, para comer.
       Quando elas j tinham retirado os pratos, levado tudo para a cozinha e
comeado aquele frenesi de preparar o ch, tendo que lembrar quem preferia verde,
quem preferia preto, Tariq fez um gesto com a cabea, indicando a porta, e saiu.
       Laila esperou uns cinco minutos e foi atrs dele.
       Encontrou-o trs casas adiante, recostado na parede, na entrada de um beco
estreito que separava duas construes. Estava cantarolando uma velha cano
pashto, de Ustad Awal Mir:
       Da ze ma ziba watan,
       Da ze ma dada watan.
       Esta  a nossa linda terra,
       Esta  a nossa terra amada.
       E estava fumando, mais um novo hbito adquirido com os rapazes com quem
Laila o tinha visto recentemente. Ela simplesmente no suportava aqueles novos
amigos de Tariq. Todos se vestiam do mesmo jeito, de cala folgada e camiseta justa
que deixavam bem visveis seus braos e seu peito. Todos usavam muita colnia, e
todos fumavam. Circulavam pela vizinhana em grupos, fazendo piadas, rindo alto, s
vezes at mexendo com as garotas com aquele mesmo sorrisinho idiota no rosto. Um
dos amigos de Tariq insistia em ser chamado de Rambo, por causa de uma ligeirssima
semelhana com Sylvester Stallone.
       -- Sua me o mataria se soubesse que est fumando -- disse Laila, olhando para
um lado e para o outro antes de entrar no beco.
       -- S que ela no sabe -- retrucou ele, recuando para deix-la passar.
       -- Mas poderia vir a saber.
       -- E quem vai contar a ela? Voc?
       -- Pode contar seus segredos ao vento, mas, depois, no v culp-lo por
contar tudo s rvores -- disse a menina, batendo com o p no cho.
       -- Quem disse isso? -- indagou Tariq, sorrindo e erguendo a sobrancelha.
       -- Khalil Gibran.
       -- Voc  uma exibida!
       -- Me d um cigarro.
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       Ele fez que no com a cabea e cruzou os braos. Este era um novo item do
seu repertrio de poses: recostado na parede, de braos cruzados, com um cigarro
pendendo do canto da boca e a perna boa meio dobrada, com um ar descontrado.
       -- Por que no?
       -- No  legal para voc -- disse ele.
       -- Mas  para voc?
       -- Fao isso por causa das garotas.
       -- Que garotas?
       -- Elas acham que  sexy -- respondeu ele, todo prosa.
       -- No  mesmo.
       -- No?
       -- Garanto que no.
       -- No  sexy?
       -- Voc fica parecendo um khila, um retardado.
       -- Uau, e precisa ser to dura? -- retrucou ele.
       -- De qualquer forma, que garotas so essas?
       -- Hmmm, voc est com cime.
       -- Eu, no. No estou nem a...  s curiosidade.
       -- As duas coisas ao mesmo tempo? Impossvel! -- observou ele, dando uma
tragada no cigarro e apertando os olhos por causa da fumaa.
       -- Aposto que esto falando de ns.
       Laila podia ouvir a voz da me, dizendo: " como segurar um main. Basta
soltar um pouco as mos e pronto: ele sai voando." Sentiu uma pontada de culpa,
mas, depois, calou a voz da me e preferiu saborear o jeito como Tariq tinha
pronunciado a palavra ns. Vindo dele, parecia ate alguma coisa emocionante,
conspiratria. E era to tranqilizador ouvi-lo dizer aquilo assim, num tom
espontneo, natural... Ns. Era como reconhecer a ligao entre ambos,
cristaliz-la.
       -- Dizendo o qu?
       -- Que estamos navegando pelo rio do pecado -- respondeu ele.
       -- Comendo um pedao do bolo da imoralidade.
       -- Andando no riquix da depravao -- acrescentou Laila, entrando na
brincadeira.
       -- Preparando a qurma do sacrilgio.
       E os dois caram na risada. De repente, Tariq notou que o cabelo dela estava
crescendo.
       -- Est bonito -- disse ele.
       -- Voc esta mudando de assunto -- retrucou Laila, torcendo para no ficar
vermelha.
       -- Que assunto?
       -- Aquelas meninas de cabea oca que acham voc sexy.
       -- Ora, voc sabe muito bem.
       -- Sabe o qu?
       -- Que s me interesso por voc.
       Laila se derreteu toda por dentro. Tentou ler o rosto dele, mas, o que viu
foi algo indecifrvel: aquele sorrisinho cretino e brincalho que no combinava
nada com as plpebras semicerradas e o olhar meio desesperado. Um arzinho bem
esperto, calculado para ficar exatamente a meio caminho entre a gozao e a
sinceridade.
       Ento, ele apagou o cigarro com o calcanhar da perna boa.
       -- O que acha disso tudo? -- perguntou.
       -- Dessa histria da festa? -- indagou Laila.
       -- Quem  que est sendo retardada agora? Dos mujahedins, Laila. Da vinda
deles para Cabul.
       -- Ah!
       Ela estava comeando a dizer uma coisa que tinha ouvido de seu pai, sobre o
casamento assustador de armas e egos, quando perceberam uma agitao em sua casa.
Vozes altas. Gritos.
       Laila saiu correndo, e Tariq a seguiu, mancando.
       Havia uma briga no quintal. No meio da confuso, dois homens esbravejavam,
rolando pelo cho, e, entre ambos, uma faca. Laila reconheceu um deles como sendo
um dos sujeitos daquele grupo que estava discutindo poltica mais cedo. O outro era
quem estava abanando os espetos de carneiro na grelha. Vrios homens tentavam
apartar a briga, mas babi no se meteu. Ficou parado perto do muro, a uma boa
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distncia da briga, junto com o pai de Tariq que estava chorando.
       Todos gritavam ao seu redor, mas, no meio de toda a confuso, Laila pde
distinguir uma coisa aqui, outra ali, que lhe deram uma noo do que estava
acontecendo: o sujeito que discutia poltica, um pashtun, chamou Ahmad Shah Massoud
de traidor, afirmando que ele tinha "feito um trato" com os soviticos nos anos
1980. O homem da grelha, um tadjique, se sentiu ofendido e exigiu uma retratao.
Mas o pashtun se recusou. A o tadjique disse que, se no fosse por Massoud, a irm
do outro ainda estaria "dando" para os soldados soviticos. Foi ento que eles
partiram para a briga mesmo. Um dos dois pegou uma faca, mas as opinies divergiam
quanto a qual deles.
       Horrorizada, Laila viu Tariq se lanar no meio da confuso. Viu ainda que um
dos que antes tentavam apartar os briges agora tambm estava distribuindo socos. E
achou at que tinha visto mais uma faca.
       Mais tarde, naquela noite, Laila ficou lembrando do desfecho daquela briga,
com os homens caindo uns sobre os outros, entre berros, gritos, socos, e, no meio
de tudo aquilo, Tariq fazendo uma careta, com o cabelo desgrenhado, a perna
mecnica solta, tentando rastejar para sair dali.
       As coisas foram acontecendo com uma rapidez impressionante. Logo, logo o
conselho das lideranas foi convocado e Rabbani foi eleito presidente. As outras
faces esbravejavam, denunciando nepotismo. Massoud pedia paz e pacincia.
       Hekmatyar, que havia sido excludo, estava furioso. Os hazaras, com o seu
longo histrico de opresso e negligncia, tambm ficaram enfurecidos.
       Eram insultos de parte a parte. Dedos em riste. Acusaes. Reunies acabavam
em discusses acaloradas e portas batendo. A cidade prendia o flego. Nas
montanhas, pentes e mais pentes de balas eram enfiados nos Kalashnikovs.
       Na falta de um inimigo comum, os mujahedins, armados at os dentes,
resolveram lutar entre si.
       Para Cabul, chegou enfim o dia do juzo.
       E quando os msseis comearam a cair sobre a capital, as pessoas correram em
busca de abrigo. Foi o que fez mammy. Ela simplesmente voltou a se vestir de preto,
foi para o quarto, fechou as cortinas e cobriu a cabea com as cobertas.
        24
        --  o ASSOBIO -- DISSE LAILA --, o maldito assobio. No h nada que eu odeie
mais!
       Tariq assentiu, concordando.
       Na verdade, no era o assobio em si, como Laila percebeu um pouco mais
tarde, mas os segundos que transcorriam entre o momento em que ele comeava e a
exploso. Aquele tempo breve e interminvel em que a gente fica em suspense. A
sensao de no saber. A espera. Como um acusado prestes a ouvir o veredicto.
       Acontecia com freqncia na hora do jantar, quando babi e ela estavam a
mesa. Bastava comear aquele rudo e eles erguiam a cabea. Os dois ouviam aquele
som com o garfo parado no ar, a comida esquecida na boca. Laila podia ver o reflexo
de seus rostos parcialmente iluminados na vidraa escura da janela, as suas sombras
estticas projetadas na parede. O assobio. Depois, o estrondo, graas a Deus em
outro lugar. Vinha ento a exalao aliviada e a certeza de que, ao menos desta
vez, tinham sido poupados, ao passo que em outro ponto da cidade, entre gritos e
nuvens sufocantes de fumaa, s se via correria, mos tentando desesperadamente
escavar, retirar dos escombros o que restava de uma irm, de um irmo, de um neto.
       Mas a contraparte de ser poupado era a agonia de imaginar quem no tinha
sido. Depois que o mssil explodia, Laila corria para a rua, balbuciando uma
orao, com a certeza de que, desta vez, era Tariq que ia estar ali, soterrado sob
as pilhas de destroos e a fumaa.
        noite, ficava deitada na cama observando os sbitos clares refletidos na
janela. Ouvia os disparos de armas automticas e contava os msseis que passavam
zunindo sobre sua cabea, fazendo a casa estremecer e derrubando pedaos de gesso
l do teto em cima dela. Certas noites, quando o claro de um mssil era to forte
que se podia ler um livro com aquela luminosidade, o sono no vinha. E, se por
acaso ela adormecia, seus sonhos eram repletos de fogo, de membros decepados, dos
gemidos dos feridos.
       A manh no trazia nenhum alvio. Quando a voz do muezim ecoava, chamando
para as namaz, os mujahedins depunham as armas, viravam-se para o oeste e rezavam.
Depois, os tapetes eram enrolados, as armas, recarregadas e as montanhas disparavam
sobre Cabul que, por sua vez, disparava contra as montanhas, enquanto Laila e os
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                        Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
demais habitantes da cidade ficavam s olhando, to impotentes quanto o velho
Santiago vendo os tubares abocanharem o seu valioso peixe.
        Aonde quer que fosse, Laila via homens de Massoud. Ela os via circulando
pelas ruas e parando carros, a cada cem ou duzentos metros, para interrogar as
pessoas. Via-os tambm sentados no alto dos tanques, fumando, usando uniformes e
envergando aqueles indefectveis e onipresentes pakols. Ou, ainda, observando os
passantes por detrs de barricadas instaladas nos cruzamentos.
        No que Laila sasse muito ultimamente, e, quando o fazia, ia sempre
acompanhada por Tariq que parecia gostar dessa tarefa cavalheiresca.
        -- Comprei um revlver -- disse ele um dia. Estavam sentados no cho do
quintal da casa de Laila, debaixo da pereira. E lhe mostrou a arma. Era uma
Beretta, semi-automtica. Para a menina, ela parecia simplesmente preta e mortal.
        -- No gosto disso -- observou ela. -- As armas me assustam.
        -- Na semana passada, encontraram trs corpos numa casa em Karteh-Seh -- disse
ele, girando o tambor da arma para abri-lo. -- Voc ficou sabendo? Eram irms. As
trs foram estupradas. E tiveram a garganta cortada. Algum arrancou com os dentes
os anis que elas tinham nos dedos. Deu para saber por causa das marcas...
        -- Prefiro no ouvir essas coisas.
        -- No queria que voc se aborrecesse -- disse Tariq. -- E s que... Eu me
sinto melhor tendo isso comigo.
        Agora, ele era a sua ligao com o mundo l fora. Ouvia o que se passava e
vinha lhe contar. Foi Tariq quem lhe contou, por exemplo, que os milicianos
instalados nas montanhas treinavam sua pontaria -- e chegavam a fazer apostas --
atirando em civis c embaixo. Eram homens, mulheres, crianas, todos escolhidos ao
acaso. Ele lhe disse tambm que disparavam msseis contra os carros, mas, por
alguma razo ignorada, deixavam os txis em paz -- "o que explicava", pensou Laila,
"a mania que as pessoas pareciam ter adquirido recentemente de pintar os carros de
amarelo".
        Tariq lhe falou das fronteiras mveis e traioeiras que tinham passado a
existir em Cabul. Por ele, Laila ficou sabendo que, por exemplo, a rua em que
moravam pertencia a um dos senhores da guerra at a segunda accia a esquerda; os
quatro quarteires seguintes, indo at a confeitaria perto da farmcia que foi
demolida, j constituam outro setor e, se atravessassem a rua e andassem uns
quinhentos metros para o oeste, estariam no territrio de um terceiro senhor da
guerra e, portanto,  merc dos franco-atiradores. Era assim que os heris de mammy
eram chamados agora: senhores da guerra. Laila tambm j tinha ouvido as pessoas se
referirem a eles como tofangdar, ou seja, fuzileiros. Mas havia ainda quem
continuasse a cham-los de mujahedins, s que essa palavra vinha sempre acompanhada
de uma careta, que podia ser um risinho ou uma expresso de nojo, pois o termo
despertava, agora, profunda averso e desprezo. Como um insulto.
        Tariq voltou a fechar o tambor da arma.
        -- Voc seria capaz? -- perguntou Laila.
        -- De qu?
        -- De usar essa coisa. De matar com ela.
        O rapaz enfiou o revlver na cintura da cala e disse algo a um s tempo
maravilhoso e terrvel.
        -- Por voc -- respondeu ele. -- Eu usaria isso para matar algum por voc,
Laila.
        Ele chegou mais perto e suas mos se tocaram uma vez, e outra mais. Quando,
com alguma hesitao, os dedos de Tariq tentaram segurar os seus, ela deixou. E
quando ele se inclinou subitamente e encostou os lbios nos seus, ela tambm
deixou.
        Naquele instante, tudo o que mammy tinha dito sobre reputao e mains lhe
pareceu absolutamente insignificante. At mesmo absurdo. No meio de tanta matana e
de tantas pilhagens, de todo aquele horror.
        Aquele beijo ali debaixo de uma rvore no podia fazer mal algum. Era uma
coisinha  toa. Uma indulgncia facilmente desculpvel. Ento, deixou que Tariq a
beijasse e, quando ele se afastou, Laila se inclinou para beij-lo, com o corao
aos pulos, o rosto ardendo, um fogo queimando por dentro.
        Em junho daquele ano, 1992, houve combates acirrados na zona oeste de Cabul,
entre as foras pashtuns do senhor da guerra Sayyaf e os hazaras da faco Wahdat.
O bombardeio destruiu a rede eltrica, pulverizou quarteires inteiros de lojas e
casas. Laila ouviu dizer que milicianos pashtuns estavam invadindo residncias de
hazaras e fuzilando famlias inteiras em execues sumrias; j os hazaras estavam
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
retaliando seqestrando civis pashtuns, estuprando garotas pashtuns, bombardeando
bairros pashtuns e matando indiscriminadamente. Todo dia, encontravam-se corpos
pendurados nas rvores, s vezes to carbonizados que era impossvel identific-los
e, quase sempre, com um tiro na cabea, os olhos vazados, a lngua arrancada.
       Babi continuava tentando convencer mammy a deixar Cabul.
       -- Tudo vai se resolver -- dizia ela. -- Essas lutas so temporrias. Eles vo
se sentar e encontrar uma soluo.
       -- Essa gente s conhece a guerra, Fariba -- retrucou babi. -- Eles aprenderam
a andar com uma mamadeira numa das mos e uma arma na outra.
       -- Quem e voc para dizer isso? -- esbravejou ela. -- Por acaso combateu no
jihad? Abandonou tudo o que tinha para arriscar a vida? Se no fossem os
mujahedins, ainda seramos escravos dos soviticos, lembre-se disso. E, agora, voc
quer nos fazer tra-los!
       -- Os traidores no somos ns, Fariba.
       -- Pois ento v embora. Pegue a sua filha e fuja. No se esquea de me
mandar um postal. Mas a paz est chegando e eu vou ficar bem aqui, esperando por
ela.
       As ruas ficaram to perigosas que babi fez algo at ento inimaginvel:
tirou Laila da escola e assumiu pessoalmente a sua instruo.
       Toda tarde, depois que o sol se punha, Laila ia para o escritrio e,
enquanto Hekmatyar lanava seus msseis contra Massoud l dos arredores da cidade,
ela e o pai falavam sobre os ghazals de Hafez e as obras de seu adorado poeta
afego, Ustad Khalilullah Khalili. Babi lhe ensinou como calcular as derivadas de
uma equao de segundo grau, lhe mostrou como decompor polinmios e traar curvas
paramtricas. Ele se transformava inteiramente quando estava dando aula. Ali, no
seu elemento, em meio aos seus livros, parecia at mais alto. Era como se a sua voz
brotasse de um lugar mais calmo e profundo, e ele quase no piscava. Laila ficou
imaginando como seu pai devia ter sido antigamente, apagando o quadro-negro com
gestos elegantes, olhando por sobre o ombro de um aluno, numa atitude paternal e
cuidadosa.
       Mas no era fcil prestar ateno quelas aulas. A todo instante, Laila se
distraa.
       -- Qual  a rea de uma pirmide ? -- perguntou babi, mas Laila s conseguia
pensar nos lbios de Tariq, no calor de seu hlito que sentiu na boca, no prprio
rosto refletido naqueles olhos cor-de-avel. Depois daquele dia, debaixo da
pereira, tinha voltado a beij-lo duas vezes. Foram beijos mais longos, mais
apaixonados e, achava ela, menos desajeitados. Em ambas as ocasies, eles tinham se
encontrado s escondidas no beco onde Tariq estava fumando no dia daquele almoo em
sua casa. Na segunda vez, Laila deixou que ele tocasse os seus seios.
       -- Laila?
       -- H?
       -- A rea? Da pirmide... Onde est com a cabea?
       -- Ai, desculpe, babi. Eu... Deixe ver... Pirmide. Pirmide... Um tero da
rea da base vezes a altura.
       Seu pai assentiu com alguma hesitao, olhando detidamente para a filha, mas
Laila estava pensando nas mos de Tariq pressionando os seus seios, e, depois,
descendo pelas suas costas enquanto eles se beijavam, se beijavam.
       Certo dia, naquele mesmo ms de junho, Giti vinha voltando da escola com
duas colegas. A apenas trs quarteires de sua casa, as meninas foram atingidas por
um mssil. Mais tarde, naquele dia terrvel, Laila ficou sabendo que Nila, a me de
Giti, tinha sado correndo pela rua onde tudo aconteceu, recolhendo pedaos do
corpo da filha no avental e gritando histericamente. Seu p direito, j em
decomposio, ainda calado com a meia de nylon e o tnis roxo, seria encontrado
num telhado duas semanas depois.
       Na fatiha de Giti, no dia seguinte  sua morte, Laila ficou sentada naquela
sala repleta de mulheres que choravam. Estava inteiramente atordoada. Era a
primeira vez que morria algum que ela conhecia, que era sua amiga, uma pessoa de
quem gostava. No conseguia aceitar a inexplicvel realidade de que Giti j no
existia. Giti, a menina com quem trocava bilhetinhos durante as aulas, cujas unhas
lixava, cujos plos do queixo arrancava com a pina. Giti, que ia se casar com
Sabir, o goleiro. Giti estava morta. Morta. Estraalhada. Finalmente, Laila comeou
a chorar pela amiga. E todas as lgrimas que no conseguiu derramar no enterro dos
irmos vieram escorrendo pelo seu rosto.

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       25
       LAILA MAL CONSEGUIA SE MEXER, como se cada uma das suas articulaes
houvesse sido cimentada. Sabia que era parte daquilo, mas sentia-se distante, como
se estivesse simplesmente entreouvindo uma conversa alheia. Tariq falava e Laila
via a prpria vida como se fosse uma corda apodrecida que arrebenta, se desfaz, com
todos os fios se soltando.
       Era uma tarde quente e mida de agosto de 1992, e os dois estavam na sala de
sua casa. Mammy passou o dia inteiro com dor de estmago e, ainda h pouco, apesar
dos msseis que Hekmatyar lanava l do lado sul da cidade, babi tinha sado para
lev-la ao mdico. E, agora, ali estava Tariq, sentado ao seu lado no sof, com os
olhos fixos no cho e as mos entre os joelhos.
       Dizendo que ia embora.
       No que fosse se mudar para outro bairro. Nem que fosse sair de Cabul. Era o
Afeganisto que ele estava deixando.
       Laila ficou completamente atordoada.
       -- Para onde? Para onde voc vai?
       -- Primeiro, para o Paquisto. Peshawar. Depois, no sei. Talvez para o
Hindusto. Ou o Ir.
       -- Quanto tempo?
       -- No fao idia.
       -- No, h quanto tempo j sabe disso?
       -- S uns dias. Eu ia lhe contar, Laila, mas no tive coragem. Sei como deve
estar chateada.
       -- Quando?
       -- Amanh.
       -- Amanh?
       -- Olhe para mim, Laila.
       -- Amanh...
       --  o meu pai... O corao dele no vai agentar toda essa guerra, essa
matana.
       Laila escondeu o rosto nas mos, sentindo o medo lhe comprimir o peito.
       "Devia estar esperando por isso", pensou. Quase todos que conhecia estavam
pegando suas coisas e indo embora. Todos os rostos conhecidos tinham desaparecido
do bairro e atualmente, h apenas quatro meses do incio dos combates entre as
faces mujahedins, Laila praticamente no reconhecia ningum nas ruas. A famlia
de Hasina tinha fugido em maio, para Teer. Wajma e seu pessoal tinham ido para
Islamabad no mesmo ms. Os pais e os irmos de Giti partiram em junho, pouco depois
que ela morreu. Laila no sabia para onde tinham ido -- ouviu dizer que para Mashad,
no Ir. Depois que essa gente se foi, suas casas ficaram vazias por alguns dias,
mas logo foram ocupadas por milicianos ou por estranhos que vinham morar ali.
       Todos estavam indo embora. E, agora, Tariq tambm.
       -- E minha me j no  mais to jovem -- dizia ele. -- Os dois esto
apavorados. Olhe para mim, Laila.
       -- Voc devia ter me dito.
       -- Olhe para mim, por favor.
       Primeiro, foi um som rouco. Depois, um gemido. E ela comeou a chorar.
Quando Tariq tentou enxugar suas lgrimas com o polegar, ela afastou a sua mo. Era
uma atitude egosta e irracional, mas Laila estava furiosa porque ele a estava
abandonando. Ele, que era como um prolongamento dela prpria; ele, cujo vulto
estava ao seu lado em todas as suas recordaes. Como podia deix-la? De repente,
bateu nele. Bateu de novo, e puxou o seu cabelo. Ele precisou segur-la pelos
pulsos e comeou a dizer alguma coisa que Laila no conseguia entender. Falava de
mansinho, num tom sensato at que, sabe-se l como, o rosto dele estava colado ao
seu e ela sentiu o calor daquele hlito em seus lbios outra vez.
       E quando ele foi se reclinando, ela tambm se reclinou.
       Nos dias e semanas que se seguiram, Laila tentou desesperadamente se lembrar
do que aconteceu depois. Como um amante da arte fugindo de um museu em chamas,
agarrava o que podia -- um olhar, um sussurro, um gemido --, buscando preserv-lo,
evitar que desaparecesse. O tempo porm  o mais inclemente dos incndios e,
afinal, no deu para salvar tudo. Mas ela conseguiu guardar algumas coisas. Aquela
dor tremenda l embaixo, como nunca tinha sentido antes. A nesga de sol no tapete.
Seu calcanhar roando a superfcie dura e fria da perna dele, retirada s pressas e
jogada ali no cho, ao seu lado. As mos em concha nos cotovelos dele. Aquela marca
de nascena no seu ombro, parecendo um bandolim de cabea para baixo, reluzindo em
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vermelho. O rosto dele pairando sobre o seu. Os cachos negros balanando, tocando
de leve em seus lbios, em seu queixo. O pavor de serem descobertos. A sensao de
no conseguir acreditar na prpria audcia, na prpria coragem. O estranho e
indescritvel prazer mesclado a dor. E o olhar, a imensa variedade de olhares que
viu no rosto de Tariq: de apreenso, de ternura, de desculpas, de constrangimento,
mas, acima de tudo, acima de tudo mesmo, de desejo.
       Depois, foi a loucura. Camisas abotoadas s pressas, cintos fechados,
cabelos ajeitados com as mos. Sentaram-se ento ali, um ao lado do outro,
impregnados do cheiro do outro, com os rostos corados, ambos atordoados, ambos sem
fala diante da enormidade do que acabava de acontecer. Do que tinham feito.
       Laila viu trs gotinhas de sangue no tapete, do seu sangue, e imaginou os
pais vindo se sentar no sof, sem fazer idia do pecado que ela tinha cometido. E
foi ento que sentiu vergonha, e culpa, e, l em cima, o relgio seguia marcando as
horas, parecendo soar incrivelmente alto aos seus ouvidos. Como o martelo de um
juiz que batesse incessantemente, condenando-a.
       Mas Tariq disse:
       -- Venha comigo.
       Por um instante, Laila quase acreditou que fosse possvel. Ir embora, junto
com Tariq e seus pais. Fazer as malas, embarcar num nibus, deixar para trs toda
essa violncia, ir ao encontro da felicidade, dos problemas ou seja l o que
tivessem de enfrentar, mas que enfrentariam juntos. Assim, a angstia do
isolamento, a solido cruel que a aguardava no precisariam existir.
       Podia ir. Eles dois podiam ficar juntos.
       Teriam mais tardes como essa.
       -- Quero me casar com voc, Laila.
       Pela primeira vez desde que tinham se deitado ali no cho, ela ergueu os
olhos para fit-lo. Procurou o seu rosto. Agora, no havia nele o menor vestgio de
brincadeira. O seu olhar era de convico, de uma franqueza ingnua, mas ferrenha.
       -- Tariq...
       -- Deixe que eu me case com voc, Laila. Poderamos nos casar hoje mesmo.
       E continuou, dizendo que iriam a mesquita, arranjariam um mul, duas
testemunhas, seria um nikka bem rpido...
       Mas Laila estava pensando em sua me, to obstinada e irredutvel quanto os
mujahedins, cercada por uma aura de rancor e desespero. Estava pensando em seu pai
que, h muito, j havia se rendido, transformando-se num triste e pattico
antagonista da mulher.
       "s vezes... fico pensando que voc  tudo o que eu tenho, Laila."
       Estas eram as circunstncias de sua vida, as verdades a que no podia fugir.
       -- Vou pedir sua mo a kaka Hakim. Ele vai nos dar a sua bno, Laila, tenho
certeza que vai...
       Ele tinha razo. Babi daria mesmo. Mas ficaria arrasado.
       Tariq continuava a falar, s vezes num sussurro, s vezes mais alto; ora em
tom de splica, ora refletindo; o rosto esperanoso, e, em seguida, angustiado.
       -- No posso -- disse Laila.
       -- No diga isso. Eu a amo.
       -- Sinto muito...
       -- Eu a amo.
       H quanto tempo esperava ouvir ele dizer aquelas palavras? Quantas vezes
sonhou que ele as dizia? E, agora, ali estavam elas, enfim. "Que ironia", pensou
Laila, amargurada.

       -- No posso deixar meu pai -- disse ela. -- Sou tudo o que lhe resta. O
corao dele no agentaria.
       Tariq sabia disso. Sabia que ela no podia simplesmente desconsiderar as
obrigaes de sua vida, assim como ele no podia esquecer as suas, mas prosseguiu
com suas splicas e suas refutaes, suas propostas e suas desculpas, suas lgrimas
e as dela.
       Finalmente, Laila teve de mand-lo embora.
       Na soleira, fez ele prometer que no haveria despedidas. Fechou a porta e
podia senti-la estremecer com os golpes dos punhos de Tariq. E ficou recostada ali,
com uma das mos agarrada a barriga e a outra tapando a prpria boca, ouvindo-o
jurar que voltaria, que voltaria para ela. Ficou assim, imvel, at que ele se
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cansou e desistiu. Ento, ouviu seus passos um   tanto trpegos que acabaram
desaparecendo, e tudo ficou em silncio, a no   ser pelos disparos vindos das
colinas e pelo pulsar de seu corao ressoando   em sua barriga, em seus olhos, em
seus ossos.

       26
       SEM DVIDA ALGUMA, era o dia mais quente do ano. As montanhas aprisionavam o
calor escaldante, sufocando a cidade como se fosse fumaa. Fazia alguns dias que
estavam sem luz. Por toda Cabul, os ventiladores estavam parados, parecendo at
zombar das pessoas.
       Laila estava deitada, imvel, no sof da sala, com a blusa molhada de suor.
Cada exalao parecia lhe queimar a ponta do nariz. Sabia que os pais conversavam
no quarto da me. Duas noites atrs, e ontem novamente, acordou com a impresso de
ouvir vozes l embaixo. Agora, os dois conversavam diariamente. Desde aquele tiro,
desde aquele buraco no porto.
       Na rua, o barulho distante da artilharia, e, depois, mais perto, uma longa
rajada de metralhadora seguida de outra.
       Laila tambm travava a sua batalha interior: por um lado, culpa, misturada a
vergonha, e, por outro, a convico de que o que tinham feito no era pecado: foi
algo natural, bom, bonito, at mesmo inevitvel, instigado pela simples idia de
que nunca mais voltariam a se ver.
       Virou-se de lado e tentou lembrar de uma coisa. Num determinado momento,
quando estavam ali deitados no cho, Tariq aproximou o rosto do seu. Depois,
sussurrou algo como "Estou machucando voc?" ou "Esta doendo?"
       Laila no conseguia saber exatamente o que ele tinha dito.
       "Estou machucando voc?"
       "Est doendo?"
       Fazia s duas semanas que ele tinha ido embora e isso j estava acontecendo.
O tempo comeava a apagar os contornos dessas lembranas to vivas. Laila revolvia
a prpria mente. O que ser que ele disse? De repente, aquilo tinha se tornado uma
necessidade vital, ela precisava saber.
       Fechou os olhos e procurou se concentrar.
       Com o passar do tempo, foi aos poucos se cansando desse exerccio. Comeou a
achar cada vez mais exaustivas essas tentativas de evocar, de desenterrar, de
ressuscitar mais uma vez o que h muito tinha morrido. Na verdade, anos mais tarde,
chegaria o dia em que Laila no choraria mais por essa perda. Ao menos, no tanto;
no to constantemente. Chegaria o dia em que os detalhes daquele rosto comeariam
a escapar s garras da memria, em que o simples fato de ouvir uma me chamando o
filho de Tariq pela rua no a deixaria inteiramente desnorteada. No sentiria tanta
falta dele como agora, quando a dor de sua ausncia no a deixava em paz por um
momento sequer -- como a dor fantasma de um membro amputado.
       Depois de adulta, s muito raramente, quando estava passando uma camisa ou
empurrando os filhos no balano, alguma coisa bem banal, talvez o contato quente do
tapete sob os ps num dia de calor, ou o contorno da testa de um estranho, trazia 
tona a lembrana daquela tarde. E, de repente, tudo voltava  sua mente. A
espontaneidade daquele momento. A espantosa imprudncia dos dois. Sua falta de
jeito. A dor, o prazer, a tristeza daquele ato. E o calor de seus corpos abraados.
       Aquela lembrana a inundava, chegando a lhe tirar o flego.
       Mas passava. O momento passava. Deixando-a vazia, sentindo apenas uma vaga
inquietao.
       Chegou a concluso que ele tinha perguntado "Estou machucando voc?" Isso
mesmo. E ficou feliz por ter se lembrado.
       Ento, ouviu que babi a chamava l de cima, pedindo-lhe que subisse
depressa.
       -- Ela concordou! -- exclamou ele, com a voz trmula pela animao contida. --
Vamos embora, Laila. Ns trs. Vamos embora de Cabul.
       Os trs estavam sentados na cama, no quarto de mammy. L fora, os msseis
zuniam pelo cu e as foras de Hekmatyar e Massoud continuavam se enfrentando sem
trgua. Laila sabia que, em algum ponto da cidade, algum tinha acabado de morrer e
que um rolo de fumaa negra pairava sobre algum prdio que desmoronou em meio a uma
nuvem de poeira. De manh, haveria corpos pelo cho. Alguns seriam recolhidos.
Outros, no. Para os ces de Cabul, que tinham adquirido gosto por carne humana,
seria um verdadeiro banquete.
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       Ao mesmo tempo, tudo o que queria era sair correndo por aquelas ruas. Mal
podia conter a felicidade que sentia. Precisou de um grande esforo para ficar
sentada ali, sem gritar de alegria. Babi disse que eles iriam primeiro para o
Paquisto, para tentar obter os vistos. Paquisto! Era onde Tariq estava! "Fazia
apenas 17 dias que ele tinha ido embora", pensava Laila, empolgadssima. Se pelo
menos sua me tivesse se decidido 17 dias antes, poderiam ter viajado juntos. Neste
exato momento, estaria com Tariq. Mas, agora, isto no tinha a menor importncia.
Os trs iam para Peshawar, e, l, encontrariam Tariq e seus pais. Claro que
encontrariam. Tratariam dos papis juntos. E, depois, quem poderia saber? Quem
poderia saber? Europa? Amrica? Talvez, como babi sempre dizia, um lugar qualquer 
beira-mar...
       Sua me estava meio deitada, recostada na cabeceira da cama. Tinha os olhos
inchados e no parava de puxar o cabelo.
       Trs dias antes, Laila saiu um pouco para respirar. Estava parada diante da
casa, apoiada no porto, quando ouviu um estrondo bem forte e algo passou zunindo
junto a seu ouvido, espalhando lascas de madeira que quase atingiram seus olhos.
Depois da morte de Giti, dos milhares de disparos e da mirade de msseis que
haviam sido despejados sobre Cabul, foi a viso daquele furinho no porto, a menos
de trs dedos da cabea de sua filha, que despertou mammy. Ento, ela percebeu que,
se uma outra guerra j tinha lhe custado dois filhos, esta, agora, podia custar a
vida da nica que ainda tinha.
       Das paredes do quarto, Ahmad e Noor lhes sorriam. Laila viu que os olhos da
me pulavam de uma foto a outra, cheios de culpa. Como se pedisse o consentimento
deles. A sua bno. Como se quisesse lhes pedir perdo.
       -- No temos mais nada a fazer aqui -- disse babi. -- Nossos filhos se foram,
mas ainda temos Laila. E ainda temos um ao outro, Fariba. Podemos comear uma nova
vida.
       Esticou a mo sobre a cama. Quando se inclinou para pegar as mos da mulher,
ela deixou. No seu rosto, uma certa condescendncia. Uma certa resignao. Os dois
ficaram ali de mos dadas, e, depois, se abraaram em silncio. Mammy escondeu o
rosto no pescoo do marido, e, com as mos, agarrou a camisa dele.
       Naquela noite, Laila custou bastante a dormir, de to excitada que estava.
Ficou deitada na cama e viu a claridade que ia surgindo no horizonte em tons vivos
de laranja e amarelo. A certa altura, porm, apesar do alvoroo que a dominava e do
rudo da artilharia l fora, acabou pegando no sono.
       E sonhou.
       Esto numa praia, sentados sobre uma manta.  um dia frio e nublado, mas
ali, ao lado de Tariq sob o cobertor que lhes cobria os ombros, sentia-se aquecida.
Via carros estacionados por trs de uma cerquinha de madeira branca, sob um renque
de palmeiras que balanavam ao vento. O vento deixava seus olhos lacrimejando,
enterrava seus sapatos na areia, arrancava tufos de capim ressecado das fendas que
se formavam entre as dunas. Os dois estavam observando os barcos que oscilavam ao
longe. As gaivotas gritavam e estremeciam em meio quele vento. Mais uma nuvem de
areia se ergueu daquelas dunas suaves e batidas pelo vento. Ouve-se, ento, um
rudo que parece um canto, e ela lhe conta algo que babi lhe ensinou anos atrs,
sobre a areia que canta.
       Ele esfrega a testa para tirar a areia. Ela percebe o brilho da aliana em
seu dedo. E idntica  sua prpria -- de ouro, com um desenho que mais parece um
labirinto gravado em todo o aro.
       " verdade", diz ela. " a frico de um gro no outro. Oua s". E ele pra
para ouvir. Franze a testa. Ambos ficam esperando. Voltam ento a ouvir aquele som.
Quase um murmrio, quando o vento est mais brando, e, quando h uma rajada mais
forte, um coro choroso e agudo.
       Babi disse que s deveriam levar o estritamente necessrio. Venderiam todo o
resto.
       -- Isso deve dar para vivermos em Peshawar at eu arranjar trabalho.
       Passaram os dois dias que se seguiram reunindo coisas para vender. Arrumaram
tudo em grandes pilhas.
       No seu quarto, Laila separou roupas velhas, sapatos velhos, livros,
brinquedos. Debaixo da cama, encontrou uma minscula vaquinha de vidro amarelo que
Hasina tinha lhe dado durante as frias na quinta srie. Um chaveiro que era uma
miniatura de bola de futebol, que ganhou de presente de Giti. Uma pequena zebra de
madeira, com rodinhas. Um astronauta de cermica que ela e Tariq acharam um dia na
sarjeta. Ela tinha seis anos, e ele, oito. Lembrava que tinham chegado a brigar
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para decidir qual dos dois tinha achado aquilo...
        Mammy tambm estava separando as suas coisas. Havia uma certa relutncia nos
seus gestos, e uma expresso distante, letrgica em seus olhos. Resolveu se
desfazer de toda a sua loua de qualidade, de seus guardanapos, de suas jias -- a
no ser a aliana de casamento -- e da maior parte de suas roupas.
        -- No vai vender isso, vai? -- perguntou Laila pegando o vestido de noiva da
me que se desdobrou e se espalhou no seu colo. Passou a mo pela renda, pela fita
que debruava o decote rente ao pescoo, pelas prolas pregadas a mo ao longo das
mangas.
        Dando de ombros, mammy pegou o vestido do colo da filha e, com um gesto
brusco, o atirou numa pilha de roupas. "Como se estivesse arrancando um band-aid
com um nico puxo", pensou Laila.
        Foi babi quem teve a mais difcil das tarefas.
        Laila foi encontr-lo no escritrio, percorrendo as estantes com um olhar
desolado. Estava usando uma velha camiseta com uma foto da ponte vermelha de So
Francisco. Uma nvoa espessa se elevava das guas revoltas e engolia os pilares da
ponte.
        -- Sabe aquela velha histria... -- disse ele. -- Voc vai para uma ilha
deserta e s pode levar cinco livros. Quais escolheria? Nunca achei que isso fosse
acontecer comigo de verdade.
        -- Vamos ter de formar uma nova biblioteca, babi.
        -- Hmm -- murmurou ele com um sorriso tristonho. -- No acredito que estou indo
embora de Cabul. Foi aqui que estudei, que consegui meu primeiro emprego, que fui
pai.  estranho pensar que, em breve, estarei dormindo sob o cu de uma outra
cidade.

       -- Tambm acho estranho...
       -- Passei o dia todo com esse poema na cabea.  sobre Cabul e Saib-eTabrizi
o escreveu l pelo sculo XVII, acho eu. Antigamente, sabia o texto inteiro de cor,
mas, agora, s consigo me lembrar desses dois versos:
       No se podem contar as luas que brilham em seus telhados,
       Nem os mil sis esplndidos que se escondem por trs de seus muros.
       Quando Laila ergueu os olhos, ele estava chorando.
       -- Ah, babi. Ns vamos voltar. Quando esta guerra acabar. Vamos voltar para
Cabul, inshallah. Voc vai ver s -- disse ela, passando o brao pela cintura do
pai.
       Na terceira manh, Laila comeou a levar as pilhas de coisas para o quintal
e foi pondo tudo aquilo perto da porta da frente. Depois, pegariam um txi para ir
 casa de penhores.
       Teve de fazer inmeras viagens da casa para o quintal, do quintal para a
casa, carregando montes de roupas, pratos e caixas e mais caixas com os livros de
babi. L pela hora do almoo, deveria estar exausta, pois a pilha com os pertences
da famlia j estava lhe batendo na cintura. Mas, a cada viagem que fazia, sabia
que estava se aproximando do reencontro com Tariq, e, a cada uma dessas viagens,
suas pernas iam ficando mais lpidas, seus braos, mais descansados.
       -- Vamos precisar de um txi dos grandes.
       Laila ergueu a cabea. Era mammy, l em cima, no seu quarto. Estava
debruada na janela, com os cotovelos apoiados no parapeito. O sol, quente e forte,
batia em seu cabelo j grisalho, iluminava o seu rosto magro e abatido. Estava com
o mesmo vestido azul-cobalto que tinha usado no dia em que fizeram aquele almoo,
quatro meses atrs. Era um vestido juvenil, destinado a mulheres mais moas, mas,
por um instante, sua me lhe pareceu uma velha. Uma velha de braos encarquilhados,
tmporas encovadas, olhos um tanto vagos, contornados por olheiras de cansao, uma
criatura inteiramente diferente daquela mulher rechonchuda da, de rosto bem
redondo, que sorria radiante l daquelas velhas fotos de casamento.
       -- Dois -- observou Laila.
       De onde estava, tambm via babi empilhando caixas de livros na sala de
visitas.
       -- Suba aqui, quando tiver terminado com isso -- disse mammy. -- Vamos almoar.
Aquele feijo que sobrou e ovos cozidos.
       -- Meu prato predileto -- disse Laila.
       De repente, lembrou do sonho que teve. Ela e Tariq sentados naquela manta. O
mar. O vento. As dunas.
       "Qual era mesmo o som daquelas areias que cantavam?", perguntava-se ela
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agora.
       Parou o que estava fazendo. Viu um lagarto acinzentado que vinha saindo de
uma fresta no cho. O animal virou a cabea para um lado e para o outro. Piscou os
olhos. Disparou para se enfiar debaixo de uma pedra.
       Laila voltou, ento, a pensar na praia. S que, desta vez, aquele canto
estava espalhado pelo ar. E foi ficando mais forte. Foi ficando cada vez mais alto.
At inundar os seus ouvidos, chegando a abafar tudo o mais. Nesse instante, as
gaivotas eram mmicas emplumadas, abrindo e fechando o bico sem fazer rudo algum,
e as ondas quebravam na areia, fazendo muita espuma e espirrando gua, s que no
mais absoluto silencio. As areias continuavam cantando. Agora, gritavam. Um som que
parecia um... tilintar?
       No era um tilintar. No. Era um assobio.
       Laila soltou os livros que tinha nas mos. Ergueu os olhos para o cu,
protegendo-os com a mo.
       Ento, ouviu um gigantesco estrondo.
       As suas costas, um claro branco.
       O cho tremeu sob seus ps.
       Algo quente e fortssimo a atingiu, vindo de trs. Arrancou-a de suas
sandlias. Ergueu o seu corpo do cho. E l estava ela, voando, rodopiando no ar,
vendo cu, terra, novamente cu, e terra. Um pedao de pau em chamas passou
raspando. Vrios cacos de vidro tambm, e Laila teve a impresso de que podia ver
cada um deles, em separado, voando ao seu redor, girando lentamente, todos
reluzindo ao sol em lindos arco-ris minsculos.
       Depois, Laila bateu na parede. E caiu. Recebeu, no rosto e nos braos, uma
chuva de terra, pedrinhas, vidro. A ltima coisa de que se deu conta foi ver algo
caindo pesadamente no cho ali por perto. Uma forma indistinta e ensangentada. Em
cima dela, as extremidades de uma ponte vermelha atravessando a espessa neblina.
       Vultos se moviam ao seu redor. Uma luz fluorescente brilhava no teto l em
cima. Surgiu um rosto de mulher que ficou pairando acima do seu.
       Laila voltou a mergulhar na escurido.
       Outro rosto. Desta vez, de um homem. Um rosto de traos largos e cados.
Seus lbios se moviam, mas sem som. Tudo o que Laila podia ouvir era uma campainha.
       O homem acena com a mo. Franze a testa. Seus lbios voltam a se mover.
       Est doendo. Di para respirar. Di tudo.
       Um copo de gua. Uma plula rosada.
       De volta a escurido.
       A mulher de novo. Rosto comprido, olhos bem juntos. Est dizendo alguma
coisa. Laila no consegue ouvir nada, s aquela campainha. Mas pode ver as
palavras, como se fosse um xarope grosso brotando da boca da mulher.
       Seu peito est doendo. Seus braos e pernas tambm.
       Ao seu redor, h vultos se movendo.
       Onde est Tariq?
       Por que no est aqui? Escurido. Um monte de estrelas.

       Babi e ela trepados em algum lugar bem l no alto. Ele est apontando para
um campo de cevada. Um gerador comea a funcionar.
       A mulher de rosto comprido est parada ali, olhando para baixo.
       Di para respirar.
       Em algum lugar, esto tocando acordeo.
       Graas a Deus, a plula rosada. E, ento, um profundo silncio. Um profundo
silncio que se espalha por toda parte.
         PARTE III


       27
       Mariam
       -- SABE QUEM EU SOU?
       As plpebras da menina se entreabriram.
       -- Sabe o que aconteceu?
       A boca da menina estremeceu. Ela fechou os olhos. Engoliu. Levou a mo a
face esquerda. Murmurou algo. Mariam se aproximou um pouco mais.
       -- Esse ouvido -- sussurrou ela. -- No ouo nada.
       Durante a primeira semana, a garota praticamente s dormiu, graas s
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plulas rosadas que Rashid tinha comprado no hospital. E falava dormindo. s vezes,
balbuciava coisas ininteligveis, gritava, chamava por nomes que Mariam no
reconhecia. Tambm chorava dormindo, ficava mais agitada, chutava as cobertas e,
ento, Mariam precisava cont-la. Outras vezes, tinha nsias e acabava vomitando
tudo o que Mariam lhe dava para comer.
       Quando no estava agitada, a garota no passava de um par de olhos
melanclicos, ali, debaixo das cobertas, sussurrando respostas breves s perguntas
de Mariam e Rashid. s vezes, assumia uma atitude infantil, balanando a cabea
para um lado e para o outro quando Mariam e o marido tentavam lhe dar de comer. Se
enrijecia quando a colher se aproximava, mas logo se cansava e acabava se
submetendo  persistncia daqueles dois. Longos acessos de choro se seguiam a essa
rendio.
       O casal passava um ungento antibitico nos cortes de seu rosto e de seu
pescoo, bem como nas suturas dos ferimentos em seu ombro, em seus braos e pernas.
Era Mariam quem fazia os curativos, lavando-os e trocando as ataduras. Tambm era
ela quem afastava o cabelo do rosto da garota, segurando-o bem para trs, quando
ela precisava vomitar.
       -- Por quanto tempo ela vai ficar aqui? -- perguntou a Rashid.
       -- At melhorar. Olhe s para ela. No est em condies de ir embora.
Pobrezinha...

       Foi Rashid quem a encontrou e a retirou dos escombros.
       -- Felizmente, eu estava em casa -- disse ele, sentado numa cadeira de armar
ao lado da cama de Mariam, onde a garota estava deitada. -- Felizmente para voc, 
claro. Eu a tirei dos escombros com minhas prprias mos. Tinha um pedao de metal
grande assim -- prosseguiu ele, separando bem o polegar do indicador para lhe
mostrar o tamanho do estilhao "provavelmente dobrando a sua verdadeira dimenso",
pensou Mariam -- saindo do seu ombro. Estava cravado ali. Cheguei a pensar que ia
precisar de um alicate para retir-lo. Mas est tudo bem. Logo, logo voc vai estar
nau socha, novinha em folha.
       Tambm foi Rashid que recuperou alguns dos livros de Hakim.
       -- A maioria virou cinza. E acho que o resto foi roubado. Durante a primeira
semana, ele ajudou Mariam a cuidar da garota.
       Um dia, voltou do trabalho trazendo um cobertor e um travesseiro novos. No
outro dia, um frasco de remdio.
       -- So vitaminas -- declarou.
       Foi Rashid quem contou a Laila que a casa de seu amigo Tariq j tinha sido
ocupada.
       -- Foi um presente -- disse ele. -- De um dos comandantes de Sayyaf a trs de
seus homens. Um presente! Pois sim...
       Os trs homens eram, na verdade, trs garotos, de rosto bem jovem e
bronzeado. Quando passava por l, Mariam os via, sempre fardados, acocorados diante
da porta da frente da casa de Tariq, jogando cartas e fumando, com os Kalashnikovs
encostados na parede. O mais forte deles, que tinha a maior pose e um jeito
debochado, era o lder do grupo. O mais jovem era tambm o mais calado, parecendo
relutar em assumir o ar de impunidade que seus companheiros ostentavam.
       De uns tempos para c, deu para sorrir e acenar com a cabea quando Mariam
passava, cumprimentando-a. Ao fazer isso, algo de sua aparente presuno se
dissipava e Mariam podia perceber ali um toque de humildade aparentemente ainda
intacta.
       Um belo dia, a casa foi atingida por msseis. Mais tarde, circularam os
boatos de que haviam sido disparados pelos hazaras de Wahdat. Os vizinhos passaram
algum tempo encontrando pedaos e partes dos corpos dos rapazes.
       -- Eles tiveram o que mereciam -- comentou Rashid.

       "Essa menina teve muita sorte", pensou Mariam, "por escapar assim, com
ferimentos relativamente leves, quando o mssil transformou a casa em que morava
num monte de escombros fumegantes". E vinha melhorando a cada dia. Comeou a comer
um pouco mais, a escovar o prprio cabelo. J tomava banho sozinha. Passou a fazer
as refeies no andar trreo, junto com Mariam e Rashid.
       Mas, de repente, l vinha uma lembrana inesperada e ela caa num silncio
profundo ou tinha breves perodos em que ficava intratvel. Era como uma recada e
a garota ficava prostrada, com o olhar perdido. Tinha pesadelos e sbitos acessos
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de tristeza. E vomitava.
       s vezes, era o remorso.
       -- No era para eu estar aqui -- disse ela um dia.
       Mariam estava trocando a roupa de cama. A menina tinha os olhos no cho e
segurava os joelhos machucados bem apertados contra o peito.
       -- Meu pai queria levar as caixas l para fora. Os livros. Disse que eram
muito pesadas para mim. Mas no deixei. Estava to ansiosa... Era para eu estar
dentro de casa quando tudo aconteceu.
       Mariam sacudiu o lenol limpo e deixou-o cair sobre a cama. Olhou para
aquela garota, para seus cachos louros, o pescoo esguio e os olhos verdes, as
mas do rosto salientes e os lbios carnudos. Lembrou de t-la visto pela rua
quando era pequena, saltitando atrs da me a caminho do forno, ou encarapitada nos
ombros do irmo, o mais moo, aquele que tinha o sinal com o tufo de plos na
orelha. E jogando bolas de gude com o filho do carpinteiro.
       Agora, ela estava ali, fitando-a, como se esperasse que Mariam lhe
transmitisse um pouquinho de sabedoria, lhe dissesse algo encorajador. Mas que
sabedoria ela tinha para oferecer? Que encorajamento? Lembrou do dia do enterro de
Nana, quando o mul Faizullah citou os versculos do Coro que no lhe trouxeram
praticamente consolo algum. Bendito seja Aquele em cujas mos est o reino e que
tem poder sobre tudo. Que criou a morte e a vida para testar-vos e saber quem de
vs age melhor. E dos conselhos que lhe deu seu velho amigo ao perceber a culpa que
sentia: "Esses pensamentos no so bons, Mariam jo. Eles vo destru-la. No foi
culpa sua. No foi mesmo."
       O que poderia dizer a essa menina para tornar o seu fardo mais leve?
       E acabou no dizendo nada, pois o rosto da garota se retorceu e era mais que
evidente que ela ia vomitar.
       -- Ah, no! Espere um pouco! Vou pegar um balde. No cho, no. Limpei agora
mesmo... Ah... Khodaya. Meu Deus!
       At que, um dia, cerca de um ms depois da exploso que matou os pais da
menina, um homem veio bater  porta da casa. Mariam foi abrir. Ele lhe disse o que
o trazia ali.
       -- Tem um homem querendo ver voc -- disse Mariam. A garota ergueu a cabea do
travesseiro.
       -- O nome dele e Abdul Sharif.
       -- No conheo ningum com esse nome.
       -- Bom, mas ele quer v-la. Voc tem que descer para falar com ele.

       28
       Laila
       LAILA SE SENTOU diante do tal Abdul Sharif, um homem magro, com uma cabea
mida e um nariz bulboso cheio das mesmas marcas que cobriam o seu rosto e que
pareciam pequenas crateras. O cabelo castanho cortado curto ficava espetado no
couro cabeludo como agulhas numa almofada de alfinetes.
       -- Voc precisa me desculpar, hamshira -- disse ele, ajeitando o colarinho
frouxo e enxugando a testa com um leno. -- Acho que ainda no estou inteiramente
curado. Preciso de mais uns cinco dias desses... como  mesmo que se chamam?
Comprimidos de sulfa.
       Laila se posicionou de forma a que o seu ouvido direito, o bom, ficasse mais
prximo do homem.
       -- O senhor era amigo dos meus pais? -- perguntou.
       -- No, no -- apressou-se a responder Abdul Sharif. -- Desculpe-me --
acrescentou ele, erguendo um dedo e tomando um bom gole da gua que Mariam tinha
posto a sua frente. -- Creio que seria melhor comear pelo comeo...
       O homenzinho secou os lbios com o leno e voltou a enxugar a testa.
       -- Sou comerciante. Possuo uma loja de roupas, especialmente masculinas.
Chapans, chapus, tumbans, ternos, gravatas, o que puder imaginar. Tenho duas lojas
aqui em Cabul, em Taimani e Shar-e-Nau, ou melhor, tinha, pois acabo de vend-las.
E duas outras no Paquisto, em Peshawar.  l que fica tambm o meu depsito.
Portanto, viajo muito, indo e voltando, coisa que, atualmente... -- Ele abanou a
cabea e deu um risinho cansado -- ...bem, digamos que  uma verdadeira aventura.
       "Estive em Peshawar recentemente, a trabalho, para receber encomendas, fazer
o balano do estoque e coisas do gnero. Mas tambm para ver minha famlia. Temos
trs filhas, alhamdulellah. Eu as levei para o Paquisto, juntamente com minha
esposa, logo que os mujahedins comearam a se matar uns aos outros. No quero que o
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nome delas v engrossar a lista dos shahids. Nem o meu, para dizer a verdade. Logo,
logo, vou para l tambm, inshallah.
       "Mas isso no vem ao caso. Devia ter vindo para Cabul na quarta-feira
retrasada. No entanto, o destino quis que eu casse doente. No vou aborrec-la com
detalhes, hamshira. Basta dizer que, quando fui fazer minhas necessidades, a mais
simples delas, senti como se estivesse expelindo vidro modo. No desejo isso nem
mesmo ao prprio Hekmatyar. Minha esposa, Nadia Jan, que Deus a abenoe, implorou
para que eu fosse ao mdico. Mas achei que ficaria tudo bem com aspirinas e
bastante gua. Nadia jan continuou insistindo e eu recusando, e ficamos nisso por
algum tempo. Voc conhece o ditado que diz que, para um burro teimoso, s mesmo um
condutor teimoso. Mas, desta vez, o animal saiu vencedor. E o burro era eu, 
claro!
       Bebeu o resto da gua e estendeu o copo para Mariam, dizendo:
       -- Se no for muito zahmat...
       Mariam pegou o copo de suas mos e foi buscar mais gua.
       -- No preciso lhe dizer -- prosseguiu o homem -- que deveria ter dado ouvidos
a minha mulher. Ela sempre foi uma criatura muito sensata, que Deus lhe d vida
longa. Quando cheguei ao hospital, estava ardendo em febre e tremendo como uma
arvore beid ao vento. Mal podia me agentar. A doutora disse que eu estava com
septicemia e que, se tivesse demorado mais dois ou trs dias, minha esposa teria
ficado viva.
       E continuou:
       -- Puseram-me numa unidade especial, destinada aos doentes mais graves, acho
eu. Ah, tashakor -- exclamou ele, pegando o copo das mos de Mariam e tirando um
grande comprimido branco do bolso do casaco. -- Olhe s o tamanho disso!
       Laila o viu engolir o tal comprimido. Percebia a prpria respirao
acelerada. Sentia as pernas pesadas, como se tivessem amarrado chumbo nelas. Disse
a si mesma que aquele homem ainda no tinha lhe contado nada. Mas, ele logo retomou
o que ia dizendo e ela precisou se conter para no se levantar e ir embora, antes
que Abdul Sharif lhe contasse coisas que no queria ouvir.
       -- Foi l que conheci o seu amigo, Mohammad Tariq Walizai -- disse ele, pondo
o copo sobre a mesa.
       O corao de Laila disparou. Tariq num hospital? Numa unidade especial?
Destinada aos doentes mais graves?
       A menina engoliu em seco e se remexeu na cadeira. Precisava estar preparada,
caso contrrio, temia que pudesse enlouquecer. Tentou no pensar em hospitais e
unidades especiais, e se concentrar na idia de que no ouvia Tariq ser chamado
pelo nome completo desde que ambos tinham se inscrito para um curso de farsi, nas
frias, anos atrs. O professor fez a chamada logo depois da sineta e disse o nome
dele assim mesmo: Mohammad Tariq Walizai. Naquela ocasio, ouvir o nome de Tariq
desse jeito lhe pareceu alguma coisa comicamente pomposa.
       -- Foi pelas enfermeiras que fiquei sabendo do que tinha acontecido a ele --
prosseguiu Abdul Sharif, dando umas batidinhas no peito como se tentasse fazer o
comprimido descer mais facilmente. -- Depois de tanto tempo em Peshawar, aprendi o
urdu razoavelmente bem. Mas, em suma, o que consegui compreender foi que o seu
amigo estava num caminho repleto de refugiados, 23 ao todo, rumando para Peshawar.
Perto da fronteira, viram-se em meio ao fogo cruzado. Um mssil atingiu o caminho.
Provavelmente, um mssil extraviado, mas, com essa gente, nunca se sabe... Houve
apenas seis sobreviventes e todos foram internados na mesma unidade. Trs deles
morreram em 24 horas. Duas outras escaparam, duas irms, pelo que entendi, e foram
liberadas. Seu amigo, sr. Walizai, era o ltimo deles. Quando cheguei, ele j
estava ali h quase trs semanas.
       Ento Tariq estava vivo. Mas em que estado? Essa pergunta ficou rodando
freneticamente em sua cabea. Em que estado? Mal o bastante para ser internado numa
unidade especial, evidentemente. Laila percebeu que tinha comeado a suar e seu
rosto estava pelando. Tentou pensar em outra coisa, em algo agradvel, como a
viagem a Bamiyan, com Tariq e babi, para ver as esttuas dos Budas. Em vez disso, o
que lhe veio  mente foi uma imagem dos pais dele: a me presa no caminho tombado,
gritando pelo filho em meio  fumaa, com os braos e o peito em chamas, a peruca
se fundindo ao seu couro cabeludo...
       Laila precisou respirar diversas vezes.
       -- Ele estava na cama ao lado da minha. Como no havia paredes ali, apenas
cortinas, podia v-lo bastante bem.
       De repente, Abdul Sharif experimentou uma sbita necessidade de ficar
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
brincando com a prpria aliana. E comeou a falar mais devagar.
        -- Ele estava muito, muito ferido, entende? Havia tubos saindo de todas as
partes do seu corpo. A princpio... -- ele fez uma pausa e pigarreou. -- A princpio,
pensei que tivesse perdido as duas pernas no ataque, mas a enfermeira me disse que
no, que foi s  direita, pois a outra amputao era resultado de um ferimento bem
mais antigo. Havia tambm problemas internos. Ele j foi operado trs vezes.
Retiraram partes do seu intestino e no me lembro mais o qu. Alm disso, ele ficou
muito queimado. Queimaduras bem srias.  tudo o que posso lhe dizer. Sei que voc
j deve ter a sua cota de pesadelos, hamshira. No faz sentido eu ficar aqui
acrescentando motivos para outros mais.
        Agora, Tariq no tinha ambas as pernas. Era um torso, com dois tocos. Sem
pernas. Laila achou que fosse desmaiar. Com um esforo desesperado, e deliberado,
afastou a mente daquela sala, daquele homem, pela janela, passando pela rua l
fora, depois, pela cidade com suas casas de teto plano e seus bazares, seus
labirintos de ruelas estreitas que tinham se transformado em castelos de areia.
        -- Ele passava a maior parte do tempo drogado. Por causa da dor, entende? Mas
tinha momentos de lucidez, quando o efeito dos remdios estava passando. Com dores,
mas lcido. Comecei a falar com ele l da minha cama. Disse quem eu era, de onde
vinha. Ele ficou feliz, creio eu, sabendo que tinha um hamwatan ao seu lado.
        "Quase sempre, era eu quem falava. Para ele, no era nada fcil. Sua voz
estava rouca e tenho a impresso de que sentia dores ao mover os lbios. Ento, eu
lhe falei sobre as minhas filhas, sobre nossa casa em Peshawar e o terrao que meu
cunhado e eu estamos construindo nos fundos. Disse-lhe que tinha vendido as lojas
de Cabul e que estava voltando aqui para tratar da papelada. No era muito, mas
aquilo o distraa. Ou, pelo menos, gosto de achar que sim.
        "s vezes, ele tambm falava. No conseguia entender metade do que dizia,
mas compreendi o suficiente. Ele descreveu o lugar onde morava.
        Falou de seu tio em Ghazni. De como a me cozinhava, do trabalho de seu pai
como carpinteiro, e do acordeo.
        "Mas era principalmente de voc que ele falava, hamshira. Disse que voc
era... quais foram mesmo as palavras que usou?... a sua lembrana mais remota. Acho
que foi exatamente assim. Pude perceber como ele gostava de voc. Balay, isso era
bvio. Mas seu amigo disse tambm que estava feliz por voc no estar ali, pois no
queria que o visse naquele estado."
        Laila voltou a sentir os ps pesados, fincados no cho, como se, de repente,
todo o seu sangue tivesse se concentrado ali. Mas sua mente estava longe, livre e
lpida, voando como um mssil veloz, j alm de Cabul, sobre aquelas colinas
marrons e escarpadas, os desertos pontilhados aqui e ali por tufos de slvia,
passando pelos cnions de rochas vermelhas pontiagudas e pelas montanhas com os
cumes cobertos de neve...
        -- Ao me ouvir dizer que ia voltar para Cabul, o sr. Walizai me pediu que a
procurasse. Que lhe dissesse que ele pensava em voc. Que sentia saudades. Prometi
que faria isso. Fiquei gostando dele, sabe? Dava para notar que era um rapaz
decente.
        Abdul Sharif voltou a enxugar a testa com o leno.
        -- Certa noite -- prosseguiu ele, com renovado interesse pela prpria aliana
--, ao menos, acho que era noite. No  muito fcil saber ao certo, quando se est
nesse tipo de lugar. No h janelas. O sol nasce, se pe e a gente no tem muita
noo do tempo. O fato  que acordei e havia uma espcie de comoo ao redor da
cama ao lado.  claro que eu tambm estava sendo sedado. Passava o tempo todo
dormindo e acordando, a tal ponto que ficava difcil distinguir o que era sonho e o
que era realidade. S me lembro de mdicos amontoados em volta da cama, pedindo uma
coisa e outra, alarmes disparando, seringas espalhadas pelo cho.
        "Pela manh, a cama estava vazia. Perguntei a enfermeira. Ela disse que ele
tinha lutado bravamente."
        Laila tinha uma vaga noo de que estava assentindo com a cabea. J sabia.
Claro que j sabia. Desde que se sentou defronte desse homem, sabia muito bem por
que ele estava ali, que notcia estava trazendo.
        -- A princpio -- dizia ele agora --, achei que voc no existia. Pensei que
tudo aquilo fosse delrio provocado pela morfina. Acho at que queria que voc no
existisse. Sempre tive horror de ser o portador de ms notcias. Mas eu tinha
prometido. E, como j disse, fiquei gostando dele. Ento, vim at aqui h alguns
dias. Perguntei a uns vizinhos que me indicaram esta casa. E tambm me contaram o
que aconteceu a seus pais. Quando soube disso, dei meia-volta e fui embora. Decidi
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
no lhe contar nada. Achei que seria demais para voc. Para qualquer um, alis.
        Abdul Sharif estendeu o brao por cima da mesa e ps a mo no joelho da
menina.
        -- Mas acabei voltando -- disse ele. -- Porque, afinal, achei que ele ia querer
que voc soubesse. Acredito realmente nisso. Sinto muito. Gostaria de...
        Mas Laila j no o ouvia. Estava lembrando do dia em que aquele homem veio
l de Panjshir trazendo a notcia da morte de Ahmad e de Noor. Lembrou de babi
desabando no sof, com o rosto absolutamente sem cor. E mammy tapando a boca com a
mo ao ouvir o que o sujeito dizia. Naquele dia, Laila viu a me desmoronar e ficou
assustada, mas, na verdade, no sentiu tristeza alguma. No entendeu a imensido da
perda que sua me estava sofrendo. Agora, esse outro estranho aparecia trazendo a
notcia de outra morte. Agora, era ela que estava sentada na cadeira. Seria a sua
penitncia, o seu castigo por no ter compartilhado do sofrimento da prpria me?
        Lembrou que mammy tinha cado no cho, gritando e arrancando os cabelos. Nem
isso ela conseguiria fazer. Mal podia se mexer. Mal podia mover um msculo que
fosse.
        Ento, ficou sentada ali naquela cadeira, com as mos pousadas no colo,
olhando para o nada, e deixou a mente vagar. Deixou que ela sasse voando at
encontrar o lugar certo e seguro, onde os campos de cevada eram verdes, onde a gua
clara corria e as sementes dos algodoeiros danavam pelo ar aos milhares; onde babi
lia um livro sentado  sombra de uma accia e Tariq cochilava com as mos cruzadas
sobre o peito; onde ela podia mergulhar os ps no riacho e sonhar lindos sonhos sob
o olhar protetor de deuses de pedra antiga e crestada pelo sol.

       29
       Mariam
       -- SINTO MUITO -- DISSE RASHID, dirigindo-se  menina e pegando a tigela de
mastawa com almndegas das mos de Mariam sem sequer olhar para ela. -- Sei que
vocs dois eram muito prximos, muito... amigos. Andavam sempre juntos, desde
pequenos.  terrvel o que aconteceu. Tantos jovens afegos morrendo desse jeito...
       Ficou mexendo a mo, com impacincia, mas sem tirar os olhos da menina, e
Mariam lhe estendeu um guardanapo.
       H anos, ela o via comer, com os msculos das tmporas se movendo, uma das
mos fazendo bolinhos de arroz bem compactos, o dorso da outra limpando a gordura
ou tirando migalhas que lhe ficassem no canto da boca. H anos, ele comia sem olhar
para ela, sem falar, mergulhado naquele silncio que a condenava, como se tivesse
havido um julgamento, e que s era rompido de vez em quando por um grunhido
acusador, uma desaprovao traduzida no estalar da lngua, uma ordem monossilbica
para que lhe desse mais po ou mais gua.
       Agora, l estava ele comendo com uma colher. Usando um guardanapo. Dizendo
lotfan quando pedia mais gua. E falando. Animadamente e sem parar.
       -- Se quer saber, os americanos cometeram um erro ao armar Hekmatyar, quando
a CIA lhe deu todo aquele arsenal, nos anos 1980, para que ele combatesse os
soviticos. Agora, os soviticos j foram embora, mas ele ainda tem essas armas e
passou a us-las contra gente inocente como seus pais. E chama isso de jihad! Uma
boa farsa, isso sim! O que o jihad tem a ver com essa matana de mulheres e
crianas? Eles deviam era ter armado o comandante Massoud.
       Mariam franziu a testa, num movimento involuntrio. Comandante Massoud?
Podia ouvir nitidamente Rashid esbravejando contra Massoud, chamando-o de traidor e
comunista. S que Massoud era tadjique,  claro. Como Laila.
       -- Ele, sim,  um sujeito sensato. Um afego honrado. Um homem genuinamente
interessado em encontrar uma soluo pacfica para tudo isso.
       Deu de ombros e suspirou.
       -- Veja bem, no que eu ache que os Estados Unidos estejam preocupados com
isso. Na verdade, eles no esto nem a se pashtuns, hazaras, tadjiques e uzbeques
ficam se matando uns aos outros. Alis, quantos deles sabem distinguir quem  quem?
No espere ajuda deles, oua o que estou dizendo. Agora, que os soviticos foram
derrotados, no temos mais nenhuma serventia para aquela gente. J nos usaram para
conseguir o que queriam. Para eles, o Afeganisto no passa de um kenarab, ou seja,
uma boa merda. Desculpe a expresso, mas  a pura verdade. O que acha, Laila jan?
       A menina murmurou algo ininteligvel e ficou fazendo uma das almndegas
girar dentro da tigela.
       Rashid assentiu, com um ar pensativo, como se ela houvesse dito a coisa mais
inteligente que j tinha ouvido. Mariam desviou os olhos.
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        -- Sabe, o seu pai, que Deus o tenha em bom lugar, o seu pai e eu tnhamos
conversas como esta. Antes de voc nascer,  claro. Passvamos horas falando de
poltica. E de livros tambm. No  mesmo, Mariam? Lembra?
        Mariam tratou de parecer ocupada, tomando um gole de gua.
        -- Bom, mas espero no estar aborrecendo voc com toda essa historia de
poltica.
        Mais tarde, quando estava lavando os pratos na cozinha, Mariam sentiu um
bolo no estmago.
        No era tanto pelo que ele tinha dito, as mentiras deslavadas que tinha
contado, a empatia estudada, nem mesmo o fato de ele no ter mais levantado a mo
para ela desde que trouxe aquela menina para dentro de casa.
        O problema era como ele dizia aquilo. Com toda aquela encenao. Numa
tentativa, a um s tempo dissimulada e pattica, de impressionar. De seduzir.
        E, de repente, Mariam teve a certeza de que suas suspeitas tinham
fundamento. Com um pavor que mais pareceu uma pancada estonteante na cabea, ela
entendeu tudo: Rashid estava cortejando aquela menina.
        Quando conseguiu finalmente se armar de coragem, entrou no quarto dele.
        Rashid acendeu um cigarro, e disse:
        -- Por que no?
        E, nesse exato momento, Mariam soube que tinha sido derrotada. De certa
forma, tinha esperanas de que ele fosse negar tudo, fingisse estar surpreso, at
mesmo ofendido ao tomar conhecimento do que ela estava insinuando. Nesse caso,
Mariam ficaria numa posio mais confortvel, podendo at deix-lo envergonhado.
Mas, diante daquele tom objetivo, daquela calma ao admitir a situao, a sua
coragem simplesmente desapareceu.
        -- Sente-se -- disse ele. Estava deitado na cama, de costas para a parede, com
as pernas compridas esparramadas no colcho. -- Sente-se antes que desmaie e acabe
abrindo a cabea.
        Mariam se deixou cair numa cadeira de armar, ao lado da cama.
        -- Pode me passar o cinzeiro? -- pediu ele. Ela obedeceu.
        Rashid devia estar agora com uns sessenta anos, ou mais -- se bem que Mariam
no sabia exatamente qual a sua idade, e nem ele prprio, alis. Seu cabelo j
tinha ficado branco, embora continuasse espesso e cheio como sempre. Agora, ele
tinha uns papos nas plpebras e na pele enrugada do pescoo. As bochechas estavam
mais cadas do que antes. Pela manh, andava um tanto encurvado. Mas ainda tinha os
ombros largos, o torso robusto, as mos fortes, a barriga proeminente que entrava
nos lugares antes de qualquer outra parte do seu corpo.
        No geral, Mariam achava que ele tinha enfrentado o passar dos anos bem
melhor do que ela mesma.
        -- Precisamos legitimar essa situao -- disse ele, equilibrando o cinzeiro na
barriga. Seus lbios se retorceram num muxoxo meio debochado. -- Vo comear a
falar. No parece uma atitude honrada uma moa solteira ficar morando aqui. No 
nada bom para minha reputao. Nem para a dela. E, devo acrescentar, nem para a sua
tambm.
        -- So 18 anos -- principiou Mariam. -- E nunca lhe pedi nada. Nada mesmo. Mas
estou pedindo agora.
        Ele inalou a fumaa e a soltou bem devagar.
        -- Ela no pode simplesmente ficar aqui, se  o que voc pretende sugerir.
No posso continuar alimentando e vestindo essa moa, e ainda por cima lhe dando um
lugar para dormir. No sou a Cruz Vermelha, Mariam.
        -- Mas tem que ser isso?
        -- Qual  o problema, hein? Acha que a menina  jovem demais? Ela tem 14
anos. No  mais uma criana. Voc tinha 15, lembra? Minha me tinha 14 quando eu
nasci. E 13 quando se casou.
        -- No... no quero isso -- disse Mariam, meio entorpecida pelo despeito e a
sensao de desamparo.
        -- Mas no  voc quem deve decidir. Somos ns, ela e eu.
        -- Estou velha demais.
        -- Ela  jovem demais... Voc  velha demais... Quanta besteira!
        -- Estou mesmo. Estou velha demais para voc fazer isso comigo -- disse
Mariam, agarrando o tecido do vestido com tanta fora que suas mos chegavam a
tremer. -- Para, depois de todos esses anos, voc fazer de mim uma ambagh.
        -- No seja to dramtica! Voc sabe muito bem que isso  comum. Tenho amigos
com duas, trs, quatro esposas. Seu prprio pai tinha trs. Alem disso, o que vou
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fazer agora  algo que a maioria dos homens j teria feito h muito tempo. E voc
sabe que  verdade.
        -- No vou permitir que isso acontea. Ao ouvir isso, Rashid sorriu
tristemente.
        -- Existe uma outra opo -- disse ele, coando a sola de um dos ps com o
calcanhar calejado do outro. -- A menina pode ir embora. No vou impedi-la de fazer
isso. Mas desconfio que ela no vai muito longe. Sem comida, sem gua, sem uma
rupia no bolso, e com as balas e os msseis por toda parte... Quantos dias acha que
ela consegue sobreviver antes de ser raptada, estuprada ou atirada em alguma vala
com a garganta cortada? Ou as trs coisas juntas?
        Antes de prosseguir, tossiu e ajeitou o travesseiro s suas costas:
        -- As ruas l fora so inclementes, Mariam, acredite. H ces de caa e
bandidos a cada esquina. Eu no queria estar na pele dela, no mesmo. Mas, vamos
supor que, por algum milagre, ela conseguisse chegar a Peshawar. E a? Voc faz
idia de como so aqueles campos de refugiados? -- indagou ele, fitando-a por detrs
de uma nuvem de fumaa. -- Gente morando debaixo de pedaos de papelo. Tuberculose,
disenteria, fome, crime. E isso, sem contar com o inverno. A, vem o frio. A
pneumonia. As pessoas congelando. Esses campos viram verdadeiros cemitrios no meio
do gelo.  claro -- acrescentou Rashid fazendo um gesto debochado, girando um pouco
a mo -- que ela sempre pode se aquecer num daqueles bordis de Peshawar. Ouvi dizer
que esse  um comrcio que vem prosperando por l. Uma moa bonita como ela deve
render uma pequena fortuna, no acha?
        Ps o cinzeiro na mesinha de cabeceira e baixou as pernas, como se fosse se
levantar.
        -- Olhe -- disse ele, num tom mais conciliador, coisa que s os vencedores
podem se permitir --, eu sabia que voc no ia gostar dessa idia e, na verdade, no
a censuro por isso. Mas  melhor assim. Voc vai ver s. Pense por esse prisma.
Estou lhe dando algum para ajud-la com a casa, e, a ela, um abrigo. Um lar e um
marido. Hoje em dia, com as coisas do jeito que esto, uma mulher precisa de um
marido. J no reparou em todas essas vivas dormindo pelas ruas? Elas dariam tudo
para ter essa oportunidade. Na verdade, ... Bom, diria que  um ato decididamente
caridoso de minha parte.
        E acrescentou, sorrindo.
        -- Em minha concepo, mereo at uma medalha.
        Mais tarde, no escuro do quarto, Mariam contou tudo para a garota. Durante
um bom tempo, ela ficou calada.
        -- Ele quer uma resposta pela manh -- disse Mariam.
        -- Posso responder agora mesmo -- retrucou a menina. -- Minha resposta  sim.

       30
       Laila
       No DIA SEGUINTE, LAILA FICOU NA CAMA. Estava debaixo das cobertas quando
Rashid meteu a cabea pela porta e disse que estava indo ao barbeiro. Ainda estava
deitada quando ele voltou, j mais para o fim da tarde, e lhe mostrou seu novo
corte de cabelo, seu terno novo de segunda mo, azul com listrinhas creme, e a
aliana que tinha comprado para ela.
       Ele se sentou ao seu lado, na beira da cama, e, com uma grande encenao,
foi desfazendo lentamente o embrulho, abriu a caixa e tirou de l a aliana com
todo cuidado. Admitiu que tinha vendido a aliana de Mariam para comprar esta nova.
       -- Ela no se importa, acredite. No vai nem notar.
       Laila se afastou, indo para a outra ponta da cama. Podia ouvir Mariam l
embaixo, o chiado de seu ferro de passar.
       -- De qualquer jeito, ela nunca a usou -- acrescentou Rashid.
       -- No quero essa aliana -- disse a menina. -- No desse jeito. Voc tem que
devolv-la.
       -- Devolv-la? -- exclamou Rashid, e um ar de impacincia passou pelo seu
rosto para desaparecer to depressa quanto tinha surgido. -- Mas tive que pagar a
diferena -- disse ele, sorrindo. -- E, na verdade, no foi pouca coisa. Esta 
melhor do que a outra.  ouro 22 quilates. Veja como  pesada. Vamos, experimente.
No?
       Fechou ento a caixinha.
       -- E que tal flores? Seria um bom presente. Gosta de flores? Tem alguma
favorita? Margaridas? Tulipas? Lilases? No quer flores? Est bem! Mas no consigo
entender. S achei que... Bom, conheo um alfaiate em Deh-Mazang. Pensei que
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poderamos ir at l amanh, e mandar fazer um vestido decente para voc.
       Laila abanou a cabea. Rashid ergueu as sobrancelhas.
       -- Prefiro... -- principiou a menina.
       Ele ps a mo em seu pescoo. Laila no pde se impedir de recuar e se
encolher. O toque daquela mo parecia uma velha suter de l mida usada sem nada
por baixo.
       -- Sim?
       -- Prefiro resolver logo essa histria.
       Rashid abriu a boca e, depois, deu um sorriso, mostrando aqueles dentes
saltados e amarelos.
       -- Impaciente, hein? -- disse ele ento.
       Antes da visita de Abdul Sharif, Laila tinha decidido ir embora para o
Paquisto. Agora, achava que devia ter feito isso, mesmo depois que ele trouxe
aquela notcia. Partir para algum lugar longe de Cabul. Sair dessa cidade onde cada
esquina era uma armadilha, cada beco escondia um fantasma que pulava sobre ela como
o boneco de uma caixa de surpresa. Devia ter corrido o risco.
       De repente, porm, ir embora tinha deixado de ser uma opo.
       No com esses enjos dirios.
       No com esse novo volume dos seus seios.
       E, sabe-se l como, em meio a esse verdadeiro turbilho, a certeza de que
sua menstruao no tinha vindo.
       Laila tentava se imaginar num campo de refugiados, um lugar desolado, com
milhares de pedaos de plstico presos a estacas improvisadas e balanando ao vento
frio, cortante. Sob uma dessas tendas, via o seu beb, o filho de Tariq, com as
tmporas esquelticas, as mandbulas frouxas, a pele manchada de um cinza-azulado.
Imaginava aquele corpinho franzino sendo lavado por estranhos, envolto numa
mortalha amarelada e depositado num buraco aberto num pedacinho de terra varrida
pelo vento, sob o olhar desapontado dos abutres.
       Como poderia ir embora agora?
       Fez um inventrio sinistro das pessoas que eram parte de sua vida. Ahmad e
Noor, mortos. Hasina, longe dali. Giti, morta. Mammy, morta. Babi, morto. E, agora,
Tariq...
       Milagrosamente, porm, tinha restado algo de sua antiga vida, sua ltima
ligao com a pessoa que ela foi antes de se tornar extremamente s. Uma parte de
Tariq ainda vivia dentro dela, com minsculos bracinhos e mos translcidas se
formando. Como poderia pr em risco a nica coisa que lhe restava dele, da sua vida
de antigamente?
       No precisou de muito tempo para decidir. Tinham-se passado seis semanas
desde que esteve com Tariq. Se demorasse um pouco mais, Rashid ficaria desconfiado.
       Sabia que no era uma atitude honrada. Era infame, calculado e vergonhoso. E
tremendamente injusto para com Mariam. Mas, embora o seu beb no fosse maior que
uma amora, Laila j percebia os sacrifcios que uma me tem que fazer. E a virtude
era apenas a primeira das coisas a serem sacrificadas.
       Ps a mo na barriga e fechou os olhos.
       Da cerimnia silenciosa, Laila se lembrava de uns poucos fragmentos. As
listras creme do terno de Rashid. O cheiro forte do seu spray de cabelo. O
cortezinho logo acima do pomo-de-ado feito enquanto ele se barbeava. O toque
spero de seus dedos manchados de tabaco quando ele ps o anel em seu dedo. A
caneta que no estava funcionando. Tiveram que ir procurar outra. O contrato. A
assinatura dele, com a mo firme, e a sua, com a mo trmula. As oraes. Pelo
espelho, reparou que Rashid tinha depilado as sobrancelhas.
       E, em algum ponto do aposento, Mariam apenas olhando, deixando o ar pesado
com sua desaprovao.
       Laila no conseguiu enfrentar o olhar daquela mulher.
        noite, deitada sob o lenol frio, Laila o viu fechar as cortinas. Antes
mesmo que os seus dedos comeassem a desabotoar sua blusa, a desatar o cordo de
sua cala, ela j estava tremendo. E ele, agitado. Atrapalhou-se todo para
desabotoar a prpria camisa, para abrir a fivela do cinto.
       Pde ver nitidamente o peito flcido, a barriga proeminente, a veiazinha
azulada bem no meio dela, os tufos de cabelo branco no seu torso, nos seus ombros,
nos seus braos. Sentiu que ele a olhava de cima a baixo.
       -- Que Deus me ajude -- disse ele. -- Acho que estou apaixonado por voc.
       Com os dentes batendo, Laila lhe pediu que apagasse a luz.
       Mais tarde, depois de se certificar de que ele estava dormindo, a garota
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                     Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
estendeu a mo para apanhar a faca que tinha escondido debaixo do colcho. Com ela,
fez um pequeno corte no dedo indicador. Depois, ergueu as cobertas e passou o dedo
com sangue no local onde eles tinham estado juntos.
       31
       Mariam
       DURANTE O DIA, S UM RANGIDO das molas do colcho e o rudo de passos no
andar de cima denunciavam a presena da menina naquela casa. Ela era o barulho de
gua no banheiro ou uma colher de ch tilintando na xcara l no quarto. De vez em
quando, uma percepo visual: o borro de cor de um vestido nas bordas do campo de
viso de Mariam, pisando furtivamente nos degraus da escada, braos cruzados no
peito, sandlias batendo no calcanhar.
       Mas era inevitvel que acabassem se encontrando. Mariam cruzava com ela na
escada, no estreito corredor, na cozinha ou na porta ao voltar do quintal. E sempre
que isso acontecia, uma estranha tenso pairava no espao que as separava uma da
outra. A moa arregaava a saia, murmurava uma ou duas palavras se desculpando e
passava, apressando o passo. Nesse meio tempo, com o rabo do olho, Mariam podia
perceber um rubor em seu rosto. s vezes, sentia tambm o cheiro de Rashid.
Conseguia identificar o suor dele naquela pele, o tabaco, o desejo. Graas a Deus,
sexo era um captulo encerrado em sua vida. J vinha sendo assim h algum tempo e,
agora, a simples idia de se ver ali, naquela situao to penosa, deitada sob o
corpo de Rashid, a deixava com o estmago embrulhado.
        noite, porm, aquela dana mutuamente orquestrada para se evitarem uma a
outra tornava-se impossvel. Rashid dizia que eram uma famlia. Insistia nisso,
acrescentando que uma famlia deve fazer as refeies junta.
       -- O que  isso? -- perguntava ele, soltando a carne de um osso com as mos.
Afinal, a farsa do garfo e da colher havia sido abandonada uma semana depois do
casamento com a menina. -- Ser que me casei com um par de esttuas? Vamos, Mariam,
gap bezan, diga algo a ela. Onde est sua educao?
       E, sugando o tutano de um osso, prosseguia, dirigindo-se a menina.
       -- Mas voc no deve censur-la por isso. Ela  calada assim mesmo. O que, na
verdade,  uma bno, pois, wallah, se algum no tem muito a dizer, o melhor que
faz  poupar as palavras. Ns dois somos da cidade, mas ela  uma debati. Uma
menina da roa. Nem isso. Cresceu numa kolba de taipa nos arredores de uma aldeia.
Foi o pai dela quem a instalou ali. Voc j lhe contou, Mariam, que  uma harami?
Pois . Mas, no fundo, tem l suas qualidades. Voc vai ver s, Laila jan. Antes de
mais nada,  robusta, muito trabalhadora e no tem pretenses. Como costumo dizer,
se ela fosse um carro, seria um Volga.
       Mariam tinha, agora, 33 anos, mas aquela palavra, harami, ainda a magoava.
Ainda hoje, ao ouvi-la, sentia-se como um inseto nocivo, uma barata. Lembrou de
Nana segurando-a pelos punhos. "Voc  uma harami desastrada. Vejam s a minha
recompensa por tudo o que tive de agentar: uma harami desastrada, que quebra a
loua de famlia."
       -- J voc -- acrescentou Rashid -- seria um Mercedes. Um Mercedes novinho em
folha, modelo de luxo, reluzente. Wah wah. S que... S que... -- prosseguiu ele
erguendo o indicador cheio de gordura --  preciso tomar alguns... cuidados com um
Mercedes. E uma questo de respeito pela beleza e pela qualidade desse carro. Ah,
voc deve estar achando que fiquei maluco, diwana, com toda essa histria de
automveis. Mas no estou dizendo que vocs duas so carros. S estou fazendo uma
comparao para explicar melhor.
       Antes de continuar, Rashid ps de volta no prato o bolinho de arroz que
tinha feito. Com as mos pendendo vazias sobre o prato, baixou os olhos com um ar
srio e pensativo.
       -- No se deve criticar os mortos, muito menos os shahids. E no pretendo
faltar com o respeito quando digo, pois gostaria que voc soubesse, que tenho
certas... reservas... com relao a forma como os seus pais... que Allah os perdoe
e lhes d um lugar no paraso... bem, a tolerncia deles para com voc. Desculpe a
franqueza.
       O olhar glido e cheio de dio que a moa lanou a Rashid no escapou a
Mariam, mas ele prprio estava de olhos baixos e no percebeu nada.
       -- Mas, pouco importa. A questo  que, agora, que sou seu marido, cabe a mim
proteger no apenas sua honra, mas a nossa, isso mesmo, nossa nang e nosso namoos.
Este  o fardo que um marido deve carregar. Deixe que eu cuide disso. Por favor.
Pois voc  a rainha, a malika, e esta casa  o seu palcio. Qualquer coisa que
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
queira, basta pedir a Mariam e ela a far para voc. No  mesmo, Mariam? Se
imaginar alguma coisa, vou busc-la para voc. Est vendo? Esse  o tipo de marido
que eu sou.
       "Em troca, s lhe peo uma coisa bem simples. Que evite sair desta casa sem
a minha companhia. S isso. Simples, no ? Se eu estiver fora e voc precisar de
algo urgentemente, mas precisar mesmo, e no puder esperar pela minha volta, mande
Mariam providenciar o que quer que seja. Voc deve estar achando estranha essa
diferena, mas  que no se dirige um Volga e um Mercedes do mesmo jeito. Seria
besteira, no e mesmo? Ah, tambm quero lhe pedir para usar uma burqa quando
sairmos. Para sua prpria proteo, naturalmente.  melhor assim. H tantos homens
imorais nesta cidade atualmente... Tantos sujeitos mal-intencionados, loucos para
desonrar at mesmo as mulheres casadas. Pronto,  s isso."
       E acrescentou:
       -- Devo dizer -- disse ele, tossindo -- que Mariam vai ser os meus olhos e os
meus ouvidos enquanto eu estiver fora. -- Neste momento, fuzilou a mulher com um
olhar to duro que mais parecia um soco nas tmporas. -- No que eu tenha qualquer
desconfiana. Muito pelo contrario. Para falar a verdade, fico at surpreso ao ver
como voc  sensata para a sua idade. Mas voc ainda  muito jovem, Laila jan, uma
dokhtar e jawan, e os jovens podem fazer escolhas infelizes. Tm tendncia a se
enganar. Seja como for, Mariam vai ficar responsvel por isso. Se houver um
deslize...
       E l se foi ele, prosseguindo com sua preleo. Mariam ficou sentada ali,
olhando a menina com o rabo do olho, enquanto as exigncias e as determinaes de
Rashid caam sobre ambas como os msseis sobre Cabul.
       Certo dia, Mariam estava na sala de visitas dobrando umas camisas de Rashid
que tinha acabado de tirar do varal. No sabia h quanto tempo a menina estava ali,
mas, quando pegou uma das camisas e se virou, deu com ela parada no vo da porta,
segurando uma xcara de ch.
       -- No pretendia assust-la -- disse ela. -- Desculpe. Mariam se limitou a
fit-la.
       O sol bateu no rosto da garota, naqueles grandes olhos verdes e naquela
testa lisa, nas suas mas do rosto e nas espessas sobrancelhas atraentes, que nada
tinham a ver com as de Mariam, finas e mal-traadas. O cabelo louro, ainda
despenteado, estava repartido no meio.
       Pelo jeito como segurava a xcara, bem agarrada nas mos, com os ombros
retesados, Mariam percebeu que ela estava nervosa. Imaginou-a, sentada na cama,
tentando tomar coragem.
       -- As folhas esto mudando de cor -- disse ela, em tom amistoso. -- J reparou?
O outono  a minha estao favorita. Gosto do cheiro das folhas que as pessoas
queimam no quintal. Minha me preferia a primavera. Voc conheceu minha me?
       -- No exatamente.
       -- Como? -- indagou a moa, pondo a mo em concha junto ao ouvido.
       -- Disse que no -- repetiu Mariam, erguendo a voz. -- No conheci sua me.
       -- Ah!
       -- Est precisando de alguma coisa?
       -- Mariam jan, eu queria... Sobre o que ele disse aquela noite...
       -- Pretendia mesmo conversar sobre isso com voc -- atalhou Mariam.
       -- Faa isso, por favor -- disse a garota, e o seu tom era sincero, quase
ansioso.
       Deu um passo a frente. Parecia aliviada.
       L fora, um papa-figo estava cantando. Algum empurrava uma carrocinha.
Mariam podia ouvir os rangidos do veculo, o chocalhar de suas rodas metlicas pela
rua. No muito longe, o som de tiros: primeiro, um s, depois, mais trs. Em
seguida, o silncio.
       -- No vou ser sua criada -- disse ela. -- No vou mesmo.
       -- Claro que no -- retrucou a moa, encolhendo-se ligeiramente.
       -- Voc pode ser a malika do palcio, e eu, a debati, mas no pense que vou
deixar que me d ordens. Pode ir fazer queixa e ele pode at me cortar a garganta.
No vai adiantar nada. Est me ouvindo? No vou ser sua criada.
       -- Mas no pretendia...
       -- E se acha que vai usar sua beleza para se livrar de mim, est muito
enganada. Eu cheguei primeiro. No vou ser descartada assim. Voc vai ter que me
agentar.
       -- No  isso que eu quero -- balbuciou a menina.
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       -- Pelo que vejo, seus ferimentos j sararam. Portanto, pode comear a fazer
a sua parte no trabalho da casa...
       A moa assentia com movimentos rpidos. Chegou a derramar um pouco do ch,
mas nem percebeu.
       -- Foi exatamente por isso que desci -- disse ela. -- Para lhe agradecer por
ter cuidado de mim.
       -- Pois eu no teria feito nada disso -- retrucou Mariam --, no teria lhe dado
comida e banho, no teria feito seus curativos se soubesse que voc ia acabar
roubando o meu marido.
       -- Roubando...
       -- Vou continuar cozinhando e lavando a loua. Voc lava a roupa e varre a
casa. O resto ns alternamos, dia sim, dia no. E tem mais uma coisa. No preciso
da sua companhia, e nem quero isso. S quero que me deixe em paz. Prometo que farei
o mesmo. E assim que vamos viver aqui dentro. As regras so essas.
       Quando terminou, tinha o corao aos pulos e sentia a boca seca. Nunca tinha
falado desse jeito antes, nunca tinha expressado seus desejos com tanta veemncia.
Deveria ter se sentido fortalecida, mas os olhos da moa se encheram de lgrimas, o
seu rosto se anuviou, e, com isso, toda a satisfao que Mariam experimentou com
aquele desabafo acabou lhe parecendo minguada, at um tanto ilcita.
       Estendeu as camisas para Laila.
       -- Tome, leve isso l para cima. Ah! E no guarde no armrio. Ele gosta que
as brancas fiquem na gaveta de cima da almari, e o resto, na do meio, junto com as
meias.
       A moa ps a xcara no cho e estendeu as mos para apanhar as camisas.
       -- Sinto muito por tudo isso -- murmurou, com voz rouca.
       -- E deve mesmo -- disse Mariam. --  bom mesmo que sinta.

       32
       Laila
       LAILA SE LEMBRAVA DE UMA DAQUELAS reunies em sua casa, anos atrs, num dos
dias em que sua me estava bem. As mulheres estavam sentadas no jardim, comendo uma
tigela de amoras frescas que Wajma tinha colhido no quintal de casa. As frutas, bem
rolias, eram brancas e rosadas, e algumas delas tinham o mesmo tom arroxeado das
veiazinhas que se viam no nariz de Wajma.
       -- Sabem como o filho dele morreu? -- perguntou ela, enfiando mais um punhado
de amoras na boca encovada.
       -- Ele se afogou, no foi? -- disse Nila, a me de Giti. -- No lago Ghargha,
no  mesmo?
       -- Mas vocs sabiam... sabiam que Rashid... -- principiou Wajma, erguendo um
dedo, assentindo, mastigando e obrigando todas as demais a esperar at que tivesse
engolido. -- Vocs sabiam que, na poca, ele bebia sharab e que estava completamente
bbado naquele dia? Verdade. Pelo que me disseram, estava bbado de cair. E olhem
que ainda era cedo. L pelo final da manh, ele apagou, deitado numa
espreguiadeira. Podiam ter disparado o canho do meio-dia ali ao lado que ele nem
piscaria.
       Laila se lembrou que Wajma tapou a boca com a mo, arrotou e, em seguida,
sua lngua ficou explorando os espaos entre os poucos dentes que lhe restavam.
       -- Da para imaginar o resto. O menino foi para a gua sem que ningum
notasse. Pouco depois, algum o viu boiando, de barriga para baixo. Todos correram
para ajudar. Metade tentava despertar o garoto; a outra metade tentava acordar o
pai. Algum se abaixou e fez aquele negcio, sabem? A tal respirao boca-a-boca
que se deve fazer nessas horas. Em vo,  claro. O menino j tinha morrido.
       Laila lembrava que Wajma ergueu um dedo e prosseguiu, com a voz ligeiramente
trmula:
       --  por isso que o Santo Coro probe a sharab. Porque so sempre os que
esto sbrios que pagam pelos pecados dos bbados. E  verdade.
       Laila no conseguia tirar essa histria da cabea desde que tinha contado a
Rashid sobre o beb. Mais que depressa, ele passou a mo na bicicleta e foi at a
mesquita rezar para que fosse um menino.
       Naquela noite, durante o jantar, viu que Mariam no parava de empurrar um
pedao de carne no prato. Estava presente quando Rashid lhe deu a notcia em voz
alta, num tom bem dramtico, e nunca na vida tinha visto algum ter tanto prazer em
ser cruel. Mariam pestanejou ao ouvir aquilo. Seu rosto ficou ruborizado. Ela se
sentou, abatida, parecendo desolada.
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       Depois, Rashid subiu para ouvir rdio e Laila foi ajud-la a tirar os
pratos.
       -- No tenho idia do que voc passou a ser agora -- disse Mariam, catando uns
gros de arroz e umas migalhas de po. -- Afinal, se antes j era um Mercedes...
       -- Um trem? Quem sabe um avio a jato? -- indagou Laila, tentando adotar uma
ttica mais amena.
       -- S espero que no ache que isso vai livr-la das tarefas domsticas --
retrucou a outra, se levantando.
       Laila chegou a abrir a boca, mas desistiu. No deveria esquecer que Mariam
era o nico elemento inocente naquela situao. Alis, ela e o beb.
       Mais tarde, j na cama, Laila comeou a chorar.
       Rashid veio ver o que estava acontecendo e, erguendo o seu queixo, a crivou
de perguntas: qual era o problema? Estava doente? Era o beb? Tinha alguma coisa
errada com ele? No? Mariam a estava maltratando?
       --  isso, no ?
       -- No.
       -- Wallah o billah, vou lhe dar uma boa lio. Quem ela pensa que , essa
harami, para tratar voc...
       -- No!
       Rashid j estava se levantando e Laila precisou agarr-lo pelo pulso para
obrig-lo a se sentar novamente.
       -- No faa isso! Ela tem sido absolutamente decente comigo. S preciso de um
minuto. Logo vou estar bem.
       Ento, Rashid ficou sentado ali, ao seu lado, massageando-lhe o pescoo e
murmurando coisas bem baixinho. A mo dele foi descendo por suas costas, depois,
voltou a subir. Ele se inclinou e sorriu, mostrando aqueles dentes irregulares.
       -- Vamos ver se consigo fazer voc se sentir melhor -- sussurrou ele, todo
carinhoso.
       Primeiro, foram as rvores -- as que ainda no tinham sido cortadas para
servir de lenha --, exibindo suas folhas tingidas em tons que iam do amarelo at o
acobreado. Depois, vieram os ventos, frios e duros, aoitando a cidade. Com sua
fora, arrancaram as ltimas folhas que pendiam dos galhos, deixando as rvores com
aquele ar fantasmagrico, recortadas sobre o marrom esmaecido das montanhas. A
primeira neve da estao foi branda, com flocos que no tardaram a se derreter.
Mais tarde, as ruas ficaram brancas e a neve foi se acumulando nos telhados, se
empilhando diante das janelas recobertas por uma fina camada de gelo. Com a neve,
vieram as pipas que, antigamente, imperavam no cu de Cabul durante o inverno, mas,
agora, no passavam de tmidos invasores do territrio dominado por msseis
desenfreados e avies de caa.
       Rashid continuava a trazer notcias da guerra e Laila ficava atordoada com
aquelas alianas que ele tentava lhe explicar. Sayyaf estava combatendo os hazaras.
Estes lutavam contra Massoud.
       -- E ele esta enfrentando Hekmatyar,  claro, que conta com o apoio dos
paquistaneses. Esses dois, Massoud e Hekmatyar, so inimigos mortais. J Sayyaf
est do lado de Massoud, ao passo que Hekmatyar defende os hazaras, por enquanto.
       Quanto ao imprevisvel comandante uzbeque Dostum, Rashid disse que ningum
sabia a quem ele daria seu apoio. Dostum havia combatido os soviticos, nos anos
1980, lutando lado a lado com os mujahedins. Desligou-se, porm, desse grupo para
se aliar a Najibullah, o joguete dos comunistas, depois que os soviticos deixaram
o pas. Chegou at a ser condecorado, pelo prprio Najibullah, antes de mudar de
lado novamente e voltar a se unir aos mujahedins. At segunda ordem, pelo que disse
Rashid, Dostum estava apoiando Massoud.
       Em Cabul, especialmente na zona oeste da cidade, os incndios se espalhavam
e rolos de fumaa negra se erguiam como cogumelos sobre os prdios cobertos de
neve. As embaixadas foram fechadas. As escolas tambm. Nas salas de espera dos
hospitais, segundo Rashid, os feridos sangravam at a morte. Nos centros
cirrgicos, estavam amputando membros sem anestesia.
       -- Mas no se preocupe -- disse ele. -- Comigo, voc est a salvo, minha flor,
minha gul. Se algum tentar lhe fazer mal, arranco o fgado do sujeito e o obrigo a
com-lo.
       Naquele inverno, para onde quer que Laila se virasse, encontrava muros
bloqueando o seu caminho. Tinha saudade do cu limpo e claro de sua infncia, dos
dias em que ia com babi assistir aos torneios de buzkashi ou fazer compras com
mammy em Mandaii, das correrias pelas ruas e das conversas sobre os garotos com
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Giti e Hasina. E dos dias em que sentava com Tariq num canteiro de trevos, s
margens de um riacho qualquer, brincando de charadas e chupando balas, at o sol se
pr.
       Mas lembrar de Tariq era perigoso, porque, antes que conseguisse se conter,
j o via numa cama, longe de casa, cheio de tubos enfiados pelo corpo queimado.
Como a bile que lhe queimava a garganta naqueles dias, uma dor profunda,
paralisante, vinha subindo pelo seu peito. Suas pernas ficavam bambas, a tal ponto
que ela precisava se segurar para no cair.
       Laila passou todo o inverno de 1992 varrendo a casa, esfregando as paredes
cor-de-abbora do quarto que dividia com Rashid, lavando roupas num grande lagaan
de cobre, que ficava no quintal. s vezes via a si mesma como que pairando acima do
prprio corpo. Via-se agachada na borda do lagaan, com as mangas arregaadas at o
cotovelo e as mos avermelhadas, torcendo uma das camisetas do marido. Ento,
sentia-se perdida, como o sobrevivente de um naufrgio que procura em vo por uma
praia, mas s v quilmetros e quilmetros de gua.
       Quando estava frio demais para ir l fora, Laila ficava perambulando pela
casa. Andava de um lado a outro do corredor, passando a unha pela parede, descia a
escada, voltava a subir, sem sequer ter lavado o rosto ou penteado o cabelo. Ficava
andando at encontrar Mariam, que se limitava a lhe lanar um olhar melanclico
antes de voltar a cortar o talo de um pimento ou a retirar as pelancas de um
pedao de carne. O aposento se enchia de um doloroso silncio e Laila quase podia
ver a muda hostilidade que irradiava de Mariam, como as ondas de calor que se
erguem do asfalto. Voltava ento para o seu quarto, sentava na cama e ficava vendo
a neve cair.
       Um dia, Rashid a levou at a sapataria.
       Quando saiam juntos, ele ia andando ao seu lado, segurando-a pelo brao com
uma das mos. Para Laila, estar na rua tinha se tornado um exerccio para evitar se
machucar. Seus olhos ainda tentavam se acostumar a visibilidade limitada pela
telinha da burqa e seus ps ainda se atrapalhavam com a borda daquele traje
comprido. Ia andando, sempre com medo de tropear e cair, de quebrar o tornozelo ao
pisar num buraco qualquer. Mesmo assim, o anonimato que a burqa lhe proporcionava
no deixava de ser confortvel. Se por acaso encontrasse conhecidos, ningum
saberia que era ela. No precisaria agentar a surpresa estampada em seus olhos,
nem a piedade ou a alegria deles ao ver a que ponto ela tinha chegado, como as suas
elevadas aspiraes tinham desmoronado.
       A loja era maior e mais iluminada do que supunha. L dentro, havia a cadeira
e a bancada onde ele trabalhava, abarrotada de solas e retalhos de couro. Rashid
lhe mostrou os seus martelos, fez uma demonstrao do funcionamento da lixadeira, e
sua voz soava forte e cheia de orgulho.
       Passou a mo pela barriga de Laila, no por cima da blusa, mas por baixo
dela, e a moa sentiu aqueles dedos frios e speros que mais pareciam cortia na
sua pele esticada. Lembrou-se, ento, das mos de Tariq, macias, mas fortes, com o
dorso atravessado por aquelas veias tortuosas, mos que ela achava to msculas e
atraentes.
       -- Est crescendo bem rpido -- disse Rashid. -- Vai ser um garoto. Meu filho
ser um pahlawan! Exatamente como o pai.
       Laila ajeitou a blusa. Rashid a deixava assustadssima quando falava daquele
modo.
       -- Como vo as coisas com Mariam?
       Ela disse que estava tudo bem.
       -- timo. timo.
       No lhe contou que tinham brigado de verdade, pela primeira vez.
       Foi poucos dias atrs. Laila entrou na cozinha e viu Mariam abrindo e
fechando as gavetas com estardalhao. Pelo que disse, estava procurando uma colher
de pau que usava para mexer o arroz.
       -- Onde voc enfiou a minha colher? -- perguntou ela, virando-se para encarar
a outra.
       -- Eu? -- exclamou Laila. -- No mexi nela. Quase no venho aqui.
       -- Deu para perceber.
       -- Isso  uma acusao? Foi voc que quis assim, lembra? Disse que a cozinha
ficaria por sua conta. Mas, se preferir trocar...
       -- Quer dizer que a colher criou pernas e saiu andando sozinha: tap, tap,
tap, tap... Foi isso que aconteceu, degeh?
       -- Estou dizendo... -- principiou Laila, tentando manter o controle. Em geral,
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conseguia digerir o desprezo e as acusaes de Mariam, mas, naquele dia, seus
tornozelos estavam inchados, a cabea lhe doa e estava com uma azia terrvel. --
Estou dizendo que talvez voc tenha posto essa colher no lugar errado.
       -- No lugar errado? -- exclamou Mariam, abrindo uma gaveta e fazendo tilintar
os talheres que estavam ali dentro. -- H quanto tempo voc mora aqui, alguns meses?
Pois estou nesta casa h 19 anos, dokhtar jo. Voc ainda estava borrando as fraldas
e eu j guardava aquela colher nesta gaveta.
       -- Mesmo assim -- retrucou Laila, agora saindo do srio, com os dentes
cerrados --, voc pode perfeitamente ter posto essa colher em outro lugar e
esquecido disso.
       -- E voc pode perfeitamente ter escondido minha colher, s para me irritar.
       -- Voc  uma pobre coitada -- disse Laila.
       Mariam estremeceu, mas, depois, se recobrou e apertou os lbios.
       -- E voc  uma puta. Puta e dozd. Uma puta ladra,  isso que voc ! A essa
altura, as duas j estavam aos berros. Chegaram a pegar potes e tigelas, mas no os
atiraram. Xingaram-se mutuamente, com palavres que, agora, faziam Laila
enrubescer. Desde ento, no voltaram a se falar. A moa ainda estava chocada com a
facilidade com que perdeu a cabea, mas tinha de admitir que parte dela bem que
gostou de gritar com Mariam, de lhe rogar pragas, de poder descontar em algum toda
a sua raiva, toda a sua dor.
       E, intuitivamente, Laila se perguntava se Mariam no teria sentido a mesma
coisa.
       Depois daquela cena, subiu correndo e se atirou na cama de Rashid. L
embaixo, Mariam ainda estava gritando: "Maldita seja! Maldita seja!" Com o rosto
enterrado no travesseiro, gemendo, Laila se viu subitamente com saudade dos pais,
uma saudade to forte como nunca mais tinha sentido desde aqueles dias terrveis
que se seguiram a exploso. Ficou deitada ali, com as mos crispadas nos lenis,
at que, de repente, deu um pulo. Sentou-se na cama e levou as mos a barriga.
       O beb tinha acabado de chutar, pela primeira vez.

        33
        Mariam
        CERTA MANH, BEM CEDO, NA PRIMAVERA de 1993, Mariam ficou parada na janela
da sala vendo Rashid sair com a garota. Ela estava andando meio inclinada para
frente, curvada com aquele peso, envolvendo, com um brao protetor, a barriga bem
visvel sob o tecido da burqa. Rashid, aflito e excessivamente cuidadoso, ia
segurando o brao da mulher, guiando os seus passos como se fosse um guarda de
trnsito. Primeiro, com um gesto, mandou que ela esperasse. Correu ento at a
entrada e a chamou, prendendo o porto com o p para que ele no se fechasse.
Quando ela o alcanou, Rashid a pegou pela mo para ajud-la a sair. De onde
estava, Mariam quase pde ouvi-lo dizendo: "Cuidado com o degrau, minha flor, minha
gul."
        S voltaram no dia seguinte, de noitinha.
        Mariam viu Rashid entrar na frente. Soltou o porto um pouco cedo demais,
quase deixando que batesse no rosto da garota. Cruzou o quintal a passos rpidos e
Mariam notou algo em seu rosto, uma sombra que sobressaa  luz acobreada do
crepsculo. J dentro de casa, tirou o casaco, atirando-o em cima do sof. Ao
passar roando por ela, disse, em tom rspido:
        -- Estou com fome. Prepare logo o jantar.
        A porta se abriu. Do corredor, Mariam pde ver a garota carregando algo
embrulhado no brao esquerdo. Ainda tinha um p do lado de fora e, com o outro,
tentava segurar a porta para ela no fechar. Resmungando, curvou-se para frente e
esticou o brao, num esforo para apanhar a sacola que tinha posto no cho para
prender a porta. Fazendo uma careta, ergueu os olhos e deu com Mariam parada ali.
        Ela, porm, virou as costas e foi para a cozinha esquentar o jantar de
Rashid.
        -- Parece que esto enfiando uma chave de fenda no meu ouvido
        -- disse Rashid, esfregando os olhos. Estava parado na porta do quarto de
Mariam, com o rosto inchado e usando apenas um tumban preso com um n frouxo. O
cabelo branco estava despenteado, todo desgrenhado.
        -- Esse choro que no pra. No agento mais.
        L embaixo, a moa estava andando com o beb de um lado para o outro,
tentando nin-lo.
        -- H dois meses que no tenho uma noite de sono decente -- prosseguiu ele, --
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O quarto todo est com cheiro de esgoto. Tem fralda com coc por todo lado. Outro
dia mesmo, pisei numa delas.
       Mariam sorriu por dentro, experimentando um prazer perverso.
       -- Leve ela l para fora! -- gritou Rashid, virando a cabea na direo da
escada. -- No da para levar ela l para fora?
       Por um instante, a cantiga parou.
       -- Ela vai pegar uma pneumonia!
       -- Estamos no vero!
       -- O qu?
       -- Eu disse que est quente l fora! -- respondeu ele, entre dentes, erguendo
a voz.
       -- No vou sair com ela agora! E a cantiga recomeou.
       -- Juro que, s vezes, me d vontade de botar essa coisinha numa caixa e
largar l no rio Cabul. Como fizeram com Moiss.
       Mariam nunca o tinha ouvido chamar a filha pelo nome que lhe deram, Aziza,
aquela que  querida. Era sempre o beb, ou, quando ele estava realmente irritado,
essa coisinha.
       Havia noites em que Mariam ouvia os dois brigando. P ante p, ia at a
porta e ouvia Rashid reclamando do beb -- sempre o beb. Eram o choro constante, os
cheiros, os brinquedos que o faziam tropear, a forma como aquela criatura tinha
roubado a ateno que Laila lhe dedicava, com suas inesgotveis necessidades de
comer, arrotar, ser trocada, embalada, carregada no colo. Por sua vez, a moa o
repreendia por fumar no quarto, por no deixar que o beb dormisse ali com eles.
       Havia ainda outras discusses, em voz mais baixa.

       -- O mdico disse seis semanas.
       -- Ainda no, Rashid. No. Esquea. Ah, vamos, pare com isso.
       -- J se passaram dois meses.
       -- Shhh! Pronto. Est vendo s? Voc acordou o beb -- e acrescentava, em tom
mais rspido. -- Khosh shodi? Est contente agora?
       Mariam se esgueirava de volta ao seu quarto.
       -- Ser que voc no pode ajudar? -- perguntou Rashid. -- Deve haver alguma
coisa que possa fazer.
       -- E eu l entendo de bebs? -- retrucou Mariam.
       -- Rashid! Pode trazer a mamadeira? Est em cima da almari. Ela no mamou.
Vou tentar a mamadeira novamente.
       O choro ficou ainda mais alto, cortante como um faco enfiado na carne.
       -- Essa coisinha  um verdadeiro senhor da guerra -- disse Rashid, fechando os
olhos. -- O prprio Hekmatyar. Pode acreditar, Laila pariu Gulbuddin Hekmatyar.
       Mariam via Laila passar os dias amamentando, embalando, correndo, andando de
um lado para o outro. Mesmo quando o beb adormecia, havia as fraldas sujas para
esfregar e deixar de molho num balde com um desinfetante que, por insistncia da
moa, Rashid tinha comprado. As unhas tinham que ser lixadas, e havia macaces e
pijamas para lavar e estender. Essas roupas, como tantas outras coisas relativas ao
beb, tambm tinham se tornado motivo de discrdia.
       -- Qual  o problema? -- perguntou Rashid.
       -- So roupas de menino. Para um bacha.
       -- E ela por acaso sabe qual  a diferena? Paguei um bom dinheiro por isso.
E, tem mais uma coisa, no gosto nada desse tom. Considere isto um aviso.
       Toda semana, sem falta, a moa aquecia uma panelinha de ferro, jogava ali
dentro um punhado de sementes de arruda selvagem e espalhava a fumaa espandi na
direo de seu beb para espantar as energias negativas.
       Mariam ficava exausta s de ver todo o entusiasmo da moa -- e tinha de
admitir, embora s para si mesma, que chegava a admir-la por isso. Ficava
fascinada ao ver como os olhos daquela moa brilhavam com verdadeira adorao,
mesmo pela manh, quando estava abatida e plida depois de passar a noite inteira
embalando a filha. Tinha acessos de riso quando o beb soltava gases. As mnimas
mudanas que percebia a deixavam maravilhada e qualquer coisa que a criana fizesse
a deslumbrava.
       -- Olhe! Ela est tentando pegar o chocalho. Como  esperta!
       -- Vou convocar a imprensa -- observava Rashid.
       Toda noite, havia alguma exibio. Quando a moa insistia em lhe mostrar
algo, Rashid erguia o queixo e, nitidamente impaciente, lanava um olhar de
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esguelha por sobre aquele nariz adunco e cheio de veiazinhas azuladas.
       -- Veja. Veja como ela ri quando estalo os dedos. Olhe s. Viu? Viu? Rashid
se limitava a grunhir e voltava a se concentrar no prato de comida. Mariam lembrava
que, tempos atrs, a simples presena dessa moa o deixava completamente encantado.
Qualquer coisa que ela dissesse o divertia, o intrigava, fazendo-o erguer os olhos
do prato e assentir com a cabea.
       O mais estranho era que o fato de a moa ter cado em desgraa devia agradar
a Mariam, lhe dar uma sensao de estar vingada. Mas no era isso o que acontecia.
No era mesmo. Para seu prprio espanto, Mariam percebeu que tinha pena de Laila.
       Era tambm na hora do jantar que a moa desfiava uma longa lista de
preocupaes. Em primeiro lugar, vinha a pneumonia, suspeita que surgia a mnima
tosse do beb. Depois, sempre que a criana tinha diarria, vinha o medo de que
fosse disenteria. J qualquer pintinha na pele era catapora ou rubola.
       -- Voc no devia se apegar tanto assim -- disse Rashid certa noite.
       -- O que est querendo dizer com isso?
       -- Outro dia, eu estava ouvindo "A Voz da Amrica", no rdio, e eles
mencionaram uma estatstica interessante. Disseram que, no Afeganisto, uma em cada
quatro crianas morre antes de fazer cinco anos. Foi o que disseram. Agora, eles...
O que foi? Onde  que voc vai? Volte aqui. Volte j aqui!
       E olhou para Mariam com um ar inteiramente atnito.
       -- O que deu nela?
       Naquela noite, Mariam estava deitada quando os dois recomearam a brigar.
Era uma noite quente e seca, tpica do ms do Saratan, em Cabul. Mariam tinha
aberto a janela, mas voltou a fech-la, pois no havia nenhuma brisa que pudesse
amenizar o calor, s mosquitos. Dava para sentir o ar quente subindo do cho l
fora, passando pelas tbuas rachadas e desbotadas da latrina, no quintal, subindo
pelas paredes e penetrando no seu quarto.
       Em geral, as brigas no duravam mais que alguns minutos. Hoje, porm, j
tinha se passado meia hora e ela no apenas prosseguia como estava se
intensificando. A essa altura, Rashid estava gritando. A voz da moa, meio abafada
pela dele, soava hesitante e estridente. Logo, logo o beb comeou a chorar.
       Nesse momento, Mariam ouviu a porta do quarto se abrir violentamente. Pela
manh, viu a marca deixada pela maaneta na parede do corredor. Estava sentada na
cama quando a porta de seu quarto se abriu e Rashid entrou.
       Estava de ceroulas e a camiseta tinha manchas amareladas de suor debaixo dos
braos. E calava chinelos de dedo. Nas mos, trazia um cinto, aquele de couro
marrom que tinha comprado para seu nikka com a moa, e havia enrolado no pulso a
ponta perfurada.
       -- Voc sabe muito bem que a culpa  toda sua -- esbravejou ele, avanando
para a mulher.
       Mariam se levantou da cama e comeou a recuar. Instintivamente, cruzou os
braos diante do peito, onde ele geralmente batia primeiro.
       -- Do que voc est falando? -- balbuciou ela.
       -- Ela me disse no. Isso  coisa sua. Sei que est ensinando isso a ela. Ao
longo dos anos, Mariam aprendeu a criar uma couraa contra o desprezo, as censuras,
o deboche e as brigas do marido. Mas no tinha conseguido dominar o medo que
sentia. Depois de tanto tempo, ainda tremia, apavorada, quando o via assim,
furioso, com o cinto enrolado no punho, o couro rangendo e aquele brilho nos seus
olhos injetados. Era o medo da cabra deixada na jaula do tigre, quando a fera ergue
os olhos, mostra as garras e comea a rugir.
       De repente, a moa entrou no quarto, com os olhos arregalados e o rosto
contrado.
       -- Eu devia ter imaginado que voc ia corromp-la -- berrou Rashid. Sacudiu o
cinto, testando-o contra a prpria coxa. A fivela tilintou bem alto.
       -- Pare com isso, bas!-- exclamou a moa. -- Voc no pode fazer isso, Rashid.
       -- Volte para o quarto. Manam recuou mais um pouco.
       -- No! No faa isso!
       -- J!
       E voltou a erguer o cinto, desta feita na direo de Mariam.
       Foi ento que algo surpreendente aconteceu. A moa se atracou com ele.
Agarrou o brao do marido com ambas as mos e tentou pux-lo para baixo, mas tudo o
que pde fazer foi se pendurar nele. Mesmo assim, conseguiu retardar o avano de
Rashid sobre Mariam.
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       -- Solte! -- gritou ele.
       -- Voc venceu. Voc venceu. No faa isso. Por favor, Rashid, no bata nela!
Por favor, no faa isso.
       E os dois ficaram assim, por algum tempo, ela agarrada ao brao dele,
implorando, ele tentando afast-la, sem tirar os olhos de Mariam, que estava
espantada demais para fazer o que quer que fosse.
       At que, finalmente, entendeu que no ia apanhar, no esta noite. Ele tinha
conseguido o que queria. Ficou parado ali ainda por alguns instantes, com o brao
erguido, o peito arfando, uma fina camada de suor lhe cobrindo a testa. Lentamente,
Rashid foi baixando o brao. Os ps da moa voltaram a tocar o cho e, mesmo assim,
ela continuou segurando firme, como se no confiasse no marido. Ele precisou dar um
safano para se livrar daquelas mos.
       -- Estou de olho, hein! -- disse ele, jogando o cinto no ombro. -- Estou de
olho nas duas! No tentem me tratar como um ahmaq. No pensem que vo me fazer de
bobo na minha prpria casa.
       Lanou um ltimo olhar furioso a Mariam e deu um empurro na garota, pelas
costas, ao sair do quarto.
       Quando ouviu a outra porta se fechar, Mariam voltou para a cama, escondeu a
cabea debaixo do travesseiro e ficou esperando a tremedeira passar.
       Mariam foi acordada trs vezes durante a noite. Primeiro, foi o estrondo dos
msseis, vindo dos lados de Karteh-Char. Depois, foi o beb chorando l embaixo, a
moa tentando faz-lo calar, o rudo de uma colher batendo no vidro da mamadeira.
Finalmente, foi a sede, que a tirou da cama.
       No trreo, a sala estava s escuras, a no ser por um raio de luar que
entrava pela janela. Mariam podia ouvir o zumbido de uma mosca em algum lugar,
discernir os contornos do fogareiro no canto, com a chamin se projetando para cima
e, depois, formando um ngulo bem fechado logo abaixo do teto.
       A caminho da cozinha, quase tropeou em alguma coisa que estava no cho, a
seus ps. Quando seus olhos se acostumaram a escurido, percebeu a moa e o beb
deitados no cho, em cima de uma manta.
       A moa dormia, e ressonava, deitada de lado. O beb estava acordado. Acendeu
a lamparina que estava sobre a mesa e se agachou. Viu ento, e pela primeira vez, o
rostinho do beb bem de perto. Viu aquele cabelo preto, os olhos cor-de-avel com
clios espessos, as faces rosadas, os lbios da cor de uma rom madura.
       Mariam teve a impresso de que o beb tambm a observava. A menininha estava
de barriga para cima, com a cabea meio virada de lado, e a fitava intensamente,
meio divertida, meio confusa e at um pouco desconfiada. Mariam chegou a pensar que
o seu rosto pudesse assust-la, mas, quando a criana deu um gritinho de
felicidade, soube que sua presena tinha sido aprovada.
       -- Shhh -- sussurrou, ento. -- Assim voc acorda sua me, embora ela seja meio
surda.
       O beb cerrou o punho. Depois, ergueu a mo, voltou a baix-la e acabou
conseguindo lev-la  boca. Mesmo com a mo toda enfiada ali dentro, a menininha
lhe sorriu com bolhazinhas de cuspe brilhando em seus lbios.
       -- Ora, vejam s que triste figura a sua, vestida assim como um menino. E
toda embrulhada, apesar do calor. No admira que ainda esteja acordada.
       Puxou ento o cobertor que a cobria e ficou horrorizada ao ver mais um, por
baixo do primeiro. Estalou a lngua e tirou este outro tambm. O beb deu um
risinho, aliviado, e bateu os bracinhos como um pssaro.
       -- Esta melhor assim, no  mesmo?
       Quando ia se levantar, a menininha agarrou o seu mindinho. Aqueles dedinhos
minsculos se fecharam com fora para segur-lo. Mariam sentiu o toque quente e
macio daquela mo mida de baba,
       -- Gu-gu -- balbuciou o beb.
       -- Est bem. Agora, bas. Solte.
       Mas a criana no soltou e comeou a bater as perninhas. Mariam tentou
soltar o dedo. O beb sorriu e fez uma poro de barulhinhos gorgolejantes. E levou
a mo de volta a boca.
       -- Por que voc esta to contente, hein? De que est rindo? Acho que no 
to esperta quanto sua me diz. Seu pai  um brutamontes, e sua me uma boba. Se
soubesse disso, no estaria to sorridente. No estaria mesmo. Ande, agora durma.
Vamos.
       Mariam se levantou. Mal tinha dado uns poucos passos, a menininha comeou a
fazer uns rudos que anunciavam um choro sentido. Voltou atrs e se agachou
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
novamente.
       -- O que foi? O que quer de mim?
       O beb abriu um sorriso desdentado.
       Mariam suspirou. Sentou no cho, deixou que ela agarrasse o seu dedo. Viu a
menininha soltar uns gritinhos, levantar as perninhas rolias e chutar o ar. Ficou
sentada ali, s olhando, at que a criana parou de se mexer e comeou a ressonar
bem de mansinho.
       L fora, os rouxinis cantavam animadamente, e, por vezes, quando alguns
desses cantores alavam vo, Mariam podia ver as suas asas refletirem a luz azulada
do luar e brilharem por entre as nuvens. E, embora estivesse com a garganta seca e
os ps formigando, levou um bom tempo at soltar com jeito o dedo que a menininha
ainda segurava e finalmente se levantar.

        34
        Laila
        PARA LAILA, NO HAVIA MAIOR PRAZER na vida do que ficar deitada ali, junto
de Aziza, com o rostinho do beb to perto que dava para ver as suas pupilas se
dilatarem e se contrarem. Adorava passar o dedo pela pele gostosa e macia da
filha, pelas covinhas de suas mos, as dobrinhas de gordura de seus cotovelos. s
vezes, deitava Aziza sobre o prprio peito e sussurrava, no topo daquela cabecinha,
falando-lhe de Tariq, o pai que ela jamais conheceria, cujo rosto jamais veria.
Laila lhe falava de como ele era bom com charadas, como era trapaceiro e
implicante, como ria com facilidade.
        -- Ele tinha os clios mais lindos do mundo, como os seus. Um queixo bonito,
um nariz fino, uma testa arredondada. Ah, o seu pai era lindo, Aziza. Era perfeito.
Exatamente como voc.
        Mas tomava todo cuidado para nunca dizer o nome dele.
        s vezes surpreendia Rashid olhando para a menina de um jeito bem estranho.
Ainda outra noite, quando ele estava sentado no cho do quarto tirando um calo do
p, disse, como quem no quer nada:
        -- Como eram as coisas entre vocs?
        Laila o fitou espantada, como se no tivesse entendido nada.
        -- Laili e Majnoon. Voc e aquele yaklenga, aquele aleijado. O que havia
entre vocs dois?
        -- Ele era meu amigo -- respondeu a moa, cuidando para que a sua voz no
soasse alterada. E tratou de se ocupar com a mamadeira. -- Voc sabe disso.
        -- No sei o que eu sei -- retrucou ele, pondo a gilete no parapeito e se
jogando na cama. As molas protestaram rangendo alto. Ele abriu as pernas e coou o
saco. -- E como... amigos, nunca fizeram nada inconveniente?
        -- Inconveniente?
        Rashid deu um sorriso descontrado, mas Laila podia sentir o seu olhar frio,
vigilante.
        -- Bom, vejamos... Ele alguma vez lhe deu um beijo? Ou, quem sabe, ps a mo
onde no devia?
        Laila reagiu com um ar, ao menos era o que pretendia, indignado. O corao
lhe batia na garganta.
        -- Ele era como um irmo para mim.
        -- Afinal, era um amigo ou um irmo?
        -- Ambas as coisas. Ele...
        -- Qual das duas?
        -- As duas.
        -- Mas irmos so criaturinhas curiosas.  isso mesmo. s vezes, um irmo
deixa a irm ver seu pau, e a irm...
        -- Voc me d nojo -- disse Laila.
        -- Ento nunca aconteceu nada.
        -- Nunca mais quero falar sobre isso.
        Rashid balanou a cabea, contraiu os lbios e assentiu.
        -- As pessoas falavam, sabe? Lembro bem disso. Diziam todo tipo de coisas a
respeito de vocs dois. Mas, j que voc est dizendo que no aconteceu nada...
        Laila decidiu fit-lo.
        Rashid a encarou por um tempo penosamente longo, sem piscar, fazendo com que
os ns de seus dedos ficassem esbranquiados pela fora com que suas mos seguravam
a mamadeira, e a moa precisou de um esforo sobre-humano para no fraquejar.
        Estremeceu ao pensar no que ele faria se viesse a descobrir que ela o estava
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roubando. Toda semana, desde que Aziza nasceu, Laila abria a carteira do marido,
quando ele estava dormindo ou l fora na latrina, e apanhava uma nica nota. s
vezes, quando no havia muito dinheiro ali, pegava apenas cinco afeganes ou no
pegava nada, temendo que ele pudesse perceber. J quando a carteira estava mais
cheia, apanhava uma nota de dez ou de vinte, e, certa feita, chegou at a apanhar
duas de vinte. Escondia aquele dinheiro num bolso que havia costurado no forro de
seu casaco quadriculado.
        Tentava imaginar qual seria a reao de Rashid se soubesse que ela estava
planejando fugir na primavera, ou, o mais tardar, no vero. At l, esperava ter
juntado uns mil afeganes, ou mais, e gastaria metade disso com a passagem de Cabul
a Peshawar. Quando o momento estivesse se aproximando, levaria a aliana a uma casa
de penhores, juntamente com algumas outras jias que o marido tinha lhe dado no ano
anterior, quando ela ainda era a malika desse palcio.
        -- Bem, mas, de qualquer forma -- disse ele enfim, tamborilando com os dedos
na barriga --, voc no pode reclamar. Sou seu marido. E maridos se perguntam esse
tipo de coisas. Em todo caso, ele teve sorte de morrer como morreu, pois, se
estivesse por aqui e eu pusesse as mos nele... -- sugou o ar por entre os dentes
cerrados e abanou a cabea.
        -- E aquela histria de no falar mal dos mortos?
        -- Na minha opinio, tem gente que nunca est morta o bastante -- disse ele.
        Dois dias depois, ao acordar, Laila encontrou, junto a porta de seu quarto,
uma pilha de roupinhas de beb dobradas com todo cuidado. Entre elas, um vestido
rodado com peixinhos cor-de-rosa pregados no corpete, um vestido de l azul,
estampado de flores, com luvas e meias combinando, um pijama amarelo de bolinhas
laranja, e uma cala verde de algodo com um babadinho na bainha.
        -- Est circulando o boato -- disse Rashid na hora do jantar, estalando os
lbios, sem nem perceber a presena de Aziza ou o pijama que a menina estava usando
-- que Dostum vai se bandear para o lado de Hekmatyar. Massoud vai cortar um dobrado
para enfrentar esses dois juntos. E no podemos esquecer os hazaras. -- Serviu-se da
berinjela em conserva que Manam tinha preparado no vero, e prosseguiu:
        -- Tomara que seja apenas um boato porque, se for verdade, a guerra que
estamos vendo agora vai parecer um piquenique de sexta-feira em Paghman -- comentou
ele, gesticulando com a mo engordurada.
        Mais tarde, na cama, deitou-se sobre ela e se aliviou s pressas, sem dizer
uma palavra, inteiramente vestido, a no ser pelo tumban que no tinha tirado, mas
simplesmente baixado at os tornozelos. Quando terminou aquele sacolejar frentico,
rolou para o lado e pegou no sono em poucos minutos.
        Laila saiu do quarto e encontrou Mariam na cozinha, agachada, limpando duas
trutas. Ao seu lado, uma vasilha com arroz de molho. A cozinha estava cheirando a
cominho e a fumaa, a cebola refogada e a peixe.
        A moa sentou num canto, envolvendo os joelhos com a borda do vestido.
        -- Obrigada -- disse.
        Mariam nem pareceu not-la. Acabou de limpar a primeira truta e pegou a
segunda. Com uma faca serrilhada, cortou as nadadeiras; depois, virou o peixe e
abriu sua barriga da cauda at as guelras, com uma prtica incrvel. Laila a viu
enfiar o polegar na boca do animal, bem abaixo da mandbula inferior, e, com um
nico puxo, remover guelras e entranhas.
        -- As roupinhas so lindas.
        -- No me serviam de nada -- resmungou Mariam. Ps o peixe num jornal
lambuzado de um lquido viscoso e acinzentado e lhe cortou a cabea. -- Ou iam para
sua filha, ou para as traas.
        -- Onde aprendeu a limpar peixe desse jeito?
        -- Quando eu era criana, morava perto de um riacho. E pescava.
        -- Nunca pesquei.
        -- No tem mistrio algum. E s esperar.
        Laila a viu cortar a truta j limpa em trs pedaos.
        -- Foi voc mesma quem fez essas roupas?
        Mariam assentiu.
        -- Quando?
        -- Na primeira vez que engravidei -- respondeu a outra, lavando os pedaos do
peixe numa tigela com gua. -- Ou na segunda. H 18, talvez 19 anos. De qualquer
forma, muito tempo atrs. Como j disse, elas nunca tiveram serventia para mim.
        -- Voc  uma tima khayat. No poderia me ensinar a costurar? Mariam ps os
pedaos de truta j lavados numa tigela limpa. Com as mos pingando, ergueu a
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
cabea e olhou para Laila, fitando-a como se fosse a primeira vez.
       -- Na outra noite, quando ele... Nunca ningum tinha me defendido antes --
disse ela.
       Laila observou o rosto desfeito de Mariam, as plpebras formando pregas
cansadas, os vincos profundos que lhe cercavam a boca -- e era tambm como se visse
aquela mulher pela primeira vez. E, pela primeira vez, no era o rosto de uma
adversria que estava  sua frente, mas sim o de uma mulher que sofria calada, que
aceitava as imposies sem protestar, que se submetia a um destino que era preciso
suportar. Se continuasse nessa casa, quem sabe aquele no seria o seu rosto daqui a
uns vinte anos?
       -- No podia permitir -- disse Laila. -- Na minha casa, ningum fazia coisas
assim.
       -- Esta  a sua casa, agora.  melhor ir se acostumando.
       -- No a isso. Nunca.
       -- Sabe que ele vai se voltar contra voc, no sabe? -- prosseguiu Mariam,
enxugando as mos num pano. -- E no vai demorar muito. E olhe que voc lhe deu uma
filha. Portanto, o seu pecado  mais fcil de perdoar do que o meu.
       -- Sei que esta frio l fora -- disse Laila, se levantando. -- Mas que tal as
duas pecadoras tomarem uma xcara de chai no quintal?
       -- No posso -- respondeu Mariam, decididamente surpreendida. -- Ainda tenho
que catar e lavar o feijo.
       -- Ajudo voc amanh de manh.
       -- E tenho que limpar isso aqui.
       -- Limpamos juntas. Se no me engano, sobrou um pouco halwa. Fica timo com
chai.
       Mariam ps o pano na bancada. Laila notou alguma ansiedade no jeito como ela
baixou as mangas, ajeitou o hijab, ps uma mecha de cabelo para trs.
       -- Como dizem os chineses,  melhor ficar trs dias sem comida do que um dia
sem ch.
       --  um ditado acertado -- disse Mariam, com um ligeiro sorriso.
       --  mesmo.
       -- Mas no posso demorar muito.

       -- Uma xcara s.
       Sentaram-se em cadeiras de armar e comeram a halwa com as mos, da mesma
tigela. Tomaram mais uma xcara de ch e, quando Laila lhe perguntou se queria uma
terceira, Mariam disse que sim. Ouviram uns disparos nas colinas, viram as nuvens
deslizando diante da lua e os ltimos vaga-lumes da estao formando crculos de um
amarelo brilhante na escurido. E, quando Aziza acordou chorando, e Rashid gritou
para que Laila a fizesse calar, as duas mulheres se entreolharam. Foi um olhar
desarmado, de cumplicidade. E por essa comunicao rpida e sem palavras, Laila
compreendeu que elas no eram mais inimigas.

       35
       Mariam
       DAQUELA NOITE EM DIANTE, Mariam e Laila passaram a fazer juntas as tarefas
domsticas. Sentavam-se na cozinha e preparavam massa de po, cortavam cebolinhas
verdes, fatiavam alho e, enquanto isso, davam pedacinhos de pepino para Aziza, que
ficava ali por perto, batendo colheres e brincando com cenouras. Se estavam no
quintal, deixavam a menininha deitada num bero de vime, com camadas e mais camadas
de roupas e um cachecol de l enrolado no pescoo. Mariam e Laila ficavam de olho
nela e lavavam a roupa, as mos de uma esbarrando nas da outra, enquanto esfregavam
camisas, calas e fraldas.
       Aos poucos, Mariam se habituou a esse companheirismo ainda hesitante, mas
bem agradvel. Esperava ansiosa pela hora de ir tomar as trs xcaras de chai com
Laila no quintal, o que j tinha se tornado um ritual de todas as noites. Pela
manh, surpreendia-se na expectativa de ouvir o som dos chinelos rasgados de Laila
nos degraus da escada, indicando que a moa estava descendo para o caf, e havia
ainda as risadinhas de Aziza, a viso dos seus oito dentinhos, o cheiro de leite de
sua pele. Se Laila e a filha dormissem um pouco mais, sua ansiedade aumentava.
Lavava pratos que no precisavam ser lavados, voltava a arrumar as almofadas na
sala, tirava o p dos parapeitos j limpos, tentando se manter ocupada at que
Laila entrasse na cozinha carregando Aziza no colo.
       Assim que avistava Mariam, a garotinha arregalava os olhos e comeava a
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
pular e a se remexer no colo da me. Esticava os braos na direo de Mariam,
pedindo que ela a pegasse, abrindo e fechando as mozinhas, e, nos olhos, um misto
de adorao e ansiedade.
        -- Que drama, menina! -- exclamava Laila, pondo-a no cho para que ela fosse
engatinhando at Mariam. -- Que drama! Calma... Khala Mariam no vai fugir. Pronto,
a est a sua tia. Viu? Pode ir com ela.
        Mal a outra a pegava no colo, Aziza metia o dedo na boca e aninhava a cabea
no ombro de Mariam, que a embalava um tanto sem jeito, com um sorriso meio
surpreendido, meio encantado nos lbios. Na verdade, nunca tinha sido to querida.
Nunca algum lhe tinha declarado o seu amor de uma forma to espontnea, to sem
reservas.
        Aziza lhe dava vontade de chorar.
        -- Por que voc entregou esse coraozinho a uma velha feia como eu? --
murmurava ela junto  cabea da menininha. -- Hein? Ser que no percebe que no sou
ningum? Sou uma debati. O que acha que tenho para lhe dar?
        Mas Aziza balbuciava toda satisfeita, se aconchegando ainda mais naquele
colo. E, quando isso acontecia, Mariam se desmanchava. Seus olhos se enchiam de
lgrimas. Seu corao pulava de alegria. E ela ficava deslumbrada ao ver que,
depois de tantos anos do mais absoluto desamparo, tinha encontrado, naquela
criaturinha, a primeira ligao verdadeira numa vida em que todas as relaes
tinham sido falsas ou no tinham dado certo.
        Bem no incio do ano seguinte, em janeiro de 1994, Dostum efetivamente mudou
de lado. Uniu-se a Gulbuddin Hekmatyar e se instalou perto de Bala Hissar, as
muralhas da velha cidadela que dominavam a cidade do alto das montanhas
Koh-e-Shirdawaza. Juntas, as duas faces atacaram as foras de Massoud e Rabbani,
no Ministrio da Defesa e no palcio presidencial. De ambas as margens do rio
Cabul, os dois lados se alternavam em disparos, uns contra os outros. As ruas se
encheram de corpos, vidro e pedaos de metal retorcidos. Os saques e os
assassinatos eram freqentes e, cada vez mais, ocorriam estupros, usados como forma
de intimidar a populao civil e recompensar os milicianos. Mariam ouviu falar de
mulheres que se matavam por medo de serem estupradas, e homens que, em nome da
honra, matavam esposas e filhas que houvessem sido estupradas pelos milicianos.
        Aziza gritava quando os morteiros explodiam. Para distra-la, Mariam
espalhava gros de arroz pelo cho, formando uma casa, um galo ou uma estrela, e
deixava que a menina desmanchasse tudo. Desenhava elefantes, daquele jeito que
Jalil tinha lhe ensinado, com um nico trao, sem tirar a caneta do papel uma vez
sequer.
        Rashid lhes disse que, diariamente, civis estavam sendo mortos s dzias. Os
hospitais e as lojas de material mdico estavam sendo bombardeados. Veculos
transportando suprimentos de comida eram impedidos de entrar na cidade, atacados a
tiros, de surpresa. Mariam se perguntava se Herat tambm estaria sendo atacada e,
se estivesse, o que seria feito do mul Faizullah, caso ainda fosse vivo, e de Bibi
jo, com todos os seus filhos, noras e netos. E,  claro, de Jalil. Ser que ele
estava escondido, como ela prpria? Ou teria deixado o pas, junto com as esposas e
os filhos? Desejava que Jalil estivesse a salvo, em algum lugar; que tivesse dado
um jeito de escapar de toda aquela matana.
        Por uma semana, Rashid foi obrigado a ficar em casa. Trancou a porta que
dava para o quintal, instalou umas armadilhas, trancou tambm a porta da frente e
ps um sof diante dela, formando uma barricada. Ficou andando pela casa, para um
lado e para o outro, fumando, espiando pela janela, limpando o revlver, carregando
a arma, preparando-a para ser usada. Por duas vezes, atirou para a rua, alegando
ter visto algum tentando pular o muro.
        -- Eles esto forando os garotos a se alistar no combate -- disse ele.
        -- Os mujahedins. Em plena luz do dia, de arma em punho. Saem arrastando os
garotos pela rua. E, quando os soldados de uma milcia rival capturam esses pobres
coitados, eles os torturam. Ouvi dizer que so eletrocutados. Ao menos e o que
andam dizendo. Que esmagam o saco deles com um alicate. A, os milicianos obrigam
esses garotos a lev-los s suas casas. Chegando l, matam o pai deles e estupram a
me e as irms.
        Rashid brandiu o revlver acima da cabea.
        -- Eles que tentem invadir a minha casa -- prosseguiu. -- Eu  que vou esmagar
o saco deles! Vou estraalhar a cabea de todos! Vocs nem imaginam como so
sortudas por terem um homem que no tem medo nem do prprio Shaitan!
        Baixou os olhos e percebeu Aziza a seus ps.
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        -- Saia da! -- esbravejou ele, tentando enxot-la com o revlver.
        -- Pare de me seguir! E pare tambm de ficar remexendo as mos desse jeito!
No vou pegar voc no colo. Ande, saia j da! Vou acabar pisando em voc.
        Aziza estremeceu. Voltou engatinhando para perto de Mariam, parecendo
magoada e confusa. J no colo, logo tratou de pr o dedo na boca e ficou olhando
para Rashid com um ar emburrado e pensativo. De quando em quando, erguia os olhos,
querendo se sentir segura. Ao menos era assim que Mariam interpretava aquele olhar.
        Mas, em se tratando da figura paterna, Mariam no tinha como tranqiliz-la.
        Mariam ficou aliviada quando os combates voltaram a se abrandar, em boa
parte porque no precisaria agentar a presena de Rashid, aquele seu gnio
terrvel infestando a casa toda. E porque tinha ficado muito assustada ao v-lo
sacudir o revlver carregado na direo de Aziza.
        Certo dia, naquele inverno, Laila lhe perguntou se podia tranar o seu
cabelo.
        Mariam se sentou, bem quieta, s olhando pelo espelho, vendo os dedos finos
de Laila trabalhando em seu cabelo e o rosto da moa contrado pela concentrao.
Aziza estava toda encolhida, dormindo no cho, agarrada com a boneca de pano que
Mariam fez para ela. A boneca tinha o corpo recheado de feijo, usava um vestido
feito com tecido tingido com ch e um colar de carreteis vazios enfiados num
barbante.
        De repente, a menininha soltou um pum. Laila comeou a rir, e Mariam tambm.
As duas ficaram rindo, se vendo pelo espelho, os olhos lacrimejando, e aquilo tudo
foi to natural, to espontneo, que Mariam comeou a lhe falar de Jalil, de Nana e
do jinn. Laila parou o que fazia, pousou as mos no ombro da outra e ficou fitando
o seu rosto no espelho. E as palavras foram brotando, como sangue jorrando de uma
artria. Mariam lhe falou de Bibi jo, do mul Faizullah, daquela ida humilhante a
casa de Jalil, do suicdio de Nana. Falou tambm das esposas de seu pai, do nikka
arranjado s pressas com Rashid e da viagem para Cabul. Falou das diversas vezes em
que engravidou, daquele ciclo interminvel de esperana e desapontamento, da
rejeio de Rashid.
        Depois, Laila se sentou no cho, diante da cadeira de Mariam. Com um ar
distrado, tirou um fiapinho do cabelo de Aziza. Houve ento um momento de
silncio.
        -- Tambm tenho uma coisa para lhe contar -- disse Laila.
        Mariam passou a noite em claro. Ficou sentada na cama, vendo a neve cair em
silncio.
        As estaes chegaram e se foram; em Cabul, presidentes foram empossados e
assassinados; um imprio foi derrotado; velhas guerras terminaram e outras
comearam. Mas Mariam mal se deu conta disso tudo; pouco lhe importava. Tinha
passado todos aqueles anos mergulhada num cantinho da prpria mente. Um local
estril e rido, para alm do desejo e do sofrimento, do sonho e da desiluso. Ali,
o futuro no contava. E o passado s continha uma certeza: o amor era um erro
nocivo, e sua cmplice, a esperana, uma iluso traioeira. E, onde quer que
brotassem essas duas flores venenosas, Mariam as arrancava. Arrancava e jogava
fora, antes que criassem razes.
        De algum modo, porem, nos ltimos meses, Laila e Aziza (que, afinal, era uma
harami, como ela mesma) passaram a fazer parte do seu mundo e, agora, sem elas,
aquela vida que tinha tolerado por tanto tempo de repente lhe parecia insuportvel.
        "Aziza e eu vamos embora na primavera. Venha conosco, Mariam."
        Os anos no tinham sido bons para com ela. "Mas, talvez, anos melhores
estivessem por vir", pensou Mariam. Uma nova vida, uma vida em que pudesse
encontrar as coisas boas que, segundo Nana, uma harami jamais chegaria a
experimentar. Inesperadamente, duas novas flores haviam brotado em sua vida e,
olhando a neve caindo brandamente, Mariam se lembrou do mul Faizullah desfiando as
contas de seu tasbeh, inclinado e sussurrando com aquela sua voz branda e trmula:
"Mas foi Deus quem as plantou, Mariam jo. E a Sua vontade  que voc cuide delas.
Esta  a Sua vontade, minha filha"
       36
       Laila
        MEDIDA QUE A LUZ DO DIA ia removendo a escurido do cu naquela manh de
primavera de 1994, Laila teve a certeza de que Rashid sabia. E de que, a qualquer
momento, ele viria tir-la da cama perguntando se ela acreditava mesmo que ele
fosse um perfeito khar, um burro que nunca descobriria nada. Mas ouviu o azan,
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vindo do alto dos minaretes, e logo o sol estava batendo nos telhados, os galos
estavam cantando e nada de extraordinrio aconteceu.
        Podia ouvi-lo agora, no banheiro, o aparelho de barbear batendo na borda da
pia. Depois, andando l embaixo, esquentando o ch. O tilintar das chaves. E l
estava ele atravessando o ptio, empurrando a bicicleta.
        Foi espiar por uma fresta nas cortinas da sala. Viu Rashid se afastar,
pedalando, grandalho numa bicicleta pequena, com o sol da manh reluzindo no
guido.
        -- Laila?
        Era Mariam, parada no vo da porta. Laila percebeu que a outra tambm no
tinha dormido. Ser que tambm tinha passado a noite toda oscilando entre momentos
de euforia e crises de uma ansiedade to forte que chegava a deixar a boca seca?
        -- Vamos embora daqui a meia hora -- disse Laila.
        No banco de trs do txi, nenhuma das duas falava. Sentada no colo de
Mariam, agarrada  boneca de pano, Aziza olhava espantadssima a cidade que ia
passando por elas.
        -- Ona! -- exclamou, apontando para um grupo de meninas que pulava corda. --
Mayam! Ona!
        Para onde quer que se virasse, Laila via Rashid. Via-o saindo de barbearias
com vidraas parecendo cobertas de p de carvo, de minsculas tendinhas que
vendiam perdizes, de lojinhas de beira de rua abarrotadas de pneus velhos,
empilhados at o teto.
        E cada vez se afundava mais no banco do carro.
        Ao seu lado, Mariam ia rezando baixinho. Laila gostaria de ver o seu rosto,
mas ela estava de burqa, ambas estavam, alis, e tudo o que podia distinguir era o
brilho de seus olhos por detrs da tela.
        Era a primeira vez que saa  rua em semanas, sem contar com a ida  casa de
penhores na vspera, quando depositou a aliana no vidro do balco e de onde saiu
atordoada pela sensao do inexorvel, sabendo que no havia como voltar atrs.
        Por toda parte, via as conseqncias dos combates recentes cujo barulho
ouvira de casa. Lares transformados em escombros, meras pilhas de tijolos e pedras;
prdios fendidos, com vigas cadas aparecendo pelos buracos abertos nas paredes;
carcaas queimadas e retorcidas de carros revirados, s vezes empilhadas umas sobre
as outras; muros esburacados com perfuraes de todos os calibres imaginveis;
estilhaos de vidro por todo lado. Viu um cortejo fnebre que se dirigia a uma
mesquita, e, atrs dele, uma velha toda de preto, arrancando os cabelos. Passaram
por um cemitrio repleto de tmulos de simples pedras empilhadas, com bandeiras j
esfarrapadas dos shahids tremulando ao vento.
        Laila estendeu a mo por cima da mala e segurou a maciez do brao da filha.
        Na estao rodoviria da Porta de Lahore, perto de Pol Mahmud Khan, na zona
leste de Cabul, havia uma fileira de nibus parados ao longo do meio-fio. Homens de
turbante circulavam atarefados, pondo trouxas e caixotes no alto dos nibus,
amarrando malas com cordas. Dentro da estao, homens faziam fila diante do guich.
Mulheres de burqa, formando grupinhos, conversavam, com seus pertences empilhados
no cho a seus ps. Havia bebs no colo e crianas eram repreendidas por terem se
afastado demais.
        Milicianos mujahedins patrulhavam a estao e as caladas, gritando breves
ordens aqui e ali. Usavam botas, pakols e fardas verdes empoeiradas. Todos tinham
um Kalashnikov.
        Laila se sentia vigiada. No encarava ningum, mas tinha a impresso de que
todos ali sabiam o que estava acontecendo, que todos desaprovavam o que Mariam e
ela estavam fazendo.
        -- Est vendo algum? -- perguntou Laila.
        -- Estou procurando -- respondeu Mariam, ajeitando Aziza no colo. Laila no
ignorava que este seria o primeiro passo arriscado: encontrar um homem que pudesse
se passar por um membro da famlia. A liberdade e as oportunidades que as mulheres
tiveram entre 1978 e 1992 eram agora coisa do passado. Laila ainda se lembrava de
seu pai dizendo que aqueles anos de governo comunista eram "uma boa poca para ser
mulher no Afeganisto". Desde que os mujahedins assumiram o poder, em abril de
1992, o nome do pas passou a ser Estado Islmico do Afeganisto. A Suprema Corte
do governo de Rabbani era formada agora por muls de linha-dura que trataram de
eliminar todos os decretos do perodo comunista que fortaleciam a posio das
mulheres e de substitu-los por determinaes baseadas na Shari'a, as estritas leis
islmicas segundo as quais as mulheres tm que andar cobertas, so proibidas de
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viajar sem a companhia de um parente de sexo masculino, so punidas por
apedrejamento se cometerem adultrio. Se bem que, nas atuais circunstncias, a
aplicao de tais leis era, na melhor das hipteses, espordica. "Seria muito mais
rgida", comentou Laila certa feita, "se eles no estivessem to ocupados se
matando entre si. E nos matando tambm".
        O segundo passo arriscado da viagem seria quando chegassem ao Paquisto. J
abarrotado com quase dois milhes de refugiados afegos, o pas havia fechado a
fronteira com o Afeganisto em janeiro daquele mesmo ano. Laila ouviu dizer que s
podiam entrar aqueles que tivessem visto. Mas a fronteira era permevel, sempre
foi, e Laila sabia que centenas de afegos continuavam entrando no Paquisto, seja
graas a suborno, seja comprovando razes humanitrias -- e tambm havia a
possibilidade de contratar algum para faz-las atravessar. "Quando chegarmos l,
daremos um jeito", foi o que disse.
        -- Que tal aquele ali? -- indagou Mariam, apontando com o queixo.
        -- No parece muito confivel.
        -- E aquele outro?
        --  velho demais. E est viajando com mais dois homens.
        Laila acabou vendo algum, sentado num banco do lado de fora da estao.
Estava acompanhado de uma mulher que usava um vu e tinha um menininho de gorro,
mais ou menos da idade de Aziza, sentado no colo. Era alto e magro, barbudo e
trajava uma camisa de colarinho aberto e um modesto palet cinzento com alguns
botes faltando.
        -- Espere aqui -- disse ela, e, ao se afastar, ouviu que Mariam murmurava uma
orao.
        Quando chegou perto do homem, ele ergueu os olhos, protegendo-os do sol com
a mo.
        -- Desculpe, irmo, mas est indo para Peshawar?
        -- Estou -- respondeu ele, semicerrando os olhos.
        -- Talvez pudesse nos ajudar. Poderia nos fazer um favor?
        Ele entregou o menino  esposa e se afastou um pouco com Laila.
        -- Do que se trata, hamshira?
        Aqueles olhos brandos, aquele rosto bondoso lhe deram coragem. Ento,
contou-lhe a histria que tinha combinado com Mariam. Disse que era biwa, viva, e
que, alem da me e da filha, no tinha mais ningum em Cabul. Estavam indo para
Peshawar, morar com um tio.
        -- E quer vir junto com minha famlia -- disse o homem.
        -- Sei que  zahmat para vocs. Mas voc me pareceu um homem decente e...
        -- No se preocupe, bamshira. Eu entendo. No  problema algum. Vou comprar
suas passagens.
        -- Obrigada, irmo.  realmente uma sawab. Deus vai se lembrar dessa sua boa
ao.
        E entregou a ele um envelope que tirou do bolso por baixo da burqa. Havia
ali mil e cem afeganes, cerca da metade do que tinha juntado durante o ano anterior
mais o que conseguiu com a venda da aliana. O homem enfiou o envelope no bolso da
cala.
        -- Espere aqui.
        Ela o viu entrar na estao. Meia hora mais tarde, estava de volta.

       --  melhor ficar com as passagens na mo -- disse ele. -- O nibus sai daqui a
uma hora, s llh. Vamos embarcar juntos. O meu nome  Wakil. Se perguntarem, o que
no deve acontecer, digo que somos primos.
       Laila disse como as trs se chamavam e ele garantiu que se lembraria.
       -- Fiquem por perto -- recomendou.
       Sentaram-se no banco ao lado daquele onde Wakil estava com a famlia. Era
uma manh de sol, a temperatura estava agradvel, e, no cu, havia apenas umas
poucas nuvens pairando a distncia, sobre as colinas. Mariam deu a menina alguns
dos biscoitos que tinha se lembrado de trazer na pressa de arrumar as coisas.
Ofereceu um a Laila.
       -- Se comer, vomito -- respondeu a moa, rindo. -- Estou aflita demais.
       -- Eu tambm.
       -- Obrigada, Mariam.
       -- Porqu?
       -- Por isso. Por vir conosco -- disse Laila. -- Acho que no conseguiria se
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estivesse sozinha.
       -- Eu nunca ia deixar vocs sozinhas.
       -- Vamos ficar bem, no , Mariam, l no lugar para onde estamos indo?
       -- Como diz o Coro, "a Deus pertencem o Levante e o Poente. Para onde quer
que vos tornardes, l encontrareis o semblante de Deus".
       -- Bov! -- exclamou Aziza, apontando para um nibus. -- Bov, Mayam!
       -- Estou vendo, Aziza jo -- respondeu Mariam. --  isso mesmo, um bov. Logo,
logo vamos embarcar num deles. Ah, quantas coisas voc vai ver...
       Laila sorriu. Ficou olhando para um carpinteiro que, numa loja do outro lado
da rua, serrava madeira, fazendo lasquinhas voarem pelo ar. Viu os carros passando
a toda, com os vidros cobertos de fuligem e sujeira. Viu os nibus parados junto ao
meio-fio, com o motor roncando e todos pintados com paves, lees, sis nascentes e
espadas reluzentes.
       Ao calor do sol da manh, sentia-se atordoada e ousada. Teve mais um
daqueles breves momentos de euforia e, quando um vira-lata de olhos amarelados se
aproximou, Laila se inclinou para acariciar as suas costas.
       Poucos minutos antes das llh, um homem usando um megafone chamou os
passageiros com destino a Peshawar. Estava na hora de embarcar. As portas do nibus
se abriram com um forte suspiro. Foi um verdadeiro desfile de viajantes apressados,
quase correndo para entrar ali.
       Pegando o filho no colo, Wakil fez um gesto para Laila.
       -- Estamos indo -- disse a moa.
       O rapaz foi na frente. Ao se aproximar do nibus, Laila viu rostos que
surgiam nas janelas, narizes e mos colados s vidraas. Ao seu redor, gente se
despedindo aos gritos.
       Um jovem miliciano verificava as passagens junto  porta do veculo.
       -- Bov -- exclamou Aziza.
       Wakil entregou as passagens ao soldado que as rasgou no meio antes de
devolv-las. O rapaz fez a esposa embarcar primeiro. Laila percebeu que ele e o
miliciano se entreolharam. Depois de subir no primeiro degrau do nibus, Wakil se
inclinou e cochichou alguma coisa ao ouvido do jovem que se limitou a assentir.
       A moa sentiu o corao disparar.
       -- Vocs duas, com a criana, fiquem aqui ao lado -- disse o soldado. Laila
fingiu no ouvir e se disps a subir no nibus, mas o miliciano a segurou pelo
ombro, tirando-a da fila com um gesto brusco.
       -- Voc tambm -- exclamou, dirigindo-se a Mariam. -- Ande logo! Est
atrapalhando o embarque.
       -- Qual e o problema, irmo? -- indagou Laila com os lbios entorpecidos. --
Esta tudo certo. Meu primo no lhe entregou nossas passagens?
       Ele a fez calar pondo um dedo diante da boca e disse algo em voz baixa a um
outro soldado. Este, um sujeito gorducho, com uma cicatriz na face direita,
assentiu com um gesto.
       -- Venham comigo -- disse ento a Laila.
       -- Temos que embarcar nesse nibus -- retrucou a moa percebendo que a prpria
voz tremia. -- Temos as passagens. Por que esto fazendo isso?
       -- Vocs no vo embarcar.  melhor aceitar a idia. Sigam-me. A menos que
queira que a menininha a veja sendo arrastada.
       Enquanto estavam sendo levadas at um caminho, Laila olhou para trs e viu
o filhinho de Wakil no fundo do nibus. O menino tambm a viu e acenou, todo
contente.
       No posto policial da praa Torabaz Khan, mandaram que as duas se sentassem
separadas, uma em cada ponta do longo corredor cheio de gente. Entre elas, havia
uma escrivaninha por trs da qual um homem fumava um cigarro atrs do outro e, de
vez em quando, batia alguma coisa na mquina de escrever. Trs horas se passaram.
Aziza corria para uma, e, depois, para a outra. Estava brincando com um clipe que o
homem da escrivaninha tinha lhe dado. Comeu todos os biscoitos. Finalmente,
adormeceu no colo de Mariam.
       Por volta das trs da tarde, Laila foi levada para uma sala. Mandaram que
Mariam ficasse esperando no corredor, com Aziza.
       Na sala, o homem por trs de uma escrivaninha tinha uns trinta anos e estava
 paisana -- terno preto, gravata, mocassins pretos. Tinha uma barba aparada bem
rente, cabelo curto e sobrancelhas que se uniam acima do nariz. Ficou olhando para
Laila, batendo com a borracha do lpis no tampo da mesa.
       -- Sabemos -- principiou ele depois de pigarrear, cobrindo a boca com o punho
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
fechado -- que voc j contou uma mentira hoje, hamshira. O rapaz na estao no era
seu primo. Ele prprio nos disse isso. Resta saber se vai contar mais mentiras.
Pessoalmente, devo lhe dizer que no  uma boa idia.
       -- Estvamos indo morar com meu tio -- disse Laila. --  a pura verdade.
       O policial assentiu.
       Aquela hamshira l no corredor  sua me?
       -- .
       -- Ela tem sotaque de Herat. E voc, no. --  que se criou l. Eu nasci aqui,
em Cabul.
       -- Claro. E ficou viva? Foi o que disse, no? Meus psames. E esse tio, esse
kaka, mora onde?
       -- Em Peshawar.
       -- Isso voc j disse -- retrucou o sujeito, lambendo a ponta do lpis e
aproximando-o de uma folha em branco. -- Mas onde, em Peshawar? Em que bairro, por
favor? Nome da rua, nmero do setor.
       Laila tentou resistir  onda de pnico que lhe invadia o peito. Deu o nome
da nica rua de Peshawar que tinha ouvido mencionar uma nica vez, naquela festa
que sua me deu quando os mujahedins entraram em Cabul.
       -- Rua Jamrud.
       -- Ah, claro.  onde fica o hotel Pearl Continental. Seu tio deve ter lhe
dito isso.
       Laila agarrou a oportunidade e confirmou:
       -- Exatamente.
       -- S que esse hotel fica na rua Khyber.
       Ao ouvir a filha chorando no corredor, a moa perguntou:
       -- Minha filha parece assustada. Posso ir busc-la, irmo?
       -- Prefiro que me chame de "policial". E logo, logo voc vai estar com ela.
Tem o telefone de seu tio?
       -- Tenho. Ou melhor, tinha. Eu... -- mesmo por trs da burqa, Laila no se
sentia protegida contra aqueles olhos penetrantes. -- Estou to chateada... Acho que
o esqueci.
       O homem suspirou. Perguntou o nome do tio e o de sua mulher. Quantos filhos
tinha. Como se chamavam. Onde ele trabalhava. Que idade tinha. E todas aquelas
perguntas deixaram a moa atordoada.
       Ento, ps o lpis na mesa, enlaou os dedos e se inclinou para a frente,
como fazem os pais quando querem comunicar algo a um filho pequeno.
       -- Voc bem sabe, hamshira, que  crime uma mulher tentar fugir. Vemos isso
todos os dias. Mulheres viajando sozinhas, alegando que o marido morreu. s vezes,
 verdade; quase sempre no. Voc pode ser presa por estar fugindo. Acho que
entende isso, no  mesmo?
       -- Deixe-nos ir, policial... -- Viu o nome dele escrito no distintivo da
lapela -- policial Rahman. Honre o significado de seu nome e tenha misericrdia. Que
importncia tem para o senhor duas pobres mulheres irem embora? Que mal haveria em
nos liberar? No somos criminosas.
       -- No posso.
       -- Eu lhe imploro, por favor.
       --  uma questo de qanun, hamshira. A lei  a lei -- retrucou
       Rahman, dando  voz um tom grave e assumindo ares de importncia. -- A minha
funo  manter a ordem, entende?
       Apesar do desespero que sentia, Laila quase riu. Era incrvel ele usar
aquela palavra depois de tudo o que as faces mujahedins vinham fazendo, todos os
assassinatos, os saques, os estupros, as torturas, as execues, os bombardeios, os
milhares de msseis lanados de um lado e de outro, sem fazer caso de toda aquela
gente inocente que morria em meio ao fogo cruzado. Ordem, Mas mordeu a lngua.
       -- Se o senhor nos mandar voltar -- disse ela, de mansinho --, nem sei o que
ele far conosco.
       Ao dizer isso, percebeu o esforo que o sujeito fazia para no desviar os
olhos.
       -- O que um homem faz dentro de casa  problema dele -- observou o policial.
       -- E, nesse caso, onde fica a lei, policial Rahman? -- perguntou ela, com os
olhos marejados de tanta raiva. -- O senhor estar l para manter a ordem?
       -- A nossa poltica  no interferir em assuntos de famlia, hamshira.
       -- Claro. Quando isso beneficia o homem. E o que est acontecendo no  um
"assunto de famlia", como o senhor diz? Hein, no ?
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       Ele empurrou a cadeira, se levantou e ajeitou o palet.
       -- Pelo que vejo, essa entrevista est encerrada. Devo dizer, hamshira, que
voc est em maus lenis. Sem dvida alguma. Agora, faa o favor de esperar l
fora, pois vou ter uma palavrinha com sua... seja l o que ela for.
       Laila comeou a protestar, chegou a gritar, e ele teve que chamar dois
outros homens para retir-la da sala.
       A entrevista com Mariam durou apenas alguns minutos. Quando ela saiu da
sala, parecia muito abalada.
       -- Ele fez tantas perguntas... -- disse. -- Sinto muito, Laila jo. No sou to
esperta quanto voc. Ele fez tantas perguntas que eu no soube o que dizer. Sinto
muito.
       -- A culpa no  sua, Mariam -- retrucou Laila, desanimada. --  minha. Tudo
culpa minha. S minha.
       J passava das seis da tarde quando o carro da polcia parou diante da casa.
Mandaram que Laila e Mariam ficassem esperando no banco de trs, sob a vigilncia
de um soldado mujahid que estava no banco do carona. Quem saiu do carro foi o
motorista. Bateu a porta, falou com Rashid e fez sinal para que elas viessem.
       -- Bem-vindas de volta  casa -- disse o soldado do banco da frente, acendendo
um cigarro.
       -- Voc -- disse Rashid, dirigindo-se a Mariam -- espere aqui.
       Ela obedeceu, sentando-se quietinha no sof.
       -- Vocs duas, l para cima.
       Rashid agarrou Laila pelo brao, obrigando-a a subir a escada. Ainda estava
com os sapatos que usava para ir trabalhar. No tinha posto os chinelos, nem tirado
o relgio, nem sequer pendurado o casaco. Laila imaginou a cena ocorrida uma hora,
talvez minutos atrs: Rashid indo de um quarto ao outro, batendo as portas, furioso
e incrdulo, xingando baixinho.
       No alto da escada, Laila parou e se virou para ele:
       -- Ela no queria ir -- disse. -- Eu a obriguei. Ela no queria ir... Nem viu o
punho fechado que se aproximava. Num segundo, estava falando, no outro, estava de
quatro no cho, com os olhos arregalados e o rosto vermelho, tentando respirar. Foi
como se um carro a tivesse atropelado a toda velocidade, acertando-a entre o final
da caixa torcica e o umbigo. Percebeu que tinha deixado Aziza cair e que a menina
estava gritando. Mais uma vez, tentou respirar, mas tudo o que saiu foi um som
abafado, rouco. De sua boca, escorria um filete de baba.
       De repente, sentiu que estava sendo arrastada pelo cabelo. Viu Aziza ser
erguida do cho, suas sandlias carem, seus pezinhos se agitando no ar. O puxo
era to forte que lhe arrancou cabelo da cabea, e seus olhos se encheram de
lgrimas de tanta dor. Viu que ele empurrou com o p a porta do quarto de Mariam,
atirou a menininha na cama e s ento soltou seu cabelo. Laila sentiu a ponta do
sapato dele na ndega esquerda e urrou de dor. A porta bateu com estardalhao. A
chave girou na fechadura.
       Aziza ainda estava chorando. Laila jazia no cho, encolhida, arquejando.
Apoiando-se nas mos, conseguiu rastejar at a cama e se esticou para apanh-la.
       L embaixo, comeou a surra. Para Laila, os sons que ouvia eram de uma
atividade metdica, habitual. No havia xingamentos, nem gritos, nem splicas, nem
sequer exclamaes de surpresa, apenas as atitudes sistemticas do que batia e do
que era espancado, o tump, tump de algo slido atingindo um corpo repetidas vezes,
algo, algum se chocando contra a parede, tecido se rasgando. De quando em quando,
ouvia passos apressados, uma perseguio calada, mveis que caam, vidro que se
quebrava, e as pancadas que recomeavam.
       Pegou Aziza no colo. Sentiu algo quente no vestido: a menina tinha feito
xixi.
       No andar de baixo, a correria e a perseguio finalmente cessaram. O som que
ouviu parecia o de um soquete acertando repetidas vezes um bife.
       Laila ficou embalando a filha at aquele barulho parar e, quando ouviu a
porta se abrindo e batendo, ps Aziza no cho e espiou pela janela. Viu Rashid
empurrando Mariam pela nuca, jardim afora. Ela estava descala e recurvada. Havia
sangue nas mos dele, no rosto dela, em seu cabelo, escorrendo pelo pescoo e pelas
costas. Sua camisa tinha sido rasgada de alto a baixo.
       -- Eu sinto tanto, Mariam... -- exclamou Laila por trs da vidraa.
       Viu Rashid empurrar a mulher para dentro do galpo de ferramentas. Depois,
ele prprio entrou ali e saiu carregando um martelo e vrias tbuas. Fechou a porta
da cabana, tirou uma chave do bolso e trancou o cadeado. Testou a porta, deu a
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volta na construo e apanhou uma escada.
        Poucos minutos mais tarde, seu rosto apareceu na janela, com a boca cheia de
pregos. Estava inteiramente desgrenhado e tinha um risco de sangue na testa. Ao
v-lo, Aziza soltou um gritinho e escondeu o rosto na axila da me.
        Rashid comeou ento a pregar aquelas tbuas, vendando inteiramente a
janela.
        A escurido era total, impenetrvel e constante, sem distino ou textura.
Rashid preencheu as brechas com alguma coisa, ps um objeto grande e pesado diante
da fresta da porta para que no passasse nenhuma luz por ali. E tambm enfiou algo
no buraco da fechadura.
        Com os olhos, era impossvel perceber a passagem do tempo, ento, Laila
tentou faz-lo com o ouvido bom. O azan e os gal0os cantando indicavam a manh. O
som de pratos na cozinha, o rdio tocando eram sinais do anoitecer.
        No primeiro dia, as duas tateavam e apalpavam, tentando se encontrar no
escuro. Laila no conseguia ver Aziza quando a menina chorava, nem quando saia
engatinhando.
        -- Aishee -- choramingava a garotinha. -- Aishee.
        -- J, j -- dizia Laila, beijando a filha, visando sua testa, mas encontrando
o topo da cabea. -- J, j voc vai tomar o seu leite. S um pouquinho de
pacincia. Seja boazinha e mammy vai arranjar leite para voc.
        Cantou ento algumas cantigas.
        Voltou a ouvir o azan e Rashid ainda no tinha lhes trazido comida ou, o que
era ainda pior, gua. Naquele dia, um calor espesso e sufocante as envolveu. O
quarto virou uma verdadeira panela de presso. Laila passava a lngua seca pelos
lbios, pensando no poo do quintal, com sua gua pura e fresca. Aziza continuava a
chorar e Laila percebeu, assustada, que, quando tentou enxugar o rosto da menina,
suas mos ficaram secas. Rasgou as roupas da filha, tentou achar algo com que
pudesse aban-la, comeou a sopr-la at ficar tonta. Em pouco tempo, Aziza parou
de engatinhar pelo quarto. Adormecia e logo despertava.
        Ao longo do dia, socou as paredes diversas vezes, se exauriu gritando por
socorro, na esperana de que algum vizinho a ouvisse. Ningum apareceu. E seus
gritos s fizeram assustar Aziza, que recomeou a chorar, mas era um chorinho
fraco, rouco. Laila se deitou no cho. Culpadssima, lembrou de Mariam, espancada e
ensangentada, trancada naquela cabana do quintal.
        A certa altura, pegou no sono, com o corpo tostando no calor. Sonhou que
tinha fugido com Aziza para ir ao encontro de Tariq. Ele estava na calada, do
outro lado de uma rua movimentada, sob o letreiro de uma alfaiataria. Estava de
ccoras, remexendo num caixote de figos. "Olhe o seu pai", dizia Laila. "Aquele
homem l do outro lado, est vendo? Ele  o seu verdadeiro baba." Chamou-o ento
pelo nome, mas o barulho da rua abafou a sua voz e ele no a ouviu.
        Acordou com o assobio dos msseis rasgando o cu. Em algum ponto que no
podia ver, houve exploses e o rudo frentico de metralhadoras. Fechou os olhos.
Acordou novamente com os pesados passos de Rashid no corredor. Arrastou-se at a
porta, bateu nela com as mos espalmadas.
        -- S um copo, Rashid. No para mim. Faa isso por ela. No vai querer ter o
sangue dela nas mos.
        Ele passou.
        Laila se ps a argumentar. Implorou o seu perdo, fez mil promessas.
Amaldioou aquele homem.
        A porta do quarto se fechou. O rdio foi ligado.
        A voz do muezim soou pela terceira vez. E aquele calor novamente. Aziza
estava mais calada ainda. Tinha parado de chorar, tinha at parado de se mexer.
        Laila aproximou o ouvido da boca da filha, morrendo de medo de no ouvir o
barulhinho de sua respirao. At o simples ato de erguer o tronco a deixava zonza.
Pegou no sono e teve sonhos dos quais no conseguiu se lembrar. Quando acordou, foi
ver como estava Aziza. Tateando, sentiu os seus lbios rachados, os batimentos
quase imperceptveis em seu pescoo, e se deitou novamente. Agora tinha certeza de
que ambas morreriam ali, mas o que mais temia era morrer antes da filha, que era
to pequena e to frgil... Por quanto tempo ainda conseguiria resistir? Aziza
morreria de calor e Laila teria que ficar deitada junto quele corpinho enrijecido
a espera da prpria morte. Voltou a adormecer. Acordou. Adormeceu. A linha entre
sonho e viglia foi se dissipando.
       Desta vez, no foram galos nem o azan que a despertaram, mas o som de algo
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pesado sendo arrastado. Ouviu um rudo metlico. De repente, o quarto foi inundado
pela luz. Seus olhos se estreitaram, recusando-se quela claridade. Laila ergueu a
cabea, cerrou os olhos, protegendo-os com a mo. Pelas frestas entre seus dedos,
viu um vulto alto e embaado parado num retngulo de luz. O vulto se moveu. Agora,
uma forma se agachava ao seu lado, se inclinava sobre ela e uma voz soou perto de
seu ouvido.
       -- Faa isso novamente e vou atrs de voc. Juro pelo nome do Profeta que vou
atrs de voc. E, quando conseguir encontr-la, no h tribunal nesse bendito pas
que v me condenar pelo que eu fizer. Primeiro, Mariam, depois, ela, e, finalmente
voc. Vai ter que assistir a tudo! Est me entendendo? A tudo!
       E, dizendo isso, saiu do quarto. No sem, antes, lhe dar um chute nas costas
que a deixou urinando sangue por vrios dias.

       37
       Mariam Setembro de 1996
       Dois ANOS E MEIO DEPOIS, Mariam acordou, na manh do dia 27 de setembro,
ouvindo gritos e assobios, fogos e msica. Correu at a sala e Laila j estava na
janela, com Aziza encarapitada nos ombros. A moa se virou e sorriu.
       -- Os talibs chegaram -- disse ela.

        Fazia dois anos que Mariam tinha ouvido falar dos talibs pela primeira vez,
em outubro de 1994, quando Rashid chegou em casa com a notcia de que eles haviam
derrotado os senhores da guerra em Kandahar e tomado a cidade. Eram um grupo
guerrilheiro, segundo Rashid, formado por jovens pashtuns, cujas famlias tinham
fugido para o Paquisto durante a guerra contra os soviticos. A maioria cresceu --
ou at mesmo nasceu -- em campos de refugiados, ao longo da fronteira paquistanesa e
em madraas daquele pas, onde estudaram a Shari'a com muls. Eram liderados por um
homem misterioso, analfabeto e caolho, que vivia recluso e era conhecido como mul
Omar, mas, como comentou Rashid achando engraado, se autodenominava
Amir-ul-Muminin, o Lder dos Fiis.
        -- Na verdade, esses rapazes no tm risha, no tm razes -- disse Rashid,
sem se dirigir especificamente a Laila ou a Mariam.
        Desde aquela tentativa de fuga frustrada, h dois anos e meio, Mariam sabia
que, a seus olhos no havia diferena entre as duas, ambas estavam igualmente
desgraadas, eram igualmente dignas de sua desconfiana, de seu desprezo e de sua
indiferena. Quando ele falava, dava a sensao de estar conversando consigo mesmo
ou com alguma presena invisvel que, a diferena daquelas duas mulheres, merecia
ouvir o que ele pensava.
        -- Talvez no tenham passado -- prosseguiu ele, fumando e olhando para o teto.
-- Talvez no saibam nada sobre o mundo ou a histria deste pas. . E, comparada a
eles, Mariam poderia ser professora universitria. Ha, ha!  verdade. Mas olhem ao
seu redor. O que vem? Comandantes mujahedins ambiciosos e corruptos, armados at
os dentes, ricos a custa de herona, declarando jihad uns contra os outros e
matando todos os que esto ali no meio. Esta  a situao. Ao menos os talibs so
puros, incorruptveis. Ao menos, so rapazes muulmanos decentes. Wallah, quando
chegarem aqui, vo limpar esse lugar. Vo trazer a paz e a ordem. Ningum mais vai
ser morto ao sair para comprar leite. No haver mais msseis! Imaginem s!
        Ha dois anos, os talibs vinham se aproximando de Cabul, conquistando
cidades dominadas pelos mujahedins, pondo fim a guerra entre as faces onde quer
que se instalassem. Capturaram e executaram o comandante hazara Abdul Ali Mazari.
Passaram meses nos arredores da capital, disparando sobre a cidade, trocando
msseis com Ahmad Shah Massoud. Em princpios de setembro, tomaram as cidades de
Jalalabad e Sarobi.
        E, segundo Rashid, os talibs tinham uma coisa que faltava aos mujahedins:
unio.
        -- Pois que venham -- disse ele. -- Por mim, vou receb-los com ptalas de
rosas.
        Naquele dia, os quatro saram, com Rashid  frente, guiando-as de um nibus
a outro, para saudar a vida nova, seus novos lderes. Em cada bairro destroado,
Mariam via gente surgindo por entre os escombros e se dirigindo para as ruas. Viu
uma mulher idosa desperdiar punhados de arroz para atir-los nos passantes,
ostentando um sorriso murcho e desdentado. Dois homens se abraavam no que restava
de um prdio parcialmente demolido e, no cu, o chiado, o assobio e o estrondo de
uns poucos fogos de artifcio que uns garotos trepados nos telhados estavam
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
soltando. Ouvia-se o hino nacional, vindo de gravadores e competindo com as buzinas
dos carros.
       -- Olhe, Mayam! -- exclamou Aziza, apontando para um grupo de garotos que
corria pela Jadeh Maywand. Vinham com o punho erguido e arrastavam latas
enferrujadas amarradas num barbante. Aos brados, anunciavam que Massoud e Rabbani
tinham deixado Cabul.
       Por todo canto, ouviram-se os gritos de Allah-u-akbar! Ainda na Jadeh
Maywand, Mariam viu um lenol pendurado numa janela, e, nele, trs palavras em
letras grandes e pretas: ZENDA BAAD TALIBAN! Vida longa ao Talib!
       Pelas ruas por onde passavam, Mariam avistou mais cartazes -- pintados nas
vidraas, pregados nas portas, pendurados nas antenas dos carros -- que proclamavam
a mesma coisa.
       S mais tarde, Mariam viu um talib pela primeira vez, quando estavam na
praa Pashtunistan. Havia uma multido reunida ali. Tinha gente esticando o
pescoo, gente amontoada em torno da fonte azul, que fica no meio da praa, e gente
trepada na prpria fonte, agora seca. Todos tentavam enxergar a extremidade da
praa, perto do velho restaurante Khyber.
       Rashid tirou proveito de seu tamanho para ir abrindo caminho entre os
curiosos e conseguiu lev-las at o local de onde vinha a voz que se ouvia pelo
alto-falante.
       Aziza soltou um gritinho e escondeu o rosto na burqa de Mariam.
       Aquela voz pertencia a um jovem magro e barbudo, usando um turbante negro,
que estava em cima de uma espcie de palanque improvisado. Na mo livre, segurava
um lana-msseis. Ao seu lado, dois corpos masculinos ensangentados pendiam de
cordas amarradas aos postes dos sinais de trnsito. As roupas de ambos tinham sido
rasgadas. Seus rostos inchados eram de um azul-arroxeado.
       -- Conheo aquele ali -- disse Mariam. -- O da esquerda.
       Uma moa que estava a sua frente se virou e disse que era Najibullah. O
outro, o irmo dele. Mariam se lembrava daquele rosto rechonchudo, de bigodes,
sorrindo nos cartazes e nas vitrines das lojas durante os anos do domnio
sovitico.
       Mais tarde, ouviu dizer que os talibs tinham arrancado Najibullah de seu
esconderijo na sede da ONU, perto do palcio Darulaman. Disseram tambm que eles o
tinham torturado por horas a fio e, depois, amarrado o seu corpo j sem vida a um
caminho para arrast-lo pelas ruas da cidade.
       -- Ele matou muitos, muitos muulmanos! -- bradava o jovem talib pelo
alto-falante. Falava farsi com sotaque pashto e, depois, passou a falar nessa
lngua. Pontuava suas palavras com gestos, apontando para os cadveres com a arma
que trazia na mo. -- Ningum ignora os crimes que ele cometeu. Era comunista e
kafir. E isto que fazemos com os infiis que cometem crimes contra o Isl!
       Rashid sorria, todo satisfeito.
       No colo de Mariam, Aziza comeou a chorar.
       No dia seguinte, as picapes circulavam por toda Cabul. Em Khair khana,
Shar-e-Nau, Karteh-Parwan, Wazir Akbar Khan e Taimani, Toyotas vermelhos desfilavam
pelas ruas. Dentro desses veculos, homens barbudos, de turbante negro e armados.
Em cada picape, os alto-falantes transmitiam um comunicado, aos brados, primeiro em
farsi, depois em pashto. A mesma mensagem era veiculada por alto-falantes
instalados no alto das mesquitas e tambm pela rdio agora denominada "A Voz da
Shari'a". Texto idntico podia ainda ser visto em panfletos lanados pelas ruas da
cidade. Mariam achou um destes no quintal.
       Nosso watan chama-se agora Emirado Islmico do Afeganisto. Eis as leis que
comeam a vigorar e s quais todos devem obedecer:
       Todos os cidados devem rezar cinco vezes ao dia. Quem for apanhado fazendo
outra coisa nas horas de orao, ser espancado.
       Todos os homens devero deixar crescer a barba. O comprimento correto  pelo
menos um punho fechado abaixo do queixo. Quem no cumprir essa determinao, ser
espancado.
       Todos os meninos devem usar turbante. Os estudantes da primeira  sexta
srie usaro turbantes negros, os alunos das sries superiores usaro turbantes
brancos. Todos devero usar trajes islmicos. O colarinho das camisas deve ser
abotoado.
       E proibido cantar.
        proibido danar.
        proibido jogar cartas, jogar xadrez, fazer apostas e soltar pipas.
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
        E proibido escrever livros, ver filmes e pintar quadros.
        Quem possuir periquitos ser espancado, e os pssaros, mortos.
        Quem roubar ter a mo direita cortada na altura do pulso. Quem voltar a
roubar ter um p decepado.
        Quem no  muulmano no pode realizar seu culto em lugar onde possa ser
visto por muulmanos. Quem fizer isso, ser espancado e detido. Quem for apanhado
tentando converter um muulmano  sua f ser executado.
        Ateno mulheres:
        Vocs devero permanecer em casa. No  adequado uma mulher circular pelas
ruas sem estar indo a um local determinado. Quem sair de casa dever se fazer
acompanhar de um mahram, um parente de sexo masculino. A mulher que for apanhada
sozinha na rua ser espancada e mandada de volta para casa.
        Vocs no devero mostrar o rosto em circunstncia alguma. Sempre que sarem
 rua, devero usar a burqa. A mulher que no fizer isso ser severamente
espancada.
        Esto proibidos os cosmticos.
        Esto proibidas as jias.
        Vocs no devero usar roupas atraentes.
        S devero falar quando algum lhes dirigir a palavra.
        No devero olhar um homem nos olhos.
        No devero rir em pblico. A mulher que fizer isso ser espancada.
        No devero pintar as unhas. A mulher que fizer isso perder um dedo.
        As meninas esto proibidas de freqentar a escola. Todas as escolas
femininas sero imediatamente fechadas.
        As mulheres esto proibidas de trabalhar.
        A mulher que for culpada de adultrio ser apedrejada at a morte.
        Ouam. Ouam bem. Obedeam. Allah-u-akbar.
        Rashid desligou o rdio. Estavam sentados no cho da sala, jantando, menos
de uma semana depois daquele dia em que viram o cadver de Najibullah pendurado por
uma corda.
        -- Eles no podem mandar metade da populao do pas ficar em casa sem fazer
nada -- observou Laila.
        -- Por que no? -- indagou Rashid. E, desta vez, Mariam concordava com ele.
No era exatamente o que ele tinha feito com elas duas? Com certeza Laila percebeu
isso.
        -- No estamos numa aldeia qualquer. Isto aqui  Cabul. As mulheres exerciam
o direito e a medicina, ocupavam postos no governo...
        -- Quem esta falando  a filha arrogante de um professor que lia livros de
poesia. Como voc  urbana, como  tadjique! Acha que isso  alguma novidade,
alguma idia radical introduzida pelos talibs? J morou fora de sua preciosa
conchinha em Cabul, minha gul? J teve a curiosidade de conhecer o Afeganisto de
verdade, o do sul, o do leste, junto das fronteiras tribais do Paquisto? No? Pois
eu j. E posso lhe dizer que h muitos lugares neste pas que sempre viveram desse
jeito, ou, pelo menos, quase assim. No  esse mundo que voc conhece.
        -- Eu me recuso a acreditar nisso -- disse Laila. -- Eles no podem estar
falando serio.
        -- O que os talibs fizeram a Najibullah me pareceu bem srio -- observou
Rashid. -- No acha?
        -- Mas ele era comunista! Foi chefe da Polcia Secreta. Rashid riu.
        Nesse riso, Mariam ouviu as palavras que no foram ditas: aos olhos do
Talib, o fato de Najibullah ter sido comunista e chefiado a temida KHAD s o
tornava ligeiramente mais abominvel que uma mulher.
       38
       Laila
       QUANDO OS TALIBS COMEARAM A AGIR, Laila ficou feliz por seu pai no estar
ali, pois ele teria ficado arrasado ao ver aquilo.
       Homens munidos de picaretas circulavam pelo j dilapidado museu de Cabul
destruindo inteiramente as esculturas pr-islmicas, ou melhor, as que tinham
sobrevivido  pilhagem dos mujahedins. A universidade foi fechada e os estudantes
dispensados. Quadros eram arrancados das paredes e rasgados a faca. Televisores
eram destrudos a pontaps. Qualquer livro, a exceo do Coro, era queimado em
grandes fogueiras e as livrarias foram obrigadas a fechar as portas. Poemas de
Khalili, Pajwak, Ansari, Haji Dehqan, Ashraqi, Beytaab, Hafez, Jami, Nizami, Rumi,
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Khayym, Beydel e outros tantos viraram fumaa.
        Laila ouviu contarem que homens eram arrastados pelas ruas, acusados de no
estarem fazendo uma das namaz, e empurrados para dentro das mesquitas. Soube que o
restaurante Marco Polo, perto da rua das Galinhas, tinha sido transformado num
centro para interrogatrios. s vezes, ouviam-se gritos por detrs de suas vidraas
pintadas de preto. Por toda parte, as Patrulhas Barbadas, como eram chamadas,
circulavam pelas ruas, nas picapes Toyota, a cata de rostos barbeados que pudessem
ser espancados.
        Os cinemas tambm foram fechados. O Park, o Ariana, o Aryub. As salas de
projeo foram saqueadas e os rolos de filmes, queimados. Laila lembrou das vezes
em que ela e Tariq tinham se sentado naquelas poltronas para ver filmes indianos,
todas aquelas histrias melodramticas de amantes separados por alguma trgica
reviravolta do destino, um deles vagando por uma terra longnqua, o outro sendo
obrigado a se casar, o choro, as canes pelos campos floridos, a espera pelo
reencontro. Lembrou como Tariq ria ao v-la chorar com esses filmes.
        -- O que ser que fizeram com o cinema de meu pai? -- disse Mariam certo dia.
-- Se  que ele ainda existe. Ou se ainda pertence a meu pai.
        O Kharabat, o velho gueto musical de Cabul, foi silenciado. Msicos eram
espancados e trancafiados em prises. Seus rubabs, seus tambouras, seus harmnios
eram pisoteados. Os talibs foram at onde Ahmad Zahir, o cantor favorito de Tariq,
estava enterrado e dispararam contra o seu tmulo.
        -- J faz quase vinte anos que ele morreu -- disse Laila. -- Ser que morrer
uma vez s no basta?
        Rashid no estava muito incomodado pelas atitudes dos talibs. S precisou
deixar crescer a barba e freqentar a mesquita. E fez ambas as coisas. Encarava
tudo aquilo com uma espcie de surpresa afetuosa e condescendente, um pouco como
algum que v um primo um tanto excntrico e imprevisvel, que deu para fazer
coisas risveis e escandalosas.
        Toda quarta-feira a noite, ouvia "A Voz da Shari'a", pois era quando os
talibs anunciavam os nomes dos que receberiam punies. Ento, as sextas, ele ia
ao estdio Ghazi, comprava uma Pepsi e assistia ao espetculo. Na cama, com uma
estranha animao, descrevia para Laila as mos que tinha visto deceparem, as
chibatadas, os enforcamentos, as decapitaes.
        -- Hoje vi um homem cortar a garganta do assassino de seu irmo -- disse ele
certa noite, soprando rodelas de fumaa.
        -- Eles so uns selvagens -- observou Laila.
        -- Acha mesmo? -- indagou Rashid. -- Comparados a quem? Os soviticos mataram
um milho de pessoas. Sabe quantas pessoas foram mortas pelos mujahedins em Cabul,
s nos ltimos quatro anos? Cinqenta mil. Cinqenta mil! Comparado a isso,  to
terrvel assim cortar a mo de um punhado de ladres? Olho por olho, dente por
dente. Est escrito no Coro. Alem disso, diga-me uma coisa: se algum matasse
Aziza, no ia querer ter a possibilidade de ving-la?
        Laila lhe lanou um olhar enojado.
        -- Estou apenas argumentando -- disse Rashid.
        -- Voc  igualzinho a eles.
        -- E interessante a cor dos olhos de Aziza, no acha? Nem como os seus, nem
como os meus...
        Virou-se de frente para ela e arranhou bem de leve a sua coxa com a unha
meio torta do dedo indicador.
        -- Vou tentar explicar melhor -- prosseguiu ele. -- Se por acaso me desse na
telha (no estou dizendo que isso vai acontecer, mas que  uma possibilidade), eu
teria todo direito de mandar essa menina embora. Como voc encararia isso? Ou,
ento, eu poderia procurar os talibs um belo dia dizendo que estava desconfiado de
voc. Bastaria apenas isso. Em quem acha que eles acreditariam? O que imagina que
fariam com voc?
        Laila afastou a coxa.
        -- No que eu v fazer isso -- acrescentou ele. -- No vou, no. Provavelmente
no. Voc me conhece.
        -- Voc  desprezvel -- disse Laila.
        -- Bonita palavra... -- observou Rashid. -- A est uma coisa que sempre
detestei em voc. Mesmo em criana, quando ficava correndo por a com o seu
aleijado, sempre se achou espertssima, com todos os seus livros e os seus poemas.
De que lhe serve agora toda essa inteligncia? Foi ela que impediu que voc ficasse
pelas ruas ou fui eu? Sou desprezvel? Metade das mulheres dessa cidade mataria
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
para ter um marido como eu. Mataria para conseguir isso.
       Voltou a se virar de barriga para cima e soprou fumaa na direo do teto.
       -- Voc gosta dessas palavras bonitas? Pois vou lhe dizer uma: perspectiva. E
o que estou fazendo, Laila. Impedindo que voc perca a noo de perspectiva.
       O que deixou a moa com o estmago embrulhado pelo resto da noite  que cada
palavra que Rashid lhe disse, inclusive a ltima, era verdade.
       Pela manh, porm, e por vrias manhs depois desse dia, aquele desconforto
continuou, e chegou at a piorar, tornando-se algo assustadoramente familiar.
       Dias depois, numa tarde fria e encoberta, Laila estava deitada de costas no
cho do quarto. Mariam cochilava com Aziza no aposento ao lado.
       Em suas mos, uma vareta de metal que tinha tirado com um alicate de uma
velha roda de bicicleta. Achou aquilo no mesmo beco em que havia beijado Tariq anos
atrs. Laila ficou deitada ali por um bom tempo, inalando por entre os dentes
cerrados, com as pernas bem abertas.
       Adorou Aziza desde o primeiro instante em que desconfiou de sua existncia.
No houve nenhuma hesitao, nenhuma incerteza. Agora percebia como era terrvel
uma me ter medo de no sentir amor algum pelo prprio filho. Como era
antinatural... E, mesmo assim, ela se perguntava, deitada ali no cho, com as mos
suadas prestes a manipular a vareta metlica, se conseguiria amar um filho de
Rashid como amava a filha de Tariq.
       Mas, afinal, no pde fazer o que pretendia.
       No foi o medo de sangrar at morrer que a fez largar a vareta, nem tampouco
a idia de que aquele ato era condenvel, como, alis, achava que fosse. Laila
largou a vareta metlica porque no conseguia admitir aquilo que os mujahedins
aceitaram to prontamente: que, s vezes, numa guerra, uma vida inocente precisava
ser ceifada. A sua guerra era contra Rashid. O beb no tinha culpa de nada. E j
tinha havido mortes demais. J tinha visto muitos inocentes serem mortos pelo fogo
cruzado dos inimigos.

       39
       Mariam Setembro de 1997
       -- AQUI NO SE ATENDEM MAIS MULHERES -- bradou o guarda, de p, no alto da
escada, fitando impassvel a multido reunida diante do hospital Malalai.
       Ouviu-se um rumor generalizado.
       -- Mas  um hospital para mulheres! -- gritou uma voz feminina por trs de
Mariam, e logo vieram as exclamaes de aprovao.
       Mariam passou Aziza para o outro brao. Com a mo livre, tentou ajudar
Laila, que gemia, com um brao passado no pescoo de Rashid.
       -- J no  mais -- retrucou o talib.
       -- Minha mulher est em trabalho de parto! -- berrou um sujeito grandalho. --
Vocs vo obrig-la a ter o beb aqui na rua, irmo?
       Em janeiro, Mariam tinha ouvido anunciarem que homens e mulheres passariam a
ser atendidos em hospitais diferentes; que todas as profissionais de sexo feminino
estavam sendo demitidas dos hospitais de Cabul e enviadas para uma unidade central
de sade. Ningum acreditou que fosse verdade e os talibs acabaram no implantando
tais medidas. At agora, pelo visto.
       -- E o hospital Ali Abad? -- perguntou outro homem. O guarda abanou a cabea.
       -- E o Wazir Akbar Khan?
       -- Masculino -- disse ele.
       -- E ns, para onde devemos ir?
       -- Para o Rabia Balkhi -- respondeu o guarda.
       A moa se adiantou, dizendo que j tinha estado l e que eles no tinham
gua limpa, nem oxignio, nem remdios, nem eletricidade.
       -- No tem nada l -- acrescentou ela.
       -- Pois  para onde devem ir -- disse o guarda.
       Houve mais exclamaes e gritos de protesto, um ou outro palavro. Algum
atirou uma pedra.
       O talib apontou o Kalashnikov para cima e fez alguns disparos. Por trs
dele, apareceu outro talib brandindo um chicote.
       Em pouco tempo, a multido tinha se dispersado.
       A sala de espera do Rabia Balkhi fervilhava de mulheres usando burqas e de
crianas. O ar fedia a suor e corpos no lavados, a chul, urina, cigarro e
anti-sptico. Sob o ventilador de teto parado, as crianas corriam atrs umas das
outras, pulando por cima das pernas esticadas de pais que cochilavam.
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       Mariam ajudou Laila a se sentar junto a uma parede cujo reboco tinha cado
em vrios pontos, formando desenhos que mais pareciam mapas de pases estrangeiros.
A moa balanava o corpo para frente e para trs, segurando a barriga com as mos.
       -- Voc vai ser examinada, Laila jo. Prometo que vai.
       -- Ande logo -- exclamou Rashid.
       Diante do guich de atendimento, havia uma horda de mulheres se acotovelando
e se empurrando mutuamente. Algumas carregavam seus bebes. Outras saiam daquele
tumulto e tentavam passar pelas portas de folhas duplas que levavam aos
consultrios. Um guarda armado bloqueava sua passagem, mandando-as de volta  sala
de espera.
       Manam decidiu abrir caminho at l. A passos firmes, foi investindo contra
cotovelos, quadris e ombros de estranhas. Algum lhe deu uma cotovelada nas
costelas; ela revidou. Uma mo desesperada tentou agarrar o seu rosto; ela a
afastou. Para conseguir avanar, foi agarrando pescoos, braos, cotovelos e at
cabelos e, quando algum reclamava, Mariam fazia o mesmo.
       Agora percebia quantas coisas uma me tem de sacrificar. A prpria decncia
era apenas uma delas. Pensou ento em Nana, nos sacrifcios que ela tambm teve de
fazer. Nana, que podia ter se livrado dela, ou t-la atirado numa vala qualquer e
ido embora. Mas no fez nada disso. Enfrentou a vergonha de estar esperando uma
harami, dedicou a vida a ingrata tarefa de cri-la e, mesmo que a seu prprio modo,
de am-la.
       E, afinal, Mariam preferiu Jalil a sua me. Naquele instante, abrindo
caminho at o guich com uma ousadia inabalvel, s queria ter sido uma filha
melhor para Nana; adoraria compreender, naquela poca, o que compreendia agora a
respeito da maternidade.
       Viu-se cara a cara com uma enfermeira coberta dos ps a cabea por uma burqa
cinzenta e suja. A mulher falava com uma jovem cuja burqa estava toda manchada de
sangue j seco na altura da cabea.
       -- A bolsa d'gua de minha filha j rompeu e o beb no est nascendo --
exclamou Mariam.
       -- Eu estou falando com ela -- gritou a moa ensangentada. -- Aguarde a sua
vez!
       Toda aquela multido s suas costas se agitava para um lado e para o outro,
como o mato alto em volta da kolba quando ventava na clareira. Uma mulher gritava
dizendo que a filha tinha quebrado o cotovelo ao cair de uma rvore. Outra dizia
que estava evacuando sangue.
       -- Ela est com febre? -- perguntou a enfermeira, e Mariam levou alguns
segundos para perceber que a pergunta era dirigida a ela.
       -- No.
       -- Est sangrando?
       -- No.
       -- Onde ela est?
       Por cima daquelas cabeas cobertas, Mariam apontou na direo do lugar onde
Laila estava sentada com Rashid.
       -- Ela vai ser atendida -- disse a enfermeira.
       -- Vai demorar muito? -- perguntou Mariam, mas algum a tinha agarrado pelos
ombros e a puxava para trs.
       -- No sei -- respondeu a enfermeira, acrescentando que s havia ali duas
mdicas e ambas estavam operando naquele momento.
       -- Ela est com muitas dores -- disse Mariam.
       -- Eu tambm! -- gritou a mulher com a cabea ensangentada. -- Aguarde a sua
vez!
       Mariam foi sendo afastada dali. Agora, mal via a enfermeira por trs
daqueles ombros e nucas. Pelo cheiro, percebeu que um beb tinha dado uma golfada.
       -- Leve-a para dar uma volta -- gritou a enfermeira. -- E espere.
       J tinha escurecido quando a enfermeira finalmente as mandou entrar. A sala
de parto tinha oito leitos, todos ocupados por mulheres que gemiam e se contorciam
assistidas por enfermeiras cobertas da cabea aos ps. Duas dessas mulheres estavam
em pleno parto. No havia cortinas entre os leitos. Laila foi para um que ficava na
outra ponta da sala, sob uma janela que algum tinha pintado de preto. Ao lado da
cama, havia uma pia seca e rachada, e, acima dela, penduradas num barbante, luvas
cirrgicas manchadas. No meio do aposento, Mariam viu uma mesa de alumnio de dois
andares. No tampo de cima, havia uma colcha cor de carvo; o outro estava vazio.
       Uma das mulheres percebeu que Mariam estava olhando.
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        -- Eles pem as vivas na parte de cima -- observou, com voz cansada.
        A medica, vestindo uma burqa azul-escura, era uma mulher mida e irrequieta,
agitada como um pssaro. O que quer que dissesse tinha um tom de impacincia, de
urgncia.
        -- Primeiro beb -- disse ela, assim mesmo, como se no fosse uma pergunta, e
sim uma afirmao.
        -- Segundo -- retrucou Mariam.
        Laila gritou e se virou de lado. Seus dedos apertaram a mo de Mariam.
        -- Algum problema no primeiro parto?
        -- No.
        -- A senhora e a me?
        -- Sou -- disse Mariam.
        A medica ergueu a frente da burqa e apanhou um objeto metlico em forma de
cone. Levantou, ento, a burqa de Laila e ps a extremidade mais larga do tal
objeto em sua barriga aproximando a mais estreita do prprio ouvido. Ficou
escutando por quase um minuto, inverteu a posio do instrumento, escutou
novamente, voltou a inverter o cone.
        -- No estou ouvindo o beb, hamshira.
        Ps uma das luvas que estavam penduradas acima da pia com um pregador de
roupas. Pressionou a barriga de Laila com uma das mos e enfiou a outra dentro
dela. A moa gemeu. Quando terminou, a mdica entregou a luva a uma enfermeira que
a enxaguou e pendurou de volta no barbante.
        -- Vamos ter de fazer uma cesariana. Sabe o que  isso? Temos que abrir o
tero de sua filha e retirar o beb, pois ele est sentado.
        -- No estou entendendo -- disse Mariam.
        A mdica lhe explicou que, estando naquela posio, o beb no sairia por si
s.
        -- E j se passou muito tempo -- acrescentou ela. -- Precisamos lev-la para a
sala de operaes agora mesmo.
        Laila assentiu, com uma careta, e deixou a cabea pender para o lado.
        -- Mas preciso lhe dizer uma coisa -- prosseguiu a mdica. Aproximou-se de
Mariam, inclinou-se um pouco e falou em voz baixa, num tom mais confidencial. Havia
um certo constrangimento no seu jeito de falar.
        -- O que ? -- gemeu Laila. -- Tem alguma coisa errada com o beb?
        -- Mas como ela vai agentar? -- perguntou Mariam.
        A mdica deve ter percebido um qu de acusao naquela pergunta, a julgar
pela postura defensiva que assumiu.
        -- Acha que gosto disso? -- retrucou ela. -- O que quer que eu faa? Eles no
me do as coisas mais elementares. No tenho aparelho de raio-X, nem drenos, nem
oxignio, nem mesmo simples antibiticos. Quando as ONGs oferecem dinheiro, os
talibs o desviam para outros fins. Ou destinam essas verbas para os locais que
atendem homens.
        -- Mas no h nada que a senhora possa dar a ela, doutora sahib? -- indagou
Mariam.
        -- O que est acontecendo? -- perguntou Laila.
        -- A senhora pode ir comprar o remdio, mas...
        -- Escreva o nome -- disse Mariam. -- Escreva o nome num papel e vou
providenciar.
        Por baixo da burqa, a mdica abanou a cabea secamente.
        -- No d tempo -- disse ela. -- E por uma razo muito simples: nenhuma das
farmcias mais prximas tem esse remdio. A senhora teria ento que enfrentar o
trfego para ir de um lugar a outro, talvez at cruzando a cidade de ponta a ponta,
com boas chances de no conseguir encontr-lo. So quase oito e meia da noite,
portanto, a senhora ainda corre o risco de ser presa por violar o toque de
recolher. Mesmo que consiga encontrar o remdio,  provvel que no possa pagar por
ele. Ou vai ter que brigar com algum to desesperado quanto a senhora. No vai dar
tempo. Esse beb tem que sair agora.
        -- Digam-me o que est acontecendo -- pediu Laila, que tinha se erguido na
cama, apoiando-se nos cotovelos.
        A mdica respirou fundo e lhe disse que o hospital no dispunha de
anestsico.
        -- E, se esperarmos mais, voc vai perder o seu beb.
        -- Ento faa a operao -- disse Laila. Deixou-se cair na cama e dobrou os
joelhos. -- Pode me cortar e retire o meu beb.
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       Laila estava deitada numa maca na velha sala de operaes em condies
deplorveis. Enquanto isso, a mdica lavava as mos numa bacia. A moa estava
tremendo. Sugava o ar por entre os dentes cerrados toda vez que a enfermeira
molhava sua barriga com uma toalha encharcada de um liquido marrom-amarelado. Outra
enfermeira ficou parada junto  porta. De quando em quando, abria-a e dava uma
espiada l fora.
       A medica tinha tirado a burqa e Mariam viu seus cabelos grisalhos, suas
plpebras cadas e os vincos de cansao que marcavam os cantos de sua boca.
       -- Eles querem que a gente opere de burqa -- disse ela, mostrando com um gesto
de cabea a enfermeira l na porta. -- Ela fica de olho. Se os vir chegando, eu
ponho a burqa de novo.
       Disse aquilo de um jeito prtico, quase indiferente, e Mariam percebeu que
ali estava uma mulher que no se abalava com mais nada. "Uma mulher", pensou ela,
"que compreendeu a sorte que tinha por estar trabalhando, que sabia que sempre
haveria alguma coisa que jamais poderiam lhe tomar.
       De ambos os lados da maca, perto dos ombros de Laila, havia duas barras
metlicas na vertical. Usando pregadores de roupas, a enfermeira que tinha
desinfetado a barriga da moa prendeu ali um lenol, formando uma cortina entre
Laila e a mdica.
       Mariam se ps na outra extremidade, junto  cabea de Laila e baixou o rosto
at suas faces se tocarem. Podia ver os dentes da moa batendo. E as duas ficaram
de mos dadas.
       Atravs da cortina, Mariam viu a sombra da mdica ir para o lado esquerdo e
a enfermeira, para a direita. Os lbios de Laila se retesaram ao mximo. Bolhas de
cuspe surgiam e estouravam em seus dentes cerrados. Ela fazia uns barulhinhos que
pareciam pequenos assobios.
       -- Coragem, irmzinha -- disse a mdica, inclinando-se sobre o corpo da moa.
       Os olhos de Laila se arregalaram. Depois, sua boca se abriu. Ela ficou assim
por um bom tempo, tremendo, com os tendes do pescoo esticados, o suor lhe
escorrendo pelo rosto, as mos apertando as de Mariam.
       E Mariam a admiraria para sempre, pelo tempo que transcorreu antes que a ela
gritasse.

       40
       Laila Outono de 1999
       Foi MARIAM QUEM TEVE A IDIA de fazer aquele buraco. Certa manh, apontou
para um canto do terreno, por trs do galpo de ferramentas.
       -- Que tal aqui? -- indagou ela. -- E um bom lugar.
       As duas se revezaram cavando o cho com a enxada e atirando a terra para o
lado com a p. No tinham planejado fazer um buraco muito grande, nem muito
profundo, pois, assim no precisariam cavar tanto, como acabou acontecendo. J era
o segundo ano de seca que enfrentavam, e viam-se os seus estragos por toda parte.
No ltimo inverno, mal tinha nevado e durante toda a primavera no choveu uma vez
sequer. Por todo o pais, os fazendeiros estavam abandonando os seus campos
esturricados, vendendo o que possuam e peregrinando de aldeia em aldeia a procura
de gua. Iam para o Paquisto ou para o Ir. Instalavam-se em Cabul. Mas, na
cidade, o nvel do lenol fretico tambm estava baixo e os poos mais rasos tinham
secado. Nos poos mais profundos, as filas eram to grandes que Laila e Mariam
passavam horas esperando a sua vez. O rio Cabul, sem as cheias anuais da primavera,
estava inteiramente seco. Tinha se transformado num gigantesco banheiro pblico e,
em seu leito, s se viam excrementos humanos e entulho.
       Como no tinha outro jeito, as duas continuaram trabalhando, enxada em
punho, mas aquele cho crestado pelo sol estava duro como uma rocha: a terra no
cedia, parecendo compactada, quase petrificada.
       Mariam tinha agora quarenta anos. Seu cabelo, preso num coque, tinha uns
poucos fios j grisalhos. Sob os seus olhos, havia umas bolsas mais escuras e em
forma de meia-lua. E tinha perdido dois dentes da frente. Um deles caiu, o outro
Rashid arrancou com um soco quando ela deixou Zalmai cair acidentalmente. A sua
pele era mais ressecada, tostada por todo o tempo que vinham passando no quintal
sob o sol escaldante. Ficavam sentadas ali vendo Zalmai correr atrs de Aziza.
       Quando terminaram de cavar aquele buraco, pararam junto dele, olhando l
para dentro.
       -- Acho que vai dar certo... -- disse Mariam.

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       Zalmai j estava com dois anos. Era um menininho gorducho, de cabelo
cacheado. Tinha uns olhos castanhos e midos, e o rosto sempre corado, como o de
Rashid, qualquer que fosse o tempo que estivesse fazendo. Tinha tambm a mesma
nascida de cabelo do pai, em forma de meia-lua e bem baixa, quase no meio da testa.
       Quando estava sozinho com Laila, Zalmai era uma criana meiga, bem-humorada
e brincalhona. Gostava de se encarapitar nos ombros da me, brincar de
esconde-esconde no quintal com ela e com Aziza. s vezes, em momentos mais
tranqilos, vinha se sentar no colo de Laila pedindo-lhe que cantasse para ele. Sua
cantiga favorita era "mul Mohammad jan". Ficava balanando os pezinhos
rechonchudos e cantava junto com ela quando chegava a hora do refro, dizendo esse
trecho da letra a seu modo, com voz estridente.
       Venha, vamos l para Mazar, mul Mohammad jan,,
       Ver os campos de tulipas,  querido companheiro.
       Laila adorava os beijos melados que o filho lhe dava; adorava as covinhas de
seus cotovelos, e os dedinhos rolios de seus ps. Adorava fazer-lhe ccegas,
construir tneis com travesseiros e almofadas para ele atravessar de gatinhas;
adorava v-lo adormecer em seus braos com uma das mos invariavelmente agarrada a
sua orelha. Chegava a sentir um bolo no estmago quando se lembrava daquela tarde
em que se deitou no cho do quarto, com a vareta da roda de bicicleta entre as
pernas. Foi por pouco. Agora, sequer conseguia imaginar como pde ter aquela idia.
Seu filho era uma bno e Laila descobriu, aliviada, que os seus temores eram
infundados: amava Zalmai com todas as suas foras, exatamente como amava Aziza.
       Mas Zalmai tinha verdadeira loucura pelo pai. Por isso, era outra criana
quando Rashid estava por perto para mim-lo. Logo surgiam a risadinha desafiadora
ou o sorriso atrevido. Na presena do pai, qualquer coisa o irritava. O menino se
tornava rancoroso e, embora a me zangasse com ele, continuava mentindo, coisa que
jamais fazia quando o pai estava ausente.
       J Rashid aprovava tudo isso.
       -- E sinal de inteligncia -- dizia.
       E tambm encarava desse jeito as bobagens do filho, mesmo quando eram coisas
perigosas como engolir bolas de gude e expeli-las ao fazer coc; acender fsforos
ou mastigar os cigarros do pai.
       Quando Zalmai nasceu, Rashid o instalou na cama que dividia com Laila.
Comprou um bero novo e mandou pintar lees e leopardos nas laterais do mvel.
Gastou um bom dinheiro em roupas, chocalhos, mamadeiras, fraldas, embora no
tivessem condies de comprar tudo isso e as coisas que tinham sido de Aziza
pudessem perfeitamente ser aproveitadas. Certo dia, voltou para casa com um mobile
a pilha e o pendurou sobre o bero do filho. Abelhinhas coloridas de preto e
amarelo pendiam de um girassol e soltavam uma espcie de guincho quando eram
pressionadas. E ainda tinha uma musiquinha quando o brinquedo estava ligado.
       -- Pensei que voc tinha dito que os negcios no iam l muito bem -- observou
Laila.
       -- Tenho amigos, e posso pedir dinheiro emprestado -- respondeu Rashid, com um
ar de desprezo.
       -- E como vai pagar essas dvidas?
       -- As coisas vo melhorar. E sempre assim. Olhe, ele gostou. Est vendo?
       Muitas vezes, Laila ficava o dia inteiro sem o filho, porque Rashid o levava
para a loja. Deixava que o menino engatinhasse debaixo daquela bancada abarrotada
de ferramentas, que brincasse com velhas solas de borracha e retalhos de couro.
Rashid martelava os seus pregos de ao, punha a lixadeira para funcionar, sempre de
olho no garoto. Se Zalmai derrubasse uma pilha de sapatos, o pai ralhava com ele,
mas de mansinho, meio sorridente. Se o menino repetisse a bobagem, deixava de lado
o martelo, sentava o filho na mesa de trabalho e conversava com ele brandamente.
       A pacincia que tinha com Zalmai era um poo profundo que jamais se
esgotava.
       Voltavam para casa de tardinha, o menino com a cabea nos ombros do pai,
ambos cheirando a cola e couro. Sorriam, como fazem as pessoas que compartilham
algum segredo, um sorriso matreiro, como se tivessem passado o dia inteiro naquela
lojinha escura, no fabricando sapatos, mas tramando os planos mais secretos.
       Zalmai gostava de sentar ao lado do pai na hora do jantar, e de fazer
aquelas brincadeiras que s os dois conheciam, enquanto Mariam, Laila e Aziza
punham os pratos na sofrah. Cutucavam-se mutuamente, rindo, ou atiravam pedacinhos
de po um no outro, falando sempre bem baixinho para as mulheres no poderem ouvir.
Se Laila dissesse algo, Rashid erguia os olhos, nitidamente aborrecido com aquela
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intromisso indesejada. Se pedisse para pegar o filho no colo, ou, pior ainda, se o
menino estendesse os braos para ela, Rashid a fuzilava com os olhos.
       Ento, Laila se afastava, magoada.
       At que um dia, poucas semanas depois de Zalmai ter completado dois anos,
Rashid apareceu em casa com uma televiso e um videocassete. No tinha feito muito
frio durante o dia, mas a temperatura caiu bastante ao anoitecer e j era quase
noite fechada, com um cu sem estrelas.
       Ps tudo aquilo na mesa da sala, dizendo que tinha comprado no mercado
negro.
       -- Mais um emprstimo? -- indagou Laila.
       -- um Magnavox.
       Aziza entrou na sala e, quando viu a TV, correu em sua direo.
       -- Cuidado, Aziza jo -- disse Mariam. -- No mexa nisso.
       O cabelo da menina tinha ficado claro como o da me. Laila reconhecia as
prprias covinhas no rosto da filha. Ela era, agora, uma menina calma,
introspectiva, e, achava Laila, com umas atitudes que nem pareciam de uma criana
de seis anos. Ficava encantada com o jeito de falar da filha, a cadncia e o ritmo,
as pausas reflexivas e a entonao, to adultas, to incompatveis com o corpinho
imaturo que abrigava aquela voz. Foi Aziza que, com uma atitude animada e decidida,
se incumbiu da tarefa de acordar Zalmai diariamente, vestir e pentear o irmo, e
lhe dar o caf da manh. Era ela que o punha para dormir  tarde, que, com toda
calma, aquietava os repentes daquele garotinho to voluntarioso. Agora, quando isso
acontecia, a menina tinha dado para abanar a cabea de um jeito meio exasperado,
curiosamente adulto.
       A menina ligou a TV. Rashid a repreendeu, agarrando o seu pulso e
apertando-o contra o tampo da mesa. Sem qualquer delicadeza.
       -- Essa televiso  de Zalmai -- disse ele.
       Aziza correu para Mariam e subiu no seu colo. As duas eram, agora,
inseparveis. Recentemente, com a aprovao de Laila, Mariam tinha comeado a lhe
ensinar versculos do Coro. Aziza recitava de cor a surata de Ikhlas e a Fatiha, e
j era capaz de fazer as quatro ruqats da prece matinal.
       " s o que tenho para dar a ela", foi o que disse a Laila, "esse
conhecimento, essas oraes. Eles so o nico bem que jamais possu na vida".
       Ento, Zalmai entrou na sala. A expectativa de Rashid lembrava aquela das
pessoas ansiosas para ver os truques de um mgico de rua. O menino puxou o fio da
TV, apertou seus diversos botes, ps as mos espalmadas na tela do aparelho.
Quando as tirou dali, as marcas daquelas mozinhas midas foram desaparecendo aos
poucos. O pai sorria, orgulhoso, vendo o filho por as mos na tela e tir-las dali
repetidas vezes.
       Os talibs tinham proibido a televiso. Os videoteipes foram destrudos em
publico: as fitas eram rasgadas e amarradas a moures de cercas. Antenas
parablicas foram penduradas nos postes das ruas. Mas Rashid disse que no era
porque algo tinha sido proibido que no se podia encontr-lo.
       -- Amanh mesmo vou comear a procurar fitas de desenhos animados --
acrescentou ele. -- No vai ser difcil de encontrar. Pode-se comprar qualquer coisa
nos bazares clandestinos.
       -- Ento quem sabe voc no consegue comprar um poo novo para nos? -- indagou
Laila, o que lhe valeu um olhar de desprezo.
       Foi s mais tarde, depois de um outro jantar de arroz puro e sem ch, por
causa da seca, e depois de ter fumado o seu cigarro, que Rashid mencionou a deciso
que tinha tomado.
       -- No -- disse Laila.
       Mas ele retrucou, afirmando que no estava perguntando nada.
       -- Pouco importa se  uma pergunta ou no.
       -- Voc no pensaria assim se soubesse a histria toda.
       Disse ento que tinha feito mais emprstimos do que ela imaginava, que s o
dinheiro da loja no bastava para sustentar cinco pessoas.
       -- No lhe falei disso antes para poup-la de mais uma preocupao
       -- acrescentou ele. -- Alm disso, voc ficaria espantada ao ver quanto isso
pode render.
       Laila insistiu na negativa. Os dois estavam na sala. Mariam e as crianas,
na cozinha. Dava para ouvir o barulho dos pratos, o riso estridente de Zalmai,
Aziza dizendo algo a Mariam com aquele seu jeito firme, ponderado.
       -- Existem vrios outros como ela, e at menores -- disse Rashid.
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       -- Todos em Cabul esto fazendo isso.
       Laila retrucou que no tinha nada a ver com o que os outros faziam.
       -- Vou ficar de olho nela -- prosseguiu Rashid, j mais impaciente.
       -- E um lugar seguro. Tem uma mesquita bem defronte.
       -- No vou deixar voc transformar minha filha numa mendiga!
       -- esbravejou Laila.
       O tapa estalou bem alto, pois aquela mo de dedos grossos acertou em cheio o
rosto da moa. Com o impacto, sua cabea virou para o lado. Na cozinha, os rudos
cessaram. Por um momento, o silncio na casa foi total. Depois, ouviram-se passos
apressados pelo corredor e Mariam e as crianas apareceram na sala. Seus olhos iam
de Laila para Rashid, e vice-versa.
       Ento, ela o acertou com um soco.
       Foi a primeira vez que bateu em algum na vida, sem contar,  claro, com os
socos de brincadeira que Tariq e ela davam um no outro. Mas esses eram mais uns
tabefes, dados com a mo aberta e sem qualquer inteno de machucar; eram antes a
expresso de ansiedades a um s tempo surpreendentes e excitantes. E visavam sempre
o msculo que Tariq, em tom professoral, chamava de deltide.
       Laila viu o prprio punho fechado cortando o ar, sentiu as pontinhas da
barba por fazer, o contato da pele spera com os ns dos dedos.
       Pelo barulho, parecia que um saco de arroz tinha cado no cho. Ela o
atingiu em cheio, e com tanta fora que Rashid chegou a recuar uns dois passos.
       No outro lado da sala, algum perdeu o flego, algum soltou uma exclamao
de espanto, algum gritou. Mas Laila no conseguiu distinguir quem fez o qu.
Naquela hora, estava atnita demais para perceber o que quer que fosse, ou at para
se preocupar; esperava apenas que a sua mente registrasse o que a sua mo tinha
feito. Quando isto aconteceu, deve ter sorrido, ao menos era a impresso que tinha.
Deve ter rido de orelha a orelha, pois, para sua surpresa, Rashid se virou, com
toda calma, e saiu da sala.
       De repente, lhe pareceu que todos os sofrimentos da vida daquelas trs
criaturas, ela mesma, Aziza e Mariam, tinham simplesmente se evaporado, sumido como
as marcas das mos de Zalmai na tela da TV Por mais absurdo que fosse, tinha a
sensao de que valera a pena agentar tudo o que tinham agentado, s para viver
aquele momento, aquele ato de desafio que poria fim a todos aqueles ultrajes.
       Laila no notou que Rashid estava de volta at sentir a mo dele em sua
garganta, ate ser erguida do cho e imprensada de encontro  parede.
       Assim, to de perto, o rosto debochado daquele homem parecia incrivelmente
grande. Laila percebeu como ele estava ficando mais rechonchudo com a idade, como
os vasinhos em seu nariz tinham se multiplicado. Rashid no disse absolutamente
nada. Alis, o que se pode dizer, o que se precisa dizer quando se tem o cano do
revlver enfiado na boca da prpria mulher?
        Era por causa das patrulhas que estavam cavando ali no jardim. s vezes, as
rondas eram mensais, s vezes, semanais. Nos ltimos tempos, praticamente dirias.
De um modo geral, os talibs confiscavam os objetos, chutavam o traseiro de algum,
davam um tapa na nuca de uma ou duas pessoas. Mas, s vezes, aconteciam os
espancamentos pblicos, os chicotes estalando nas palmas das mos e nas solas dos
ps.
        -- Devagar -- disse Mariam, ajoelhada na borda do buraco. Foram baixando a TV
ali dentro, segurando-a pelas pontas do plstico que a envolvia. -- Acho que vai dar
certo -- observou ainda.
        Quando terminaram, taparam o buraco novamente e assentaram bem a terra no
local onde haviam cavado. Espalharam tambm um pouco de terra ao redor, para
disfarar.
        -- Pronto -- disse Mariam, limpando as mos no vestido. Concordaram que, mais
tarde, quando as coisas estivessem mais tranqilas, quando os talibs deixassem de
patrulhar as casas, dentro de um ms, ou dois, ou seis, ou quem sabe at mais,
desenterrariam a televiso.
        Em seu sonho, Laila se viu cavando novamente atrs do galpo de ferramentas,
acompanhada de Mariam. Mas, desta vez, era Aziza que elas estavam enterrando no
buraco. O hlito da menina embaava o plstico em que a tinham embrulhado. Laila
via o seu olhar de pnico, a brancura das palmas de suas mos batendo no plstico,
tentando empurr-lo. E suas splicas. Laila podia ouvi-la gritar. " s por algum
tempo", dizia ento, "s por algum tempo. E por causa das patrulhas, sabe, querida?
Quando essas rondas tiverem terminado, mammy e khala Mariam vm tirar voc daqui.
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Prometo, meu amor. E, a, vamos poder brincar. Vamos brincar do que voc quiser". E
encheu a p de terra. Laila acordou, sem flego, sentindo um gosto de terra na
boca, no exato momento em que os primeiros punhados caram sobre o plstico.
       41
       Mariam
       No VERO DE 2000, a seca atingiu o seu terceiro ano, e o pior de todos.
       Nas regies de Helmand, Zabol, Kandahar, aldeias inteiras se transformaram
em comunidades nmades, sempre em movimento,  cata de gua e de pastagens para o
gado. Quando no conseguiam encontrar nem uma coisa, nem outra, e suas vacas,
ovelhas e cabras acabavam morrendo, vinham todos para Cabul. Ocuparam as encostas
de KarehAriana, vivendo em favelas improvisadas, s vezes quinze ou vinte pessoas
amontoadas num mesmo casebre.
       Esse foi tambm o vero do Titanic, o vero em que Mariam e Aziza rolavam
pelo cho, as gargalhadas, Aziza insistindo em ser Jack.
       -- Shhh... No grite, Aziza jo!
       -- Jack! Diga o meu nome, khala Mariam. Vamos, diga! Jack!
       -- Seu pai vai ficar uma fera se voc o acordar.
       -- Eu sou Jack! E voc  Rose!
       No fim, Mariam acabava deitada ali, de barriga para cima, entregando os
pontos, concordando em ser Rose.
       -- Tudo bem, voc  Jack -- concedia ela. -- Mas vai morrer jovem, enquanto eu
vou viver at ficar bem velhinha.
       -- E verdade, mas eu vou morrer como um heri -- disse Aziza. --J voc, Rose,
vai passar a vida inteira chorando, com saudade de mim. -- Ento, montando no peito
de Mariam, declarou: -- Agora, temos que nos beijar!
       Mariam tentava desviar o rosto, virando a cabea para um lado e para o
outro, e Aziza, encantada com a prpria atitude escandalosa, ficava fazendo
biquinho e estalando os lbios.
       s vezes, Zalmai vinha se chegando e parava para ver a brincadeira das duas.
       -- E eu? -- perguntava o menino. -- Vou ser o qu?
       -- Voc pode ser o iceberg -- respondia Aziza.
       Nesse vero, Cabul foi tomada pela febre do Titanic. As pessoas
contrabandeavam cpias pirata do filme l do Paquisto, por vezes escondendo-as na
roupa de baixo. Depois do toque de recolher, todos trancavam as prprias casas,
apagavam as luzes, baixavam ao mximo o volume das televises e voltavam a chorar
por Jack, Rose e os demais passageiros do navio que naufragou. Quando no estava
faltando luz, Mariam, Laila e as crianas tambm viam o filme. Por dez vezes, ou
mais, desenterraram a TV l do quintal, tarde da noite, com a casa toda s escuras
e umas mantas penduradas nas janelas.
       Vendedores desciam ao leito ressecado do rio Cabul. Em pouco tempo, era
possvel comprar ali dentro, nos buracos esturricados pelo sol, tapetes e roupas
Titanic, que enchiam carrinhos de mo. Havia desodorante Titanic, pasta de dentes
Titanic, perfume Titanic, pakora Titanic e at mesmo burqas Titanic. Um mendigo
particularmente persistente passou a se autodenominar "Pedinte Titanic".
       Nasceu uma verdadeira "Cidade Titanic".
       "E a msica", diziam alguns.
       "No,  o mar. O luxo. O navio", emendavam certas pessoas.
       "E o sexo", sussurravam outros tantos.
       --  o Leo, disse Aziza, encabulada. --  s por causa dele.
       -- Todos querem um Jack -- comentou Laila, dirigindo-se a Mariam. -- Esse  o
motivo. Todos querem um Jack que venha salv-los do desastre. Mas no existe nenhum
Jack. Jack no vai voltar. Jack morreu.
       Mais para o fim do vero, porm, um mercador de tecidos adormeceu e esqueceu
de apagar o cigarro. O homem sobreviveu ao incndio, mas sua loja, no. O incndio
atingiu tambm a loja de tecidos que ficava ao lado, uma loja de roupas usadas, uma
pequena loja de mveis e uma padaria.
       Disseram a Rashid que, se o vento estivesse soprando do leste, e no do
oeste, a sua loja, que ficava na esquina, poderia ter se salvado.
       Tiveram que vender tudo.
       Primeiro, foram as coisas de Mariam; depois, as de Laila. Venderam as roupas
de beb de Aziza e os poucos brinquedos que Laila tinha conseguido convencer Rashid
a comprar para a menina. Aziza viu tudo aquilo com um ar dcil. O relgio de Rashid
tambm precisou ser vendido, bem como o seu velho rdio de pilha, as duas gravatas
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que possua, seus sapatos e a aliana de casamento. O sof, a mesa, o tapete e as
cadeiras da sala se foram. Zalmai fez o maior escndalo quando o pai vendeu a TV
       Depois do incndio, Rashid passava praticamente todos os dias em casa.
Esbofeteava Aziza, chutava Mariam, atirava coisas, achava defeito em tudo que Laila
fazia: reclamava de seu cheiro, do seu jeito de se vestir e de se pentear, de seus
dentes que estavam ficando amarelados.
       -- O que aconteceu com voc? -- exclamou ele. -- Eu me casei como uma pari e,
agora, tenho que agentar uma bruaca! Voc est virando uma segunda Mariam.
       Foi demitido da casa de kebab, perto da praa Haji Yaghoub, porque teve uma
briga com um cliente. Este se queixou, dizendo que Rashid tinha atirado o po na
mesa com a maior grosseria. Os dois trocaram insultos. Rashid chamou o outro de
uzbeque com cara de macaco. De um dos lados, surgiu um revolver; do outro, um
espeto de cozinha. Segundo Rashid, era ele que estava com o espeto. Mariam, porm,
tinha suas dvidas.
       Foi despedido tambm de um restaurante em Taimani, porque, quando os
fregueses comearam a se queixar da longa espera, Rashid retrucou que o cozinheiro
era lerdo e preguioso.
       -- Vai ver que voc estava l nos fundos, cochilando -- disse Laila.
       -- No o provoque, Laila jo -- interveio Mariam.
       -- Olhe l, mulher! -- exclamou ele.
       -- Ou cochilando ou fumando -- prosseguiu Laila.
       -- Juro por Deus!
       -- Voc no pode deixar de ser o que ! -- exclamou a moa.
       E pronto. Rashid saltou sobre ela, socando-lhe o peito, a cabea e a barriga
com os punhos cerrados, agarrando-a pelos cabelos, atirando-a de encontro  parede.
Aziza gritava, puxando o pai pela camisa; Zalmai tambm gritava, tentando separar
os dois. Rashid empurrou as crianas, afastando-as, jogou Laila no cho e comeou a
chut-la. Mariam se atirou sobre Laila. Rashid continuou chutando, s que, desta
vez, acertando Mariam. Espumava de raiva e tinha, nos olhos, um brilho assassino.
Continuou a chutar, at no poder mais.
       -- Juro que voc ainda vai me fazer mat-la, Laila -- disse ele, ofegante. E
saiu porta afora como uma bala.
       Quando o dinheiro acabou, a sombra da fome comeou a rondar suas vidas.
Mariam ficou impressionada ao ver que, de uma hora para outra, abrandar a fome
tinha passado a ser o ponto crucial daquelas existncias.
       Agora, arroz cozido, puro, sem carne ou molho, era um raro prazer. Pulavam
refeies com uma freqncia cada vez maior e mais assustadora. s vezes, Rashid
trazia sardinhas em lata e um po velho, que mais parecia serragem. Outras vezes,
chegava com um saco de mas roubadas, mesmo correndo o risco de perder a mo. Nas
mercearias, surrupiava com todo cuidado ravili enlatado que dividiam em cinco
pores, sendo que Zalmai ficava sempre com a cota maior. Comiam at nabo cru, com
um nadinha de sal. E chegaram a jantar folhas de alface murchas e bananas j
passadas.
       De repente, morrer de fome se tornou uma ntida possibilidade. Houve at
quem resolvesse no ficar esperando que acontecesse. Mariam ouviu dizer que uma
viva da vizinhana tinha amassado po seco, misturado com veneno de rato e dado de
comer aos seus sete filhos, no sem antes separar a maior poro para si mesma.
       J dava para ver as costelas de Aziza por baixo da pele, e a gordura de suas
bochechas desapareceu. As pernas estavam fininhas e sua pele foi ficando da cor de
ch bem fraco. Quando a pegava no colo, Mariam podia sentir os ossos da bacia bem
saltados sob a pele retesada. Zalmai ficava deitado pela casa, com um olhar vago e
os olhos semicerrados, ou jogado, como um trapo, no colo do pai. Se no tinha
foras, chorava, querendo dormir, mas o sono era irregular e sobressaltado. Sempre
que Mariam se levantava, via uns pontinhos brancos pulando  sua frente. Sentia a
cabea girar e seus ouvidos zumbiam constantemente. Lembrou de algo que o mul
Faizullah dizia com relao  fome, no incio do perodo do Ramad: "At mesmo quem
est passando pelas maiores dificuldades consegue dormir, mas quem tem fome, no."
       -- Meus filhos vo morrer -- disse Laila. -- E bem diante dos meus olhos.
       -- No vo, no -- retrucou Mariam. -- No vou deixar que isso acontea. Vai
dar tudo certo, Laila jo. Sei que vai.
       Num dia escaldante, Mariam ps a burqa e foi com Rashid at o hotel
Intercontinental. Passagens de nibus eram, agora, um luxo que eles no podiam se
permitir, e Mariam j estava exausta quando chegaram ao alto da ladeira. Enquanto
subiam a colina, sentiu tonteiras e, por duas vezes, teve de parar esperando que
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passassem.
       Na porta do hotel, Rashid cumprimentou e abraou um dos porteiros, que usava
um quepe e um terno bordo. Conversaram um pouco, com alguma intimidade, ao que
parecia, pois, o tempo todo, Rashid segurava o porteiro pelo brao. A certa altura,
fez um gesto na direo de Mariam e os dois a olharam por um breve instante, o
suficiente, porm, para ela ter a impresso de que aquele rosto lhe era vagamente
familiar.
       Depois, o porteiro entrou no hotel, e os dois ficaram ali, esperando. La do
alto, Manam avistou o Instituto Politcnico e, mais ao longe, o velho distrito de
Khair khana e a estrada que leva a Mazar. Ao sul, via-se a fabrica de po, Silo, h
muito abandonada, com sua fachada de um amarelo claro toda esburacada pelos tantos
bombardeios que tinha sofrido. Alem dela, podia identificar as runas do palcio
Darulaman aonde, anos atrs, Rashid a tinha levado para fazerem um piquenique. A
lembrana desse dia era uma relquia de um passado que j no parecia lhe
pertencer.
       Mariam se concentrou nessas coisas, nesses marcos da cidade, pois tinha medo
de perder a coragem se deixasse a mente vagar.
       A toda hora, jipes e txis paravam diante do hotel. Os porteiros vinham
correndo cumprimentar os passageiros, todos homens, armados, barbudos, usando
turbantes, todos saindo dos veculos com um ar de auto-suficincia,
displicentemente ameaador. Mariam ouvia trechos das conversas enquanto aquela
gente se dirigia para a porta e desaparecia ali. Ouviu falarem pashto e farsi, mas
tambm urdu e rabe.
       -- Veja, esses so os nossos verdadeiros amos -- disse Rashid, em voz alta. --
Muulmanos rabes e paquistaneses. Os talibs no passam de joguetes nas mos dessa
gente. Esses a  que mexem os pees do jogo e o Afeganisto  apenas um imenso
tabuleiro.
       Acrescentou ainda que circulavam boatos de que os talibs permitiam que
essas pessoas instalassem campos secretos por todo o pas, e, nesses locais, jovens
eram treinados para se tornarem homens-bomba e combatentes do jihad.
       -- Por que ele est demorando tanto? -- indagou Mariam. Rashid cuspiu no cho
e chutou um pouco de terra para cobrir a cusparada.
       Uma hora depois, entraram no hotel, seguindo o porteiro. Atravessaram o
saguo deliciosamente fresco, com os sapatos ressoando no piso de ladrilhos. Mariam
viu dois homens sentados em poltronas de couro, e, entre eles, uma mesinha e seus
rifles. Tomavam ch preto, comendo jelabi em calda, e as rodelas fritas do doce se
espalhavam pelo prato, polvilhadas de acar. Lembrou ento de Aziza, que adorava
jelabi e desviou os olhos.
       O porteiro os conduziu at uma varanda. Do bolso, tirou um pequeno telefone
preto, sem fio, e um pedao de papel onde havia um nmero anotado. Disse a Rashid
que era o telefone por satlite de seu supervisor.
       -- Consegui cinco minutos -- declarou ele. -- No mais que isso.
       -- Tashakor -- disse Rashid. -- Estou lhe devendo essa.
       O porteiro assentiu e se afastou. Rashid teclou o nmero. Passou o telefone
para Mariam.
       Aquele sinal cheio de rudos levou sua mente para longe. Ela se lembrou da
ltima vez que tinha visto Jalil, 13 anos atrs, na primavera de 1987. Ele ficou
parado na rua, defronte de sua casa, apoiado numa bengala, junto ao Mercedes azul
com placa de Herat e com uma linha branca atravessando a capota, a tampa da mala e
o capo. Ficou horas ali, esperando por ela, chamando-a de quando em quando pelo
nome, exatamente como Mariam tinha feito uma vez, chamando o nome dele diante de
sua casa. Por um momento, tinha afastado um pouquinho as cortinas e olhado para
ele. Apenas uma olhada, mas foi o bastante para ela ver que Jalil tinha agora o
cabelo branco e que estava um tanto curvado. Usava culos, uma gravata vermelha,
como sempre, e o famoso tringulo branco do leno aparecendo no bolso do palet. O
que mais a impressionou, porm, foi ver como ele havia emagrecido: estava muito
mais magro do que o Jalil de suas recordaes; o palet do terno marrom chegava a
ticar pendurado nos ombros e as calas embolavam por cima dos sapatos.
       Ele tambm a viu, apenas por um instante. Os olhos de ambos se encontraram
atravs da brecha nas cortinas, exatamente como havia acontecido anos atrs, em
outra janela. Ento, Mariam tratou de fechar rapidamente as cortinas e ficou
sentada na cama esperando ele ir embora.
       Lembrou-se da carta que ele acabou deixando  sua porta e que ela guardou
por vrios dias, debaixo do travesseiro, apanhando-a de vez em quando, virando-a
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nas mos para um lado e para o outro. Finalmente, rasgou aquela carta sem abri-la.
       E, agora, ali estava ela, tantos anos depois, telefonando para ele.
       Mariam se arrependia de sua tolice, de seu orgulho meio infantil. Adoraria
t-lo deixado entrar. Que mal haveria nisso? Qual o problema de se sentar com ele,
de deix-lo dizer o que tinha vindo lhe dizer? Afinal, era o seu pai.  bem verdade
que no tinha sido um bom pai, mas como os seus defeitos lhe pareciam banais
atualmente, como lhe pareciam fceis de perdoar se comparados a maldade de Rashid
ou  brutalidade e a violncia que tinha visto os homens se infligirem
mutuamente...
       Adoraria no ter destrudo aquela carta.
       Do outro lado da linha, uma voz masculina bem grave lhe disse que era do
escritrio do prefeito de Herat.
       Mariam pigarreou.
       -- Salaam, irmo. Estou procurando algum que vive a em Herat. Ou vivia, ha
muitos anos. Ele se chama Jalil Khan. Morava em Shar-e-Nau e era o dono do cinema.
O senhor sabe o seu paradeiro?
       -- Foi para isso que ligou para o escritrio do prefeito? -- perguntou o
homem, visivelmente irritado.
       Mariam lhe respondeu que no sabia para onde mais poderia telefonar.
       -- Desculpe-me, irmo -- disse ela. -- Sei que o senhor tem assuntos
importantes a tratar, mas  uma questo de vida ou morte. Estou ligando por uma
questo de vida ou morte.
       -- No conheo esse sujeito. E o cinema foi fechado h muito tempo.
       -- Talvez tenha algum a que o conhea...
       -- No tem, no.
       -- Por favor, irmo -- insistiu Mariam, fechando os olhos. -- Trata-se de
crianas. De crianas pequenas.
       Ouviu ento um longo suspiro do outro lado da linha.
       -- Talvez algum... -- principiou ela.
       -- Bom, tem o jardineiro. Acho que ele sempre morou aqui.
       -- Pode perguntar a ele, por favor?
       -- Volte a ligar amanh.
       Mariam lhe explicou que no era possvel.
       -- S consegui esse telefone emprestado por cinco minutos. No... Quando
ouviu um clique, Mariam achou que o sujeito tinha desligado, mas pde distinguir o
rudo de passos, de vozes, uma buzina ao longe e um zumbido mecnico, pontuado por
uns estalidos... Talvez um ventilador eltrico. Passou o aparelho para o outro
ouvido e fechou os olhos.
       Viu Jalil, todo sorridente, metendo a mo no bolso.
       Ah,  claro. Bom, aqui est. No vamos discutir por isso...
       Um pingente em forma de folha do qual pendiam moedinhas minsculas com luas
e estrelas gravadas.
       Vamos l, experimente, Mariam jo.
       O que acha?
       Acho que voc est parecendo uma rainha.
       Passaram-se alguns minutos. Ento, ouviu passos, um rangido e um clique.
       -- , conhece mesmo -- disse o sujeito.
       -- Conhece?
       -- Pelo menos foi o que ele disse.
       -- E onde ele est? -- perguntou Mariam. -- Esse homem sabe onde est Jalil
Khan?
       Houve um momento de silncio.
       -- Ele morreu anos atrs, em 1987.
       Mariam sentiu um bolo no estmago.  claro que tinha pensado nessa
possibilidade. Jalil estaria agora com uns setenta e tantos anos, mas...
       "1987.
       Ele estava morrendo naquela poca. Fez toda aquela viagem at Cabul para se
despedir."
       Aproximou-se, ento, do parapeito da varanda. De onde estava, via a clebre
piscina do hotel, agora vazia e cheia de lodo, com marcas de tiros e os ladrilhos
caindo. E a quadra de tnis, tambm em pssimo estado, com a rede rasgada, jogada
ali no meio como se fosse a pele abandonada de uma cobra.
       -- Preciso desligar agora -- disse o homem.
       -- Lamento t-lo incomodado -- respondeu Mariam, chorando baixinho. Viu Jalil
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acenando para ela, pulando de pedra em pedra ao atravessar o riacho, com o volume
dos presentes no bolso. Lembrou de todas s vezes em que prendeu a respirao por
ele, para que Deus lhe desse um pouco mais de tempo com seu pai. -- Obrigada -- disse
ela, mas, na outra ponta da linha, o sujeito j tinha desligado.
       Rashid a fitava. Mariam abanou a cabea.
       -- Um intil -- disse ele, pegando o telefone de suas mos. -- Tal pai tal
filha...
       Quando atravessaram o saguo, a caminho da porta, Rashid se aproximou da
mesinha de centro, agora vazia, e pegou a rodela de jelabi que tinha sobrado no
prato. Meteu aquilo no bolso e levou para dar a Zalmai.
       42
       Laila
       NUMA SACOLA DE PAPEL, Aziza guardou sua blusa florida e seu nico par de
meias, suas luvas de l desemparelhadas, um velho cobertor laranja estampado com
estrelinhas e cometas, uma caneca de plstico rachada, uma banana, seus dados.
       Era uma manh fria de abril de 2001, pouco antes do vigsimo terceiro
aniversrio de Laila. O cu estava de um cinza translcido e as rajadas de um vento
frio e mido aoitavam a porta de tela.
       Dias antes, Laila ouviu a notcia de que Ahmad Shah Massoud tinha ido 
Frana e falado diante do Parlamento europeu. Atualmente, estava no norte do pas,
sua terra natal, liderando a Aliana do Norte, nico grupo de oposio que ainda
combatia os talibs. Na Europa, Massoud havia alertado o Ocidente sobre os campos
de treinamento de terroristas no Afeganisto, e pediu ajuda aos Estados Unidos para
lutar contra o Talib.
       -- Se o presidente Bush no nos ajudar -- disse ele --, esses terroristas logo,
logo estaro atacando o pas dele e a Europa.
       Um ms antes, Laila soube que os talibs haviam dinamitado os Budas gigantes
de Bamiyan, alegando que as esttuas eram objeto de idolatria e de pecado. Houve
protestos no mundo inteiro, dos Estados Unidos  China. Governantes, historiadores
e arquelogos de todo o planeta escreveram cartas implorando que os dois maiores
monumentos histricos do Afeganisto no fossem destrudos. Mas os talibs
detonaram as cargas explosivas que tinham instalado nos Budas de dois mil anos
idade. A cada exploso, bradavam Allah-u-akbar, e comemoravam cada vez que um brao
ou uma perna das esttuas se desfazia numa nuvem de p. Laila se lembrou daquele
dia, em 1987, quando, l no alto da esttua maior, junto com babi e Tariq, viu os
corvos voando em crculos sobre o vale que se estendia aos seus ps, com a brisa
batendo em seu rosto iluminado pelo sol. Mas a notcia da destruio dos Budas a
deixou indiferente. No parecia to importante assim. Como poderia se preocupar com
esttuas quando a sua prpria vida estava ruindo?
       At Rashid vir lhe dizer que estava na hora, ficou sentada no cho, num
canto da sala, sem dizer uma palavra, impassvel, com o cabelo lhe caindo pelo
rosto em cachos desordenados. Por mais que respirasse, tinha a impresso de no
conseguir encher os pulmes o suficiente.
       Durante o trajeto at Karteh-Seh, Zalmai ia sacolejando no colo do pai e
Aziza, de mos dadas com Mariam, caminhava a passos rpidos a seu lado. O vento
soprava o leno sujo que a menina trazia na cabea e sacudia a bainha de seu
vestido. Estava mais sria agora, como se houvesse comeado a perceber, a cada
passo, que a estavam enganando. Laila no teve coragem de contar a verdade  filha.
Disse-lhe que ela estava indo para uma escola, uma escola especial, onde as
crianas comiam e dormiam, sem voltar para casa depois das aulas. Agora, l estava
ela de novo, bombardeando Laila com as mesmas perguntas que vinha lhe fazendo h
dias. Os alunos dormiam em quartos separados ou todos juntos, num quarto bem
grande? Ela ia ter amigos? A me tinha certeza de que os professores eram
bonzinhos?
       E, mais de uma vez, quanto tempo vou ter que ficar l?
       Pararam a dois quarteires do prdio atarracado, que mais parecia um
quartel.
       -- Zalmai e eu vamos ficar esperando aqui -- disse Rashid. -- Ah, antes que me
esquea...
       Tirou um chiclete do bolso, um presente de despedida, e o entregou a Aziza
todo prosa, com um ar magnnimo. A menina pegou o chiclete e agradeceu, com um
murmrio. Laila sempre se maravilhava com a bondade da filha, com sua imensa
capacidade de perdoar, e seus olhos se encheram de lgrimas. Sentiu o corao
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apertado pela tristeza de pensar que, aquela tarde, Aziza no cochilaria ao seu
lado, que no sentiria o peso quase imperceptvel do bracinho da menina em seu
peito, o contorno daquela cabecinha apoiado em suas costelas, o hlito de Aziza
esquentando o seu pescoo, seus calcanhares pressionando-lhe a barriga.
        Quando se afastaram, Zalmai comeou a chorar, gritando "Ziza! Ziza!". O
menino ficou se remexendo, dando chutes, chamando pela irm, at que se distraiu
com o macaco de um tocador de realejo do outro lado da rua.
        Mariam, Laila e Aziza percorreram os ltimos quarteires sozinhas. Quando
chegaram mais perto, Laila viu a fachada rachada do prdio, seu telhado meio
despencado, as tbuas pregadas nas janelas sem vidraas, a parte mais alta de um
balano por cima do muro caindo aos pedaos.
        Pararam diante da porta e Laila repetiu para a filha o que j tinha lhe dito
antes.
        -- Se perguntarem por seu pai, o que voc vai dizer?
        -- Que os mujahedins o mataram -- respondeu Aziza, compenetrada.
        -- timo, Aziza. Voc est entendendo, no ?
        -- E porque essa escola  especial -- disse a menina. Agora que estavam ali, e
o prdio tinha se tornado realidade, parecia bem abalada. Seu lbio superior tremia
e seus olhos ameaavam se encher de lgrimas. Laila percebeu, ento, que a filha
estava lutando para ser corajosa. -- Se dissermos a verdade -- prosseguiu Aziza, meio
sem flego, com um fiozinho de voz --, eles no vo me aceitar. E uma escola
especial. Quero ir para casa.
        -- Venho visitar voc o tempo todo -- disse Laila, fazendo um grande esforo.
-- Prometo.
        -- Eu tambm -- disse Mariam. -- Ns duas viremos visit-la, Aziza 70, e vamos
brincar juntas, como sempre fazemos. E s por algum tempo, at o seu pai arranjar
trabalho.
        -- Aqui tem comida -- acrescentou Laila, trmula, sentindo-se aliviada por
estar de burqa, pois, por baixo daquele traje, Aziza no podia ver que estava
arrasada. -- Aqui, voc no vai ficar com fome. Eles tm arroz, po e gua, e talvez
at frutas.
        -- Mas voc no vai estar aqui. E khala Mariam no vai estar comigo.
        -- Venho visit-la -- disse Laila. -- Sempre. Olhe para mim, Aziza. Venho
visit-la. Sou sua me. Venho visit-la, nem que tenha de morrer por isso.
        O diretor do orfanato era um homem encurvado, de ombros estreitos, com um
rosto levemente enrugado. Era meio calvo, tinha uma barba arrepiada e olhos midos
que pareciam ervilhas. O seu nome era Zaman. Usava um barrete e a lente esquerda de
seus culos estava quebrada.
        Enquanto se dirigiam ao seu escritrio, perguntou a Laila e a Mariam como
ambas se chamavam e tambm perguntou o nome e a idade de Aziza. Seguiram por
corredores mal iluminados onde crianas descalas se afastavam para deix-los
passar e ficavam s olhando. Todas estavam descabeladas ou tinham a cabea raspada,
usavam suteres com as mangas esfarrapadas, jeans rasgados, com os joelhos
inteiramente rotos, e casacos remendados com fita isolante. Laila sentiu cheiro de
sabo e talco, amnia e urina, e percebeu tambm a apreenso crescente de Aziza,
que tinha comeado a choramingar.
        A certa altura, avistou o ptio: um terreno cheio de mato, um balano
caqutico, pneus velhos, uma bola de basquete murcha. Os quartos por que passavam
estavam vazios, com pedaos de plstico cobrindo o vo das janelas. De um desses
quartos, surgiu um menino que agarrou Laila pelo brao, tentando subir em seu colo.
Um empregado, que estava limpando algo que parecia uma poa de urina, deixou o
esfrego de lado e veio afastar o garoto dali.
        Zaman era gentil com os rfos, mas parecia trat-los como se fossem
propriedade sua: ao passar, dava uns tapinhas na cabea de alguns, dizia-lhes uma
ou duas palavras cordiais, afagava-lhes o cabelo, sem contudo assumir uma atitude
protetora. As crianas gostavam daqueles gestos. Laila teve a impresso de que
todos o olhavam a espera de um sinal de aprovao.
        Ele as convidou a entrar no escritrio mobiliado apenas por trs cadeiras de
armar e uma escrivaninha catica, com pilhas de papel espalhadas por todo lado.
        -- A senhora  de Herat -- disse ele, dirigindo-se a Mariam. -- D para notar
pelo sotaque.
        Reclinou-se um pouco na cadeira, cruzou as mos na altura da barriga e disse
que tinha um cunhado que morava l. Mesmo em gestos to banais como esses, Laila
podia notar os movimentos cuidadosamente estudados. E, embora o diretor sorrisse
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ligeiramente, a moa percebia algo perturbado e sofrido por baixo daquela
aparncia, um desapontamento e um sentimento de derrota sob a capa de um falso bom
humor.
       -- Ele trabalhava com vidro -- prosseguiu Zaman. -- Fazia aqueles lindos cisnes
verde-jade. Olhando contra o sol, eles brilham por dentro, como se o vidro
estivesse cheio de jias minsculas. A senhora voltou  sua terra?
       Mariam lhe disse que no.
       -- Eu sou de Kandahar. J esteve l, hamshira? No? Ah,  uma cidade linda.
Que jardins! E as uvas! Ah, as uvas... Um verdadeiro fascnio para o paladar!
       Umas poucas crianas tinham parado na porta e estavam olhando l para
dentro. Zaman os despachou delicadamente, em pashto.
       --  claro que tambm adoro Herat. A cidade dos artistas e dos escritores,
dos sufis e dos msticos. Conhecem a velha piada que diz que no se pode esticar a
perna em Herat sem chutar o traseiro de um poeta?
       Ao lado de Laila, Aziza riu.
       -- Ah, pronto! -- exclamou Zaman, fingindo surpresa. -- Fiz voc rir, minha
pequena hamshira. Em geral, essa  a parte mais difcil dessa histria. J estava
at ficando preocupado. Achei que teria que cacarejar feito galinha ou zurrar como
um burro... Mas, no... E voc  uma gracinha.
       Chamou um dos empregados e lhe pediu que olhasse Aziza por uns instantes. A
menina pulou no colo de Mariam e se agarrou a ela.
       -- Ns s vamos conversar, querida -- disse Laila. -- Vou estar aqui, est bem?
No vou sair daqui, no.
       -- Que tal a gente ir l fora um pouquinho, Aziza jo? -- perguntou Mariam. --
Sua me precisa conversar com kaka Zaman. E s um minuto. Venha.
       Quando ficaram a ss, Zaman lhe perguntou a data de nascimento de Aziza, seu
histrico de doenas, se tinha alguma alergia. Perguntou pelo pai da menina e Laila
experimentou a estranha sensao de estar contando uma mentira que era efetivamente
verdade. Zaman a ouviu e, pela expresso de seu rosto, no se podia dizer se
acreditava ou no no que a moa lhe contou. Segundo afirmou, dirigia aquele
orfanato baseando-se no princpio da honra. Se uma hamshira lhe dizia que seu
marido havia morrido e que no podia criar os filhos, ele aceitava, sem discutir.
       Laila comeou a chorar.
       Zaman pousou a caneta.
       -- Estou envergonhada -- balbuciou Laila, cobrindo a boca com a mo.
       -- Olhe para mim, hamshira.
       -- Que me  essa que abandona o prprio filho?
       -- Olhe para mim. Laila ergueu os olhos.
       -- No  culpa sua, est me ouvindo? A culpa no  sua. A culpa e toda desses
wahshis, desses selvagens. Fico at com vergonha de ser pashtun. Eles desgraaram o
nome do meu povo. E a senhora no  a nica, hamshira. Estamos recebendo mes como
a senhora o tempo todo -- o tempo todo, mesmo. Mes que vm at aqui, pois no
conseguem dar comida aos filhos e tudo porque os talibs no permitem que vocs
saiam para ganhar a prpria vida. Portanto, no se culpe. Ningum aqui a est
acusando de nada. Eu compreendo -- disse ele, inclinando-se para frente. -- Eu
compreendo, hamshira.
       Laila enxugou os olhos com uma ponta da burqa.
       -- Como pode ver -- prosseguiu Zaman, fazendo um gesto com a mo --, esse lugar
est num estado deplorvel. Nunca temos dinheiro, lutamos com a maior dificuldade,
sempre improvisando. Recebemos pouco ou nenhum apoio do Talib. Mas damos um jeito.
Como a senhora, fazemos o que temos a fazer. Allah  bom e misericordioso. Ele nos
prov e, enquanto Ele olhar por ns, garanto que sua filha ter roupa e comida. E o
que posso lhe prometer.
       Laila assentiu.
       -- Esta tudo bem? -- indagou ele, com um sorriso afvel. -- No chore,
hamshira. No deixe que ela a veja chorando.
       Laila enxugou os olhos novamente.
       -- Deus o abenoe -- disse, com voz rouca. -- Deus o abenoe, irmo.
       Quando, porm, chegou a hora de se despedirem, aconteceu exatamente o que
Laila tanto temia.
       Aziza entrou em pnico.
       No trajeto de volta para casa, apoiada em Mariam, Laila podia ouvir os
gritos apavorados da filha. Revia nitidamente a cena: as mos grandes e calosas de
Zaman segurando a menina pelos braos, puxando-a, a princpio com brandura, depois,
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
com mais vigor, e, finalmente, com fora, para faz-la soltar a me. Via Aziza, nos
braos do diretor, dando chutes e pontaps, enquanto ele a levava s pressas para
algum lugar; e ouvia a menina gritar como se fosse desaparecer da face da terra. E
via a si mesma, correndo pelo corredor, de cabea baixa, com um berro lhe subindo
pela garganta.
       -- Sinto o cheiro dela -- disse a Mariam quando j estavam em casa. Seus olhos
fitavam o vazio, por sobre os ombros de Mariam, para alm do quintal, dos muros, na
direo das montanhas, escuras como uma cusparada de tabaco. -- Sinto o cheiro dela
dormindo. Voc tambm sente? Sente o cheiro dela?
       -- Ah, Laila jo -- disse Mariam --, no fique assim. Para qu? De que adianta?
       De incio, Rashid condescendia e acompanhava Laila, Mariam e Zalmai. Durante
o trajeto, porm, fazia de tudo para ela notar como era difcil para ele ir at l:
ostentava um ar sofrido, reclamava dizendo como lhe doam as pernas e as costas. Em
suma, se esmerava em deixar bem claro o sacrifcio que ela o obrigava a fazer indo
com eles trs at o orfanato.
       -- No sou mais um rapazinho -- dizia ele. -- Claro que sei que voc no se
importa com isso. Sei que me destruiria, se pudesse. Mas voc no pode, Laila. No
tem a mnima condio de fazer isso.
       A dois quarteires do orfanato, ele parava e s lhes concedia 15 minutos.
       -- Mais um minuto que seja -- ameaava -- e vou embora. Vou mesmo.
       Laila precisava atorment-lo, implorar para conseguir ficar um pouquinho
mais com a filha. Fazia isso por si mesma, mas tambm por Mariam que andava
desolada com a ausncia de Aziza, embora, como sempre, optasse por sofrer sozinha e
calada. E por Zalmai, que vivia perguntando pela irm, e fazia as maiores cenas
que, s vezes, acabavam com o menino aos prantos, inconsolvel.
       Certos dias, quando estavam indo para o orfanato, Rashid parava no meio do
caminho, queixando-se de dores nas pernas. Dava meia-volta, ento, e comeava a
voltar para casa, todo lampeiro, sem ao menos mancar. Ou estalava a lngua,
dizendo:
       -- So os meus pulmes, Laila. Estou sem flego. Quem sabe amanh no me
sinto melhor, ou depois de amanh. Vamos ver.
       E nem se dava o trabalho de fingir que ofegava. Muitas vezes, assim que
comeava a voltar para casa, acendia um cigarro. Laila no tinha ento outra
escolha seno ir atrs dele, desamparada, tremendo de raiva e sentindo-se
inteiramente impotente.
       Ate que, um belo dia, Rashid declarou que no ia mais lev-la ao orfanato.
       -- Estou cansado demais de ficar andando pela rua para cima e para baixo,
procurando emprego -- disse ele.
       -- Ento, vou sozinha -- retrucou Laila. -- Voc no pode me impedir, Rashid.
Esta me ouvindo? Pode me bater o quanto quiser, mas vou continuar indo l.
       -- Como quiser. Mas no vai conseguir passar pelos talibs. Depois, no venha
me dizer que no avisei...
       -- Vou com voc -- interveio Mariam. Mas Laila no deixou.
       -- No. Voc tem que ficar em casa com Zalmai. Se formos detidas... no quero
que ele veja essa cena.
       De repente, a vida de Laila tinha se transformado nisso: encontrar um jeito
de ver Aziza. Na maior parte do tempo, no conseguia sequer chegar ao orfanato.
Logo ao atravessar a rua era notada pelos talibs que a crivavam de perguntas:
"Qual  o seu nome? Onde est indo? Por que est sozinha? Onde est o seu mahram? E
acabava tendo de voltar para casa. s vezes, tinha sorte, e s lhe davam uma
bronca, um pontap no traseiro ou um tapa nas costas. Outras vezes, porm, eram as
surras com cassetetes, com varas verdes, com chicotes, alm de tapas e, quase
sempre, socos.
       Um dia, um jovem talib lhe bateu com uma antena de rdio. Quando ficou
satisfeito, o rapaz lhe deu uma ltima pancada na nuca e disse:
       -- Se eu a vir novamente, vou surr-la at o leite de sua me sair jorrando
dos seus ossos.
       Dessa vez, Laila voltou para casa. Deitou de bruos, sentindo-se um animal
idiota e deplorvel, e gemeu quando Mariam ps uns panos midos em suas costas e em
suas coxas ensangentadas. Geralmente, porm, ela se recusava a ceder. Fingia que
estava indo para casa e, depois, seguia por outro caminho. s vezes, era apanhada,
interrogada e punida duas, trs ou at quatro vezes no mesmo dia. Ento, os
chicotes e as antenas se erguiam  sua frente, e ela se arrastava de volta para
casa, ensangentada, sem ter conseguido chegar perto de Aziza. Comeou ento a usar
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camadas extras de roupas, mesmo no calor, pondo duas ou trs suteres por baixo da
burqa para se proteger das pancadas.
        Mas, se conseguia escapar aos talibs, a recompensa valia a pena. Podia
passar o tempo que quisesse, horas at, com Aziza. As duas se sentavam no ptio,
perto do balano, em meio a outras crianas e mes que vinham de visita, e
conversavam sobre o que a menina tinha aprendido naquela semana.
        Aziza lhe disse que kaka Zaman fazia questo de lhes ensinar alguma coisa
diariamente: quase sempre liam e escreviam, s vezes, aprendiam geografia, um pouco
de histria ou de cincias, algo sobre plantas e animais.
        -- Mas temos de fechar as cortinas -- acrescentou a menina --, para os talibs
no poderem nos ver. E disse ainda que kaka Zaman sempre tinha agulhas e l  mo,
para o caso de uma inspeo. -- A, escondemos os livros e fingimos que estamos
fazendo tric.
        Certa feita, durante uma daquelas visitas, Laila viu uma mulher de
meia-idade, com a burqa jogada para trs, deixando o seu rosto descoberto. Estava
conversando com trs meninos e uma menina. A moa reconheceu aquele rosto afilado,
as sobrancelhas espessas, apesar da boca encovada e do cabelo grisalho. Lembrou dos
xales, das saias pretas, da voz rspida, de jeito como ela prendia o cabelo bem
preto num coque que deixava ver uns pelinhos escuros na nuca. Laila lembrou ainda
que, naquela poca, essa mulher proibiu que suas alunas usassem o vu, afirmando
que os homens e as mulheres eram iguais, que no havia motivo para elas se cobrirem
se os homens no precisavam faz-lo.
        A certa altura, Kbala Rangmaal ergueu a cabea e seus olhos se encontraram,
mas Laila no viu qualquer sinal de reconhecimento na expresso de sua
ex-professora.
        -- Existem uma fraturas na crosta terrestre -- disse Aziza. -- Elas so
chamadas de falhas.
        Era uma tarde quente, uma sexta-feira, em junho de 2001. Todos os quatro
estavam sentados nos fundos do orfanato: Laila, Zalmai, Mariam e Aziza. Desta vez,
Rashid tinha cedido, coisa rara, alis, e os levou at l. Ficou esperando na rua,
no ponto de nibus.
        Crianas descalas corriam ao seu redor. Algum chutou uma bola de futebol
murcha, e, mais que depressa, todos saram correndo atrs dela.
        -- E, de ambos os lados dessas falhas, h as camadas de rochas que formam a
crosta terrestre -- prosseguia Aziza.
        Tinham puxado o cabelo da menina para trs e feito uma trana presa bem no
alto de sua cabea. Laila sentiu inveja daquela pessoa que se sentou atrs de sua
filha e foi repartindo as mechas do cabelo da menina, pedindo-lhe que ficasse
quieta.
        Aziza estava explicando o que dizia abrindo as mos, com as palmas viradas
para cima, e esfregando uma na outra. Zalmai olhava aquela demonstrao com o maior
interesse.
        -- So as placas quetnicas, no ?
        -- Tectnicas -- emendou Laila. Tinha dificuldades para falar. O seu queixo
ainda doa, bem como as costas e o pescoo. Seu lbio estava inchado e a lngua no
parava de se enfiar no buraco deixado pelo incisivo inferior que Rashid lhe
arrancara com um soco dois dias antes. Antes de seus pais morrerem e de sua vida
virar de pernas para o ar.

       Laila jamais teria imaginado que um corpo humano pudesse agentar ser
espancado tantas vezes, com tanta regularidade, e, mesmo assim, continuar
funcionando.
       -- Isso mesmo. E quando se aproximam uma da outra, elas se roam ou se
chocam, est entendendo, mammy? A liberam energia.  essa energia que corre pela
superfcie da Terra, fazendo ela tremer.
       -- Voc est ficando muito sabida -- disse Mariam. -- Muito mais sabida que
essa sua khala bobalhona.
       O rosto da menina se iluminou.
       -- Voc no  uma bobalhona, khala Mariam. E kaka Zaman diz que, s vezes,
esse movimento de rochas acontece bem l no fundo,  fortssimo e assustador, mas
ns, aqui na superfcie, s sentimos um leve tremor. S um leve tremor.
       Na visita que fizeram antes dessa, foram os tomos de oxignio na atmosfera
fazendo a luz azul do sol se dispersar. "Se a Terra no tivesse atmosfera", disse
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Aziza um tanto ansiosa, "o cu no seria azul, e sim como um mar bem preto. E o sol
seria uma enorme estrela brilhante nessa escurido".
        -- Desta vez Aziza vai voltar para casa com a gente? -- perguntou Zalmai.
        -- Ainda no, querido -- respondeu sua me. -- Mas logo, logo ela vai. Laila o
viu se afastar, andando igualzinho ao pai, meio inclinado para frente, com os ps
para dentro. O menino foi at o balano, empurrou um dos assentos vazios e acabou
se sentando no cho de cimento para arrancar o mato de uma rachadura.
        -- A gua evapora pelas folhas, sabia disso, mammy? Exatamente como acontece
com a roupa pendurada para secar. E, com isso, a gua vai para a parte alta da
rvore. Desde o cho, passando pelas razes e, depois, subindo pelo tronco, pelos
galhos e chegando at as folhas. Isso se chama transpirao.
        No raro Laila se perguntava o que os talibs fariam se descobrissem essa
histria das aulas clandestinas de kaka Zaman.
        Durante as visitas, Aziza no deixava muito espao para o silncio. Estava
sempre falando alto e efusivamente, com uma voz vibrante. Fazia digresses com
relao aos temas e gesticulava muito, mexendo as mos de um jeito irrequieto, nada
habitual naquela menina. E seu riso tambm estava diferente. No era exatamente um
riso, mas um toque de nervosismo que pretendia ser tranqilizador. Ao menos era o
que Laila desconfiava.
        E havia ainda outras mudanas. Laila reparou que a filha tinha terra nas
unhas. Quando Aziza percebeu que a me tinha notado aquilo, logo tratou de esconder
as mos sob as coxas. Sempre que uma criana chorava perto delas, com o nariz
escorrendo, ou que alguma delas passava por ali, de bunda de fora, com o cabelo
imundo, Aziza pestanejava e tentava disfarar. Parecia at uma dona de casa
constrangida porque as visitas estavam vendo a baguna de seu lar, o desleixo de
seus filhos.
        Quando lhe perguntavam como estavam as coisas, as respostas eram sempre
vagas, mas animadas.
        -- Estou tima, khala. tima.
        -- Alguma criana maltrata voc?
        -- No, mammy. Todo mundo aqui  muito legal.
        -- Tem comido direito? Tem dormido bem?
        -- Tenho comido, sim. E dormido, tambm. Ontem  noite comemos carneiro.
Talvez tenha sido na semana passada.
        Quando a filha falava desse jeito, Laila via nela mais que uma pequena
Mariam.
        Agora, a menina estava gaguejando. Foi Mariam quem reparou primeiro. Era uma
gagueira sutil, mas perceptvel. E ficava mais ntida nas palavras que comeavam
com "t". Laila foi falar com Zaman a este respeito. Ele franziu a testa e
respondeu:
        -- Achei que ela sempre tivesse gaguejado.
        Naquela tarde de sexta-feira, saram do orfanato levando Aziza para dar um
passeio e foram ao encontro de Rashid que as esperava no ponto de nibus. Quando
Zalmai viu o pai, soltou um gritinho e comeou a se remexer, tentando sair do colo
da me. Aziza o cumprimentou secamente, mas sem hostilidade.
        Rashid lhes disse que teriam de se apressar, pois, em duas horas, precisava
estar no trabalho. Era a sua primeira semana como porteiro do Intercontinental. Do
meio-dia s oito, seis dias por semana, abria portas de carros, carregava bagagens,
e at limpava o cho se porventura respingasse alguma coisa ali. s vezes, no fim
do dia, o cozinheiro do restaurante, que funcionava em sistema de buf, deixava que
ele levasse algumas sobras para casa, contanto que fizesse tudo discretamente. Eram
almndegas nadando em gordura; asas de frango fritas, com a pele endurecida e
ressecada; alguma massa recheada j borrachuda; arroz duro e empedrado. Rashid
prometeu a Laila que, assim que tivesse juntado algum dinheiro, Aziza poderia
voltar para casa.
        Ele estava de uniforme: terno bord de polister, camisa branca, gravata de
n feito e o quepe comprimindo o cabelo branco. Vestido daquele jeito, Rashid era
outra pessoa. Parecia vulnervel, lamentavelmente desnorteado, quase inofensivo.
Como algum que houvesse aceitado, sem esboar qualquer protesto, as indignidades
que a vida lhe imps. Algum a um s tempo pattico e admirvel em sua docilidade.
        Pegaram o nibus at "Cidade Titanic". Caminharam pelo leito do rio
margeado, de ambos os lados, por lojinhas improvisadas. Perto da ponte, enquanto
desciam os degraus, viram um homem morto, pendurado num guindaste. Estava descalo,
suas orelhas haviam sido arrancadas e seu pescoo estava amarrado  ponta de uma
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corda. No rio, misturaram-se a multido de compradores que circulava por ali, aos
cambistas e aos funcionrios das ONGs, com ar entediado, aos vendedores de
cigarros, s mulheres inteiramente cobertas que mostravam falsas receitas de
antibiticos aos passantes, pedindo dinheiro para poder comprar os tais remdios.
Talibs, empunhando chicotes e mascando naswar, patrulhavam o local a cata de risos
indiscretos ou de rostos descobertos.
       Num quiosque de brinquedos, entre um vendedor de casacos poostin e uma
barraca de flores artificiais, Zalmai escolheu uma bola de basquete de borracha com
riscos azuis e amarelos.
       -- Escolha alguma coisa -- disse Rashid, dirigindo-se a Aziza. A menina se
aproximou, hesitante, visivelmente embaraada.
       -- Ande logo. Tenho que estar no trabalho daqui a uma hora. Aziza acabou
escolhendo uma daquelas mquinas de chicletes. A mesma moeda inserida para fazer a
bolinha cair voltava, saindo por uma portinhola na base do brinquedo.
       O rosto de Rashid se anuviou quando o vendedor lhe disse o preo. Houve uma
breve discusso e, no fim, Rashid se virou para Aziza, em tom de repreenso, como
se fosse ela que tivesse discutido com ele.
       -- Devolva isso. No posso comprar os dois.
       No caminho de volta, a aparente animao de Aziza foi desaparecendo  medida
que se aproximavam do orfanato. A menina parou de gesticular. Seu rosto ficou
taciturno. Era sempre assim. Agora, era Laila que, com a ajuda de Mariam, tratava
de puxar conversa, rindo nervosamente, falando a toa e quase sem parar, tentando
preencher aquele silncio melanclico.
       Mais tarde, depois que Rashid as deixou em casa e pegou o nibus para ir
trabalhar, Laila viu a filha acenando e se arrastando junto ao muro dos fundos do
orfanato. Lembrou da gagueira de Aziza, e do que ela tinha dito a respeito de
fraturas e colises fortssimas que aconteciam bem l no fundo, mas que, s vezes,
ns s percebamos como um ligeiro tremor na superfcie.
       -- V embora! -- gritou Zalmai.
       -- Shhh! -- exclamou Mariam. -- Com quem voc est falando?
       -- Com ele. Com aquele homem ali -- respondeu o menino, apontando numa
direo.
       Laila acompanhou o gesto do filho. Efetivamente, tinha um homem parado na
frente da casa, recostado na porta. Ele virou a cabea quando as viu chegando.
Descruzou os braos. Deu uns passos em sua direo, mancando.
       Laila parou.
       Um rudo surdo lhe subiu pela garganta. Suas pernas ficaram bambas. De
repente, quis, precisou segurar o brao de Mariam, ou seu ombro, seu pulso,
qualquer coisa, fosse o que fosse, para no cair. Mas no fez nada disso. No ousou
faz-lo. No ousou mover um msculo. No ousou respirar, ou sequer piscar, temendo
que aquilo no passasse de uma miragem, uma frgil iluso que se desvaneceria ao
mnimo movimento que fizesse. Ficou ento absolutamente imvel, olhando para Tariq,
at o seu peito implorar pedindo ar e os seus olhos arderem querendo piscar. E,
sabe-se l como, por um milagre qualquer, depois que respirou, depois que fechou os
olhos e voltou a abri-los, ele ainda estava l. Tariq ainda estava parado l.
       Ento ela se permitiu dar um passo em sua direo. E mais outro. E outro
ainda. De repente, estava correndo.

       43
       Mariam
       L EM CIMA, NO QUARTO DE MARIAM, Zalmai estava impossvel. Brincou com a
bola nova de borracha por algum tempo, jogando-a no cho e nas paredes. Mariam lhe
pediu para no fazer isso, mas o menino sabia que ela no tinha nenhuma autoridade
sobre ele e continuou atirando a bola para c e para l, enfrentando-a com um ar
desafiador. Depois, os dois passaram alguns instantes empurrando, de um lado a
outro do quarto, a ambulncia de brinquedo com letras vermelhas enormes nas
laterais.
       Mais cedo, quando encontraram Tariq na porta da casa, Zalmai agarrou a bola
contra o peito e enfiou o dedo na boca, coisa que j no fazia h tempos, a no ser
quando estava com medo. E ficou olhando para o rapaz, desconfiado.
       -- Quem  aquele homem? -- perguntou ele enfim. -- No gosto dele.
       Manam ia comear a lhe dar uma explicao, contar que Laila e ele tinham
crescido juntos, mas o menino a interrompeu, pedindo-lhe que virasse a ambulncia,
para o motor ficar de frente para ele. Quando ela fez isso, ele disse que queria
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brincar de novo com a bola.
       -- Onde ela est? -- indagou Zalmai. -- Onde est a bola que baba jan me deu?
Onde ela est? Quero minha bola! Quero minha bola!
       E sua voz foi ficando mais alta e estridente a cada palavra que dizia.
       -- Ela estava bem aqui -- disse Mariam.
       -- Ela sumiu -- exclamou Zalmai, chorando. -- Sumiu, sim. Sei que ela sumiu.
Onde ela est? Onde?
       -- Pronto, achei -- disse Mariam, pegando a bola em cima do armrio, onde ela
tinha cado. Mas Zalmai continuou aos berros, dando socos e gritando que no era a
mesma bola, no podia ser, porque a dele tinha sumido; insistindo que aquela era
falsa e perguntando onde a sua tinha ido parar. Onde? Onde? Onde?
       Gritou tanto que Laila teve de subir as escadas, peg-lo no colo, embal-lo,
passar os dedos por seus cachinhos escuros, enxugar o seu rosto molhado e estalar a
lngua bem perto de seu ouvido.
       Mariam ficou esperando no corredor. Dali, tudo o que via eram as pernas
compridas de Tariq, a verdadeira e a outra, mecnica, de cala cqui, esticadas no
cho sem tapete da sala de estar. Foi ento que compreendeu por que o porteiro do
Intercontinental tinha lhe parecido familiar no dia em que foi at l com Rashid,
tentando telefonar para Jalil. Como ele estava de quepe e culos escuros, ela no o
reconheceu de imediato. Mas, de repente, tudo ficou muito claro. Lembrou
perfeitamente daquele dia, nove anos atrs, quando o viu sentado l embaixo,
enxugando a testa com o leno, pedindo um copo de gua. Agora, todo tipo de
pergunta lhe passava pela cabea: Ser que os comprimidos de sulfa faziam parte da
farsa? Qual dos dois armou a mentira, imaginou os detalhes convincentes? E quanto
Rashid teria pagado a Abdul Sharif, ou seja l qual fosse o seu nome, para vir at
ali e destruir Laila com a histria da morte de Tariq?

       44
       Laila
       TARIQ DISSE QUE UM DOS HOMENS com quem dividia a cela tinha um primo que
fora espancado publicamente por pintar flamingos. Ao que parece, esse tal primo era
manaco por essas aves.
       -- Eram cadernos inteiros, daqueles de desenho -- prosseguiu o rapaz. --
Dezenas de pinturas a leo dessas aves andando numa lagoa, pegando sol num pantanal
e acho que at voando pelo cu ao pr-do-sol.
       -- Flamingos... -- disse Laila.
       Ela o via ali, sentado junto  parede, com a perna de verdade dobrada. Tinha
tanta vontade de toc-lo de novo, como fez ainda h pouco no porto, quando correu
ao seu encontro... Agora, se envergonhava s de pensar como o abraou e chorou
encostada em seu peito, como repetiu seu nome mil vezes com voz abafada e rouca.
Ser que tinha sido vida demais? Ser que tinha exagerado? Talvez. Mas no pde
evitar. E, nesse exato momento, adoraria toc-lo de novo, provar a si mesma, mais
uma vez, que ele estava ali, que no era um sonho, um fantasma.
       -- Isso mesmo -- disse ele. -- Flamingos.
       Segundo o rapaz, quando os talibs viram as pinturas, acharam que as patas
longas e nuas das aves eram uma viso ofensiva. Amarraram ento o tal primo,
bateram nas solas de seus ps a ponto de tirar sangue e, depois, lhe propuseram uma
escolha: ou ele destrua as pinturas ou fazia aquelas aves parecerem mais decentes.
Ento, o sujeito pegou o pincel e pintou calas em cada um dos flamingos.
       -- E tudo se resolveu -- acrescentou Tariq. -- Agora, eram flamingos islmicos.
       Laila comeou a rir, mas se conteve. Tinha vergonha de seus dentes amarelos,
da falta de um incisivo. Tinha vergonha de sua pele sem vida, de seu lbio inchado.
Adoraria ter podido lavar o rosto ou, pelo menos, pentear o cabelo.

       -- Mas foi o primo quem riu por ltimo -- disse Tariq. -- As tais calas foram
feitas com tinta de aquarela. Assim que os talibs foram embora, ele simplesmente
tirou tudo. -- Sorriu, revelando tambm a falta de um dente, e ficou fitando as
prprias mos. -- Isso mesmo.
       Ele estava usando um pakol na cabea, botas de caminhada e um suter de l
preto enfiado para dentro da cala cqui. Assentia lentamente com a cabea,
esboando um ligeiro sorriso. Laila no se lembrava de ouvi-lo usar tanto a
expresso "isso mesmo" antes, e essa atitude pensativa, com os dedos das mos
formando uma tenda em seu colo, e o aceno de cabea tambm eram novidade. Uma
atitude to adulta, uma expresso to adulta... Mas por que seria to espantoso?
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Afinal, ele era efetivamente adulto, um homem de vinte e cinco anos, com gestos
lentos e uma ponta de cansao no sorriso. Alto, barbudo, mais magro do que o via em
seus sonhos, mas com mos que pareciam fortes, mos de trabalhador, com veias
saltadas e sinuosas. Ainda tinha aquele rosto magro e bonito, mas sua pele no era
mais como antes: a sua testa mostrava as marcas do tempo e estava queimada pelo
sol, como o seu pescoo; era a testa de um viajante ao fim de uma jornada longa e
exaustiva. O pakol, posto mais para trs, revelava os primeiros indcios de
calvcie. O tom de seus olhos cor de avel era mais desbotado do que em suas
lembranas, mais claro, ou quem sabe no era apenas o efeito da luz da sala?
       A moa se lembrou ento da me de Tariq, com seus gestos pausados, seu
sorriso esperto, sua estranha peruca arroxeada. E lembrou tambm de seu pai, com
aqueles olhos meio estrbicos, aquele humor sarcstico. Mais cedo, no porto, com a
voz embargada pelas lgrimas, tropeando nas prprias palavras, Laila lhe contou o
que achava que tinha acontecido com sua famlia, e ele abanou a cabea.
Perguntou-lhe ento, agora, como estavam seus pais. Mas se arrependeu quando o
rapaz baixou os olhos e disse, de um jeito um tanto distrado:
       -- Morreram.
       -- Sinto muito.
       -- . Eu tambm. Tome -- disse ele, tirando do bolso um saquinho de papel e
estendendo-o para ela. -- Com os cumprimentos de Alyona -- acrescentou.
       Ali dentro, havia um pedao de queijo embrulhado em plstico.
       -- Alyona. Lindo nome -- disse Laila. E se esforou para manter a voz firme ao
prosseguir. --  sua esposa?
       -- Minha cabra -- retrucou ele, sorrindo com certa expectativa, como se
estivesse esperando que ela revolvesse as lembranas do passado.
       Ento, ela se lembrou. O filme sovitico. Alyona era a filha do capito, a
moa que estava apaixonada pelo imediato do navio. Depois, se recordou daquele dia
em que os dois, juntamente com Hasina, foram ver os tanques e os jipes soviticos
deixando Cabul, o dia em que Tariq estava usando aquele ridculo gorro de pele
russo.
       -- Tive que amarr-la numa estaca cravada no cho -- disse Tariq. -- E tambm
constru uma cerca. Por causa dos lobos. L nas colinas, onde moro, talvez a uns
quinhentos metros de distncia, tem um bosque quase todo de pinheiros, alguns
abetos, alguns cedros. Em geral, eles s ficam pelo bosque, mas nunca se sabe. Com
uma cabra balindo, um lobo pode resolver sair vagando por ali... Por isso a cerca.
E a estaca.
       Laila lhe perguntou que colinas eram essas.
       -- Pir Panjai -- disse ele. -- No Paquisto. O lugar onde moro  conhecido como
Murree. E uma regio de veraneio, a uma hora de Islamabad.  um local montanhoso,
muito verde, cheio de rvores, bem acima do nvel do mar. Por isso e fresco no
vero. Perfeito para turistas.
       Tariq lhe contou que foram os britnicos que construram tudo por ali, perro
de seu quartel em Rawalpindi, para os vitorianos escaparem ao calor. Ainda se vem
algumas relquias do perodo colonial, como o salo de ch, os bangals de teto de
zinco, que eles chamavam de cottages, esse tipo de coisa. A cidade em si  pequena
e agradvel. A rua principal era chamada The Mail.  onde ficam o correio, um
bazaar, uns poucos restaurantes, lojas que cobram os tubos dos turistas por objetos
de vidro pintado e tapetes artesanais. Curiosamente, a rua  de mo nica e
funciona num sentido, numa semana, e no outro, na semana seguinte.
       -- A gente de l diz que o trfego tambm  assim em alguns lugares da
Irlanda -- comentou Tariq. -- No sei se  verdade. De todo modo,  um lugar bonito.
A vida por l  bem simples, mas eu gosto. Gosto de morar ali.
       -- Com sua cabra. Com Alyona.
       Laila disse isso menos como uma brincadeira do que como um jeito disfarado
de dar outro rumo  conversa, tentando saber, por exemplo, se mais algum se
preocupava com essa histria de lobos que podiam comer as cabras. Mas Tariq
prosseguiu, assentindo ligeiramente com a cabea.
       -- Tambm lamento muito o que aconteceu com seus pais.
       -- Ah, voc soube...
       -- Falei com alguns vizinhos, antes de vocs chegarem -- disse ele. E, durante
a pausa que se seguiu, Laila se perguntou o que mais os vizinhos teriam dito. -- No
conheo mais ningum. Dos velhos tempos, quero dizer...
       -- Todo mundo foi embora. No tem mesmo mais ningum que voc conhea.
       -- No reconheo Cabul.
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       -- Nem eu -- observou Laila. -- E olhe que nunca sa daqui.

        -- Mammy arranjou um amigo -- disse Zalmai, depois do jantar, naquela mesma
noite, quando Tariq j tinha ido embora. --  um homem.
        -- Ah,  mesmo? -- indagou Rashid, erguendo os olhos.
        Tariq perguntou se podia fumar.
        Tinham passado algum tempo no campo de refugiados de Nasir Bagh, perto de
Peshawar, disse ele, batendo a cinza do cigarro num pires. Quando chegaram, j
havia sessenta mil afegos vivendo ali.
        -- No era to ruim quanto alguns outros campos como, Deus me perdoe, Jalozai
-- prosseguiu ele. -- Acho que, a certa altura, chegou a ser uma espcie de
campo-modelo, na poca da Guerra Fria, um lugar que o Ocidente mostrava para provar
ao mundo que no estava se limitando a introduzir armas no Afeganisto.
        Mas isso foi durante a guerra contra os soviticos, naquela poca do jihad,
do interesse do mundo inteiro pelo pas, das doaes generosas, e das visitas de
gente como Margaret Thatcher.
        -- O resto da histria voc conhece, Laila -- acrescentou ele. -- Depois da
guerra, o bloco sovitico desmoronou e o Ocidente seguiu em frente. Como j no
havia mais nada que pudesse interessar no Afeganisto, a fonte de dinheiro secou.
Hoje em dia, Nasir Bagh  um punhado de barracas, de poeira, de esgoto a cu
aberto. Quando chegamos l, deram-nos um pau e um pedao de lona dizendo que era
para fazermos nossa prpria tenda.
        Tariq disse ainda que a lembrana mais ntida que tinha de Nasir Bagh, onde
ficaram por um ano, era a cor marrom.
        -- Barracas marrons. Gente marrom. Cachorros marrons. Mingau marrom.
        Todo dia, trepava numa rvore desfolhada e ficava ali, encarapitado num
galho, olhando os refugiados deitados ao sol, com seus ferimentos e seus membros
amputados bem a mostra. Via menininhos esqulidos carregando gua em lates,
apanhando coc de cachorro para usar como lenha, fazendo rifles AK-T de brinquedo
com um pedao de pau e um canivete, arrastando sacos de farinha de trigo que j no
servia mais para fazer um po que prestasse. Ventava tanto que as barracas mal se
agentavam em p. O vento espalhava capim por todo lado e carregava as pipas que os
meninos empinavam nos telhados de uns casebres de barro.
        -- Morriam muitas crianas. De disenteria, de tuberculose, de fome, e do que
mais voc puder imaginar. Quase sempre, era a maldita disenteria. Por Deus, Laila,
se soubesse quantas eu vi serem enterradas... No h cena pior do que essa.
        Tariq cruzou as pernas e o silncio voltou a se instalar entre os dois por
algum tempo.
        -- Meu pai no sobreviveu ao primeiro inverno -- prosseguiu ele. -- Morreu
dormindo. Acho que no sentiu nada.
        E acrescentou que, naquele mesmo inverno, sua me pegou uma pneumonia e
quase morreu. Teria morrido se no fosse por um mdico ali do campo que transformou
uma caminhonete num hospital itinerante. Ela passou a noite inteira acordada, com
febre, tossindo e cuspindo um catarro grosso, de um marrom-avermelhado. As pessoas
faziam longas filas para serem atendidas pelo mdico. E, na fila, todos tremiam,
gemiam, tossiam, alguns com merda escorrendo pelas pernas, outros cansados demais,
famintos demais ou doentes demais para articular uma palavra que fosse.
        -- Mas o mdico era um sujeito decente. Atendeu minha me, mandou que tomasse
uns comprimidos e salvou a vida dela naquele inverno.
        Foi nessa mesma poca que Tariq atacou um garoto.
        -- Ele devia ter uns doze anos, talvez treze -- disse ele, sem qualquer emoo
na voz. -- Ameacei cortar a garganta dele com um caco de vidro e roubei seu cobertor
para dar para minha me.
        Depois que a me ficou doente, Tariq prometeu a si mesmo que no passariam
outro inverno no campo de refugiados. Ia trabalhar, juntar algum dinheiro, lev-la
para morar num apartamento em Peshawar, com aquecimento e gua corrente. Quando
chegou a primavera, saiu  cata de trabalho. De tempos em tempos, vinha um
caminho, bem cedinho, saa recolhendo umas duas dzias de garotos e os levava a um
campo, onde trabalhariam removendo pedras, ou a um pomar, para colherem mas, em
troca de algum dinheiro, ou, s vezes, de um cobertor ou de um par de sapatos. Mas
essa gente nunca quis lev-lo.
        -- Bastava olhar para minha perna e pronto -- disse ele.
        Havia outros tipos de trabalho: lavar pratos, construir casebres, carregar
gua, limpar latrinas. Mas os rapazes mais velhos brigavam por esses empregos, e
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Tariq nunca teve vez.
        At que, um dia, conheceu um mercador, no outono de 1993.
        -- Ele me ofereceu dinheiro para levar um casaco de couro a Lahore. No era
muito, mas talvez desse para pagar um ou quem sabe dois meses de aluguel.
        O homem lhe deu uma passagem de nibus e um endereo, numa esquina, perto da
estao ferroviria de Lahore, onde deveria entregar o casaco a um amigo dele.
        -- Eu sabia.  claro que sabia -- disse Tariq. -- Ele me disse que eu teria de
me virar sozinho se fosse apanhado, que no me esquecesse de que ele sabia onde
minha me morava. Mas, por aquele dinheiro, no dava para dizer no. E o inverno j
vinha chegando novamente.
        -- At onde conseguiu ir? -- perguntou Laila.
        -- No muito longe -- disse ele, rindo envergonhado, como que se desculpando.
-- Nem entrei no nibus. Mas achei que no ia acontecer nada, sabe, que eu estava a
salvo. Como se houvesse um sujeito por a, em algum lugar, com um lpis enfiado
atrs da orelha, anotando tudo, fazendo as contas. Ele olharia para baixo e diria:
"Tudo bem, esse a pode, deixem que faa isso, afinal, ele j teve a sua cota..."
        O haxixe estava escondido nas costuras e se espalhou pela rua quando a
policia meteu a faca no casaco.
        Tariq riu novamente. Foi um riso meio ascendente, trmulo, e Laila lembrou
que ele ria desse jeito, quando os dois eram pequenos, sempre que queria fingir que
no estava envergonhado, disfarar alguma travessura ou alguma besteira que tivesse
feito.
        -- Ele manca -- disse Zalmai.
        -- Por acaso  quem estou pensando? -- perguntou Rashid.
        -- Ele veio apenas visitar -- interveio Mariam.
        -- E voc, cale a boca! -- esbravejou Rashid, erguendo um dedo ameaador. --
Ora, ora, vejam s! -- prosseguiu ele, dirigindo-se a Laila.
        -- Laili e Majnoon juntos outra vez. Como nos bons e velhos tempos. -- E
acrescentou, carrancudo: -- E voc deixou ele entrar. Aqui. Na minha casa. Deixou
ele entrar. Ele ficou aqui, junto com o meu filho.
        -- Voc me enganou. Mentiu para mim -- retrucou Laila, com os dentes cerrados.
-- Voc mandou aquele homem aqui... Sabia que eu ia embora se soubesse que ele
estava vivo.
        -- E VOC NO MENTIU PARA MIM? -- perguntou Rashid, aos berros.
        -- Acha que no entendi tudo? Que no sei sobre a sua harami? Pensa que sou
idiota, sua puta?
        Quanto mais Tariq falava, mais Laila temia o momento em que ele parasse. O
silncio que viria a seguir, indicando que tinha chegado a sua vez de falar, de lhe
dizer como, onde e por qu, de formalizar o que ele com certeza j sabia. Cada vez
que ele fazia uma pausa, ela se sentia meio enjoada. Evitava encontrar o seu olhar.
Fitava as mos dele, aqueles plos escuros e espessos que tinham surgido ali
durante os anos em que no se viram.
        Ele no falou muito sobre os anos em que esteve preso. Disse apenas que
tinha aprendido a falar urdu na cadeia. Quando Laila lhe fez perguntas, o rapaz
abanou a cabea, com certa impacincia. Nesse gesto, Laila viu grades enferrujadas
e corpos sujos, homens violentos e salas apinhadas, tetos midos e mofados. Leu no
seu rosto que aquele lugar tinha significado humilhao, degradao e desespero.
        Tariq lhe contou que sua me tinha tentado visit-lo na priso.
        -- Ela foi at l trs vezes, mas nunca consegui v-la -- disse ele.
        Ele lhe escreveu uma carta, e, depois, mais algumas, embora achasse que a
me nunca as receberia.
        -- E escrevi para voc.
        -- Para mim?
        -- . Milhares de pginas -- respondeu ele. -- O seu amigo Rumi teria ficado
com inveja da minha produo -- acrescentou, e riu novamente. Desta vez, riu alto,
como se estivesse espantado com a prpria ousadia, mas tambm encabulado pelo que
acabava de dizer.
        Zalmai comeou a berrar l em cima.
        -- Exatamente como nos velhos tempos, ento -- disse Rashid.
        -- Vocs dois. Suponho que tenha deixado ele ver o seu rosto.
        -- Deixou sim -- disse Zalmai. E, repetiu, dirigindo-se a Laila:
        -- Deixou sim, mammy. Eu vi.
        -- O seu filho no gosta muito de mim -- observou Tariq quando Laila voltou.
        -- Desculpe -- disse ela. -- Mas no  isso no. Ele s... No ligue para ele.
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       E tratou de mudar de assunto, pois estava se sentindo perversa e culpada por
estar irritada com Zalmai. Afinal, ele era apenas uma criana, um menino que
adorava o pai e a averso instintiva que demonstrava por aquele estranho era
legtima e compreensvel.
       "E escrevi para voc."
       "Milhares de pginas."
       "Milhares de pginas."
       -- H quanto tempo mora em Murree?
       -- H menos de um ano.
       Tariq lhe contou ento que, na priso, tinha feito amizade com um homem mais
velho, um sujeito chamado Salim. Ele era paquistans, um ex-jogador de hquei na
grama que tinha estado preso diversas vezes e que, agora, cumpria pena de dez anos
por ter esfaqueado um policial disfarado. Disse-lhe ainda que em todas as prises
tem gente como Salim. H sempre algum esperto e bem relacionado, que consegue
burlar o sistema e arranja coisas para si e para os outros, algum que cheira tanto
a oportunidade quanto a perigo. Foi ele que tentou ter notcias da me de Tariq.
Foi Salim que mandou que ele se sentasse e, num tom carinhoso, paternal, lhe disse
que ela tinha morrido por causa do frio.
       Tariq passou sete anos na priso paquistanesa.
       -- Ate que me safei com facilidade -- disse ele. -- Tive sorte. O juiz
designado para o meu caso tinha um irmo casado com uma afeg. Acho que ele
resolveu ser indulgente, sei l.
       Quando Tariq estava para sair da cadeia, no incio do inverno de 2000, Salim
lhe deu o endereo e o telefone de seu irmo, Sayid.
       -- Ele me disse que Sayid era dono de um pequeno hotel em Murree -- prosseguiu
Tariq. -- S uns vinte quartos e um saguo, um lugarzinho para turistas. E disse que
eu fosse procur-lo em seu nome.
       Tariq acrescentou que tinha gostado de Murree assim que desceu do nibus: os
pinheiros cobertos de neve; o ar frio, cortante; os chals com janelas de madeira;
a fumaa saindo das chamins.
       "Aquele era um lugar", pensou ele, batendo  porta de Sayid, "que no tinha
absolutamente nada a ver com todos os horrores que tinha conhecido". Mas, acima de
tudo, era um lugar que fazia a prpria idia de sofrimento e de dor parecer de
certa forma obscena, inimaginvel.
       -- Disse a mim mesmo que ali um homem podia tocar a vida. Tariq comeou a
trabalhar como zelador, fazendo tambm consertos e outros pequenos trabalhos. Tudo
correu bem durante o perodo de experincia de um ms, em que recebeu metade do
salrio. Enquanto ele falava, Laila visualizou Sayid, que imaginava como um sujeito
de olhos midos e rosto corado, espiando pela janela da recepo e vendo Tariq
cortar lenha e retirar a neve da entrada. Ela o viu tambm, meio debruado por cima
das pernas do rapaz estiradas no cho, observando enquanto ele consertava um cano
da pia que estava vazando. Pde at visualiz-lo verificando os registros para ver
se estava faltando algum dinheiro.
       Seu quarto ficava num casebre de madeira perto do pequeno bangal da
cozinheira, uma viva j idosa, chamada Adiba. As duas cabanas eram separadas do
corpo do hotel por um punhado de amendoeiras, um banco de jardim e uma fontezinha
de pedra, em forma de pirmide, que, no vero, ficava o dia inteiro ligada,
vertendo gua. Laila imaginou Tariq em seu quartinho, sentado na cama, olhando,
pela janela, aquele mundo verde l fora.
       Quando terminou o perodo de experincia, Sayid passou a lhe pagar o salrio
integral, disse-lhe que podia almoar de graa, deu a ele um casaco de l e lhe
arranjou uma perna nova. Tanta bondade, acrescentou o rapaz, o tinha feito chorar.
       Com o primeiro salrio no bolso, Tariq foi at a aldeia e comprou Alyona.
       -- Ela tem o plo branquinho -- disse ele, sorrindo. -- s vezes, quando neva a
noite inteira, acordo de manh, olho pela janela e tudo o que vejo so dois olhos e
um focinho.
       Laila assentiu. Mais uma vez, os dois ficaram em silncio. L em cima,
Zalmai tinha recomeado a jogar a bola na parede.
       -- Achei que voc tinha morrido -- disse Laila.
       -- Eu sei. Voc me contou.
       A voz da moa falhou. Ela precisou pigarrear, tentar se recompor.
       -- O homem que veio me dar a notcia parecia to sincero... Acreditei nele,
Tariq. Adoraria no ter acreditado, mas acreditei. Ento, me senti to sozinha, to
assustada... Se no fosse assim, no teria aceitado me casar com Rashid. No
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teria...
        -- Voc no precisa me explicar... -- disse ele, brandamente, evitando
encar-la. No havia vestgio de censura, de recriminao no jeito como disse isso.
Nada que sugerisse uma acusao.
        -- Preciso, sim. Porque houve uma razo maior para eu me casar com ele. Tem
uma coisa que voc no sabe, Tariq. Existe algum. Preciso lhe contar tudo.
        -- Voc se sentou para conversar com ele? -- perguntou Rashid, dirigindo-se ao
filho.
        Zalmai no disse nada. Agora, Laila percebia incerteza e hesitao nos seus
olhos, como se o menino tivesse percebido que sua revelao acabou virando uma
coisa bem maior do que podia imaginar.
        -- Eu lhe fiz uma pergunta, garoto!
        -- Fiquei l em cima, brincando com Mariam -- respondeu ele, engolindo em seco
e evitando o olhar do pai.
        -- E sua me?
        Zalmai olhou para ela com um ar sentido. Era evidente que estava a ponto de
chorar.
        -- Esta tudo bem, Zalmai -- disse Laila. -- Pode falar a verdade.
        -- Ela ficou... aqui embaixo, conversando com aquele homem
        -- respondeu o menino, com uma voz to baixinha que mais parecia um sussurro.
        -- Ah, entendi... -- disse Rashid. -- Foi um trabalho de equipe.
        -- Quero conhec-la. Quero v-la -- disse Tariq, quando estava indo embora.
        -- Pode deixar -- retrucou Laila. -- Vou dar um jeito.
        -- Aziza. Aziza... -- repetiu ele, sorrindo, saboreando aquele nome. Sempre
que Rashid dizia o nome da filha, ele soava ofensivo, quase vulgar.
        -- Aziza.  lindo.
        -- Lindo como ela. Voc vai ver.
        -- Vou contar os minutos para isso.
        Fazia quase dez anos que os dois tinham se visto pela ltima vez.
Mentalmente, Laila reviveu todos aqueles encontros no beco, aqueles beijos
escondidos. Como ser que ele a via agora? Ser que ainda a achava bonita? Ou ela
lhe parecia sem vio, acabada, lamentvel, como uma velha assustada que arrasta os
ps por a afora? Quase dez anos. Mas, por um instante, parada ali com Tariq, ao
sol, era como se todos aqueles anos no houvessem existido. A morte de seus pais, o
casamento com Rashid, a matana, os msseis, os talibs, as surras, a fome, at
mesmo seus filhos, tudo isso parecia um sonho, um estranho desvio, um simples
interldio entre a ltima tarde em que estiveram juntos e o momento presente.
        De repente, o rosto de Tariq se transformou, ficou mais srio. Era uma
expresso que Laila conhecia bem. Era a mesma cara que ele fez, tantos anos atrs,
quando no passavam de duas crianas, naquele dia em que tirou a perna mecnica e
partiu para cima de Khadim. E, agora, o rapaz estendeu a mo e tocou o canto de seu
lbio inferior.
        -- Olhe o que ele fez com voc -- disse ele, friamente.
        Ao sentir o toque da mo dele, Laila se lembrou da loucura daquela tarde em
que Aziza foi concebida. O hlito de Tariq em seu pescoo, os msculos dos quadris
dele se movendo, o peito dele apertando os seus seios, as mos de ambos enlaadas.
        -- Adoraria ter levado voc comigo -- disse o rapaz, quase num sussurro.
        Laila teve de baixar os olhos, num esforo para no chorar.
        -- Sei que, agora, voc  uma mulher casada. E me. No entanto, aqui estou,
depois de todos esses anos, depois de tudo o que aconteceu, sozinho com voc na
porta de sua casa. Provavelmente, isso no  certo, ou no  justo, mas vim de to
longe s para v-la, e... Ah, Laila! Eu nunca devia ter deixado voc.
        -- No... -- balbuciou ela, com voz rouca.
        -- Eu deveria ter sido mais decidido. Ter casado com voc quando podia fazer
isso. Tudo teria sido inteiramente diferente.
        -- No fale assim. Por favor. Di tanto...
        Ele assentiu, fez meno de se aproximar, mas se deteve.
        -- No estou pretendendo nada -- disse ele. -- No tenho a inteno de virar a
sua vida de pernas para o ar, aparecendo assim, surgindo do meio do nada. Se quiser
que eu v embora, que eu volte para o Paquisto,  s dizer, Laila. Srio. Diga que
 o que quer, e eu vou. Nunca mais venho perturb-la. Eu...
        -- No! -- exclamou a moa, com mais veemncia do que pretendia. Quando deu
por si, j estava segurando o brao dele. Ento, deixou cair as mos. -- No --
acrescentou. -- No v embora, Tariq. Fique. Por favor.
                                        Pgina 127
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       Ele fez que sim com a cabea.
       -- Rashid trabalha de meio-dia s oito. Volte amanh  tarde. Vou lev-lo
para ver Aziza.
       -- Fique sabendo que no tenho medo dele.
       -- Eu sei. Volte amanh  tarde.
       -- E depois?
       -- Depois? No sei... Preciso pensar. ...
       -- Eu compreendo -- disse ele. -- Sinto muito, Laila. H tantas coisas que
lamento...
       -- Pois no deve. Voc prometeu que voltaria. E voltou.
       -- Como  bom ver voc, Laila -- disse ele, com os olhos cheios de gua.
       Ela ficou parada ali, vendo-o se afastar, e estremeceu. "Milhares de
pginas", pensou. De repente, sentiu um calafrio, uma onda de tristeza e desalento,
mas tambm de uma ansiedade e uma inquietao cheias de esperana.
       45
       Mariam
       -- FIQUEI L EM CIMA, BRINCANDO com Mariam -- disse Zalmai.
       -- E a sua me?
       -- Ela ficou... aqui embaixo, conversando com aquele homem.
       -- Ah, entendi -- observou Rashid. -- Foi um trabalho de equipe. Laila percebeu
que o rosto dele estava relaxado, sem qualquer tenso.
       Viu as pregas de sua testa se desfazerem. Viu a desconfiana e a dvida
desaparecerem de seus olhos. Ele se sentou bem ereto, e, por alguns instantes,
pareceu apenas pensativo, como o capito de um navio que acaba de saber que esto
na iminncia de um motim e que reflete sobre o prximo passo a ser dado.
       Rashid ergueu os olhos.
       Mariam ia dizendo algo, mas ele levantou a mo, e, sem olhar para ela,
exclamou:
       -- Tarde demais, Mariam!
       Virou-se para Zalmai e disse friamente:
       -- E voc, garoto, v l para cima.
       Mariam percebeu o medo no rosto do menino. Nitidamente nervoso, Zalmai ficou
parado ali, olhando para os outros trs. Agora, tinha certeza de que a sua
brincadeirinha de leva-e-traz tinha provocado alguma coisa bem sria naquela casa,
coisa sria de adultos. Olhou para Mariam com ar desolado, contrito. E, depois,
olhou para a me.
       -- J! -- bradou Rashid, em tom desafiador.
       Agarrou o filho pelo brao e o menino se deixou levar docilmente escada
acima.
       Mariam e Laila ficaram petrificadas, com os olhos pregados no cho, como se
o simples fato de se entreolharem pudesse confirmar a interpretao de Rashid, a
sua certeza de que, enquanto estava abrindo portas e carregando malas para pessoas
que nem se dignavam a olh-lo, havia uma conspirao s suas costas, em sua prpria
casa, na presena de seu filhinho adorado. Nenhuma das duas disse uma palavra
sequer. Ouviram os passos no corredor, uns pesados e cheios de pressgios, outros
mais parecendo as patas de um animalzinho assustado. Ouviram falas, uma vozinha
implorando, uma resposta rspida, uma porta se fechando, o rudo da chave na
fechadura. Depois, passos que voltavam, mais impacientes desta feita.
       Mariam viu seus ps pisando forte nos degraus. Viu ele meter a chave no
bolso, viu o cinto, a ponta com os furinhos bem enrolada em seus dedos. E a fivela
imitando lato pendendo ao lado do corpo de Rashid, balanando enquanto ele ia
descendo a escada.
       Tentou det-lo, mas ele a afastou com um tapa nas costas e passou por ela
como um furaco. Sem dizer uma palavra, ergueu o cinto na direo de Laila. E o
golpe veio to rpido que a moa no teve tempo de recuar ou se esquivar, nem
sequer de erguer o brao para se proteger. Laila levou a mo a tmpora, olhou para
o sangue, olhou para Rashid, atordoada. Mas esse olhar de espanto durou apenas um
instante, sendo logo substitudo pelo dio.
       Rashid voltou a erguer o cinto.
       Desta feita, Laila se protegeu com um dos braos e, com o outro, tentou
agarrar o cinto. No conseguiu, e Rashid bateu novamente. A moa o segurou de
raspo, mas ele o soltou com um safano e a atingiu mais uma vez. Laila saiu
correndo pela sala. Mariam gritava coisas quase incompreensveis, implorando que
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                     Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
Rashid parasse com aquilo. E ele continuou correndo atrs da mulher at que
bloqueou sua passagem e voltou a lhe bater com o cinto. A certa altura, Laila
conseguiu se esquivar e acertou um soco na orelha do marido, que soltou um palavro
e saiu atrs dela com mais fria ainda. Quando a alcanou, atirou-a de encontro a
parede e bateu, bateu, bateu, atingindo, com a fivela do cinto, o seu peito, os
seus ombros, os seus braos erguidos, os seus dedos, deixando-a inteiramente
ensangentada.
       Mariam j tinha perdido as contas de quantas vezes o cinto estalou, quantas
splicas gritou. Ficou girando em torno daqueles corpos que se engalfinhavam,
aquela mistura incoerente de dentes, punhos, cinto, at que viu uns dedos atingirem
o rosto de Rashid, unhas afiadas se cravando em suas bochechas, puxando o seu
cabelo, arranhando a sua testa. No tinha noo de quanto tempo se passou at
perceber, espantada e deliciada, que aqueles dedos eram dela prpria.
       Rashid largou Laila e se voltou contra ela. A princpio, fitou a mulher sem
parecer v-la. Estreitou ento os olhos e a encarou, interessado. Era um olhar
desconcertado. Depois, Mariam viu surpresa, desaprovao, at desapontamento
naqueles olhos que se detiveram um instante em seu rosto.
       Ela se lembrou da primeira vez que viu os olhos de Rashid, no espelho,
debaixo do vu da cerimnia de casamento, diante de Jalil; lembrou-se de como seus
olhares deslizaram pela superfcie do espelho e se encontraram: o dele,
indiferente; o seu, dcil, um olhar de aceitao, quase como se pedisse desculpas.
       Desculpas.
       Agora, naqueles mesmos olhos, via como tinha sido tola.
       Tinha sido uma esposa infiel? Foi a pergunta que se fez. Uma esposa
complacente? Uma mulher indigna? Infame? Vulgar? Que mal tinha feito,
deliberadamente, a esse homem para justificar sua maldade, seus repetidos ataques,
o prazer que ele sentia em atorment-la? No tinha cuidado dele quando estava
doente? No tinha lhe dado comida, a ele e a seus amigos, e limpado as coisas dele
com todo cuidado?
       No tinha entregado a sua juventude a esse homem?
       Por uma nica vez que fosse, tinha merecido a sua crueldade?
       Ouviu o barulho do cinto caindo no cho quando Rashid o soltou e veio para
cima dela. Algumas tarefas devem ser feitas s com as mos, foi o que disse aquele
rudo.
       Mas, no exato momento em que Rashid investiu contra ela, Mariam viu Laila
pegar algo no cho s suas costas. Viu a mo da moa se erguer bem alto, acima da
cabea, e descer sobre o rosto do marido. E o rudo de vidro se estilhaando.
Choveram caquinhos do copo por todo lado. Havia sangue nas mos de Laila. E tambm
no corte aberto na bochecha de Rashid, sangue que lhe escorria pelo pescoo, pela
camisa. Ele se virou, dentes arreganhados, olhar de fria.
       E saram ambos rolando pelo cho. Finalmente, Rashid ficou por cima da moa,
com ambas as mos apertando o seu pescoo.
       Mariam lhe deu unhadas. Bateu em suas costas. Atirou-se sobre ele. Fez tudo
para soltar aquelas mos do pescoo de Laila. Chegou mesmo a mord-lo. Mas Rashid
continuava apertando a garganta da moa e Mariam percebeu que ele pretendia ir at
o fim.
       Ele pretendia estrangul-la e nenhuma das duas conseguiria impedi-lo.
       Recuou, ento, e saiu da sala. Podia ouvir o barulho que vinha l de cima, o
barulho das mozinhas batendo na porta fechada. Correu pelo corredor e saiu porta
afora. Atravessou o quintal.
       Foi ate o galpo e passou a mo na p.
       Rashid no percebeu que ela tinha voltado. Ainda estava em cima do corpo de
Laila, de olhos arregalados e enlouquecidos, as mos apertando aquele pescoo. O
rosto da moa j estava ficando azulado e seus olhos se reviraram. Mariam viu que
ela j no lutava. "Ele vai mat-la", pensou. "Vai mesmo." E no podia, no ia
deixar que isso acontecesse. Rashid j tinha lhe tirado tantas coisas durante
aqueles vinte e sete anos de casamento... No ia ficar ali parada, vendo ele lhe
roubar Laila tambm.
       Ento, firmou bem os ps no cho e segurou o cabo da p com toda fora.
Ergueu a ferramenta. Chamou-o pelo nome. Queria que ele visse o que ia acontecer.
       -- Rashid!
       Ele ergueu a cabea.
       Mariam o golpeou.
       A p o atingiu na tmpora. Com a pancada, ele soltou o pescoo de Laila.
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       Levou s mos a cabea. Olhou para o sangue em seus dedos, e, depois, para
Mariam. Ela teve a impresso de que aquele rosto havia se abrandado. Imaginou que
algo tinha se passado entre ambos, que, talvez, aquele golpe tivesse literalmente
aberto a cabea de Rashid para faz-lo compreender as coisas. "Talvez ele tambm
tenha visto algo em seu rosto", pensou Mariam, "algo que o fez balanar". Quem sabe
no viu ali um pouco de todo o desprendimento, de todos os sacrifcios, do tremendo
esforo que ela teve de fazer para conviver com ele por tantos anos, conviver com
seu constante desprezo e sua violncia, com as suas crticas a tudo o que ela
fizesse e a sua crueldade... Ser que era respeito o que estava vendo nos olhos
dele? Seria arrependimento?
       Mas, quando Rashid arreganhou o lbio superior, numa careta de desdm,
Mariam compreendeu como era intil, talvez at irresponsvel no ir at o fim. Se
deixasse Rashid se safar, quanto tempo levaria para ele passar a mo na chave e ir
buscar o revlver l no quarto onde Zalmai estava trancado? Se tivesse certeza de
que ele se contentaria em atirar s nela, de que havia a possibilidade de Laila ser
poupada, talvez largasse a p imediatamente. Mas o que via nos olhos de Rashid era
a morte das duas.
       Ergueu ento a ferramenta o mais alto que pde, tanto que ela chegou a
esbarrar em suas costas. Virou-a, para que a ponta ficasse na vertical e, ao fazer
isso, percebeu que, pela primeira vez, era ela quem estava decidindo o rumo da
prpria vida.
       E, pensando nisso, desfechou o golpe. Desta feita, deu tudo de si.

       46
       Laila
       LAILA PODIA VER AQUELE ROSTO ALI, bem pertinho, s dentes, cheiro de tabaco
e olhos esbugalhados. Tinha tambm uma vaga noo da presena de Mariam, um vulto
alm desse rosto, com as mos pendendo ao lado do corpo. Acima deles, o teto. E foi
esse teto que chamou a sua ateno, com as marcas escuras de mofo se espalhando
como tinta derramada num vestido, a rachadura no gesso, que mais parecia um sorriso
impassvel ou um muxoxo de aborrecimento, dependendo de que lado da sala se
estivesse olhando. Lembrou de todas s vezes em que tinha amarrado um pano na ponta
de uma vassoura para tirar as teias de aranha daquele teto. Das trs vezes em que
ela e Mariam passaram uma mo de tinta branca ali. Agora, a rachadura tinha deixado
de ser um sorriso: era uma careta debochada. E estava recuando. O teto se afastava,
se erguia, ia ficando cada vez mais longe e se encaminhando para algum lugar
distante, sombrio e enevoado. Foi subindo at ficar do tamanho de um selo, branco e
brilhante, enquanto todo o resto mergulhou na mais cerrada escurido. E, no escuro,
o rosto de Rashid era como uma mancha solar.
       Agora, via pequenos focos de uma luz ofuscante, como estrelas prateadas que
explodissem diante de seus olhos. Naquela luz, estranhas formas geomtricas,
vermes, coisas ovaladas, todas elas se movendo para cima e para baixo, para um lado
e para o outro, misturando-se umas as outras, separando-se, transformando-se em
algo diferente, e, finalmente, desaparecendo, sumindo na escurido.
       Vozes abafadas, distantes.
       Por trs de suas plpebras, os rostos de seus filhos apareciam e se
extinguiam. Aziza, esperta e contida, consciente, cheia de segredos. Zalmai
erguendo os olhos para o pai, tremendo de ansiedade.
       Ento, era assim que tudo ia acabar. Que fim lamentvel...

       Mas, de repente, a escurido comeou a se dissipar. Laila teve a sensao de
estar se erguendo, de estar sendo iada. Lentamente, o teto foi voltando ao seu
lugar, crescendo e, agora, ela podia distinguir novamente aquela rachadura que
reassumiu a aparncia de um sorriso inexpressivo.
       Algum a estava sacudindo.
       -- Est tudo bem? Responda, voc est bem?
       O rosto de Manam, cheio de arranhes e de preocupao, estava ali, debruado
sobre ela.
       Laila tentou respirar. Sentiu a garganta arder. Tentou outra vez. A garganta
ardeu ainda mais, e no s a garganta, mas o peito tambm. Comeou a tossir. Seu
peito chiava. Engasgou. Mas estava conseguindo respirar. O seu ouvido bom zumbia.
       A primeira coisa que viu, quando se sentou, foi Rashid. Ele estava deitado
de barriga para cima, olhando para o nada, com os olhos fixos e a boca entreaberta.
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De seus lbios, saa uma espuma levemente rosada, que lhe escorria pelo rosto. A
parte da frente de sua cala estava molhada. Viu sua testa.
        E, ento, viu a p.
        Um gemido brotou de sua garganta.
        -- Ah! -- disse ela, trmula, mal conseguindo emitir algum som. -- Ah,
Mariam...
        Ficou andando de um lado para o outro, gemendo, batendo as mos, enquanto
Mariam ficava ali sentada, ao lado de Rashid, com as mos pousadas no colo, calma,
imvel. E calada. Por um bom tempo, no disse absolutamente nada.
        Laila sentia a boca seca. Mal podia articular as palavras de tanto que
tremia. Esforava-se para no olhar para Rashid, para o ricto de sua boca, os olhos
abertos, o sangue coagulando na curva de seu pescoo.
        L fora, a claridade diminua, as sombras se avultavam. Sob essa luz, o
rosto de Mariam parecia magro e abatido, mas, aparentemente, ela no estava agitada
ou assustada, apenas preocupada, pensativa, to absorta em seus pensamentos que nem
reparou quando uma mosca pousou em seu queixo. Ficou simplesmente sentada ali,
mordendo o lbio inferior, como sempre fazia quando estava refletindo.
        -- Sente-se, Laila jo -- disse ela, enfim. E Laila obedeceu.
        -- Temos que tir-lo daqui. Zalmai no pode ver isso.
        Antes de embrulharem o corpo de Rashid num lenol, Mariam apanhou a chave
que estava no seu bolso. Laila o pegou pelas pernas, segurando por trs dos
joelhos, e Mariam o agarrou por baixo dos braos. Tentaram ergu-lo do cho, mas
ele era muito pesado e acabaram tendo que arrast-lo. Quando estavam saindo para o
quintal, o p dele ficou preso na soleira da porta e a perna se dobrou. As duas
precisaram recuar e tentar novamente. Ouviram um barulho no andar de cima e as
pernas de Laila fraquejaram. Ela soltou o corpo de Rashid, atirou-se no cho,
chorando e tremendo. Mariam parou ento ao seu lado, com as mos na cintura,
dizendo-lhe que devia se recompor, pois o que estava feito estava feito.
        Depois de algum tempo, Laila se levantou, enxugou o rosto e as duas
conseguiram levar Rashid para o quintal sem mais incidentes. Carregaram-no para o
galpo. Puseram o corpo atrs da bancada, onde havia uma serra, alguns pregos, um
formo, um martelo e um bloco cilndrico de madeira que Rashid pretendia
transformar num brinquedo qualquer para Zalmai. S que nunca achava tempo para
isso.
        Voltaram ento para dentro de casa. Mariam lavou as mos, passou-as pelo
cabelo, respirou fundo e disse:
        -- Agora, deixe-me cuidar de seus machucados. Voc est toda cortada, Laila
jo.
        Mariam disse que precisava daquela noite para pensar no que fazer. Precisava
se concentrar para bolar um plano.
        -- Tem de haver um jeito -- disse ela --, s preciso descobrir qual .
        -- Temos de ir embora! No podemos ficar aqui! -- exclamou Laila, com a voz
embargada. De repente, imaginou o som que a p deve ter feito ao atingir a cabea
de Rashid, e seu corpo se curvou para frente. Uma onda de bile lhe subiu pelo
peito.
        Mariam esperou pacientemente at que Laila melhorasse. Ento, mandou a moa
se deitar ali, no seu colo, e, passando a mo por seus cabelos, disse-lhe que no
havia com que se preocupar, que tudo ia dar certo. Disse que iriam embora, ela
prpria, Laila, as crianas e Tariq tambm. Que deixariam aquela casa e aquela
cidade impiedosa. Sempre acariciando os cabelos de Laila, Mariam disse que, juntos,
deixariam aquele pas desesperanado e iriam para algum lugar distante e seguro,
onde ningum conseguiria encontr-los, onde poderiam renegar o passado e encontrar
abrigo.
        -- Algum lugar em que haja rvores -- acrescentou ela. -- Isso mesmo. Muitas
rvores.
        Viveriam numa casinha nos arredores de uma cidade inteiramente desconhecida
ou de uma aldeia bem remota, no final de uma estrada estreita e sem calamento, mas
bordejada de todo tipo de plantas e de arbustos. Quem sabe at com uma trilha por
onde pudessem passear, uma trilha que levasse a uma campina onde as crianas
brincariam, ou uma estradinha de cascalho que fosse dar num lago azul de guas
claras, com trutas nadando e juncos por todo lado. Criariam carneiros e galinhas.
Juntas, fariam po e ensinariam as crianas a ler. Comeariam uma vida nova,
levariam uma vida tranqila, solitria, e, ento, o peso de tudo aquilo por que
tinham passado desapareceria, e eles encontrariam a felicidade e a prosperidade
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simples que mereciam.
       Laila murmurava, incentivando-a. Seria uma vida de abundncia, com
dificuldades,  claro, mas um tipo de dificuldade gratificante, de que poderiam se
orgulhar, que poderiam valorizar, como se fosse uma herana de famlia. A voz
branda e maternal de Mariam prosseguiu falando, trazendo-lhe algum conforto. "Tem
de haver um jeito", era o que tinha dito. Pela manh, Mariam lhe diria ento o que
fazer e fariam isso juntas.
       Quem sabe amanh, a essa hora, j no estariam a caminho da nova vida,
daquela vida repleta de possibilidades, de alegrias e de dificuldades que seriam
acolhidas com satisfao... Que bom que Mariam estava lcida e sbria, em condies
de pensar pelas duas. Pois a sua prpria cabea era um verdadeiro caos, de confuso
e nervosismo.
       -- Agora,  melhor voc ir ver o seu filho -- disse Mariam, levantando-se. E,
em seu rosto, havia a expresso mais sofrida que Laila tinha visto num ser humano.
       Foi encontrar Zalmai no escuro, todo encolhido no lado da cama em que Rashid
dormia. Deitou-se, ento, a seu lado e puxou as cobertas.
       -- Esta dormindo?
       -- No posso. Baba Jan ainda no veio rezar as preces do Babalu comigo --
respondeu o menino, sem se virar.
       -- Talvez ele no venha fazer isso hoje.
       -- Alas voc no pode rezar como ele.
       -- Vamos tentar? -- props Laila, apertando aquele ombro mido e dando um
beijo na nuca do filho.
       -- Onde est baba jan?
       -- Foi embora -- respondeu Laila, mais uma vez com um n na garganta.
       E pronto. Ali estava ela, dita pela primeira vez, aquela mentira enorme,
abominvel. E, na maior aflio, Laila se perguntou quantas vezes -mais teria de
repeti-la? Quantas vezes mais enganaria Zalmai? Viu o filho correndo, todo feliz,
para receber o pai que chegava do trabalho. Viu Rashid pegando o menino pelos
braos e fazendo-o girar, girar at as suas perninhas esticadas voarem bem alto.
Viu os dois rindo quando Zalmai saa dali inteiramente zonzo, como se estivesse
bbado. Lembrou da baguna que faziam, de suas risadas escandalosas, dos olhares
secretos que trocavam.
       E Laila foi tomada por uma onda de vergonha e de tristeza pelo filho.
       -- Onde  que ele foi?
       -- No sei, amor.
       Quando ia voltar? Ia trazer algum presente quando voltasse para casa?
       Fez ento as oraes com Zalmai, dizendo Bismallah-e-rahman-e-rahim 21
vezes, uma para cada articulao de sete dedos. Viu o menino juntar as mos em
concha diante do prprio rosto, sopr-las, tocar a testa com o dorso de ambas as
mos e, fazendo um gesto como quem afasta algo, sussurrar:
       -- V embora, Babalu, no chegue perto de Zalmai. Ele no quer saber de voc.
V embora, Babalu.
       Depois, para terminar, os dois disseram "Allah-u-akbar" trs vezes. Mais
tarde, bem mais tarde, naquela mesma noite, Laila se assustou ouvindo uma voz
perguntar bem baixinho:
       -- Baba jan foi embora por minha causa? Por causa daquilo que eu disse sobre
voc e o homem l embaixo?
       Inclinou-se ento sobre o filho deitado, pronta para tranqiliz-lo, para
lhe dizer "No tem nada a ver com voc, Zalmai. Nada disso  culpa sua", mas ele
estava dormindo, com o peitinho subindo e descendo num movimento ritmado.
       Quando foi se deitar, Laila estava com a cabea atordoada, confusa, incapaz
de raciocinar. Ao acordar, porm, ouvindo o chamado do muezim para as preces da
manh, boa parte daquele embotamento tinha desaparecido.
       Sentou-se na cama e, por um instante, ficou olhando para o filho que dormia
com o punho cerrado junto ao queixo. Imaginou Mariam se esgueirando para dentro do
quarto, no meio da noite, enquanto ela e Zalmai estavam dormindo, fitando os dois
ali, e fazendo mil planos.
       Levantou-se, ento, e teve dificuldades em se manter de p. O corpo todo lhe
doa. O pescoo, os ombros, as costas, os braos, as coxas estavam machucados,
cortados pela fivela do cinto de Rashid. Com uma careta de dor, saiu do quarto bem
de mansinho.
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       No quarto ao lado, a luz tinha uma tonalidade escura, mais que cinzenta, o
tipo de claridade que Laila sempre associou a galos cantando e orvalho pingando das
folhas. Mariam estava sentada num canto, de frente para a janela, num tapete de
oraes. Laila foi se agachando lentamente e se sentou diante dela.
       -- Voc deveria ir ver Aziza hoje de manh -- disse Mariam.
       -- Sei o que voc est pretendendo...
       -- No v a p. Pegue o nibus. Ali, voc se mistura a muita gente. J os
txis so suspeitos demais. Certamente ser parada por estar sozinha.
       -- Aquilo que voc prometeu ontem  noite...
       Laila no conseguiu concluir. As rvores, o lago, a aldeia sem nome. Agora
percebia que tinha sido puro fingimento. Uma mentira amorosa, para abrandar o
sofrimento. Como algum acalentando uma criana aflita.
       -- Eu estava falando srio -- disse Mariam. --  o que voc pode ter, Laila jo.
       -- No quero ter nada disso sem voc -- retrucou a moa, com voz rouca.
       Mariam esboou um sorriso cansado.
       -- Quero que as coisas sejam exatamente como voc disse, Mariam, todos ns,
juntos, voc, eu e as crianas. Tariq tem uma casinha no Paquisto. Podemos nos
esconder l por algum tempo, at tudo se acalmar...
       -- Impossvel -- disse Mariam, com toda pacincia, como uma me falando com um
filho que est errado, embora tenha boas intenes.
       -- Vamos cuidar uma da outra -- prosseguiu Laila, tropeando nas palavras e
com os olhos cheios de lgrimas. -- Como voc mesma disse. Eu vou cuidar de voc,
para variar.
       -- Ah, Laila jo...
       E a moa continuou insistindo. Tentou negociar. Fez promessas. Cuidaria da
limpeza, disse, e tambm da cozinha.
       -- Voc no vai precisar fazer nada. Nunca mais. Vai descansar, dormir,
cultivar um jardim. Tudo o que quiser, Mariam. Pea o que quiser que eu consigo
para voc. No faa isso, Mariam. No me deixe. No parta o corao de Aziza.
       -- Eles cortam a mo de quem roubar po -- disse Mariam. -- O que acha que
faro quando descobrirem um marido morto e duas esposas foragidas?
       -- Ningum vai ficar sabendo -- sussurrou Laila. -- Nunca vo nos encontrar.
       -- Vo, sim. Mais cedo ou mais tarde. Eles so verdadeiros ces de caa --
retrucou Mariam. E sua voz soava mansa, cautelosa, fazendo os argumentos de Laila
parecerem irreais, enganosos, tolos.
       -- Por favor, Mariam...
       -- E, quando nos encontrarem, voc ser considerada to culpada quanto eu.
Tariq tambm. No quero que os dois vivam se escondendo, como fugitivos. O que vai
ser de seus filhos se voc for apanhada?
       Laila sentia os olhos enevoados, ardendo.
       -- Quem vai cuidar deles? Os talibs? Pense como me, Laila /o. Pense como
me. E o que estou fazendo.
       -- No consigo.
       -- Mas tem de conseguir.
       -- No  justo -- gemeu Laila.
       -- Mas tem de ser assim. Venha c. Venha se deitar aqui.
       Laila se arrastou para perto dela e, mais uma vez, deitou a cabea no colo
de Mariam. Lembrou de todas as tardes que passaram juntas, fazendo trancas uma na
outra, Mariam ouvindo pacientemente suas idias aleatrias e as histrias banais
que ela contava, sempre com um ar de gratido, como se estivesse sendo digna de um
privilgio dos mais cobiados.
       -- E justo, sim -- disse Mariam. -- Matei nosso marido. Privei seu filho do
pai. No  certo eu fugir. No posso fazer isso. Mesmo que eles no nos apanhem, eu
nunca... -- Seus lbios tremeram. -- Eu nunca vou poder fugir da dor de seu filho.
Como vou olhar para ele? Como vou conseguir olhar para ele, Laila jo?
       Mariam ficou brincando com uma mecha do cabelo da moa, desfazendo um cacho
teimoso.
       -- Para mim, tudo termina aqui. No h mais nada que eu queira. Tudo o que
sempre desejei, em criana, voc j me deu. Voc e seus filhos me fizeram to
feliz... Est tudo bem, Laila jo. E assim que tem de ser. No fique triste.
       Laila no conseguia encontrar nenhum argumento sensato para responder ao que
Mariam tinha lhe dito. Mesmo assim, no desistiu e continuou dizendo coisas
incoerentes, infantis, sobre rvores frutferas esperando para serem plantadas e
galinhas a serem cuidadas. Seguiu falando de casinhas em aldeias sem nome, passeios
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a lagos repletos de trutas. E, no fim, quando as palavras secaram, as lgrimas
continuaram a lhe brotar dos olhos. Tudo o que podia fazer, ento, era se render e
soluar como uma criana impotente diante da lgica impecvel de um adulto. Tudo o
que conseguiu fazer foi se virar e, pela ltima vez, enterrar o rosto no calor
daquele colo to acolhedor.
       Horas depois, Mariam preparou um lanchinho para Zalmai, com po e figos
secos. Tambm embrulhou uns figos para Aziza, e uns poucos biscoitos em forma de
bichinhos. Ps tudo num saco de papel e entregou a Laila.
       -- Diga a Aziza que mandei um beijo -- pediu ela. -- Diga que ela  a noor dos
meus olhos e o sulto do meu corao. Faz isso por mim?
       Laila fez que sim com a cabea, e contraiu os lbios.
       -- Pegue o nibus, como eu lhe disse, e fique de cabea baixa.
       -- Quando vou poder v-la, Mariam? Quero ver voc antes de depor. Vou contar
a eles como aconteceu. Vou dizer que no foi culpa sua. Que teve de fazer isso.
Eles vo entender, no vo, Mariam? Eles vo entender.
       Mariam a fitou com brandura.
       Abaixou-se para falar com Zalmai. O menino estava de camiseta vermelha, uma
cala cqui surrada e umas velhas botas de caubi que Rashid tinha comprado para
ele em Mandaii. Com ambas as mos, segurava a bola nova. Mariam lhe deu um beijo no
rosto.
       -- Seja um bom menino, e seja forte -- disse ela. -- Trate bem a sua me. --
Pegou o rostinho do menino. Ele recuou, mas ela continuou segurando. -- Sinto muito,
Zalmai jo. Lamento muitssimo a sua dor e a sua tristeza, pode acreditar.
       Laila deu a mo ao filho e l se foram os dois, descendo a rua. Antes de
dobrarem a esquina, Laila olhou para trs e viu Mariam parada no porto. Ela estava
com um leno branco na cabea, um casaco azul-escuro abotoado na frente e calas
brancas de algodo. Uma mecha grisalha lhe caa na testa. Raios de sol batiam no
seu rosto e nos seus ombros. Mariam acenou, carinhosa.
       Dobraram a esquina e Laila nunca mais voltou a v-la.

       47
       Mariam
       PARECIA ATE QUE ESTAVA DE VOLTA  KOLBA depois de todos aqueles anos.
       A priso feminina de Walayat  um prdio quadrado e pardacento, localizado
em Shar-e-Nau, perto da rua das Galinhas. Fica no centro de um complexo maior que
abriga os internos de sexo masculino. Uma porta trancada com um cadeado separava
Mariam e as outras mulheres dos homens que as cercavam. Ela contou cinco celas em
uso. Eram aposentos sem moveis, com as paredes sujas e descascando, e minsculas
janelas que davam para o ptio. Essas janelas tinham grades, embora as portas das
celas ficassem abertas e as mulheres pudessem andar livremente, indo ao ptio e
voltando quando bem entendessem. Mas no havia vidraas. Tampouco havia cortinas, o
que significava que os guardas talibs que circulavam pelo ptio tinham uma viso
completa do interior das celas. Algumas das mulheres reclamavam, dizendo que os
guardas fumavam ali fora e ficavam espiando pela janela, com aqueles olhos
brilhando e aqueles sorrisos de lobo, e contando piadinhas indecentes a respeito
das prisioneiras. Por isso, a maioria das mulheres passava o dia inteiro de burqa,
tirando-as apenas depois que o sol se punha, depois que o porto principal era
trancado e os guardas voltavam para seus postos.
        noite, a cela que Mariam dividia com cinco mulheres e quatro crianas
ficava as escuras. Quando no estava faltando luz, elas iavam Naghma, uma menina
baixinha, de peito franzino e cabelo preto bem crespo, at o teto. Havia um fio que
estava desencapado em certo ponto. Naghma enrolava ento esse fio na base da
lmpada para alimentar o circuito.
       Os banheiros eram minsculos, com o cho de cimento rachado. Havia ali um
buraco pequeno e retangular, e, l no fundo, uma pilha de fezes, com moscas
zumbindo ao seu redor.
       No centro da construo, havia um ptio aberto, retangular, e, bem no meio
dele, um poo. Como esse poo no tinha sistema de drenagem, muitas vezes o ptio
parecia um charco e a gua tinha gosto de podre. Varais, repletos de meias e
fraldas lavadas  mo, se entrecruzavam de lado a lado desse ptio. Era ali que os
prisioneiros recebiam visitas, era ali que preparavam o arroz que seus familiares
traziam -- a priso no fornecia comida. Mas era tambm o lugar onde as crianas
brincavam. Mariam ficou sabendo que muitas daquelas crianas tinham nascido em
Walayat e jamais tinham visto o mundo alm daqueles muros. Via-os correr atrs dos
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outros, via os seus ps descalos chafurdarem na lama. Elas passavam o dia inteiro
correndo por ali, inventando brincadeiras, sem parecer notar o fedor de fezes e de
urina que impregnava Walayat e seus prprios corpos, sem ligar para os guardas
talibs, at que um deles lhes batesse.
       Mariam no recebia visitas. Foi a primeira e nica coisa que pediu s
autoridades talibs. No queria visitas.
       Nenhuma das companheiras de cela de Mariam estava cumprindo pena por crime
violento. Todas estavam ali acusadas de um mesmo delito comum: fugir de casa. Ela
acabou adquirindo, ento, alguma notoriedade, tornando-se uma espcie de
celebridade ali dentro. As mulheres a olhavam com um ar reverente, quase temeroso.
Ofereciam-lhe suas cobertas. Competiam entre si para dividir sua comida com ela.
       A mais vida de todas era Naghma, que vira e mexe a segurava pelo brao e
andava atrs de Mariam onde quer que ela fosse. Naghma era aquele tipo de pessoa
que se diverte contando desgraas, tanto as suas prprias quanto as alheias. Disse
que seu pai a tinha prometido em casamento a um alfaiate cerca de trinta anos mais
velho que ela.
       -- Ele fede como um goh e tem menos dentes na boca do que dedos nas mos --
disse a moa.
       Ela tinha ento tentado fugir para Gardez com um rapaz por quem estava
apaixonada e que era filho do mul local. No entanto, mal conseguiram chegar a
Cabul. Quando foram apanhados e levados de volta para casa, o filho do mul foi
chicoteado at declarar que estava arrependido e que Naghma o tinha seduzido com
seus encantos femininos.
       Ela o enfeitiou, foi o que disse o rapaz. Prometeu que ia retomar seus
estudos do Coro com a mxima dedicao e acabou sendo libertado. J Naghma foi
condenada a cinco anos de priso.
       Segundo a moa, at que era bom para ela estar na priso. Seu pai tinha
jurado que, no dia em que a libertassem, cortaria sua garganta com uma faca.
       Ao ouvir essa histria, Mariam se lembrou do brilho discreto das estrelas
frias e das nuvens finas e rosadas que pairavam sobre as montanhas Safid-koh
naquela manh to distante em que Nana tinha lhe dito: "Assim como uma bssola
precisa apontar para o norte, assim tambm o dedo acusador de um homem sempre
encontra uma mulher  sua frente. Sempre. Nunca se esquea disso, Mariam."
       O julgamento de Mariam tinha ocorrido na semana anterior. No houve defesa,
inquirio de testemunhas, exame de provas, ou possibilidade de apelao. Mariam
declinou do direito de testemunhar. Ao todo, a sesso durou menos de quinze
minutos.
       O juiz do meio, um talib de aparncia frgil, era o principal. Era um
sujeito extremamente magro, de pele curtida e amarela, e uma barba ruiva toda
encaracolada. Usava uns culos que faziam os seus olhos parecerem enormes,
evidenciando ainda mais o amarelado da esclera. Seu pescoo parecia fino demais
para sustentar a cabea com aquele turbante enrolado de forma to intrincada.
       -- A senhora admite isso, hamshira? -- perguntou ele, com voz cansada.
       -- Admito -- respondeu Mariam.
       O homem assentiu. Ou talvez no. Era difcil dizer, pois suas mos e sua
cabea tremiam tanto... Mariam lembrou at do tremor do mul Faizullah. Quando
queria tomar um gole de ch, no pegava a xcara: fazia um gesto na direo do
sujeito de ombros largos que estava ao seu lado e este levava a xcara aos seus
lbios com um ar respeitoso. Depois, o talib fechava os olhos com brandura, num
gesto calado e elegante de gratido.
       Mariam percebeu nele uma qualidade que desarmava qualquer um. Quando falava,
era sempre com um toque de astcia e de ternura. O seu sorriso era paciente. Ele
no a fitava com desprezo. Ao lhe dirigir a palavra, no demonstrava m vontade,
nem parecia acus-la; pelo contrrio, havia em sua voz um tom que soava quase como
um pedido de desculpas.
       -- A senhora tem plena noo do que est declarando? -- indagou o talib de
rosto ossudo que estava  direita do juiz. No aquele que lhe dava ch. Era o mais
jovem dos trs. Falava depressa, com uma confiana enftica, arrogante. Ficou
irritado ao ver que Mariam no falava pashto. Dirigia-se a ela como um daqueles
rapazes valentes, que gostam de alardear autoridade, que se sentem ofendidos por
qualquer bobagem, que acham que podem julgar os outros por direito de nascena.
       -- Tenho -- respondeu ela.
       -- E espantoso -- observou o jovem talib. -- Deus nos fez diferentes, vocs
mulheres e ns homens. Nossos crebros so diferentes. A senhora no  capaz de
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pensar como ns, como j foi provado pelos mdicos ocidentais e sua cincia. E por
isso que s exigimos uma testemunha de sexo masculino, mas duas de sexo feminino.
        -- Admito que fiz o que fiz, irmo -- disse Mariam. -- Mas, se no tivesse
feito, ela teria morrido. Ele a estava estrangulando.
        -- E o que a senhora diz. Mas as mulheres juram qualquer coisa, e fazem isso
o tempo todo.
        -- E a verdade.
        -- H alguma testemunha? Alm,  claro, da segunda esposa de seu marido, sua
ambagh?
        -- No -- respondeu Mariam.
        -- Bom, ento... -- disse ele, abrindo as mos, num gesto de impotncia, e
dando um risinho.
        Quem falou a seguir foi o talib de ar doentio.
        -- Tenho um mdico em Peshawar -- disse ele. -- Um jovem paquistans, muito
gentil. Fui v-lo um ms atrs e, novamente, na semana passada. Pedi-lhe, ento:
diga-me a verdade, amigo, e ele respondeu, trs meses, mul sahib, no mximo
seis... Deus  quem sabe, claro.
        Fez um aceno discreto de cabea para o homem de ombros largos a sua esquerda
e tomou mais um gole do ch que o outro lhe deu. Enxugou a boca com o dorso da mo
trmula.
        -- No tenho medo de deixar esta vida que meu nico filho j deixou h cinco
anos -- prosseguiu ele. -- Esta vida que insiste em nos fazer suportar sofrimentos e
mais sofrimentos, mesmo quando j no agentamos mais. No, creio que vou me
despedir dela alegremente quando chegar a hora.
        "O que me assusta, hamshira,  que Deus possa me convocar  Sua presena e
perguntar: 'Por que no fez o que mandei, mul? Por que no obedeceu s minhas
leis?' Como vou poder me justificar perante Ele, hamshira? Como poderei me defender
de no ter cumprido as Suas determinaes? Tudo o que posso fazer, tudo o que
qualquer um de ns pode fazer, durante o tempo de que dispomos,  agir de acordo
com as leis que Ele estabeleceu para ns. Quanto mais perto me vejo do fim,
hamshira; quanto mais perto me vejo do dia em que deverei prestar contas de meus
atos, maior e a minha determinao no sentido de pr em prtica as Suas palavras.
Por mais que isso possa me custar."
        Remexeu-se na almofada e fez uma careta.
        -- Acredito que seu marido fosse um homem de temperamento difcil, como a
senhora diz -- prosseguiu ele, fitando-a com um olhar a um s tempo severo e
compassivo, por detrs das lentes dos culos. -- Nem por isso deixo de me sentir
extremamente perturbado pela brutalidade de seu ato, hamshira. O que a senhora fez
me aflige, como tambm me aflige saber que o filhinho dele chorava no andar de cima
enquanto a senhora cometia esse crime.
        "Estou cansado, estou morrendo, e quero ser misericordioso. Quero perdo-la.
Alas, quando Deus me chamar  Sua presena e me disser: 'No lhe cabia perdoar,
mul', o que poderei Lhe dizer?"
        Seus companheiros assentiram, fitando-o com admirao.
        -- Algo me diz que a senhora no  uma mulher m, hamshira. Mas fez uma coisa
ma. E deve pagar pelo que fez. A Shari'a  bem precisa quanto a isto. E diz que
devo mand-la para onde eu mesmo estarei indo em breve. Esta me entendendo,
hamshira?
        De olhos baixos, fitando as prprias mos, Mariam disse que sim.
        -- Que Allah possa perdo-la.
        Antes que viessem lev-la dali, entregaram-lhe um documento e mandaram que o
assinasse, abaixo de suas prprias declaraes e da sentena do mul. Diante do
olhar dos trs talibs, Mariam escreveu o meem, o reh, o yah, mais um meem,
lembrando-se da ltima vez em que tinha posto seu nome num documento, vinte e sete
anos atrs, naquela mesa da casa de Jalil, sob o olhar atento de um outro mul.
        Mariam ficou presa por dez dias. Sentava-se junto  janela, vendo a vida da
priso que transcorria naquele ptio. Quando comearam os ventos do vero, viu
pedaos de papel sarem voando, num frentico turbilho, precipitando-se bem alm
dos muros do presdio. Ficou olhando os ventos que revolviam a areia, fazendo-a
circular em violentas espirais que seguiam pelo ptio como verdadeiras chicotadas
pelo ar. Todos, tanto os guardas, quanto as crianas e os prisioneiros, inclusive
Mariam, protegiam o rosto com o brao, mas no conseguiam evitar aquele aoite. A
areia penetrava pelos ouvidos e pelas narinas, grudava nos clios e nas dobras da
pele, se esgueirava at pelo espao entre os dentes. E os ventos s se abrandavam
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ao anoitecer. Quando havia uma brisa noturna, ela vinha to tmida que parecia at
se desculpar pelos excessos que seus irmos haviam cometido.
        No ltimo dia de Mariam em Walayat, Naghma lhe deu uma tangerina. Ps a
fruta em sua mo e fechou os seus dedos, obrigando-a a segur-la. Ento, comeou a
chorar.
        -- Voc  a melhor amiga que j tive na vida -- disse a menina.
        Mariam passou o resto do dia perto da janela gradeada, olhando os
prisioneiros l embaixo. Algum estava fazendo comida e uma baforada de ar quente
cheirando a cominho chegou at ela. Viu crianas brincando de cabra-cega. Duas
garotinhas estavam cantando, e Mariam se lembrou de sua infncia. Lembrou de Jalil
cantando a mesma cantiga para ela, quando estavam sentados numa pedra, pescando no
riacho:
        Bem no meio do caminho
        Tinha um tanque de passarinho.
        Com muita sede,
        Dona carpa foi se chegando,
        Mas escorregou na borda do tanque
        E acabou afundando.
        Naquela noite, teve sonhos disparatados. Sonhou com pedrinhas, onze ao todo,
dispostas em fileiras verticais. Jalil, jovem outra vez, com seu sorriso atraente,
seu queixo furado, suas manchas de suor e o palet pendurado no ombro, vindo
finalmente levar a filha para um passeio no Buick Roadmaster preto e lustroso. O
mul Faizullah desfiando as contas de seu rosrio, passeando a seu lado a beira do
riacho, as sombras de ambos refletidas na gua e no mato das margens salpicadas de
ris de um azul-arroxeado que, em seu sonho, tinham cheiro de cravo. Sonhou com
Nana parada na porta da kolba; ouviu sua voz sumida, distante, que a chamava para
jantar, enquanto ela brincava na grama fresca e emaranhada por onde as formigas
caminhavam, os besouros rodopiavam, os gafanhotos saltavam em meio s mais diversas
tonalidades de verde. Ouviu o rangido de um carrinho de mo passando por uma
estrada de terra. O tilintar das sinetas no pescoo das vacas. Os balidos das
ovelhas nas colinas.
        A caminho do estdio Ghazi, Mariam ia sacolejando no fundo de uma picape que
desviava de buracos e levantava pedrinhas ao passar. Seu coccix doa com aqueles
solavancos. Havia um jovem talib armado sentado a sua frente e olhando para ela.
        Mariam se perguntava se seria ele, aquele rapaz de aparncia amistosa, de
olhos fundos e brilhantes e um rosto ligeiramente anguloso, que ia tamborilando na
lateral da picape com o indicador de unha preta.
        -- Esta com fome, me? -- perguntou ele. Mariam fez que no com a cabea.
        -- Tenho um biscoito aqui.  gostoso. Pode com-lo se estiver com fome. No
me importo.
        -- No. Tashakor, irmo.
        Ele assentiu e a fitou com olhos bondosos.
        -- Est com medo, me?
        Ela sentiu um n na garganta. Com voz trmula, disse a verdade:
        -- Estou. Com muito medo.
        -- Tenho uma foto do meu pai -- disse o rapaz. -- No me lembro dele. Tudo o
que sei  que ele consertava bicicletas. Mas no me lembro do jeito dele, sabe, do
seu andar, do seu riso ou do som de sua voz. -- Desviou os olhos, e, depois, voltou
a fit-la. -- Minha me dizia que nunca tinha visto ningum mais corajoso. Era um
verdadeiro leo, segundo ela. Mas disse tambm que ele chorou feito criana no dia
em que os comunistas vieram busc-lo. Estou lhe contando isso para a senhora ver
que  normal ter medo. No precisa se envergonhar, me.
        Pela primeira vez, naquele dia, Mariam chorou um pouquinho.
        Milhares de olhos a fitavam. Nas arquibancadas lotadas, os pescoos se
espichavam tentando ver melhor. Lnguas estalavam. Um murmrio percorreu todo o
estdio quando ajudaram Mariam a descer da picape. Ela imaginou as cabeas abanando
quando o alto-falante anunciou o seu crime. Mas no ergueu os olhos para ver se as
pessoas abanavam a cabea em sinal de desaprovao ou de piedade, censurando-a ou
com pena dela. Tratou de no ver nada disso.
        Mais cedo, pela manh, teve medo de fazer papel de boba, implorando e
chorando diante de toda aquela gente. Teve medo de comear a gritar, de vomitar ou
at de fazer xixi nas calas; de ser trada, nos ltimos instantes, pelo instinto
animal ou pelo prprio corpo. Quando mandaram que descesse da picape, porm, suas
pernas no travaram, seus braos no se debateram, ningum precisou arrast-la
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
dali. E, quando efetivamente se sentiu fraquejar, lembrou de Zalmai. Zalmai, que
ela tinha privado da pessoa que ele mais amava; Zalmai, cuja vida era agora marcada
pela tristeza causada pelo desaparecimento do pai. Ento, os seus passos se
firmaram e ela pde caminhar sem problemas.
       Um homem armado se aproximou e mandou que ela se dirigisse at o gol que
ficava do lado sul. Mariam podia sentir a multido se enrijecendo por antecipao.
No olhou para cima. Manteve os olhos pregados no cho, vendo sua prpria sombra e
a sombra de seu carrasco que vinha logo atrs,
       Apesar de alguns momentos de beleza, Mariam bem sabia que, de um modo geral,
a vida tinha sido cruel para com ela. Mesmo assim, enquanto ia andando, percorrendo
os ltimos vinte passos de seu caminho, no pde se impedir de querer continuar
vivendo. Adoraria rever Laila, ouvir o som de seu riso, sentar com ela novamente
para tomar uma tigela de chai e comer sobras de halwa sob um cu estrelado. Era
triste saber que no veria Aziza crescer, que no chegaria a conhecer a linda moa
que ela viria a ser um dia, que no pintaria as suas mos com hena nem atiraria
noqul, os confeitos de amndoas, no dia de seu casamento. Nunca brincaria com os
filhos de Aziza. Como gostaria de poder fazer isso, de envelhecer e brincar com os
filhos de Aziza!
       Quando chegaram junto das traves, o homem que vinha s suas costas mandou
que parasse. Mariam obedeceu. Pela tela furadinha da burqa, viu a sombra dos braos
dele erguendo a sombra de um Kalashnikov.
       Mariam desejou muitas coisas nesses momentos finais. Assim que fechou os
olhos, porm, as tristezas se foram e tudo o que sentiu foi uma imensa paz se
abater sobre ela. Pensou em sua chegada a este mundo, a filha harami de uma alde
humilde, algo que no foi desejado, que no passou de um lamentvel acidente. Uma
erva daninha. E, no entanto, estava deixando este mundo como uma mulher que tinha
amado e sido amada. Deixava esta vida como amiga, companheira, protetora. Como me.
Finalmente, algum importante. No. "No", pensou Mariam, uno era to ruim assim
morrer desse jeito". No era mesmo. Era um fim legitimo para uma vida que comeou
de forma ilegtima.
       Seus ltimos pensamentos foram umas poucas palavras do Coro que ela
murmurou bem baixinho:
       "Criou os cus e a Terra pela verdade, inserindo a noite no dia e o dia na
noite; e submeteu o sol e a lua que deslizam para um termo predeterminado. No e
Ele o Poderoso, o Perdoador?"
       -- De joelhos -- disse o talib.
             "Oh Senhor nosso, cremos! Perdoa-nos, pois, e tem piedade de ns,
porque Tu s o melhor dos misericordiosos!"
       -- Ajoelhe-se aqui, hamshira. E olhe para baixo.
       Pela ultima vez, Mariam fez o que lhe mandaram fazer.
      PARTE IV

       48
       TARIQ VINHA TENDO DORES DE CABEA.
       Certas noites, Laila acordava e o via sentado na beira da cama, balanando o
corpo, cobrindo a cabea com a camiseta. Aquelas dores tinham comeado em Nasir
Bagh, e piorado na priso. s vezes, chegava a vomitar, ou mesmo a ficar cego de um
olho. Ele dizia que era como se um faco de aougueiro entrasse por uma de suas
tmporas e fosse se remexendo bem dentro de seu crebro e saindo pelo outro lado.
       -- Chego at a sentir o gosto do metal, quando as dores comeam.
       Por vezes, Laila umedecia uns panos para bot-los na testa de Tariq, e isso
ajudava um pouco. Os comprimidos brancos e redondos que o mdico de Sayid tinha lhe
dado tambm ajudavam. Algumas noites, porm, tudo o que o rapaz podia fazer era
segurar a cabea com as mos e gemer, com os olhos injetados, o nariz pingando.
Durante essas crises mais fortes, Laila se sentava junto dele, massageava a sua
nuca, segurava as suas mos, sentindo o frio do metal daquela aliana roando em
sua pele.
       Os dois se casaram no dia em que chegaram a Murree. Sayid pareceu aliviado
quando Tariq lhe deu a notcia. No gostaria de discutir com o rapaz um assunto to
delicado, mas sentia-se incomodado com a presena daqueles dois em seu hotel,
morando juntos sem serem casados. Alis, ele no era absolutamente o sujeito de
rosto corado e olhinhos midos que Laila tinha imaginado. Tinha um bigode grisalho
cujas pontas ele enrolava formando uma voltinha e uma basta cabeleira tambm
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                     Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
grisalha penteada toda para trs. Era um homem de fala mansa, educado, comedido nas
palavras e delicado nas atitudes.
       Foi ele quem chamou um amigo e um mul para a celebrao do nikka. Depois,
chamou Tariq a parte e lhe deu algum dinheiro. O rapaz no queria aceitar, mas
Sayid insistiu, e, com isso, pde ir a uma loja da aldeia comprar duas alianas
fininhas, bem simples. Os dois se casaram naquela mesma noite, depois que as
crianas tinham ido dormir.
       Pelo espelho, sob o vu verde com que o mul cobriu a cabea de ambos, os
seus olhos se encontraram. No houve lgrimas, nem sorrisos, nem juras de amor
eterno sussurradas bem baixinho. Em silncio, Laila fitou aqueles dois rostos
refletidos no espelho, aqueles rostos envelhecidos para a idade que tinham, aquelas
bolsas, aquelas rugas que agora marcavam a sua pele que antes era to lisa, to
jovem. Tariq abriu a boca para falar, mas, nesse exato momento, algum retirou o
vu e ela no entendeu o que ele estava comeando a dizer.
       Naquela noite, deitaram-se na cama como marido e mulher, com as crianas
ressonando em seus colches. Laila pensou na facilidade com que preenchiam o espao
entre eles com palavras quando eram mais moos; lembrou de como falavam
desordenadamente, sempre se atropelando um ao outro, cutucando-se mutuamente para
enfatizar alguma coisa que dissessem, sempre prontos para rir a toa, sempre loucos
para se divertir. Tinha acontecido tanta coisa desde ento, tanta coisa que
precisava ser dita... Mas, naquela primeira noite, a enormidade de tudo aquilo a
deixava sem palavras. Bastava-lhe estar ali, ao lado dele. Bastava saber que ele
estava ali, sentir o calor daquele corpo junto ao seu, estar deitada ao seu lado,
sentir a cabea dele roando a sua, a mo direita dele segurando a sua esquerda.
       Quando acordou com sede, no meio da noite, viu que ainda estavam de mos
dadas, que suas mos se seguravam com fora, daquele jeito aflito com que as
crianas agarram a corda de um balo.
       Laila gostava daquelas manhs frias e enevoadas de Murree, de seus
fantsticos crepsculos, do brilho sombrio de suas noites. Gostava tambm do verde
dos pinheiros, do marrom-claro dos esquilos subindo e descendo na disparada pelo
tronco vigoroso das rvores. E gostava das sbitas pancadas de chuva que obrigavam
as pessoas a se abrigar nas lojas. Gostava das lojinhas de suvenires e dos inmeros
hotis onde se hospedavam turistas, mesmo que os moradores do lugar reclamassem das
construes, da constante expanso de infra-estrutura que, segundo diziam, estava
destruindo as belezas naturais da regio. S achava estranho as pessoas criticarem
a construo de prdios. Em Cabul, isso seria motivo de comemorao...
       Gostava de fato de terem um banheiro, no uma latrina do lado de fora da
casa, mas um banheiro de verdade, com descarga na privada, chuveiro e at uma pia
com duas torneiras de onde saa gua fria ou quente graas a um simples movimento
de sua mo. Gostava de acordar de manh com o balido de Alyona, e gostava de Adiba,
a cozinheira rabugenta, mas inofensiva, que fazia maravilhas na cozinha.
       s vezes, ficava olhando para Tariq, vendo-o dormir, enquanto seus filhos
resmungavam e se remexiam durante o sono, e uma onda de gratido se detinha em sua
garganta, deixando os seus olhos cheios de gua.
       De manh, acompanhava Tariq de quarto em quarto, com as chaves tilintando
numa argola que ele levava presa a cintura e um frasco de limpa-vidros pendurado
nas alas do cs da cala jeans. Laila levava um balde repleto de pedaos de pano,
desinfetante, uma escova para esfregar as privadas e cera em spray para as cmodas.
Aziza vinha junto com eles, trazendo um esfrego numa das mos e, na outra, a velha
boneca de pano que Mariam fez para ela. E Zalmai os seguia com alguma relutncia,
emburrado, andando sempre alguns passos mais atrs.
       Laila passava o aspirador pelos quartos, fazia as camas, espanava tudo.
Tariq lavava a pia e a banheira, esfregava as latrinas e passava um pano no piso de
linleo. Punha toalhas limpas nas prateleiras, frascos de xampu em miniatura e
sabonetes de amndoas. Aziza disse que ficaria encarregada de passar o limpa-vidros
nas janelas e sec-las com um pano. E a boneca ficava sempre por perto.
       Poucos dias depois do nikka, Laila conversou com Aziza sobre Tariq.
       Achava estranho, quase perturbador o que havia entre aqueles dois. A menina
j terminava as frases que ele comeava, e vice-versa. Pegava alguma coisa antes
mesmo que ele a pedisse. A mesa, durante o jantar, trocavam sorrisos cmplices,
como se no fossem estranhos, mas companheiros que se reencontravam depois de uma
longa separao.
       Aziza baixou os olhos, pensativa, e ficou fitando as prprias mos enquanto
a me falava com ela.
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       --  Gosto dele -- disse a menina, depois de um momento de silncio.
       --  Ele ama voc.
       --  Ele disse isso?
       --  Nem precisa dizer, Aziza.
       --  Conte o resto, mammy. Quero saber de tudo. Foi o que Laila fez.
       --  Seu pai  um bom homem. O melhor que j conheci.
       --  E quando ele for embora? -- perguntou Aziza.
       --  Ele no vai embora. Olhe para mim, Aziza. Seu pai nunca vai faz-la
sofrer. Nunca vai embora.
        O alivio que viu no rosto da filha lhe partiu o corao.
        Tariq comprou um cavalinho de balano para Zalmai, e construiu uma
carrocinha para o menino. Com um companheiro de priso, tinha aprendido a fazer
bichinhos de papel. Dobrando e recortando, transformou inmeras folhas em lees e
cangurus, cavalos e pssaros de plumagem colorida para Zalmai. O menino, porm,
desprezava todas essas tentativas sem a menor cerimnia, chegando at a ser
malcriado.
        -- Voc e um burro! -- gritou ele certa feita. -- No quero esses brinquedos
que voc faz!
        -- Zalmai! -- exclamou Laila.
        -- No tem problema -- disse Tariq. -- Pode deixar, Laila. No tem problema.
        -- Voc no  meu baba jan! Meu baba jan de verdade foi viajar e, quando
voltar, vai lhe dar uma surra! E voc no vai poder fugir, porque ele tem duas
pernas e voc s tem uma!
         noite, Laila abraava Zalmai junto ao peito e recitava com ele as preces
do Babalu. Sempre que o menino perguntava pelo pai, repetia a mesma mentira,
dizendo que seu baba jan tinha ido embora e que no sabia quando ele ia voltar.
Detestava fazer isso, tinha raiva de si mesma por mentir assim para uma criana.
        Laila sabia que essa mentira vergonhosa ainda seria repetida inmeras vezes.
Porque Zalmai estava sempre perguntando: quando pulava de um balano, quando
acordava depois de dormir  tarde. Mesmo depois, quando j tivesse idade para
amarrar os prprios sapatos, ir  escola sozinho, a mesma mentira continuaria a ser
contada.
        A certa altura, as perguntas vo parar. Aos poucos, Zalmai vai deixar de se
perguntar por que o pai o abandonou. Vai deixar de v-lo nos sinais de trnsito, de
identific-lo em qualquer homem meio encurvado andando pela rua ou sentado na
varanda de uma casa de ch. At que, um belo dia, quando estiver caminhando s
margens de algum rio sinuoso, ou fitando um campo deserto recoberto de neve, Zalmai
vai perceber que o sumio de seu pai j no  mais uma ferida aberta. Que isso se
tornou algo inteiramente diferente, algo mais brando, que no machuca. Como uma
espcie de lenda. Alguma coisa a ser reverenciada e no explicada.
        Laila est feliz em Murree. Mas no  uma felicidade fcil. Ela tem seu
preo.
        Em seus dias de folga, Tariq leva Laila e as crianas  rua principal da
aldeia com suas lojas vendendo as mais diversas bugigangas e onde fica uma igreja
anglicana construda em meados do sculo XIX. De algum vendedor ambulante, compra
chapli kebabs bem temperados para todos. Os quatro passeiam por entre a multido de
moradores do local, europeus com seus telefones celulares e cmeras digitais e
punjabis que vm para Murree tentando fugir do calor das plancies.
        s vezes, pegam um nibus at um mirante nas colinas, chamado Kashmir Point.
De l, Tariq lhes mostra o vale do rio Jhelum, as encostas recobertas de pinheiros
e os bosques viosos onde, segundo diz, ainda se podem ver macacos pulando de galho
em galho. Vo tambm a Nathia Gali, com os seus bosques de bordos, a uns trinta
quilmetros de Murree, e l, Tariq e Laila passeiam de mos dadas pela rua
sombreada de rvores que leva  Casa do Governador. Param para ver o velho
cemitrio britnico ou pegam um txi at o cume de uma das montanhas de onde se tem
uma linda vista do vale verdejante e cercado pela neblina.
        Durante esses passeios, quando passam diante de alguma loja, Laila os v
refletidos nas vitrines. Marido, mulher, filha, filho. Sabe que, para os estranhos,
parecem uma famlia bem comum, sem segredos, sem mentiras, sem arrependimentos.
        Aziza tem pesadelos e acorda aos gritos. Laila se deita ento ao seu lado,
enxuga o rosto da filha com a manga da blusa, tenta acalm-la para que volte a
dormir.
        Ela prpria tambm sonha. Nesses sonhos, se v de volta a casa de Cabul,
andando pelo corredor, subindo a escada. Est s, mas, por detrs das portas
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fechadas, ouve o chiado ritmado de um ferro de passar, o rudo de lenis sendo
estendidos e, depois, dobrados. s vezes, ouve a voz aguda de uma mulher
cantarolando uma velha cano herati. Mas, quando abre a porta, o quarto est
vazio. No h ningum l dentro.
       Esses sonhos a deixam abaladssima. Acorda banhada de suor, com os olhos
ardendo por causa das lgrimas. E devastador. Cada vez que acontece e devastador.
       49
       UM DOMINGO, NAQUELE MS DE SETEMBRO, Laila tentava fazer Zalmai dormir um
pouco, pois o menino estava resfriado. De repente, Tariq irrompe pela porta do
bangal em que moravam.
       -- J ouviu a notcia? -- perguntou, um tanto Ofegante. -- Mataram ele. Ahmad
Shah Massoud est morto.
       -- O qu?
       Parado ali, no vo da porta, Tariq lhe conta o que sabe.
       -- Dizem que ele deu uma entrevista a dois jornalistas que se diziam belgas
vindos do Marrocos. Enquanto estavam conversando, explodiu uma bomba que estava
escondida na cmera de vdeo. Massoud e um dos jornalistas morreram. O outro foi
baleado quando tentava fugir. Esto dizendo que esses jornalistas eram
provavelmente gente da Al-Qaeda.
       Laila lembrou do pster de Ahmad Shah Massoud que sua me tinha pendurado na
parede do quarto. Massoud ligeiramente inclinado para frente, uma sobrancelha
erguida, a expresso de concentrao no rosto, como se estivesse ouvindo algum com
todo respeito. Lembrou tambm de como sua me tinha ficado agradecida ao saber que
Massoud havia feito uma prece no enterro de seus irmos, como contava isso a todo
mundo. Mesmo depois que estourou a guerra entre a faco de Massoud e as demais,
mammy se recusava a fazer qualquer acusao contra ele. "Massoud  um homem bom",
dizia ela. "Quer a paz. Quer reconstruir o Afeganisto. Mas no deixam.
Simplesmente no deixam." Para sua me, mesmo no fim, mesmo quando deu tudo errado
e Cabul ficou reduzida a runas, Massoud continuava a ser o Leo de Panjshir.
       Laila no era to benevolente. A morte violenta de Massoud no a deixava
alegre, mas no esquecia os bairros inteiros arrasados bem diante dos olhos dele,
os cadveres retirados dos escombros, as mos e ps de crianas encontrados nos
telhados ou no alto de alguma rvore dias depois de seus corpos terem sido
enterrados. Lembrava nitidamente do rosto de sua prpria me minutos antes da
exploso do mssil e tambm, por mais que tentasse esquecer essa cena, do torso sem
cabea de seu pai caindo ali no cho, com as extremidades da ponte pintada em sua
camiseta aparecendo em meio  nvoa e ao sangue.
       -- Vai haver um funeral -- dizia Tariq. -- Tenho certeza. Provavelmente em
Rawalpindi. E deve ter uma verdadeira multido por l.
       Zalmai, que j estava quase dormindo, tinha se sentado na cama e esfregava
os olhos com os punhos cerrados.
       Dois dias depois, quando estavam limpando um dos quartos do hotel, ouviram
um alvoroo. Tariq largou o escovo e saiu correndo. Laila foi atrs dele.
       O barulho vinha do saguo do hotel. Havia uma espcie de sala de visitas a
direita do balco da recepo, com vrias cadeiras e dois sofs estofados de
camura bege. Num canto, defronte dos sofs, ficava uma televiso, e Sayid, o
porteiro e inmeros hspedes estavam parados diante do aparelho.
       Laila e Tariq foram at l.
       A TV estava ligada na BBC. Na tela, via-se um prdio, uma torre, com fumaa
negra saindo dos andares mais altos. Tariq perguntou algo e, mal Sayid comeou a
responder, surgiu um avio num dos cantos da tela. Este segundo avio se chocou com
a torre ao lado, explodindo como uma bola de fogo muito maior que qualquer outra
que Laila j tinha visto na vida. Todos na sala soltaram exclamaes de espanto.
       Em menos de duas horas, ambas as torres tinham desmoronado.
       Logo depois, todos os canais comearam a falar do Afeganisto, dos talibs,
de Osama bin Laden.
       -- Ouviu o que os talibs disseram? -- perguntou Tariq. -- Sobre Bin Laden?
       Aziza estava sentada na cama, defronte dele, observando o tabuleiro. Tariq
estava lhe ensinando a jogar xadrez. A menina tinha agora a testa franzida e dava
umas batidinhas no lbio inferior, imitando os gestos do pai quando refletia sobre
o prximo movimento que deveria fazer.
       Zalmai tinha melhorado um pouco do resfriado. Estava dormindo naquele
momento e Laila passava Vick em seu peito.
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       -- Ouvi, sim -- disse ela.
       O Talib tinha declarado que no entregaria Bin Laden, pois ele era um
mehman, um hspede que tinha conseguido abrigo no Afeganisto e o cdigo de tica
pashtunwali no permitia que se trasse um hspede. Tariq deu um risinho amargo e,
por esse riso, Laila percebeu a revolta do marido ao ver essa distoro de um nobre
costume dos pashtuns, essa deturpao dos hbitos do seu povo.
       Poucos dias depois daqueles ataques, Laila e Tariq estavam novamente no
saguo do hotel. Na tela da TV, George W. Bush estava falando. s suas costas, uma
grande bandeira dos Estados Unidos. A certa altura, a voz do presidente tremeu e
Laila achou que ele fosse chorar.
       Sayid, que falava ingls, disse a ambos que Bush acabava de declarar guerra.
       -- Contra quem? -- indagou Tariq.
       -- Contra o pas de vocs, para comear...
       -- Talvez no seja to ruim assim... -- observou Tariq.
       Tinham acabado de fazer amor. Ele estava deitado ao seu lado, com a cabea
no seu peito e o brao passado por sua barriga. As primeiras vezes que tentaram
foram bem difceis. Tariq s fazia se desculpar e Laila procurava tranqiliz-lo.
As dificuldades continuavam, mas, agora, no eram fsicas e sim de logstica. O
casebre que dividiam com as crianas era pequeno. Aziza e o irmo dormiam em
caminhas de armar, logo ali ao lado, no lhes dando, portanto, nenhuma privacidade.
Quase sempre, Laila e Tariq fazem amor em silncio, com paixo calada e contida,
inteiramente vestidos por debaixo das cobertas, temendo serem interrompidos pelas
crianas. Esto sempre atentos ao menor rudo de um lenol, ao menor rangido de
molas. Para Laila, porm, o simples fato de estar com Tariq compensava todas essas
apreenses. Quando faziam amor, ela se sentia segura, protegida. Suas aflies, o
medo de que essa vida fosse apenas uma felicidade temporria, de que, em breve,
algo fosse se estilhaar novamente e ir por gua abaixo, desapareciam. Seus temores
de uma separao deixavam de existir.
       -- O que quer dizer com isso? -- indagou ela.
       -- O que est acontecendo l no Afeganisto. Talvez acabe no sendo to ruim
assim.
       As bombas tinham voltado a cair sobre o pas. Desta feita, lanadas pelos
Estados Unidos. Todos os dias, Laila via imagens da guerra na TV, quando estava
trocando os lenis ou passando o aspirador. Mais uma vez, os Estados Unidos tinham
armado os senhores da guerra e convocado o auxilio da Aliana do Norte para
expulsar os talibs e encontrar Bin Laden.
       Mas Laila ficou aborrecida ao ouvir Tariq dizer aquilo. Com um gesto brusco,
tirou a cabea dele de seu peito.
       -- Como assim? Gente morrer? Mulheres, crianas, velhos? Lares destrudos
novamente? Como isso pode no ser to ruim?
       -- Shhh. Voc vai acordar as crianas.
       -- Como pode dizer uma coisa dessas, Tariq? -- esbravejou ela. -- Depois do tal
"engano" em Karam? Uma centena de inocentes mortos! Voc viu os corpos com seus
prprios olhos!
       -- Mas no e isso -- retrucou Tariq, erguendo o tronco e apoiando-se no
cotovelo para fita-la. -- Voc no entendeu. O que eu queria dizer era...
       -- Voc no sabe de nada -- disse Laila. Percebia que estava comeando a
erguer a voz, que os dois estavam tendo a primeira briga depois de casados. -- Voc
foi embora assim que os mujahedins comearam a lutar entre si, lembra? Fui eu que
fiquei l. Eu. Conheo a guerra. Perdi meus pais na guerra. Meus pais, Tariq. E,
agora, voc vem me dizer que uma guerra no e to ruim assim?
       -- Desculpe, Laila. Desculpe -- disse ele, pegando o rosto da mulher com ambas
as mos. -- Tem razo. Sinto muito. Me desculpe. O que eu estava querendo dizer era
que talvez haja alguma esperana no fim desta guerra. Quem sabe, pela primeira vez
depois de tanto tempo...
       -- No quero mais falar sobre isso -- atalhou Laila, espantada com sua prpria
reao. Sabia que no era justo o que tinha dito a ele. Afinal, a guerra no lhe
roubou os pais tambm? E toda aquela indignao j estava comeando a se abrandar.
Tariq continuava falando baixinho e, quando ele a puxou para junto de si, Laila
deixou. Quando ele beijou a sua mo e, depois, a sua testa, ela deixou. Sabia que
ele bem podia ter razo. Sabia o que ele estava querendo dizer. Talvez aquilo fosse
necessrio. Talvez houvesse esperanas depois que cessassem os bombardeios de Bush.
Mas no conseguia sequer formular essas frases, no quando o que aconteceu a seus
pais estava acontecendo a algum mais no Afeganisto, no quando uma menina ou um
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                     Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
menino inteiramente desavisados chegavam de volta em casa para descobrir que um
mssil os tinha deixado rfos, como aconteceu com ela. Simplesmente no conseguia.
Era difcil se animar. Parecia uma atitude hipcrita, perversa.
       Naquela noite, Zalmai acordou tossindo. Antes que Laila pudesse se mexer,
Tariq j estava sentado na cama. Prendeu a prtese, foi at a caminha de Zalmai e o
pegou no colo. De sua cama, Laila via o vulto do marido se movendo para frente e
para trs no escuro. Via o contorno da cabea de Zalmai em seu ombro, a mozinha do
menino em seu pescoo, o seu pezinho balanando na altura da cintura de Tariq.
       Quando ele voltou para a cama, nenhum dos dois disse nada. Laila estendeu a
mo. O rosto de Tariq estava molhado.
       50
       PARA LAILA, ESSES TEMPOS EM MURREE tm sido uma vida de conforto e
tranqilidade. O trabalho no  exaustivo, e, nos dias de folga, levam as crianas
para andar no telefrico do morro Patriata, ou a Pindi Point de onde, quando o
tempo est bom, se pode ver at Islamabad e o centro de Rawalpindi. L no alto,
estendem uma toalha na grama, comem sanduches de bolo de carne com pepino e tomam
ginger ale gelada.
       A seu ver, e uma vida boa, e deve agradecer por isso. Na verdade, 
exatamente a vida que sonhava nos piores dias de seu casamento com Rashid. E Laila
se lembra disso diariamente.
       Ate que, numa noite quente do ms de julho de 2002, Tariq e ela estavam
deitados, conversando em voz baixa sobre todas as mudanas que vinham ocorrendo no
Afeganisto. Eram tantas... As foras da coalizo tinham expulsado os talibs de
todas as principais cidades, empurrando-os em direo a fronteira com o Paquisto e
s montanhas ao sul e a leste do pais. A ISAF, uma fora internacional de
segurana, foi mandada para Cabul. E o pais tinha, agora, um presidente interino,
Hamid Karzai.
       Laila decidiu que tinha chegado a hora de contar a Tariq.
       Um ano atrs, teria dado um brao para ir embora de Cabul, e faria isso de
muito bom grado. Nos ltimos meses, porm, vinha sentindo saudade da cidade de sua
infncia. Sentia falta do movimento do Shor Bazaar, dos Jardins de Babur, do prego
dos carregadores de gua com seus sacos de pele de cabra. Tinha saudade dos
mascates que vendiam roupas na rua das Galinhas e dos ambulantes vendendo melo em
Karteh-Parwan.
       Mas no era s por isso que vinha pensando tanto em Cabul nos ltimos
tempos. Laila andava atormentada pela inquietao. Ouviu dizer que estavam
construindo escolas em Cabul, que as ruas estavam sendo pavimentadas novamente, que
as mulheres tinham recomeado a trabalhar e a vida que levava em Murree, por mais
agradvel que fosse, por mais agradecida que estivesse, lhe parecia agora...
insuficiente. Sem sentido. Pior que isso, um desperdcio. Ultimamente, no raro
ouvia a voz de babi lhe dizendo: "Voc vai poder ser o que quiser, Laila. Sei
disso. E tambm sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganisto vai precisar de
voc..."
       Ouvia tambm a voz de sua me, lembrava da resposta que ela deu ao marido
quando ele sugeriu que a famlia deixasse o Afeganisto. "Quero ver o sonho dos
meus filhos se tornar realidade... Quero estar aqui quando isso acontecer, quando o
Afeganisto voltar a ser livre, pois, assim, os meninos vo ver isso tambm. Vo
ver essas cenas atravs dos meus olhos." Agora, uma parte de Laila quer voltar a
Cabul, por seus pais, para que eles possam ver isso atravs dos seus olhos.
       Mas h ainda uma coisa, a mais irresistvel de todas: Mariam. "Foi para isso
que ela morreu?", pergunta-se a moa. Ser que ela se sacrificou para Laila ser
camareira num pas estrangeiro? Talvez, para Mariam, nada disso tivesse a menor
importncia, contanto que ela e as crianas estivessem a salvo e felizes. Mas era
importante para Laila. De repente, talvez fosse a coisa mais importante no mundo.
       -- Quero voltar -- disse ela.
       Tariq se sentou na cama e olhou para a mulher.
       Mais uma vez, Laila ficou impressionada com a beleza dele, a curva perfeita
da testa, os msculos esguios dos braos, os olhos sonhadores, inteligentes. Mesmo
agora, um ano depois, ainda existem momentos como esse, momentos em que Laila no
consegue acreditar que eles se reencontraram, que Tariq est mesmo ali, com ela, e
 seu marido.
       -- Voltar? Para Cabul? -- perguntou ele.
       -- S se voc quiser -- respondeu ela.
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       -- No est gostando daqui? Parece feliz. E as crianas tambm. Laila se
levantou. Tariq se ajeitou na cama, abrindo espao para ela sentar ao seu lado.
       -- E estou feliz -- disse a moa. -- Claro que estou. Mas... para onde vamos
depois, Tariq? Por quanto tempo vamos ficar? Aqui no  a nossa casa. Cabul  que
, e tem muita coisa acontecendo por l, muita coisa boa. Quero participar de tudo
isso. Quero fazer algo. Quero dar minha contribuio, entende?
       Tariq fez que sim com a cabea, bem devagar.
       -- Ento,  isso que voc quer? Tem certeza?
       -- , sim. Tenho certeza. Mas no  s isso. Sinto que preciso voltar. Ficar
aqui j no me parece mais certo.
       Tariq ficou fitando as prprias mos, e, depois, voltou a erguer os olhos
para ela.
       -- Mas s vou se voc tambm quiser ir -- disse Laila.
       Tariq sorriu. Sua testa se desanuviou e, por um breve instante, quem estava
ali era o Tariq de antigamente, que no tinha dores de cabea, que, um dia, disse
que, na Sibria, as melecas viravam gelo antes de cair no cho. Talvez fosse apenas
sua imaginao, mas Laila achava que essas manifestaes do velho Tariq tinham se
tornado mais freqentes nos ltimos tempos.
       -- Eu? -- exclamou ele. -- Com voc, vou at o fim do mundo, Laila.
       Ela o puxou para si e o beijou. Achava que nunca o tinha amado tanto quanto
naquele instante.
       -- Obrigada -- disse ela, recostando a cabea na dele.
       -- Vamos voltar para casa.
       -- Mas, antes, quero ir a Herat -- acrescentou ela.
       -- A Herat?
       Ento, a moa lhe explicou por qu.
       Laila precisou tranqilizar os filhos, cada um a seu modo. Sentou-se para
conversar com uma Aziza ansiosa, que continuava tendo pesadelos, que, na semana
anterior, chegou a chorar de to assustada que ficou quando algum deu uns tiros
para o alto num casamento celebrado na vizinhana. Teve de explicar  menina que,
quando chegassem a Cabul, os talibs no estariam mais l, que no haveria mais
combates e que ela no voltaria para o orfanato.
       -- Vamos morar todos juntos. Seu pai, Zalmai, eu e voc, Aziza. Nunca mais
vou me separar de voc. Nunca. Juro. -- E acrescentou, sorrindo: -- A no ser quando
voc resolver fazer isso,  claro. Quando se apaixonar por um rapaz e quiser se
casar com ele.
       No dia em que deixaram Murree, Zalmai estava inconsolvel. Passou os braos
pelo pescoo de Alyona e no queria soltar o animal de jeito nenhum.
       -- Ele no quer largar, mammy -- disse Aziza.
       -- No podemos levar uma cabra no nibus, Zalmai -- disse Laila, mais uma vez.
       S quando Tariq se ajoelhou ao seu lado, prometendo que lhe compraria uma
cabra igualzinha a Alyona quando estivessem em Cabul, Zalmai soltou o animal, mas
no sem alguma relutncia.
       Tambm houve lgrimas quando se despediram de Sayid. Para lhes trazer boa
sorte, o homem segurou o Coro diante da porta e Tariq, Laila e as crianas o
beijaram trs vezes. Depois, Sayid ergueu bem alto o livro sagrado para que os
quatro passassem por baixo dele. Ajudou Tariq a pr a bagagem no porta-malas de seu
carro, levou a famlia at a rodoviria e ficou parado na calada, acenando,
enquanto o nibus dava a partida e ia embora.
       Pelo vidro traseiro do veculo, Laila viu Sayid ir desaparecendo, e, ento,
a voz da dvida comeou a sussurrar em sua cabea. Ser que era tolice deixar para
trs a segurana de Murree? Voltar para a terra onde morreram seus pais e seus
irmos, onde a fumaa dos bombardeios ainda no tinha assentado de vez?
       Mas, l do fundo de suas lembranas, surgiram dois versos de um poema, a ode
de despedida de seu pai a Cabul:
       No se podem contar as luas que brilham em seus telhados,
       Nem os mil sis esplndidos que se escondem por trs de seus muros.
       Laila se ajeitou na poltrona, piscando os olhos marejados. Cabul estava a
sua espera. Precisava dela. Essa viagem de volta era a atitude certa a tomar.
       Antes, porm, havia mais uma despedida.
       Todas aquelas guerras tinham destrudo as estradas ligando Cabul, Herat e
Kandahar. Atualmente, a melhor maneira de se chegar a Herat era por Mashad, no Ir.
Laila e sua famlia s ficaram por l uma noite. Dormiram num hotel e, na manh
seguinte, embarcaram em outro nibus.
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                      Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       Mashad  uma cidade movimentada, populosa. Pela janela, Laila viu desfilarem
parques, mesquitas e restaurantes cheio kebah. Quando o nibus passou pelo
santurio do imame Reza, o oitavo imame dos xiitas, a moa espichou o pescoo para
ver melhor os azulejos reluzentes, os minaretes, a magnfica cpula dourada, tudo
maravilhosamente preservado. Lembrou das esttuas dos Budas em seu prprio pas.
Agora, elas no passam de p que o vento espalha pelo vale de Bamiyan.
       A viagem ate a fronteira entre o Ir e o Afeganisto leva quase dez horas. 
medida que vo se aproximando de sua terra, a paisagem vai ficando mais desolada, o
solo, mais rido. Pouco antes de cruzarem a fronteira, passam por um campo de
refugiados afegos. Para Laila,  apenas um borro de poeira amarelada, tendas
pretas e estruturas precrias feitas de folhas de zinco. Estende ento o brao e
pega a mo de Tariq.
       Em Herat, quase todas as ruas so pavimentadas e bordejadas de pinheiros que
exalam sua fragrncia agradvel. H parques pblicos e bibliotecas em obras,
jardins bem cuidados, prdios recm-pintados. Os sinais de trnsito esto
funcionando e, para a grande surpresa de Laila, no falta luz. Tinha ouvido dizer
que o senhor da guerra local, Ismail Khan, com seu estilo feudal, tinha contribudo
para a reconstruo da cidade graas s considerveis taxas alfandegrias que
recolhe na fronteira entre o Ir e o Afeganisto, dinheiro que Cabul alega
pertencer no a ele, mas ao governo central. H um misto de reverncia e de medo no
tom do motorista de txi que os leva ao hotel Muwaffaq, quando este menciona o nome
de Ismail Khan.
       As duas dirias naquele hotel lhes custaram quase um quinto de suas
economias, mas a viagem tinha sido longa e cansativa, e as crianas estavam
exaustas. O funcionrio idoso da recepo disse a Tariq, dando-lhe as chaves do
quarto, que o Muwaffaq  muito freqentado por jornalistas e gente que trabalha
para organizaes no-governamentais.
       -- Bin Laden dormiu aqui uma vez -- disse ele, se vangloriando.
       O quarto tinha duas camas e um banheiro com gua fria. Na parede, entre as
camas, um quadro do poeta Khaja Abdullah Ansary. Pela janela, Laila viu a rua
movimentada, l embaixo, e, do outro lado, um parque com alias de tijolos em tons
pastel entre arbustos repletos de flores. As crianas, que tinham se habituado 
televiso, ficaram desapontadas por no haver uma no quarto. Logo, logo, porm,
pegaram no sono. Tariq e Laila tambm no tardaram a adormecer. Laila dormiu a sono
solto nos braos de Tariq, a no ser por um breve instante em que acordou durante a
noite. Sabia que tinha sonhado, mas no conseguiu se lembrar do sonho.

       Na manh seguinte, depois de tomarem um ch, comerem po fresco com gelia
de marmelo e ovos cozidos, Tariq foi chamar um txi para ela.
       -- Tem certeza que no quer que eu v com voc? -- perguntou. Aziza estava de
mo dada com ele. Zalmai no, mas estava bem pertinho, com um dos ombros apoiados
em seu quadril.
       -- Tenho, sim.
       -- Mas fico preocupado.
       -- Vai dar tudo certo -- disse Laila. -- Pode confiar em mim. Leve as crianas
ao mercado e compre alguma coisa para elas.
       O txi se afastou e Zalmai comeou a chorar. Quando Laila se virou, viu o
filho estendendo os braos para Tariq.  evidente que o menino est comeando a
aceit-lo. Laila fica tranqila com isso, mas tambm com o corao apertado.
       -- A senhora no  daqui -- disse o taxista. O homem tinha um cabelo escuro,
que lhe batia nos ombros -- o que, como Laila acabou descobrindo, era uma espcie de
revanche, depois que os talibs se foram -- e uma cicatriz que lhe atravessava o
bigode do lado esquerdo. No pra-brisa, perto dele, havia uma foto pregada com fita
adesiva. Era uma menina de rosto corado e cabelo repartido no meio, penteado em
duas trancas.
       Laila lhe disse que tinha passado um ano no Paquisto, e estava voltando
para Cabul.
       -- Para Deh-Mazang.
       L fora, viu latoeiros soldando alas metlicas em jarras, seleiros
estendendo pedaos de couro cru para secar ao sol.
       -- O senhor mora aqui h muito tempo, irmo? -- perguntou ela.
       -- A vida toda. Nasci aqui. Vi tudo acontecer. A senhora se lembra do
levante?
       Embora a resposta de Laila tenha sido afirmativa, ele prosseguiu.
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       -- Foi em maro de 1979, uns nove meses antes da invaso sovitica. Alguns
heratis enfurecidos mataram uns conselheiros soviticos e, ento, eles mandaram
seus tanques e seus helicpteros e abriram fogo contra a cidade. E nos bombardearam
durante trs dias, hamshireh. Derrubaram prdios, destruram um dos minaretes,
mataram milhares de pessoas. Milhares. Perdi duas irms nesses trs dias. Uma delas
tinha doze anos.  essa aqui -- acrescentou ele, batendo com a mo na foto presa ao
pra-brisa.
       -- Sinto muito -- disse Laila, impressionada por ver que a histria de cada
afego e marcada por mortes, perdas e dor. E, mesmo assim, percebe que as pessoas
do um jeito de sobreviver, de seguir em frente. Pensa em sua prpria vida e em
tudo o que lhe aconteceu, e se surpreende ao se dar conta de que tambm sobreviveu,
que est viva, sentada nesse taxi, ouvindo a historia desse homem.

       Gul Daman  uma aldeia com umas poucas casas erguendo-se em meio  kolbas
feitas de barro e palha. Nos quintais desses casebres, Laila v mulheres queimadas
de sol que cozinham, suando por causa do vapor quente que sai de panelas
enegrecidas sobre fogareiros improvisados. V muls comendo em cochos. Crianas que
corriam atrs de galinhas e comeam a correr atrs do txi. Homens empurrando
carrinhos de mo repletos de pedras. Todos param para ver o carro passar. Depois de
uma curva, o txi passa defronte de um cemitrio e, bem no meio dele, Laila v um
mausolu castigado pelo tempo. O homem lhe diz que quem est enterrado ali  um
sufi da aldeia.
       H tambm um moinho. A sombra de suas ps j inteis e enferrujadas, trs
menininhos agachados brincam na lama. O motorista pra e mete a cabea pela janela.
O menino que parece mais velho responde  sua pergunta, apontando para uma casa que
fica mais acima, na mesma rua. O taxista agradece e o carro segue adiante.
       Estaciona defronte de uma casa trrea. Por detrs do muro, Laila v a parte
superior de umas figueiras com alguns galhos que se esparramam de ambos os lados.
       -- No demoro -- diz ela ao motorista.
       O homem de meia-idade que veio abrir a porta  baixo, magro, de cabelo
avermelhado e uma barba entremeada de fios grisalhos. Est usando um chapan por
cima do pirhan-tumban.
       Os dois se cumprimentam, dizendo salaam alaykum.
       -- Esta  a casa do mul Faizullah? -- perguntou Laila.
       -- E, sim. Sou o filho dele, Hamza. Em que posso ajud-la, hamshireh?
       -- Vim at aqui por causa de uma velha amiga de seu pai, Mariam.
       -- Mariam... -- disse ele, piscando os olhos com uma expresso um tanto
desconcertada.
       -- A filha de Jalil Khan.
       O homem volta a piscar os olhos. De repente, leva uma das mos ao rosto que
se ilumina com um sorriso revelando dentes estragados e algumas falhas.
       -- Ah! -- exclama ele, e sua exclamao se alonga num Ahhhhh que mais parece
uma exalao. -- Ah, Mariam! Voc  filha dela? Ela est... -- prossegue Hamza,
virando a cabea para um lado e para o outro, ansioso, procurando. -- Ela est aqui?
J faz tanto tempo! Mariam est aqui?
       -- Infelizmente, ela faleceu.
       O sorriso desapareceu do rosto de Hamza.
       Por um instante, ficaram os dois parados ali. Ele fitava o cho. Em algum
lugar, um burro zurrou.
       -- Entre -- disse ele, enfim, abrindo a porta. -- Entre, por favor.
       Sentaram-se no cho de uma sala com pouqussimos mveis. Havia um tapete de
Herat cobrindo o assoalho, almofadas bordadas e, numa moldura, uma foto de Meca
pendurada na parede. Instalaram-se perto da janela aberta, um de cada lado da
figura oblonga que o sol traava no cho. Laila podia ouvir vozes femininas
sussurrando em algum outro cmodo da casa. Um menino descalo ps a sua frente uma
bandeja com ch verde e gaaz, o nug de pistache.
       --  meu filho -- disse Hamza, indicando o menino com um gesto de cabea.
       E o garoto saiu da sala sem dizer nada.
       -- Conte-me o que aconteceu -- pediu ele, com um ar cansado.
       E Laila obedeceu. Contou tudo. Levou mais tempo do que supunha. Quando j
estava chegando ao fim de seu relato, precisou lutar para manter a compostura.
Mesmo agora, um ano depois, ainda era muito difcil falar de Mariam.
       Terminou e Hamza ficou um bom tempo calado, fazendo a xcara girar no pires
para um lado e para o outro.
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                       Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
       -- Meu pai, que Deus o tenha, gostava tanto dela... -- disse ele, enfim. -- Foi
ele que cantou o azan em seu ouvido quando ela nasceu. Ia visit-la toda semana,
sem falta. s vezes, eu ia junto com ele. Era seu professor, mas tambm um amigo.
Meu pai era um homem muito bom. Foi um grande golpe para ele quando Jalil decidiu
cas-la daquele jeito.
       -- Lamento por seu pai. Que Deus tenha piedade dele. Hamza agradeceu com um
aceno de cabea.
       -- Ele morreu bem velhinho. Na verdade, viveu mais que Jalil Khan. Est
enterrado no cemitrio da aldeia, no muito longe da sepultura da me de Mariam.
Meu pai era um homem muito, muito querido. Com certeza, tem seu lugar garantido no
Paraso.
       Laila pousou a xcara no pires. -- Posso lhe pedir uma coisa?
       -- Claro.
       -- O senhor pode me levar at l? -- indagou ela. -- Onde Mariam morava. Pode
me levar at l?
       O taxista concordou em esperar mais um pouco.
       Hamza e Laila deixaram a aldeia e tomaram a estrada que liga Herat a Gul
Daman. Cerca de quinze minutos depois, ele apontou para uma trilha estreita em meio
ao capim alto que cobria ambos os lados da estrada.
       --  por aqui -- disse Hamza. -- H um caminho mais adiante.
       Era uma estradinha irregular, sinuosa e sombria, encoberta pela vegetao e
com muito mato. Com o vento, o capim ia roando nas pernas da moa enquanto subiam
por aquela trilha, dobrando uma curva aqui, outra ali. De ambos os lados, um
caleidoscpio de flores silvestres balanava ao vento, algumas delas mais altas,
com ptalas recurvadas, outras, baixinhas, de folhagem espalmada. Vira e mexe,
surgiam botes-de-ouro por entre as moitas menores. Laila ouvia o piado das
andorinhas l no alto, e os estalidos dos gafanhotos a seus ps.
       Subiram uns cento e cinqenta metros ou mais. At que o solo ficou plano,
abrindo-se para uma espcie de plat. Os dois pararam para retomar o flego. Laila
enxugou a testa com a manga e espantou os mosquitos que voavam diante de seu rosto.
Dali, podia ver as montanhas que se erguiam no muito altas contra o horizonte,
umas poucas faias, alguns choupos, inmeros arbustos silvestres cujo nome
desconhecia.
       -- Antigamente, havia um riacho aqui -- disse Hamza, um tanto Ofegante. -- Mas
ele secou h muito tempo.
       Mandou, ento, que ela atravessasse o leito seco do riacho e seguisse em
direo s montanhas.
       -- Vou ficar esperando aqui -- disse ele, sentando-se numa pedra a sombra de
um choupo. -- Pode ir.
       -- No vou...
       -- No se preocupe, hamshireh. No se apresse. Pode ir.
       Laila agradeceu a gentileza. Atravessou o leito do riacho, pisando nas
pedras com cuidado. Viu garrafas de refrigerante quebradas, latas enferrujadas e
uma espcie de ba metlico com tampa de zinco, todo azinhavrado e parcialmente
enterrado no cho.
       Seguiu andando em direo s montanhas, rumo aos salgueiros-chores que,
agora, j podia ver, com seus longos ramos pendentes se agitando a cada rajada de
vento. Seu corao estava aos pulos no peito. Via que as arvores tinham exatamente
a disposio que Mariam havia descrito, formando um bosquezinho circular com a
clareira bem no meio. Laila ia andando mais depressa, agora, quase correndo. Olhou
para trs e avistou a figura mida de Hamza. Seu chapan era apenas um borro de cor
contra o pano de fundo marrom do tronco da rvore. Tropeou numa pedra, quase caiu,
mas conseguiu se equilibrar. Arregaou as calas e fez o resto do trajeto em ritmo
bem acelerado. Quando chegou aos salgueiros, estava Ofegante.
       A kolba de Mariam ainda estava l.
       Mais de perto, viu que a nica janela estava sem a vidraa e que a porta j
no existia. Mariam tinha lhe falado tambm de um galinheiro, um tandoor e um
banheiro externo, mas no havia sinal de nada disso. Laila se deteve na entrada da
kolba. Podia ouvir as moscas zumbindo ali dentro.
       Precisou se desviar de uma teia de aranha bem grande. Estava escuro no
interior do casebre. Laila teve de esperar alguns instantes, at os seus olhos se
acostumarem  escurido. Ento, percebeu que o lugar era ainda menor do que
supunha. Das tbuas do assoalho, s restava uma, pela metade, apodrecida. Imaginou
que o resto havia sido arrancado para ser usado como lenha. Agora, o cho e forrado
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de folhas secas, garrafas quebradas, papeis de chicletes, cogumelos selvagens,
pontas de cigarro amareladas pelo tempo. Mas, acima de tudo, est cheio de ervas
daninhas, algumas mirradas, outras se erguendo atrevidas, e subindo pelas paredes.
        "Quinze anos", pensou Laila, "quinze anos vivendo nesse lugar".
        Sentou-se, ento, recostada na parede. Ouvia o vento soprando por entre a
folhagem dos salgueiros. Havia outras teias de aranha espalhadas pelo teto. Algum
escreveu algo com tinta spray numa das paredes, mas, como boa parte das palavras
tinha se deteriorado, a moa no conseguiu decifrar o que diziam. De repente,
percebeu que eram letras do alfabeto russo. Num canto, viu um ninho de pssaros
abandonado, e, no outro, um morcego de cabea para baixo, exatamente no ponto em
que parede e teto se encontravam.
        Laila fechou os olhos e ficou sentada ali por um instante.
        s vezes, quando estava no Paquisto, achava difcil lembrar do rosto de
Mariam em detalhes. Houve at algumas ocasies em que os seus traos lhe escapavam,
como uma palavra que est na ponta da lngua. Mas agora, naquele lugar,  fcil
evocar a imagem de Mariam por trs de suas plpebras cerradas: o brilho manso de
seu olhar, o queixo comprido, a pele curtida de seu pescoo, o sorriso naqueles
lbios finos. Aqui, Laila podia voltar a deitar a cabea no colo macio de Mariam,
senti-la balanando o corpo para frente e para trs, recitando versculos do Coro,
e podia sentir as palavras vibrando por aquele corpo, chegando aos joelhos e, de
l, a seus prprios ouvidos.
        De repente, as ervas daninhas comearam a desaparecer, como se algo as
puxasse pelas razes bem l do fundo da terra. E elas foram afundando, afundando,
at que o cho da kolba engoliu a ltima de suas folhas pontiagudas. Num passe de
mgica, as teias de aranha se desfizeram. O ninho de passarinho se desmanchou, com
os gravetos se soltando um a um, e voando porta afora para longe do casebre. Uma
borracha invisvel apagou as letras russas da parede.
        As tbuas do assoalho esto de volta. Nesse momento, Laila pode ver dois
catres, uma mesa de madeira, duas cadeiras, um fogareiro de ferro fundido num
canto, prateleiras pelas paredes, abrigando vasilhas e panelas, um servio de ch
escurecido, xcaras e colheres. Ouve as galinhas cacarejando ali fora e, mais ao
longe, o gorgolejo do riacho.
        Uma jovem Mariam est sentada junto  mesa, fazendo uma boneca a luz de uma
lamparina a leo. Est cantarolando. Tem o rosto suave e juvenil, o cabelo foi
lavado e est penteado para trs. E no lhe falta nenhum dente.
        Laila a v colar pedaos de l na cabea da boneca. Em poucos anos, essa
menina vai ser uma mulher que pede muito pouco da vida, que nunca incomoda ningum,
nunca deixa transparecer que ela tambm tem tristezas, desapontamentos, sonhos que
foram menosprezados. Uma mulher que vai ser como uma rocha no leito de um rio,
suportando tudo sem se queixar. Uma mulher cuja generosidade, longe de ser
contaminada, foi forjada pelas turbulncias que se abateram sobre ela. Laila j
consegue ver algo nos olhos daquela menina, algo to arraigado que nem Rashid nem
os talibs conseguiram destruir. Algo to rijo e inabalvel quanto um bloco de
calcrio. Algo que, afinal, acabou sendo a sua runa e a salvao de Laila.
        A menina ergue os olhos. Deixa a boneca de lado. E sorri.
        "Laila jo?"
        Assustada, Laila abre os olhos. Quase engasga e debrua o corpo para frente.
Espanta o morcego que voa de um lado a outro da kolba, lembrando o rudo de folhas
de papel ao vento, at sair pela janela.
        A moa se levanta, espana as folhas secas das calas e sai da kolba. La
fora, a claridade j se alterou ligeiramente. O vento que sopra faz o capim ondular
e as folhas dos salgueiros estalarem.
        Antes de deixar a clareira, olha, pela ltima vez, para a kolba onde Mariam
dormiu, comeu, sonhou, ansiou pela presena de Jalil. Naquelas paredes alquebradas,
a sombra dos salgueiros traa figuras que se movem a cada rajada de vento. Um corvo
vem pousar no teto plano do casebre. Cisca um pouco, solta um grasnido, e vai
embora.
        -- Adeus, Mariam.
        E, dizendo isso, sai correndo de volta pelo mato, sem perceber que estava
chorando.
        Vai encontrar Hamza ainda sentado naquela pedra. Assim que ele a v, se pe
de p.
        -- Vamos voltar -- diz ele. -- Tenho algo para lhe dar.
        Laila ficou esperando por Hamza no jardim da frente da casa. O menino que
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                        Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
tinha lhes servido ch mais cedo estava debaixo de uma figueira, com uma galinha
nos braos, e a fitava com um ar impassvel. Laila avistou dois rostos, o de uma
velha e o de uma garota, ambas usando hijabs, que a observavam, um tanto acanhadas,
por detrs de uma das janelas.
        Quando a porta da casa se abriu, Hamza saiu carregando uma lata que entregou
a moa.
        -- Jalil Khan deu isso a meu pai cerca de um ms antes de morrer -- disse
Hamza. -- Pediu que meu pai a guardasse at que Mariam viesse busc-la. E ele a
guardou, por dois anos. Depois, pouco antes de falecer, me transmitiu a incumbncia
de guardar isso para Mariam. Mas ela... ela nunca apareceu.
        Laila baixou os olhos e fitou a latinha ovalada. Parecia uma velha caixa de
bombons, toda verde-oliva com uns arabescos dourados j bastante desbotados na
tampa. A lata tinha uns pontos de ferrugem nas laterais e estava ligeiramente
amassada na borda da tampa. A moa tentou abri-la, mas ela estava trancada.
        -- O que h aqui dentro? -- perguntou.
        -- Meu pai jamais a abriu -- respondeu Hamza, depositando uma chave na palma
de sua mo. -- Nem eu. Acho que era a vontade de Deus que a senhora a abrisse.
        Quando Laila chegou ao hotel, Tariq e as crianas ainda no tinham voltado.
        Sentou-se na cama, com a latinha no colo. Parte dela queria deix-la
fechada, manter em segredo o que quer que Jalil pretendesse com aquilo. Mas a
curiosidade acabou sendo maior. Enfiou a chave na fechadura e, depois de algumas
tentativas e sacudidelas, conseguiu abri-la.
        Ali dentro, havia trs coisas: um envelope, um saco de aniagem e uma fita de
vdeo.
        Laila pegou a fita e foi at a recepo. O mesmo funcionrio idoso que os
recebeu na vspera disse que o hotel s tinha um aparelho de videocassete, na sute
principal. Como ela estava vazia, ele concordou em lev-la at l, deixando a
recepo aos cuidados de um rapaz de bigode que estava de terno e falava num
telefone celular.
        Subiram, ento, ao segundo andar e dirigiram-se a uma porta que ficava no
fundo de um corredor comprido. O velho abriu a porta para ela entrar. Laila avistou
a TV num canto. E foi tudo que seus olhos registraram ali.
        Ligou a TV e o videocassete. Ps a fita no aparelho e apertou o boto. Por
alguns momentos, a tela ficou vazia e Laila se perguntou por que Jalil se daria o
trabalho de mandar uma fita em branco para Mariam. De repente, porm, comeou a
tocar uma msica e foram surgindo imagens na tela da TV.
        Com as sobrancelhas franzidas, Laila ficou olhando as cenas por um ou dois
minutos. Depois, apertou o boto "stop", adiantou a fita e voltou a acionar o boto
"play". Era o mesmo filme.
        O velho recepcionista a fitava, espantado.
        O filme que estava passando era Pinquio, de Walt Disney. Para Laila, aquilo
no fazia o menor sentido.
        Pouco depois das seis da tarde, Tariq e as crianas chegaram. Aziza veio
correndo lhe mostrar o que o pai tinha lhe dado: uns brincos de prata com uma
borboleta esmaltada. Zalmai estava agarrado com um golfinho inflvel que soltava
uns guinchos quando algum apertava o seu focinho.
        -- Como  que voc esta? -- perguntou Tariq, passando o brao pelos seus
ombros.
        -- Tudo bem -- respondeu ela. -- Mais tarde eu lhe conto como foi. Foram comer
num restaurante de kebab perto do hotel. Era um lugar pequeno, enfumaado e
barulhento, com toalhas de vinil meio pegajosas. Mas o carneiro estava macio e
suculento, e o po, bem quentinho. Depois, foram dar uma volta. Num quiosque de
beira de rua, Tariq comprou sorvete de gua-de-rosas para as crianas. Sentaram-se,
ento, num banco, e, as suas costas, a silhueta das montanhas se destacava contra o
cu vermelho do anoitecer. Estava quente e o cheiro dos cedros se espalhava pelo
ar.
        Assim que voltou para o quarto, depois de ver aquela fita de vdeo, Laila
tinha aberto o envelope. Era uma carta escrita a caneta azul numa folha amarelada
de papel pautado.
        13 de maio de 1987.
        Minha querida Mariam,
        Peo a Deus que esta carta v encontr-la com sade.
        Como sabe, estive em Cabul no ms passado para v-la. S que voc no quis
me receber. Fiquei desapontado, mas no a culpo por isso. Em seu lugar, talvez
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tivesse feito a mesma coisa. H muito, perdi o privilgio de suas boas graas e sou
o nico culpado pelo que aconteceu. Mas se estiver lendo esta carta  porque leu a
que deixei na porta de sua casa. Leu essa primeira carta e veio procurar o mul
Faizullah, como lhe pedi que fizesse. E fico muito grato por isso, Mariam jo. Fico
grato por essa oportunidade de lhe dizer umas poucas palavras.
       Por onde comear?
       Seu pai passou por momentos de muita dor desde que nos falamos pela ltima
vez, Mariam jo. Sua madrasta Afsoon morreu no primeiro dia do levante de 1979.
Nesse mesmo dia, uma bala perdida matou sua irm, Niloufar. Ainda posso ver a minha
menininha plantando bananeira para impressionar as visitas. Seu irmo Farhad foi
combater no jihad em 1980 e os soviticos o mataram em 1982, nos arredores de
Helmand. Nunca pude ver o corpo dele. No sei se voc tem filhos, Mariam jo, mas,
se tiver, peo que Deus os proteja e que voc seja poupada da dor que conheci. At
hoje, sonho com eles, com os meus filhos que morreram.
       Tambm sonho com voc, Mariam jo. E sinto a sua falta. Tenho saudade do som
de sua voz, do seu riso. Tenho saudade das vezes em que lia para voc, de quando
amos pescar juntos. Lembra das nossas pescarias? Voc sempre foi uma boa filha,
Mariam jo, e no posso me lembrar de voc sem sentir vergonha e remorso. Muito
remorso... Voc nem pode imaginar quanto... Eu me arrependo de no ter descido para
v-la naquele dia em que veio a Herat. Me arrependo de no ter aberto a porta para
voc entrar. Me arrependo de no ter tratado voc como minha filha, de ter deixado
que vivesse naquele lugar por tantos anos. Tudo isso por qu? For medo do que os
outros pudessem dizer? For medo de manchar o meu pretenso bom nome? Como tudo isso
parece insignificante depois de todas essas perdas, de todas as coisas terrveis
que presenciei durante essa maldita guerra! Agora, porm,  tarde demais. Talvez
este seja um castigo justo para aqueles que no tiveram corao: s compreender
isso quando no se pode mais voltar atrs. Agora, tudo que posso fazer  dizer que
voc foi uma boa filha, Mariam jo, e que nunca a mereci. Agora, s me resta lhe
pedir perdo. Pedir que me perdoe, Mariam jo. Que me perdoe.
       No sou mais aquele homem rico que voc conheceu. Os comunistas confiscaram
a maior parte das minhas terras e todas as minhas lojas tambm. Mas no posso me
queixar, pois Deus, por razes que no alcano, ainda me abenoou com muito mais do
que a maioria das pessoas tem. Quando voltei da viagem a Cabul, consegui vender o
que restava das minhas terras, junto com esta carta, est a sua parte da herana.
Como pode ver, no  nenhuma fortuna, mas  alguma coisa.  alguma coisa. (Como
tambm pode perceber, tomei a liberdade de trocar a quantia por dlares. Acho que 
mais garantido. S Deus sabe o destino reservado  nossa moeda, que j sofreu
tantos golpes.)
       Espero que no ache que estou tentando comprar o seu perdo. Espero que
saiba que tenho plena conscincia de que o seu perdo no pode ser comprado. Nunca
pde. Estou apenas lhe dando, embora com muito atraso, o que sempre foi seu por
direito. No fui um bom pai para voc em vida. Talvez possa vir a s-lo depois de
morto.
       Ah, a morte... No pretendo atorment-la com detalhes, mas a morte est bem
perto atualmente. Meu corao est fraco, segundo os mdicos.  uma morte bem
adequada para um homem que foi to fraco, creio eu.
       Sabe, Manam jo, ouso me permitir ter esperanas, esperanas de que, depois
de ler esta carta, voc seja mais benevolente comigo do que jamais fui com voc.
Que consiga encontrar compaixo em seu corao e venha ver seu pai. Que volte a
bater  minha porta e me d a chance de abri-la, desta vez, para receb-la e
abra-la, minha filha, como eu deveria ter feito tantos anos atrs. Bem sei que 
uma esperana to fraca quanto o meu corao. Mas vou ficar esperando. Vou ficar
atento a qualquer batida na porta. Vou continuar tendo esperanas.
       Que Deus lhe de uma vida longa e prspera, minha filha. Que Ele lhe de muita
sade e lindos filhos. Que voc possa encontrar a felicidade, a paz e a acolhida
que nunca lhe dei. Fique bem. Eu a entrego s mos amorosas de Deus.
       Seu pai, que no a merece,
       Jalil.

       Naquela noite, de volta ao quarto do hotel, depois que as crianas j tinham
brincado e ido dormir, Laila contou a Tariq a histria da carta. E lhe mostrou o
dinheiro que estava no saco de aniagem. Quando a moa comeou a chorar, ele a
beijou no rosto e a abraou.

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       Abril de 2003
       A SECA TINHA ACABADO. Nevou enfim, no inverno passado, e a neve pelas ruas
chegava  altura dos joelhos. Agora, vinha chovendo h dias. O rio Cabul voltou a
correr. Suas cheias de primavera levaram consigo a "Cidade Titanic".
       Atualmente, havia lama nas ruas. As pessoas escorregavam. Os carros
atolavam. As muls carregadas de mas iam se arrastando, fazendo respingar, com os
cascos, a gua barrenta das poas. Mas ningum se queixava da lama, ningum
lamentava o fim da "Cidade Titanic". "Cabul precisa voltar a ser verde!" era o que
todos diziam.
       Ainda ontem, Laila ficou vendo seus filhos brincarem na chuva, pulando de
uma poa a outra no quintal, sob um cu cor de chumbo. Ela os via pela janela da
cozinha da pequena casa de dois quartos que tinham alugado em Deh-Mazang. Havia um
p de rom no quintal e vrios arbustos de rosa mosqueta. Tariq tinha consertado as
paredes e construdo um escorregador e um balano para as crianas, alm de fazer
um cercadinho para a nova cabra de Zalmai. Laila ficou olhando a chuva escorrer
pela cabea do filho, que tinha pedido para raspar o cabelo, exatamente como Tariq,
que era agora quem rezava com ele as oraes do Babalu. E via a chuva alisar o
cabelo comprido de Aziza, transformando-o em mechas encharcadas que respingavam
gua em Zalmai quando a menina balanava a cabea.
       Zalmai estava com quase seis anos. Aziza tinha acabado de fazer dez. Para
comemorar seu aniversrio, na semana anterior, tinham ido ao cinema Park onde,
finalmente, estavam passando Titanic para os moradores da cidade.

       -- Andem, crianas, vamos nos atrasar -- gritou Laila, pondo o lanche dos
filhos num saquinho de papel.
       So oito horas da manh. Laila se levantou s cinco. Como de costume, Aziza
veio acord-la para as namaz da manh. Ela bem sabe que, para sua filha, as preces
so uma forma de lembrar Mariam, de continuar a manter viva aquela lembrana mesmo
que o tempo siga o seu curso e que acabe eliminando Mariam do jardim de sua
memria, como uma plantinha arrancada pela raiz.
       Depois das namaz, Laila voltou para a cama e ainda estava dormindo quando
Tariq saiu. Tinha uma vaga lembrana de um beijo no rosto. O rapaz tinha arranjado
emprego numa ONG francesa que tratava de fornecer prteses aos sobreviventes das
exploses de minas e a amputados em geral.
       Zalmai entra na cozinha, correndo atrs de Aziza.
       -- J pegaram os cadernos? Os lpis? Os livros?
       -- Esta tudo aqui -- diz Aziza, mostrando a sacola de papel. Mais uma vez,
Laila percebe que a gagueira da menina est desaparecendo.
       -- Ento, vamos.
       Laila deixa as crianas passarem e tranca a porta. Saem naquela manh fria.
No esta chovendo. O cu est azul e ela no v sinal de nuvens no horizonte. De
mos dadas, l se vo os trs para o ponto de nibus. As ruas j esto
movimentadas, repletas de riquixs, txis, caminhes da ONU, nibus, jipes da ISAF
que passam para um lado e para o outro. Comerciantes com cara de sono abrem as
portas das lojas que tinham ficado fechadas durante a noite. Vendedores esto
sentados por trs de pilhas de chicletes e maos de cigarros. As vivas j vieram
se instalar nas esquinas, pedindo esmolas aos passantes.
       Para Laila,  estranho estar de volta a Cabul. A cidade mudou. O que v,
agora, so pessoas plantando mudas de rvores, pintando casas velhas, carregando
tijolos para construir casas novas. Gente cavando bueiros e poos. No parapeito das
janelas, h flores plantadas em cpsulas vazias de velhos msseis dos mujahedins:
so as flores dos msseis, como dizem os kabulis. Dias atrs, Tariq os levou aos
Jardins de Babur, que esto sendo recuperados. Pela primeira vez, depois de tantos
anos, Laila ouviu msica pelas esquinas de Cabul, velhas canes de Ahmad Zahir ao
som de rubabs, tablas, dootars, harmnios e tambouras.
       Adoraria que seus pais estivessem vivos para ver essa transformao. Mas, a
redeno de Cabul chegou tarde demais, exatamente como a carta de Jalil.
       Os trs estavam parados junto ao meio-fio, esperando para atravessar a rua
quando, de repente, veio um Land Cruiser de vidros escuros a toda velocidade. O
carro desviou no ltimo instante, e, por muito pouco, no atropelou Laila. As
camisetas das crianas ficaram todas respingadas de uma gua cor de ch.
       A moa recuou, puxando os filhos para a calada, com o corao na garganta.
       O Land Cruiser seguiu a toda pela rua, buzinou duas vezes e dobrou 
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esquerda, cantando pneus.
       E ela ficou parada ali, tentando recuperar o flego, agarrando o pulso dos
filhos com toda fora.
       Aquilo a deixou arrasada. Era terrvel saber que os senhores da guerra
puderam voltar para Cabul. Que os assassinos de seus pais estavam morando em belas
casas com jardins murados, que haviam sido nomeados ministro disso ou vice-ministro
daquilo, que desfilavam impunemente em carres reluzentes e blindados pelas ruas
dos bairros que tinham destrudo. Aquilo a deixava arrasada.
       Laila decidiu, porm, que no se deixaria abater pelo ressentimento. Mariam
no gostaria de v-la agir assim. "Para qu?", indagaria ela, com aquele seu
sorriso a um s tempo ingnuo e cheio de sabedoria. "De que adianta ficar assim,
Laila 70?" Portanto, resolveu seguir tocando a vida. Faria isso por si mesma, por
Tariq e por seus filhos. E por Mariam, que continuava a visit-la em sonhos; que,
de certa forma, estava sempre ali, em tudo o que ela fizesse. E seguiu tocando a
vida. Porque, no fundo, sabia que era tudo o que podia fazer. Viver e ter
esperanas.
       Zaman est parado na linha de lance livre, com os joelhos flexionados,
fazendo quicar uma bola de basquete. D instrues a um grupo de meninos de
uniforme, sentados na quadra formando um semicrculo. Quando a v, pe a bola
debaixo do brao e acena para ela. Diz alguma coisa aos meninos que tambm acenam,
exclamando: "Salaam, moalim sahib!"
       Laila acena para eles, respondendo ao cumprimento.
       O ptio do orfanato tem, agora, uma fileira de mudas de macieira plantada
junto ao muro que d para o leste. Laila pretende plantar algumas tambm do lado
sul, assim que o muro tiver sido reconstrudo. H tambm um novo balano, um
trepa-trepa e outros brinquedos.
       Volta, ento, l para dentro, passando pela porta de tela.
       O prdio foi todo pintado, por dentro e por fora. Tariq e Zaman consertaram
todas as falhas do telhado, taparam os buracos das paredes, reinstalaram as
janelas, puseram tapetes nos cmodos onde as crianas dormiam e brincavam. No
ltimo inverno, Laila comprou algumas camas novas para os dormitrios, alm de
travesseiros e cobertores de l decentes. E mandou instalar aquecedores de ferro
fundido para os dias frios.
       No ms passado, o Anis, um dos jornais de Cabul, tinha publicado uma matria
sobre a reforma do orfanato. Tiraram at uma foto em que Zaman, Tariq, Laila e um
dos funcionrios apareciam de p, por detrs das crianas. Ao ver o artigo, Laila
lembrou de Giti e Hasina, suas amigas de infncia, dizendo: "Quando tivermos vinte
anos, Giti e eu j vamos ter parido uns quatro ou cinco filhos cada. Mas voc,
Laila, voc ainda vai nos deixar orgulhosssimas. Voc vai ser algum. Sei que,
algum dia, vou pegar um jornal e ver a sua foto na primeira pgina." A tal foto no
saiu na primeira pgina, mas, de qualquer forma, aconteceu o que Hasina havia
previsto.
       Laila seguia, agora, pelo mesmo corredor onde, dois anos antes, ela e Mariam
tinham entregado Aziza a Zaman. Ainda se lembra muito bem daquela cena. Tiveram que
fazer com que a menina soltasse a sua mo a fora. Depois, ela saiu correndo pelo
corredor, se segurando para no gritar, e Mariam vindo ao seu encalo, chamando por
ela. Lembra dos gritos de Aziza, em pnico. Atualmente, porm, as paredes do
corredor esto recobertas de psteres: so dinossauros, personagens de desenhos
animados, os Budas de Bamiyan, trabalhos feitos pelas prprias crianas nas aulas
de arte. Muitos desses desenhos representam tanques destruindo casebres, homens
brandindo fuzis AK-47, barracas em campos de refugiados, cenas de guerra.
       Ao dobrar uma quina do corredor, v as crianas esperando na porta da sala
de aula.  recebida pelas echarpes, pelas cabeas raspadas cobertas com barretes,
por aquelas figuras midas e magrinhas, por sua beleza triste.
       Assim que as crianas a vem, correm ao seu encontro. De repente, Laila est
cercada. E um verdadeiro turbilho de gritinhos estridentes, vozes agudas,
tapinhas, mos que seguram, cutucam, apalpam, disputam a chance de subir em seu
colo. So mozinhas estendidas e tentativas de atrair sua ateno. Alguns a chamam
de me e Laila no os corrige.
       Hoje, no foi fcil acalmar as crianas, faz-las entrar em fila e ir para a
sala de aula.
       Tariq e Zaman construram essa sala, derrubando a parede que separava dois
quartos. O cho ainda est bem danificado, com lajotas faltando. Por enquanto, est
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coberto com uma lona, mas Tariq prometeu que, em breve, vai ladrilhar tudo e pr
uns tapetes ali.
        Pendurado acima da porta, h um quadro retangular, que Zaman lixou e pintou
de um branco reluzente. Nesse quadro, usando um pincel, ele escreveu quatro versos
de um poema que, como Laila bem sabe, so sua resposta queles que se queixam
dizendo que o auxlio financeiro prometido ao Afeganisto no veio, que a
reconstruo est lenta demais, que existe corrupo, que o Talib j se
reorganizou e est pronto a voltar para se vingar, que, mais uma vez, o mundo vai
esquecer o Afeganisto. Trata-se de um trecho de um ghazal de Hafez, o seu
favorito:
        Jos h de voltar a Cana, no se lamente,
        Cabanas vo se tornar jardins de rosas, no se lamente.
        Se as guas chegarem destruindo tudo que vive,
        No ser seu guia em meio  tempestade, no se lamente.
        Laila passa por debaixo desse quadro e entra na sala. As crianas j esto
se sentando, abrindo os cadernos, conversando umas com as outras. Aziza est
falando com uma menina da outra fila de carteiras. Um aviozinho de papel passa
voando e vem cair do outro lado. Algum o atira de volta.
        -- Abram o livro de farsi, crianas -- diz ela, pondo os prprios livros sobre
a mesa.
        Em meio ao rudo das pginas se virando, Laila se dirige a janela sem
cortinas. Dali, pode ver os meninos se enfileirando para praticar os lances livres.
Acima deles, l para os lados das montanhas, o sol est surgindo. E vem bater no
aro metlico da cesta de basquete, na corrente dos balanos, no apito pendurado ao
pescoo de Zaman, em seus novos culos sem lentes quebradas. Laila pe as mos
espalmadas nas vidraas aquecidas. Fecha os olhos. Deixa que o sol venha lhe bater
no rosto, nas plpebras, na testa.
        Logo que voltaram para Cabul, Laila se afligia por no saber onde os talibs
haviam enterrado Mariam. Gostaria de poder visitar sua sepultura, sentar ali ao
lado, deixar uma ou duas flores sobre a lpide. Agora, porm, sabe que isso no tem
a menor importncia. Mariam est sempre por perto. Est bem aqui, nessas paredes
que eles prprios pintaram, nas rvores que plantaram, nos cobertores que mantm as
crianas aquecidas, nos travesseiros, nos livros, nos lpis. Est no riso daquelas
crianas. Nos versculos que Aziza recita e nas oraes que murmura voltada para o
oeste. Mas e principalmente no corao de Laila que Mariam est presente; e ali que
ela brilha com toda a intensidade de mil sis.
        Percebe, ento, que algum est chamando o seu nome. Vira-se e,
instintivamente, inclina um pouco a cabea, erguendo um tantinho o ouvido bom. 
Aziza.
        -- Esta tudo bem, mammy?
        A sala esta em silncio. As crianas tm os olhos pregados nela.
        Laila ia responder, mas, de repente, se assusta. Baixa as mos, levando-as
ao ponto onde, segundos antes, sentiu como se uma onda a percorresse. Fica
esperando. Mas no percebe movimento algum.
        -- Mammy?
        -- Est, sim, querida -- diz Laila, sorrindo. -- Estou bem. Estou, sim. Muito
bem.
        Dirigindo-se a sua mesa, defronte dos alunos, lembra da brincadeira que
voltaram a fazer na vspera, enquanto jantavam. Aquilo estava se tornando um
verdadeiro ritual, desde que Laila tinha lhes dado a noticia. Passavam horas assim,
cada um defendendo a prpria escolha. Para Tariq, devia ser Mohammad. Zalmai, que
acabou de ver o vdeo do Super-Homem, no se conforma quando lhe dizem que um
menino afego no pode se chamar Clark. J Aziza vem lutando pela vitria de Aman.
E Laila prefere Omar.
        Mas a brincadeira s envolve nomes masculinos, porque, se for menina, Laila
j escolheu o nome que vai lhe dar.
       Posfcio
       H quase trs dcadas, a questo dos refugiados afegos vem sendo uma das
crises mais srias de todo o mundo. A guerra, a fome, a anarquia e a opresso tm
forado milhes de pessoas -- como Tariq e sua famlia, na histria -- a abandonarem
suas casas e fugirem do pas para se instalarem em regies vizinhas no Paquisto e
no Ir. No auge desse xodo, chegou a haver oito milhes de afegos vivendo no
exterior, como refugiados. Ainda hoje, h mais de dois milhes deles que continuam
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                     Khaled Hosseini, A Cidade do Sol(txt)(rev)
no Paquisto.
       No ano passado, tive o privilgio de trabalhar como enviado dos Estados
Unidos junto ao UNHCR, o Alto Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados,
uma das organizaes humanitrias mais importantes do mundo. A funo do UNHCR 
defender os direitos humanos mais elementares dos refugiados, prover ajuda
emergencial e auxili-los a refazer a vida em algum local onde estejam a salvo. O
UNHCR presta assistncia a mais de vinte milhes de pessoas espalhadas pelo
planeta, no apenas no Afeganisto, mas tambm na Colmbia, no Burundi, no Congo,
no Tchad e na regio de Darfur, no Sudo. Trabalhar com o UNHCR, ajudando
refugiados, foi uma das experincias mais significativas e gratificantes de minha
vida.
       Para colaborar com este rgo, ou simplesmente para conhecer melhor o seu
trabalho ou as dificuldades que enfrentam os refugiados em geral, visite o site:
www.UNrefugees.org.
       Obrigado,
       Khaled Hosseini
       31 de janeiro de 2007.
       Agradecimentos
       Antes de mais nada, alguns esclarecimentos. A aldeia de Gul Daman  um lugar
fictcio -- ao menos, que eu saiba. Quem conhece a cidade de Herat vai perceber que
tomei algumas liberdades ao descrever a geografia do local. Enfim, o ttulo
original deste romance foi extrado de um poema de Saeb-e-Tabrizi, poeta persa do
sculo XVII. Aqueles que conhecem o texto em farsi vo decerto notar que a traduo
do verso que contm o ttulo do romance no  literal. Mas  a traduo corrente,
de autoria de Josephine Davis, que acho belssima. E lhe sou muito grato por isso.
       Gostaria de agradecer a Qayoum Sarwar, Hekmat Sadat, Elyse Hathaway,
Rosemary Stasek, Lawrence Quill e Haleema Jazmin Quill pela ajuda e pelo apoio que
me deram.
       Agradeo especialmente a meu pai, baba, pela leitura do manuscrito, pelos
comentrios e, como sempre, por seu amor e seu apoio. E a minha me, cujo esprito
de abnegao e de bondade permeia essa histria. Voc est por trs de tudo isso,
me 70. Obrigado tambm a meus sogros por sua generosidade e por tantas gentilezas.
E toda a minha gratido a cada um dos membros da minha maravilhosa famlia.
       Gostaria de agradecer a minha agente, Elaine Koster, por no deixar de
acreditar nunca, a Jody Hotchkiss, a David Grossman, Helen Heller e a incansvel
Chandler Crawford. Agradeo muitssimo a cada um de vocs que trabalha na Riverhead
Books. Mas gostaria de agradecer especialmente a Susan Petersen Kennedy e a
Geoffrey Kloske por terem acreditado nessa histria. Meus melhores agradecimentos
tambm a Marilyn Ducksworth, Mih-Ho Cha, Catharine Lynch, Craig D. Burke, Leslie
Schwartz, Honi Werner e Wendy Pearl. Sou particularmente grato aos olhos afiados de
Tony Davis, que no deixa passar absolutamente nada, e, finalmente,  minha
talentosa editora, Sarah McGrath, por sua pacincia, sua perspiccia, seus
conselhos.
       Enfim, obrigado, Roya. Por ler e reler essa histria, por agentar minhas
pequenas crises de insegurana (e uma ou duas bem grandes), por nunca duvidar. Sem
voc, este livro no existiria. Amo voc.

http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource




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